Notas iniciais
TURN YOURSELF AROUND AND COME ON HOME! Hoje tem Matchbox e Los Hermanos, do ponto alto ao ponto mais baixo. Tem também revelações curiosas - ciuminhos fofos do Vinícius e aquele velho conflito dele com a senhora sua sogrinha, que de vez em quando o coloca frente a uns climões. E tem um lance perturbador para nossa Milena, que vai pedir dela uma grande e importante decisão. Um capítulo gostosinho e difícil, mas mega valioso para essa jornada. ALERTA DE GATILHO: envolve em parte uma crise de pânico e um pesadelo. Mas a Milena é forte, embora ela não veja isso nela. O mesmo para você também que lê e atravessa isso junto com ela ♥ Boa leitura!

Nos dois últimos dias em que abri os olhos de manhãzinha, ouvi alguma música amena perto de mim diretamente do autofalante do mp4. Quando desperto nesta manhã, no entanto, percebo que estou com os fones pequenos, um deles persiste metido na orelha, embora o volume esteja baixo para não afetar minha audição. Para mim, estar com os fones no mesmo lugar de quando fui dormir é um bom sinal. Quer dizer que não houve trovões depois que caí na cama, ou, se teve, não consegui ouvi-los.

Está tocando algo suave de que não tenho ideia e nem vontade de procurar. Porque, assim que me mexo, todos os meus músculos se mostram pesados e meu corpo, dolorido. Parece que fui atropelada e esqueceram de me socorrer. Caramba, é complicado até mover o braço de um lado para o outro e não sei se conseguirei me sentar.

Assim, estatelada fico na cama por um tempinho. Mas lembro de que isso foi por ter aprontado muito ontem. Muito mesmo. Fui avisada sobre esses efeitos e não só persisti nas minhas andanças, como inventei outras. Imagino como eu estaria se não tivesse tirado aquele cochilo dos justos na casa do vô Júlio. Não teria forças para mover o mundo.

Mas foi bom. Tudo o que fiz e porque fiz, tenho zero arrependimentos. Nem todas essas dores na minha carne me fariam mudar de ideia sobre o que fiz ou onde fui parar.

Até mesmo na rodoviária. No final das contas, o Silveira precisou mesmo voltar às pressas e conseguiu vaga no último ônibus do dia, às 23h15. Se não fosse minhas aventuranças de ir parar lá na sua hospedagem, não teria tido a oportunidade de vê-lo. Nem de receber seu mimo com um desenho da Hello Kitty.

A Iara depois me puxou pra dizer que lá na livraria ela o ajudou a escolher e decidiram por um estojo parecido com esse que ele me presenteou, e que era, inclusive, de outro desenho japonês, o conhecido Hantaro – de que não tenho apego, porém, é fofo também. Mas, de uma última hora, sem ela perceber, o Silveira trocou. Basicamente, minha amiga estava se desculpando por não ter visto o que ele fez, ou que figura animada escolheu para o presente.

Como eu disse ao Vinícius também, estava tudo certo, havia mesmo feito as pazes com a Hello Kitty. Afinal, não tinha sido ela que havia feito um desastre na minha vida. E agora não mais me suscitava coisas ruins. Aquele peso que tanto me consumiu pelos anos finalmente foi embora. E a Hello Kitty ali foi algo bem simbólico pra mim.

Vez que a fome me bate um tantinho, reúno as forças em mim para sair da cama quentinha a um novo dia nublado. Primeiro me sento ao meio, depois me arrasto para a beirada. Com bastante paciência, realizo meus exercícios no pé e só então me toco de verificar que horas são. Espio do reloginho, 8h41, já que não consigo localizar meu celular. Seria só para conferir as horas, pois acho que não conseguiria dar conta de tanta notificação depois da brilhante ideia da Iara.

Enquanto ajusto a tornozeleira ao pé, rio besta ao lembrar da doidice que foi, perante a árvore de Natal que segue na sala do vô Júlio. Como os alunos continuavam pedindo atualizações sobre Djane, mesmo após eu ter respondido algumas, a Iara disse que seria muito melhor se eles tivessem uma confirmação mais concreta sobre o estado de saúde de Djane. E aí disse que uma foto resolveria o caso. E dona Djane Menezes Garra nem chiou!

Isso foi logo após eu voltar para a sala com a sogrinha já refeita e mais do que interessada no grupo de alunos e nos milhões de comentários depois que eu respondi que se tratava dela sim, que fez checagem na emergência, não se machucou tanto e que estava sendo bem cuidada. Foi aí que a nossa pimentinha falou que as pessoas estavam pedindo de mim algo bem mais específico. Fiquei lá que nem uma boba tentando pensar em algo mais que poderia dizer. Quando Iara jogou a ideia da foto, me pareceu impossível demais para os padrões de Djane.

Mas as coisas mudam, não mudam?

Pois de um instante ao outro, Djane, que já tinha se livrado do lenço da cabeça, ajeitou os cabelos e se posicionou frente à árvore enfeitada, seguindo as orientações de Iara para a foto. Sim, ela pegou a câmera profissional para isso. Fiquei entre o choque e o maravilhamento, só apreciando. Isso até que Djane me puxou pra foto! E eu, claro, puxei o Vinícius pra dar conta da câmera, porque eu reboquei dona Iara pra fotografia também.

Foi só o tempo de a Iara pegar o arquivo da câmera e passar pro meu celular, para eu postar no grupo de alunos, que o Silveira já precisava sair para seguir viagem. Desde ali não vi mais nada do celular, vez que desliguei a internet e fui com a família me despedir desse visitante.

Só o Vinícius que às vezes queria espiar algumas coisas. Ora e outra, porque a sogrinha se refugiava das conversas para verificar as notificações do celular (afinal, ela também postou no perfil público dela), e ai o namorado vinha pro meu lado resmungar algo sobrecomo de repente Djane estava muito animada por conta da opinião dos alunos.

Nessa hora, o ônibus do Silveira até já havia chegado, mas como a empresa precisou fazer uma limpeza no veículo antes dos passageiros subirem, isso deu um tempinho a mais para os outros conversarem e o Vinícius implicar, quieto na dele.

Ao menos não fazia de maneira descarada pra Djane.

Numa dessas, de braços cruzados e cara indignada, até soltou:

- Pra você ver como as coisas mudam, Mi. Ano passado, se eu tivesse dito pra minha mãe que ela tava bonita, ela se emocionava toda, se derretia feito manteiga na frigideira. Agora se eu falo, não tem mais valor. E só porque uns aleatórios falaram que o cabelo rosa dela tá legal, ela tá aí, flutuando.

Eu nem quis rir, mas ri do ciuminho do Vini. Mas fui lá, colocar os pingos nos Is, com direito a me manter agarradinha ao seu dorso, com leves toques ao seu cabelo, tentando não fazer pouco do que ele sentia e também nada pouco do que Djane vivia.

- Nem tão aleatórios, né, Vini?

- Tu me entendeu.

- É, mas tu entendeu o significado disso pra Djane?

Meu Vini só me segurou pela cintura e virou o rosto pra não me encarar. Fui lá puxar aquela carinha dele de volta pra mim.

- Esses eram grandes conflitos que ela tinha, sabia? Faltas, na verdade. Antes, quando vocês dois não tinham se acertado, ela teria aceitado qualquer coisa de você, até desaforos, só porque se tratava de você.

Nesse ponto ele ficou quieto. De bico e cabeça baixa, mas quieto.

- E não é como se os alunos dela fossem importantes nessa mesma medida, é que ela vinha há muito tempo se ressentindo, porque Djane não era lá muito bem cotada pelos alunos. Isso até piorou quando ela passou aquele período te acompanhando no hospital, pela questão do acidente. E olha, aluno também é meio besta pra essas coisas, né? Coloca logo uma imagem terrível sobre os professores, que também são pessoas.

Dei uma divagada e voltei à questão central.

- Houve um tempo, Vini, que ninguém quis ser monitor dela. O Sávio foi o primeiro, ano passado.

Com essa, o que tinha de armado, foi desarmado nele.

- Dessa eu não sabia. Que já tinha ouvido falar sobre o Sávio ter sido o primeiro, isso ouvi, mas não... não tinha ligado esses outros pontos.

Aproveitei mais dessa sua sensibilização pra considerar outro ponto. Um mais crucial a ele.

- E se não fosse aquele evento acadêmico que nos aproximou, eu nem sei se teria te conhecido.

O Vinícius, por outro lado, respondeu de maneira geniosa, me fazendo rir de novo.

- Disso eu lembro. Que até brigaram por conta de você encontrar meu tio. E que tu tava com medo da minha mãe.

Eu também fui uma aluna meio besta, sabe? A ponto de ter medo dela. Nossa relação foi confusa por um tempo.

Mas o que o Vinícius completou depois, mostrou que esse ciúme todo era por outra coisa.

- Às vezes é como se eu não conhecesse a vida dela e não tivesse ideia de quem são essas pessoas que vocês falam. Quem são essas pessoas que ela vê quase todos os dias.

Isso ele já tinha abordado comigo em outras ocasiões e até mesmo com o Renato.

- A vida profissional tem dessas, né?

- É, acho que sim. Lembro também que você tinha – ou tem? – medo do diretor.

- É porque com o Fabiano é outro nível de medo. Mas ele confia em mim.

Até joguei os cabelos de lado para enfatizar.

- Tem como não confiar em tão nobre alma?

- Espero que não. Quer dizer, que sim. Tem que confiar sim. E sobre Djane valorizar o que você diz, ela ainda valoriza, tá? E muito. Às vezes só falta se derreter de emoção, “feito manteiga na frigideira”. Sou tes-te-mu-nha. A Glorinha também.

- Preciso conhecer essa Glorinha.

Nessa, cutuquei ele.

- E eu preciso conhecer o teu lado profissional. Tu já conhece boa parte do meu.

- Ué, tu já foi no meu trabalho.

- Só umas duas vezes e foi coisa mega rápida. Sem falar que antes tu tava em outra função.

Vinícius sorriu com essa, mas não exatamente por essa parte.

- Por isso que meu chefe quer te conhecer. Por conta de outra foto no meu monitor.

Pelo jeito, tem muita foto minha rodando pelos espaços, penso. Uma que gera inúmeras notificações e outra que gera muitas impressões e expectativas. Me remete aos meus planos de ter mais contato com o mundo do Vinícius – de sua faculdade e trabalho.

Coisas para explorar neste ano.

Com cuidado, levanto-me, também movida pela fome. Nisso meu irmão tem sua razão. Nem sempre tenho fome quando fico derrubada assim, mas, em toda e qualquer circunstância, preciso me manter bem alimentada. E bem descansada.

De pé, sinto que minha pisada está mais firme. Se me arrasto ou tropeço, é porque o corpo está só o pó da rabiola. Mas não é tanto assim conforme sigo para o banheiro. Não vejo ninguém pelo caminho e até estranho. Estranho mais ainda quando, terminando de escovar os dentes, ouço uma música vindo de fora... Acho que da sala.

Matchbox Twenty – Bright Lights


Pelo tom característico de certo artista e por ser uma música que o Vini me fez gamar não faz muito tempo, já desconfio que tem dedo seu nisso. Balanço a cabeça ao ritmo, me reavivando as energias enquanto termino as atividades matinais. A curiosidade, no entanto, me faz firmar logo mais passos para verificar o que esse bonitinho fazia.

Mal chego ao cômodo e confiro que tem um clipe do Matchbox rolando na televisão e que tem duas pessoinhas dançando juntas e divertidas. Mais precisamente minha mãe dançando com o Vinícius, os dois aos risos atrás do sofá, com o Vini a guiando nuns passos, tipo aquelas valsas livres. Nada como foi na outra noite, em que ele fez passos do N’sync. Eles não me veem e por isso aprecio ainda mais a cena.

Mas não resisto e canto no ponto alto da música (3:09), porque é instigante assim. É justo um clipe com uma versão ao vivo que levanta até defunto. No caso, eu.

Turn yourself around and come on home!

E ainda sigo com uns maybe, maybe, baby, baby fingindo que tô tocando o solo de guitarra, balançando a cabeça, toda envolvida. Até bato o pé ao chão, como sei que o guitarrista faz. Com animação sim, com força não.

Ao finalizar a música e eu abrir os olhos novamente, estão os dois bonitos bem-dispostos me assistindo. Coloco as mãos na cintura, espirituosa e palhaça toda.

— Sabe, as pessoas normais dizem “bom dia”.

— Bom dia, filhota.

Aceno para minha mãe com a cabeça, aceitando seu beijo ao ar. O Vinícius, por outro lado, detém um sorriso enorme. Desses bem firmes e entusiasmados. Ele dá a volta no sofá para vir até mim e, simples assim, me beija com paixão. Tá, não um beijo alucinado ou descabido, mas um beijão sim. E na frente da minha mãe. Sim, o Vinícius. No processo, só ouço dona Helena falar que é hora de ela ir ver algo na cozinha.

Me espanta é que o Murilo não tá aqui reclamando quaisquer direitos ou termos. Talvez esteja descansando. Ou tomando banho. Ou... sei lá. Não é hora de pensar no meu irmão enquanto sou presenteada com um bom dia envolvente desses.

Assim que o Vinícius finaliza com curtos selinhos e sinto novamente seu sorriso à minha boca, pergunto de onde vem essa energia repentina toda.

— Alguém tá alegrinho demais nessa manhã. O que rolou que eu não vi?

— Tava apresentando o Matchbox pra sua mãe. Ela quis saber o que eu havia ganhado de presente. O seu presente de Natal. E eu disse que ganhei uma volta ao passado, pois alguém aqui... andava fuçando as bandas que me acompanharam pela vida.

Ele tenta me fazer cócegas, mas desvio a tempo.

— E contei que esse dvd foi o meu preferido por um bom tempo, mas que precisei vender por conta de uma situação. Nessa parte não entrei em muitos detalhes, claro.

Com o olhar semicerrado de sabedorias, ele complementa:

— Foquei no fato curioso de que, sem mesmo combinar, a gente se deu presentes de nostalgia. O papo, na verdade, começou por conta do box de Dawson’s Creek.

Sorrio porque não era bem isso que eu esperava saber, mas gosto de saber disso também. E já que está tão leve e solto, aproveito para ir mais a fundo nessa história.

— E a dança, como começou a dança?

Me retendo aos seus braços, Vinícius faz uma carinha engraçada de quem tá pensando em como descrever.

— Olha... foi da maneira mais natural possível. Ela ficou balançando a cabeça assim, acompanhando o ritmo, e depois tava mexendo o corpo, assim.

Comprimindo um sorriso, ele até demonstra um pouco de como foi e me dá a mão. Ou melhor, me pede a mão para conceder uma dança para a música Push ao vivo, que continua no Youtube da televisão.

— Daí só adicionei eu na equação. Levantou bem minha moral.

Concedo a mão e nós simulamos uma dança meio desengonçada, mas divertida.

— Pelo jeito, levantou até defunto, pois foi assim que acordei, toda atropelada. Mas a música... ela me reanimou. Inclusive, me trouxe lembranças de certo fim de semana comemorativo, justo um em que você me falou... sobre seu passado musical.

Com uma expressão mais charmosa e sugestiva, ele cerra um tanto os olhos de novo e demonstra que sabe bem de que dia me refiro – o dia que passamos a noite na pousada comemorando nosso aniversário de um ano de namoro.

— É, também tive lembranças desse dia.

Bom, é o Vinícius. A memória dele é melhor do que a minha em inúmeros níveis.

Mas gargalho porque seu porte sedutor na minha sala me é uma grande surpresa no momento. Ainda mais que se mantém perto, colado em mim até.

Eu, que nada boba sou, pergunto na lata, claro.

— E não ficou todo encabuladinho ou vermelho diante da minha mãe? Que milaaaaaaaagre foi esse?

Ainda dançando na sala, dessa vez de maneira mais coordenada – apesar de ser só a gente balançando de um lado ao outro sem sair do lugar e com Unwell ao fundo da conversa, ele solta... informações. Como pequenas divagações, bem pensativo sobre elas, a ponto de seus olhos ficarem um tanto distantes em volta de algo.

— Digamos que tivemos conversas... Você resgatou a atenção da minha mãe e a sua me resgatou de certas coisas, eu acho. Que não preciso ficar receoso quando envolve situações de intimidade. Porque somos um casal e não estou roubando a inocência de ninguém. Pelo contrário, parece que isso tem nos dado mais confiança.

Essa última soa e aparenta como uma epifania repentina. Mas então ele me encara e nota minha expressão de quem não tá entendendo bem a ligação dos fatos. Dessa vez ele nos para e segura as minhas mãos ao lado do corpo.

Do modo que articula, Vinícius escolhe as palavras e seus significados.

— É só que... teve uma época – um bom tempo, na verdade – que a sua mãe parecia me tratar diferente... quando me via muito próximo de você.

Ele basicamente me confessa a chave da questão e o que faço?

— Eu sabiiiia que tinha alguma coisa, sabiiiia! Olha, se eu tivesse apostado...!

Tá, eu sou uma boba que não quer largar o osso – ou a razão.

Envolvendo-me o dorso, Vinícius me revela mais coisas.

— Só não queria criar conflitos entre vocês... E é a sua mãe, né? Ela tem o direito de achar coisas.

Cutuco ele com o dedo indicador ao seu peitoral, sendo mais séria.

— Mas não o de te desagradar.

Ele segura minha mão atravessada entre nós e me detalha as circunstâncias.

— Nesse ponto até que ela não chegou não. Era mais de... de ficar distante de repente. Às vezes não me olhar ou não me corresponder em algo. Parecia que estava chateada, não sei. Mas nunca me maltratou.

Com o mesmo dedo que lhe cutuquei, mexo-o no ar com ousadia e certa zanga.

— Pro bem dela, ainda bem que não.

Me colocar nessa posição de defesa dele em oposição à minha mãe faz com que o Vinícius me observe de uma maneira envaidecida. Quer dizer, é como se ele ficasse entre as duas situações – orgulhoso de mim por defendê-lo tão ferrenhamente e conflituoso por também ser defensor de minha mãe. Por fim, de sorriso maroto, ele ajusta uma mecha minha que caía ao rosto, todo convencido.

Mas então minha mãe solta um aviso da porta da cozinha:

— Já tá quase pronto, Milena!

— O que tá quase pronto?

Desvio do Vinícius apenas para dar uma atenção a ela nesse quesito, embora mamãe pareça estar de olho em algo do lado de lá.

— Seu sanduíche, oras. Mas o café já tá na mesa.

— Poderia adicionar um ovo pra mim? Acordei com uma fominha a mais.

Demonstrando satisfação, ela anuncia, voltando-se para a geladeira:

— Saindo um ovo nesse sanduíche!

De volta à rota com o Vinícius, ele me fita de maneira curiosa.

— O quê? O que tem minha fome?

— É bom te ver disposta depois de tudo.

As pessoas têm me falado bastante isso e acho que é um bom sinal. Principalmente por não só impressionar aos outros, mas a mim mesma também.

Porém, eu e minha boca grande lançamos um jato de autodepreciação, bem consciente do que tamo dizendo.

— Disposta só na cara, porque a sensação é de que entrei numa briga de rua e não me deixaram bater de volta. Mas não é nada fora do esperado pro que aprontei ontem.

Risonho, Vinícius me acarinha o rosto.

— E aprontou meeesmo. Com planos, desvios e mais uma foto na árvore de Natal.

O cheiro do café alcança minhas narinas e, para completar, ouço o chiado do ovo sendo frito na frigideira. Isso desperta mais de minha fome, porém, não deixo o detalhe master dessa conversa passar. Torno a usar meu indicador para apontar dessa vez pra ele.

— Isso da foto a gente revê depois, bonitinho. Não foge do assunto não.

Eu quem cerro os olhos pra ele, embora Vini se mostre realmente perdido nessa.

— Que assunto?

Toda metida e interesseira, resgato o tópico:

— Esse que fez tu mudar com a minha mãe. Ou minha mãe que mudou. Tá, quem mudou o quê? Porque coisas definitivamente mudaram. Nem há um dia atrás tu me beijaria como me beijou ainda pouco na frente da minha mãe.

Vinícius sorri diante de minha divagação e da observação acentuada.

— Como eu disse, a gente conversou... Ela me disse que tem reparado mais na nossa relação e no nosso... hmmmm... equilíbrio. Acho que foi essa a palavra que ela usou. Na verdade, ela tava me agradecendo. Por todo o cuidado e carinho que tenho com você. Também pelo respeito em relação aos trovões e a questão... do sono.

É, ele é esse atencioso para situações delicadas. Nisso meu Vini de fato tá de parabéns. Não sei o que seria de mim sem meu agente especial me compreendendo, me ouvindo, me dando espaço, me abraçando e me reafirmando coisas boas, confiante e tudo mais. Confiante por mim e por ele mesmo.

— E aí ontem a gente conversou de novo, lá na rodoviária... Quer dizer, ela só me deu um toque rápido. Falou que agora entende melhor o porquê de muita coisa em relação a você... do que eu e o Murilo... como a gente tem se articulado. Ela vê que é algo verdadeiro. Que sou bom pra você. Que tudo que eu quero é você. Que tudo relacionado a você me interessa.

Essa clássica declaração desliza com toda a formosura dele, me lembrando de tempos mais simples e doidos na mesma medida. Mas gosto do quentinho que me traz ouvir essas palavras dele, de como me remete à loucura e à calmaria de descobrir que era correspondida nos meus sentimentos. E essas exatas palavras foi o que arrebatou, desde lá atrás, meu coração.

— E aí ela contou o que guardava consigo, de ter demorado a aceitar nossa relação. Não que me desaprovasse ou que não nos quisesse juntos, mas que esse sentimento... era por conta de como ela via você. Pela dificuldade de reconhecer... que agora você tem uma vida completa... e uma relação completa.

Isso ecoa dentro de mim. Uma vida completa e uma relação completa.

— Nessa hora, não é nem que me bateu insegurança. Só me confirmou algo que eu já suspeitava. Disso, de que ela me tratava diferente quando envolvia algum tipo de intimidade nossa e eu ficava... ficava me sentindo estranho. Como se eu estivesse fazendo algo errado ou sendo desrespeitoso, mesmo sabendo que não era. Ficava retraído, sei lá. Às vezes, envergonhado mesmo, porque pra mim tinha pisado na bola e não dava tempo de consertar... e aí que sua mãe mudava comigo.

Era bem isso que eu flagrava mesmo, o Vini encabulado, de repente acanhado, sem saber como agir.

— Você disse essas coisas pra ela?

— Disse. Então fizemos um acordo de eu não mais me retrair e ela não mais me afastar. E eu não mais evitar situações de intimidade com ela por perto, nem ter vergonha de ficar junto de você ou de te beijar ou mesmo de te abraçar. Ainda mais quando tu faz essas caras muito beijáveis, como a de agora.

Quase gargalho com essa se não fosse o cheirinho de ovo se espalhando pela casa.

— Eu quero muito te beijar nesse segundo, mas...

— Mas...?!

Detenho o sorriso novamente ao ver seu rosto descrente por haver um fator impeditivo. Com uma promessa, desvio dele para seguir para a cozinha.

— Mas eu tô com fome, então segura esse argumento por uns minutinhos.

Volto-me apenas para jogar um beijinho ao ar e, tá, dessa vez não consigo não rir da cara que ele faz por eu ter o deixado para trás.

O que uma fome faz com a gente, né? A fome.

~;~


Fico tão orgulhosa de meu Vini e de minha mãe que, enquanto tomo meu café da manhã e papeio com os dois, me esqueço até de certa criaturinha.

— E o Murilo, hein? Não vem tomar café não? Ou já tomou?

Na mesa da cozinha, mamãe para de ajustar a capinha do seu tablet e olha para o Vinícius sem entender. Sendo que quem não entende mesmo sou eu.

— O Murilo já saiu, Lena.

Viro a cabeça pro lado do Vinícius, perdidinha.

— Saiu? Pra onde?

Mamãe que responde essa, como quem entrega devagar algo e averigua o resultado.

— Pro trabalho.

Paraliso um instantinho processando a informação.

Até porque ouvi passos de gente no quarto do Murilo ainda pouco.

— Que dia é hoje?

— Hoje é 2 de janeiro, querida. Quarta-feira, lembra?

Não lembro de dias da semana, datas ou o calendário. Lembro é do Murilo ontem e de como tava sendo cauteloso. Ele, afinal, também tava cansado. Mal chegamos da aventura estendida da vez e logo a criatura tombou no colchonete – isso porque, por conta dos trovões, meu irmão permanece dormindo de forma provisória no meu quarto. Mamãe também. Por isso também que não tenho tido tantos momentos sozinha com o Vinícius.

Mas pelo jeito não é mais feriado e o ano realmente começou.

Isso, no entanto, não explica os passos que ouvi.

Olho para o corredor, com esse vinco no cérebro.

— Mas quando eu fui no banheiro, ouvi uns barulhos vindo do quarto do Murilo. Passos e barulhos.

Mamãe deixa o tablet sobre a mesa para me dar mais atenção nessa.

— É a dona Bia fazendo limpeza lá.

Tá, isso explica. As pessoas estão retornando ao trabalho. Vou ter que retornar semana que vem também, com ou sem tornozeleira. E logo mamãe voltará ao seu.

Porém, isso não explica é o Vinícius na minha casa. Por isso viro novamente para ele, dando a entender para onde meu pensamento está indo.

— Se ele foi trabalhar... então você...

— Eu troquei o dia com um colega.

Termino o último gole de café.

— Sabe que não devia, Vini.

Ele, no entanto, dá de ombros, bem calmo. Ainda estava conferindo alguns comentários dos alunos sobre sua mãe no meu celular. Era sobre isso que conversávamos até que perguntei do Murilo de repente. Mas vez que sua resposta não parece me convencer, Vinícius solta o celular na mesa para explicar melhor.

— Não tem problema mesmo, porque eu tinha uns créditos com o cara. Já quebrei muito galho dele. Agora é ele que tá me cobrindo.

A sensaçãozinha incômoda ainda me pega, no entanto.

— É, mas não quero atrapalhar teu trabalho.

Assim que solto essa palavra – “atrapalhar” – parece que ela dança na minha boca enquanto seu sentido é... sentido. Quer dizer, percebido. Percebido sobre o quanto é descabido frente ao que as pessoas têm me dito. Um pensamento estapafúrdio. Certo?

Caridoso que é, Vinícius só afasta meus cabelos do ombro e descansa a mão no meu braço.

— Não tá atrapalhando, amor.

É um esforço por algo bom, disse a Iara no outro dia quanto à minha concepção sobre estar atrapalhando pessoas e as pessoas na verdade estarem se esforçando em fazer algo para me deixar confortável.

Eles todos estão fazendo escolhas e escolhendo o meu bem-estar.

Ofertas gentis para se aceitar. Certo?

Lembro de ter pensado assim não faz muito tempo, principalmente pelo cuidado e atenção deles de ir nos detalhes. Nos meus detalhes.E eles têm ido justo no centro da questão. Isso eles têm feito mesmo.

Fito aquele restinho comum de café que fica na xícara e lembro de considerar deixar as coisas irem. Aquilo de não me exigir,nem me recriminare aceitar bem os agrados e mimos todos. Aceitar e aproveitar. Certo?

Porque doses de amor têm sempre que vir primeiro.

Assim, fecho os olhos para aceitar isso dentro de mim.

Mas antes que eu os abra, um estrondo enorme toma a casa, a rua, o bairro. Um trovão imenso que parece cortar o mundo em dois e me faz apertar os olhos com tudo, me comprimindo o peito e roubando-me o ar. Me seguro à mesa em busca de uma segurança mínima, como se fosse cair do assento até. Logo águas me preenchem e seguro a vontade de chorar. Ao redor, Vinícius e mamãe falam algo que não compreendo.

Só sei que, de algum modo, eles me levantam da cadeira.

Por uma fresta de visão borrada que tenho, que me volto para o teto, sinto aquela angústia se espalhar pelo corpo de forma silenciosa e afrontosa. Pouco dou conta da profusão de coisas que sinto, mas ao menos consigo sentir o que fazem comigo e deixo que façam. Vinícius me segura pela mão, cruza firme os dedos nos meus e me leva por algum caminho.

Noto que mamãe some por um instante e trombamos com ela na porta do meu quarto, onde, de pronto, ela coloca o fone grande na minha cabeça. Os dois ajustam o acessório nas minhas orelhas e logo estou de volta à cama, à beirada dela. Mamãe diz coisas que não ouço por conta do fone. Diz como afirmações a mim e a ela enquanto prepara travesseiros e almofadas ao espaldar da cama. Puxo o fone só um pouquinho para poder ouvir, porque fico incomodada de ficar “tampada”.

— Você consegue, filha. Vai passar por mais essa.

— V-vou?

Mamãe se volta para mim de repente e confirma.

— Vamos!

Ela mesma reajusta o fone na minha cabeça antes de retomar o que estava fazendo, dessa vez mais criteriosa e mais focada. Me distancio disso para me abraçar os ombros, como fiz ontem no carro. Me volto para mim e meus tremores apenas. Solto o ar devagar pela boca e não importo em chorar dessa vez. Não tranco mais isso em mim. Deixo que as águas transbordem ao rosto.

É quando mamãe me puxa para eu me encostar aos travesseiros no fundo da cama que o Vinícius retorna ao quarto. Ele toma o cuidado de fechar a porta. Como minha mãe, ele se senta ao meu lado, de modo que fico bem no meio dos dois, e eles me seguram as mãos. Vini também conecta o fone ao mp4, vez que até então o fone só tava me tampando do mundo exterior. Logo uma música qualquer e desconhecida começa e isso ajuda. Vinícius aumenta o volume devagar e eu sinalizo quando tá no ponto.

É só no refrão que percebo ser a música Sentimental, dos Los Hermanos. Meio etérea, meio longínqua e que me dá um fôlego diferente. Respeita minha confusão de sensações sendo liberadas. Melhora mais quando volto a fechar os olhos. Em dado momento, até solto a mão do Vini para deixar sobre a minha barriga, para sincronizar pensamento, música e respiração. Me manter assim, e no breu de meus olhos, acaba ajudando mais ainda a me concentrar.

A música acaba sendo uma daquelas que o Luke deixou inteira. Na sequência, vem Sinceramente, do Cachorro Grande. Me mexo só para pegar o aparelho do mp4 e baixar um pouco o volume. Percebo que dessa vez foi só um trecho, pois logo surge o refrão de Só Hoje, do Jota Quest, que se emenda o início de Aonde Quer Que Eu Vá, do Paralamas do Sucesso. Essa parece se alinhar melhor e nela me derramo.

Por mais que a aflição me cubra por toda, vejo que não tô e não me sinto agitada. Assim, apenas deixo que vaze. Que flua. Que vá. Assim como o ar que libero pela boca trêmula. É como fazer uma limpeza e a parte ruim a gente deixa ir. Assopra até.

Me parece bem com aquilo que o Murilo andava me falando nos últimos dias, sobre não lutar contra. Não evitar a sensação ruim. Que não evitar diminui o sufocamento. Diminui a intensidade. Que esse é movimento certo de se fazer frente à crise. E não deixar de respeitar esse movimento. Porque quando se vai contra... dá errado. Dá muito errado.

Seria essa a tal forma de aceitar o problema?

Palavras... apenas palavras... pequenas... Com Palavras Ao Vento, da Cássia Eller, as coisas parecem se amainar mais. O cansaço é tanto que, mesmo após uma xícara de café, meus olhos pesam e eu me recosto ao ombro de mamãe. Acho que durmo.


~;~


Uma luz amarela é ligada e passa por de baixo da porta. Intuo que é o Filipe no banheiro novamente. No entanto, enxergo uma silhueta sentada perto das cortinas, que me arrepia toda pelos braços por tê-la percebido ali. Mexia-se, mas, ao mesmo tempo, mantinha-se concentrada em alguma coisa manual. Como que puxando algo com a mão, não sei.

Não parece meu irmão, mas arrisco perguntar.

— Murilo?

A pessoa pausa o que fazia e vejo seu corpo sombreado se voltar para mim.

— Ele deu uma saída, me deixou aqui.

Me espanto, pois, pela voz, é o Aguinaldo.

— Acho que ele foi procurar a chave do armário. Ele já volta.

Levanto mais a cabeça do travesseiro, me sentindo bastante desnorteada. Mesmo à baixa iluminação do quarto, percebo que a silhueta torna a fazer o que fazia, acho que puxar uma corda ou faixa de pano, não sei.

— Cadê o Vini?

Ele se vira para mim de uma maneira bem esquisita.

— Que Vini?

Pisco os olhos, sem saber como responder.

— O Vinícius. C-cadê... Cadê o Vinícius?

A silhueta então responde:

— Quem é Vinícius?

Volto a mim de repente, sob uma lufada de ar, com meus dedos todos da mão direita formigando e o coração quase a saltar pela boca. Seguro-o ao peito para me confirmar que tô de volta ao mundo. Desço o fone pro pescoço também, por sentir a cabeça pressionada.

Meu estado arfante, junto da autoconsciência, me deixa meio indignada. Porque, que merda de mecanismo de defesa, viu? Tinha que me assustar logo com uma imagem macabra do Gui. Encaro o teto do quarto e depois me fecho ao breu dos olhos para estabilizar. Levo um tempinho assim, também mexendo e esticando os dedos da mão em formigamento para fazer a corrente sanguínea normalizar seus caminhos.

Tô tão na minha que quando uma voz surge de repente, quase salto de novo.

— Ei.

Me retenho em autoproteção. Até porque o meu quarto está um tanto escurinho do tempo fechado. A pessoa que aparece se aproxima mais e meu coração badala loucamente de novo.

— Ei, sou eu, o Murilo.

Vejo mais ou menos que é meu irmão, mas fico desconfiada se é ou não minha realidade. Porque ele parece diferente, não sei. Me sinto confusa.

Lanço uma questão mais confusa ainda para tentar identificar a realidade.

— Tu... achou... a... chave?

Ele parece me observar um tanto. Então assente devagar.

— É, achei.

— E o Vini? Cadê?

— O Vini já volta.

Passo a mão na cara, perturbada com isso.

— Ele volta mesmo? Ele... sequer existe nesse plano?

Antes que o outro me responda algo, uma segunda presença abre a porta devagar.

— O almoço já tá na mesa.

A pessoa que se diz meu irmão aponta para a segunda.

— Viu só, é o Vini. Ele voltou.

A segunda pessoa adentra o quarto e, mesmo à pouca luz, mostra que tem os traços do Vinícius e tá com a roupa anterior do Vinícius, o tênis, a bermuda, a camiseta, tudo nas mesmas cores de antes. Isso que me alivia de verdade, a ponto de eu tombar ao colchão e firmar uma de minhas mãos à cabeça.

Isso, no entanto, parece preocupar os outros, pois ouço eles conversando baixo, provavelmente para se certificar do meu estado.

— Tá sentindo algo, mana?

Me detenho outra vez, pois, pelo que sei, foi assim que o Aguinaldo, ou a Flávia... Foi assim que arrancaram respostas de mim. Nesse tipo de linguagem e abordagem. As águas voltam a encher meus olhos e carregar meu peito.

Um deles se senta perto na cama e pelo jeito que se move e o perfume que sinto, acho que é o Vini.

— Lena?

Vez que não respondo, ele remove a mão que eu mantinha ao rosto.

— O que houve?

— Eu n-não sei... não sei se eu tô na minha realidade... ou na da minha cabeça.

Quando me abraça, agradeço internamente por ele ter quebrado uns galhos no serviço e ter escolhido ficar comigo hoje.


~;~


— Mas é certo levar ela assim? Confusa assim?

— Eu não sei mais se é certo ou errado, mãe. Mas que tá diferente, tá diferente. Eu também não sei o que pensar. Só sei que tô aqui com três terapeutas no bolso, já tenho os endereços e algum deles a gente pode tentar. A gente tem que tentar. Pra ao menos ela poder descansar.

O celular do meu irmão toca e a questão fica pela metade, interrompida.

Ouvia a conversa dele com mamãe nem tanto por querer, é porque não tenho como mudar de lugar de novo. O cansaço que me abate me limita até nisso. Sequer mudo de posição. Permaneço abraçada a uma almofada qualquer do sofá e nem ligo para o jornal que passa num volume baixo da televisão. Acho também que os dois se encontram tão alvoroçados que nem notam que dá para ouvir o que dizem da cozinha.

Quando o Vinícius volta do banheiro, nem força há em mim para comentar sobre a conversa. Só deixo que fique perto, mas logo ele se levanta de novo e, pela percepção periférica, entendo que ele vai para a cozinha.

Sem demora, os três retornam à sala. Tenso e preocupado, meu irmão se agacha para emparelhar o rosto ao meu. Com um carinho ao meu cabelo, ele começa.

— O que acha de irmos visitar a terapeuta hoje? Hein? Agora de tarde. Assim você conversa... alivia o peso... e não precisa esperar um dia mais. Hein, pequena? O que me diz?

Abaixo os olhos do contato que fazíamos.

— Tô bem dolorida para me mexer.

Mamãe, inquieta, coloca a mão sobre o ombro dele.

— Viu, filho, eu disse que...

— Espera, mãe. Deixa que eu termine.

Me volto a meu irmão e seu esforço de fazer isso por mim.

— É uma tentativa, só isso. Não é um termo, tá? Você pode fazer as coisas devagar e a gente te ajuda, claro. Marco para o meio da tarde se preciso.

Seria agora que eu iria para a terapia? Aperto mais a almofada ao braço, pois ainda pouco meu irmão disse que meu comportamento de hoje foi estranho. Diferente.

Mas que tá diferente, tá diferente.

Vez que não respondo, ele complementa:

— Quero muito que tenha um momento de paz hoje, pequena. E acho que esse passo seria essencial.

Não sei se a paz é possível, pois só tem uma coisa que consigo pensar no momento: o que será que tem a minha cabeça?

Murilo continua em sua tentativa, sentido, porém focado.

— Lembra que é sobre chegar com o peso do mundo e sair leve como uma pluma. A tua preocupação vai ser só de sentar no carro e depois sentar no sofá de lá. Não vai fazer nada mais do que isso. E vamos estar com você na ida e na volta.

Eles todos estão fazendo escolhas e escolhendo o meu bem-estar.

— Onde é?

Murilo desvia o olhar só para poder lembrar bem os lugares.

— Tem... errr... Tem uma numa casa perto do Sávio... Outra numa casa perto do antigo apartamento do Filipe... E uma num prédio depois do centro meteorológico. Todas estão abertas para hoje, eu conferi. Na verdade, teve umas com desistências e abriu vaga, foi isso.

— É caro?

— Tem uma que atende teu plano de saúde, já as outras são particulares. Mas não é um valor alto e podemos pagar. Só escolhe o lugar que mais parece razoável pra ti.

De primeira, fico tentada a falar o local depois do centro meteorológico só para ficar perto para ele e não atrapalhar ele, mas volto atrás nesse pensamento pelo papo que tive com o Vinícius mais cedo. Também pelo fato de que essa área é famosa por ser de pessoas mais abastadas. Ou seja, poderia vir a ser bem caro, mesmo para uma tentativa só.

Diante das minhas considerações em silêncio, meu irmão, agitado, detém-se a deixar tudo às claras pra mim, para me convencer desse experimento.

— A gente leva o mp4, os fones, o que você precisar.

Mas ainda me sinto insegura, de um modo que nem sei explicar.

— Não sei, Murilo.

Sua ansiedade fica evidente quando não hesita em dizer:

— Q-qual a sua dúvida?

Penso em como estive no seu lugar ainda ontem, tentando o convencer de algo, usando todos os argumentos possíveis. Que foi assim que fechei um acordo. E que agora parece uma montanha intransponível diante do meu cansaço.

Vez que não digo nada, o Murilo ia emendar mais alguma coisa, porém o Vinícius, mais ao lado, o interrompe dessa vez.

— Vamos... Vamos dar um tempo para ela pensar, né, Murilo?

— Ah, é. Certo... Um tempo.

Com uma lufada frustrada, meu irmão se levanta e sai andando, nervoso. Ver ele assim me dói mais do que o atropelo que senti essa manhã. Mais do que os tijolos que meus braços viraram depois da crise. Eu sei que ele está tentando. Tentando um pouco além da conta, talvez, mas tentando. Porque se trata de mim.

Um pouco na dúvida sobre o que fazer, se fica, se vai, mamãe sai atrás do Murilo. No sofá, o Vini me abraça de lado e me beija o rosto. Seu toque me é um grande suporte, por isso me deixo cair ao seu ombro. Aos seus braços, me sinto cuidada e também dividida. Sei lá, só não imaginava que seria assim, marcar uma consulta, sessão, uma tentativa... o que seja, de última hora.

Ao mesmo tempo, eu vinha esperando tanto por isso. Quando enfim decidi fazer terapia, veio o período de feriado. Com o fim de ano, vieram as chuvas, os trovões, as crises. Ainda estou em crise. Cometi umas loucuras mesmo em crise por conta de outras pessoas e para outras pessoas... e agora estou aqui... duvidando, hesitando de fazer por mim mesma. Estou quase fazendo pelo Murilo, não por mim mesma.

Ontem, enquanto seguíamos andando pela rodoviária até o ponto de embarque do Silveira, tivemos um pequeno momento sobre como me portei o dia inteiro e como passei pela situação de crise.

- Viu que eu nem precisei fazer exercícios de respiração na hora de ir pra casa da Flávia?

- Vi. E sabe o porquê disso?

Eu estava sendo vaidosa, porém, quando me perguntou isso, neguei com a cabeça, sem resposta.

- Porque não basta regular a entrada de ar, tem que trabalhar a mente. Com a mente em ordem, o restante fica... lidável.

- A Tatiana te ensinou mesmo essas coisas?

- A Tamara e a Katiana. Sim, elas ensinaram.

Então nos voltamos para o grupo, porque houve uma risada generalizada e não retomamos mais no assunto.

Sentindo a respiração do Vinícius, de como seu tórax sobe e desce quase colado ao meu, desejo isso. Desejo esse repouso de que tanto é falado e de que tanto faço pelos outros. Acho que é hora de fazer por mim de verdade. Ir com tudo, sem pensar, por mim. Com plástico filme no pé se necessário. Pelo meu alívio.

Vai. Você tem que ir. Você precisa ir. Pro seu bem.

Que é basicamente...

— O que a Milena diria.

Balbucio essa baixinho para mim, mas o Vini reage, nos afastando um pouco, para poder nivelar sua cabeça à minha.

— O que disse?

— Eu vou. Pode confirmar que eu vou. Na da moça que fica perto da casa do Sávio.

Os olhos do Vinícius brilham e mesmo assim ele pergunta:

— Tem certeza? Porque a gente pode tentar qualquer outro dia.

— Não, hoje é o dia. Eu tava esperando esse dia. Eu vou.

Notas finais
PRECIOSO contar com essas criaturinhas, PRECIOSO ♡ TrechinhoS do próximo? "Mas tem uma vida me esperando do outro lado. Vida, pessoas, respostas. Ou só alívio. Plumas. Vou entregar tijolos e receber plumas." e "Será que ela vai ser paciente comigo?" e "- O que foi isso? Foi hipnose?" e "- Agora você me abriu um muuuuuuuuundo de possibilidades, Vinícius." e "Como meu acordo com a Iara, eu falo pra ela, ela fala pra mim, e ele fala também. Precisamos de pessoas reconhecendo esses passos para podermos visualizar com mais nitidez quando nos falta essa sensatez. Precisamos de gente para reafirmar isso." Volto já!