Notas iniciais
Quando eu digo que tem MUITO capítulo pra revisar, é pq tem MUITO capítulo mesmo e o que tem de capítulo gigante eu não consigo nem dizer! O de hoje é nessa linha, todo recheadinho de coisa boa. De drama também. Aliás, esse caiu PERFEITAMENTE PRA MIM, que tava precisando (re)ler e (re)lembrar COISAS, e minhas criaturinhas preferidas desse universo fizeram isso muito bem. Nos últimos meses tô lidando com um problemão na vida pessoal (que também mexe com a saúde) e por isso acabo escrevendo bastante, mergulhando nessa história e revisando pouco. O bom é que tem sempre um capítulo mara à vista! (meus trechinhos favoritos vou deixar no final) AH! Uma das pessoinhas que me fez LEMBRAR DE VIR AQUI foi o Sávio, pq o ator que tenho em mente para ele vai estrear numa nova série e TÔ DOIDA pra vê-lo na telinha! A série é Suits L.A. e o ator - que tbm é cantor e tá no Spotify! - é o Bryan Greenberg ❤ BOA LEITURA! P.S.: Tem cena sobre crise de pânico no início, depois são apenas conversas mais amenas, ao estilo calmaria após a tempestade (o que pra Milena é bem literal). Se isso é um gatilho pra você, pode fazer a leitura dinâmica sem problema, que depois vem o abracito ♡

Você está segura. Fez algo incrível hoje. E vai fazer outra coisa incrível.

Aperto os olhos e seguro firme os fones grandes nos ouvidos. Solto o ar devagar pela boca. Pois. Eu. Não vou. Me arrepender. De minha decisão.

— Eu sei que era isssso... que tu temia, mas e-eu... eu dou conta.

Digo, um tanto aturdida, mas concentrada em mim, no estremecimento que sinto, e em como posso bloquear minha atenção direta dos efeitos dos trovões que nos pegaram no meio do caminho.

— Não precisa dar conta, é isso que eu tô dizendo! Vou parar o carro!

Apesar de ouvir longe a voz do Murilo, abafado pelo fone, sei que está gritando, nervoso. No que grito de volta, é só porque quero que me ouça, e não tenho como dosar o volume da minha própria voz, ainda mais pelo som da chuva quicando ao teto do veículo.

— Não! Continua!

Murilo está tão agitado no volante que ele não sabe se olha pra trás, pra frente, pro lado ou sei lá mais pra onde. No banco de trás com mamãe, fico abaixada, próxima das minhas pernas, com ela me cobrindo toda como se pudesse me proteger da chuva e dos trovões. Que, graças, vieram no nível leve a moderado. Mesmo assim, arrisco esticar um braço e sair do seu casulo para apertar o ombro do Murilo, para que prossiga.

Quando saímos da casa da Flávia e o tempo estava bem mais aberto, de pouco chuvisco (embora um tanto nublado), eu consultei o Murilo sobre estender o passeio e ir visitar seu Júlio. Meu irmão não achou tão boa ideia assim, visto que passei por uma situação intensa demais desde a hora que acordei e venho enfrentando muita coisa nos últimos dias. Mas eu tava numa adrenalina, acho, depois de sair tão mais leve.

Além disso, por um acaso não tão acaso, estava com o vestido azul com bege (link)(provavelmente porque catei o primeiro que vi no guarda-roupa), logo o vestido polêmico do dia anterior, que a Iara disse para eu usar quando estivesse bem melhor e fosse visitá-la. Dentro da minha cabeça, a soma dos fatores deu algo positivo. Senti que daria para esticar mais esse passo. Estava até com o plástico filme intacto no pé.

Só que o Murilo resistiu durante o caminho, de modo que ficou que iríamos pra casa mesmo e por um tempo assim seguimos de volta. Com as músicas tocando no carro direto do pen-drive, eu acabei divagando um pouco, mais quieta, observando como era a avenida em dia de feriado. Vazia, calma, quase serena, bem distante da loucura comum do dia a dia, do período de aulas e comércios. Repensei no quanto meu irmão teria de razão, que não era para eu insistir, nem me cansar mais do que o necessário. Haveria outros dias para isso. E se era um passe em branco, o trato era não questionar.

Acabei nem participando tanto assim da conversa no caminho. Não estava triste, nem... distante. Só estava apreciando esse desafio que cumpri, me reconectando a mim mesma de um modo diferente. Se o Murilo interpretou de outra maneira, eu não sei dizer. Só sei que assim que meu mano passou por determinado sinal e não entrou no nosso bairro, eu olhei diretamente para ele através do retrovisor. Murilo olhou de volta e fez um sinal de tudo bem, meneando a cabeça.

Agora eu também não quero que se arrependa desse feito.

Mas meu irmão segue sem ação, ou talvez em ação demais, mal dando conta do volante do que posso ver. Além disso, já estávamos bem mais perto da casa da I do que da nossa casa. Levaria muito mais tempo e eu ficaria muito mais... exposta. Era preciso seguir em frente.

Novamente aperto o ombro do Murilo, do que eu posso alcançar.

— Sssegue! Segue em frente!

Mamãe intervém:

— Pode seguir, Murilo. A gente sabe mais ou menos o que fazer. Né, meu bem?

Eu aperto o play no mp4 sem muito olhar e alguma música que não conheço, mas calma, ressoa devagar. Tento aumentar o volume, mas não acerto o botão, já que o aparelho tá dentro da bolsa, que tá por debaixo da capa de chuva, e tô pouco me movimentando, para não ter o impulso de me debater.

Murilo fala alguma coisa e eu não consigo ouvir, somente mamãe o orientando de novo.

— Se concentra no que você tá fazendo, que a gente faz a mesma coisa aqui.

Fecho os olhos de novo e seguro o fone nas orelhas, as mãos de cada lado, e outro trecho, outra música se inicia, algo suave, algo conhecido de que não tenho ideia do nome.

Melanie C – Nothern Star

Nisso, mamãe me posiciona, me faz levar o tronco para trás, encostando no banco. Logo ela remove minhas mãos do acessório fônico e as redistribui. Uma vai na minha na barriga e outra abaixo do pescoço. Ela se mantém próxima, segurando minhas mãos assim. Mantendo os olhos fechados, sigo o ritmo da respiração, sem puxar ar demais e sem, consequentemente, arfar. A música de fato ajuda.

Permaneço assim por um tempo, a ponto de prestar atenção na melodia e na letra. Algo sobre o oceano. Sobre aprender. Sobre estrelas. Sobre o coração e alguma relação que suscita questionamentos. Sonhos e controle. Feelings come, feelings go (sentimentos vêm, sentimentos vão). Lições. Não olhe para trás. Live your life without regret (viva sua vida sem arrependimentos).

— I, abre o portão pra mim!

Abro os olhos e encaro o que é o temporal quase levando a gente, com pingões no para-brisa, que o limpador pouco segura, e água, muita água ao nosso redor, cercados também de um pouco de neblina. Seguro a mão de mamãe na mesma hora. Com a seta piscando, o carro está parado para entrar na rua da casa do seu Júlio e o Murilo fala de novo no telefone.

— Não faz alarde, tá? Ela não quer atenção. Tem gente na sala? Beleza. Me espera na varanda.

Ele desliga e joga o celular de qualquer jeito no banco do passageiro, avaliando como entrar, já que dois carros passam devagar por nós, dividindo a rua transversal em que nos encontramos. Assim que somem, Murilo faz a manobra.

— Aguenta firme, mana, tamo chegando.

De fato, em segundos estamos passando pelo portão da casa. Como na casa da Flávia, ele estaciona o mais próximo da entrada, quase passando por cima dos degraus que levam para a varanda. Quando desliga o carro que Murilo olha para trás para me checar. Estou um pouco assustada sim, mas acho que mais por ele do que por mim.

Mamãe ajeita o capuz da minha capa, assim como a própria capa. Acho que eles falam entre si, mas isso não consigo capturar. Até porque em instantes, Murilo sai debaixo de chuva e abre a porta traseira. Mamãe me ajuda a sair e novamente meu irmão me puxa pelos braços para me transportar. Só que ele tá tão alucinado que nem me coloca no chão nem mesmo ao chegar na porta da sala. Pelo contrário, urra agoniado.

— Porra, vou molhar a casa inteira.

Afasto o fone de uma orelha e movimento as pernas para me sair dele.

— Me põe no chão.

Mas Murilo não me solta, fica desorientado sobre o que fazer e o que tá fazendo. Eu que quase salto dele.

— Mu, me põe no chão.

Assim que atinjo a superfície, removo a capa e só assim ele também se mexe para retirar a sua. Foi tudo tão ligeiro que eu nem havia visto a Iara ainda, que logo pega as capas nossas e deixa na varanda, dobra elas numa cadeira. Aproveito para enxugar os pés num dos panos de chão da entrada.

Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa nessa agitação toda, Murilo de repente vem pro meu lado e ajusta o fone de ouvido grande nas minhas orelhas. Ele diz algo, porém, não compreendo de primeira, e logo intuo, pelo modo que me puxa para atravessar a casa, que se tratava de um novo trovão vindo.

Nessa rebuliço, só sei que vou parar no quarto da Iara, com o Murilo ainda mais nervoso. Detalhe: muito mais nervoso do que eu.

~;~

Sabe quando a adrenalina é tanta que não dá tempo nem de chorar?

Fico pensando nisso enquanto repuxo, com certo autocontrole, um pouco do plástico filme molhado no meu pé. Em algum ponto a sandália de dedo afetou o plástico, que encolheu e tava fazendo uma pressãozinha, dessas que aperta uma veia sanguínea. Só acomodo mesmo, estranhando o fato de estar... moderada. E eu nem chorei dessa vez. Pode ser também pelo fato de que não ouvi tanto assim os trovões, que foram bloqueados pelo fone de ouvido. Abafou um tudo na verdade.

O Murilo, no entanto, foi um fator preocupante. Ele alvoroçado como ficou mexeu mais comigo do que o próprio trovão, penso. Quase como minhas crises anteriores, em que eu desejei que acontecesse algo com ele para eu me preocupar e esquecer do restante.

Pelo jeito, aconteceu de verdade. Ele não tava bem. Ele me deixou aqui e me impediu de sair para fazer qualquer coisa mais, mesmo que para o próprio. Disse que ia ajeitar o carro e que não era para eu sair do quarto. Falou de maneira categórica e eu o atendi. Sentei na cama e me fechei na música que saía dos grandes fones aos meus ouvidos.

Fiquei assim por um tempo. Nem me liguei de estar sozinha, só me concentrei ao que tava no meu alcance de fazer. Como se isso fosse determinante para o Murilo ficar bem.

Pensamento errado o meu? Talvez. Só sei que funcionou. Pois logo estava bem para me mexer e os fones super bloquearam qualquer som. Com o passar dos minutos, e por como senti o plástico me afetar, que me soltei mais.

Ao escurinho do quarto, a porta se abre com certa iluminação. Revela nela um Murilo inibido, testando território, constrangido até, de vistas baixas. Pelo que fala, puxo os fones para o pescoço, pois não o ouço, e me volto para ele.

— Como tá se sentindo?

Encaro meu irmão que parece estar pior do que eu. Isso parece o constranger ainda mais, porém, ele adentra e fecha a porta do quarto. No que se move, faz do modo mais lento e pesado possível, carregando algo dentro de si. Culpa, eu posso apostar.

Ao se sentar na outra extremidade da cama, ele pergunta de novo.

— Como tá se sentindo?

Não quero se sinta mais pra baixo do que está, então falo da sensação mais doida que me acometeu quando viemos para cá. Soo como quem divaga.

— Meio Britney, acho.

Essa resposta ao menos dá um efeito interessante, vez que faz com ele me encare de forma menos penosa, embora confusa.

— Refugiada, fugindo das vistas das pessoas... e dos paparazzi.

O suspiro que ele dá com isso é extremamente audível.

— Eu devia ter ido pra casa, teria sido mais seguro.

Ele pelo menos se entrega logo. Mas eu não articulo bem meu pensamento, não do jeito que deveria entregar de cara.

— Não posso ficar me prendendo assim, Murilo. Tenho lugares para ir. Trabalho e faculdade, você sabe. Não posso sempre viver refugiada. Ou escondida.

— Eu sei.

Com cautela, reordeno mais isso na minha cabeça e no que falo a ele.

— O que eu tô dizendo é que você não tem culpa disso... de a chuva e os trovões... de terem nos pegado no meio do caminho. Você não tem culpa. Poderia acontecer a qualquer hora, em qualquer outra situação. Você não tem culpa se eu me coloquei na situação.

Meu mano assente, encurvado, de voz pesada.

— Eu sei.

— Mas sente? Culpa?

— Sim.

Ele é sincero e isso é algo bom, certo?

Me levanto para encurtar o espaço entre nós. Mas então a vergonha o toma e ele espalma a mão ao ar para que eu não me aproxime.

— Não precisa, Lena. É você quem tem que descansar. Eu me viro.

Revido com o que ele mesmo me disse no carro. Só que sem agitação nenhuma me tomando a cabeça. Pelo contrário, quero mais é cuidar dessa criatura que tá contrita e pesarosa. Assim, me expresso da maneira mais razoável possível.

— Não quero que se vire, Murilo. Quero que fique aqui, admitindo isso... sentindo isso... até que se dissipe. Pode ser? Eu tô bem. Eu divido meus pontos contigo.

O fato de a voz dele vir segurando a postura embargada diz muito.

— Você quer mesmo me fazer sentir bem com isso.

— Não quer o mesmo pra mim?

— S-sim.

Sento ao seu lado.

— Então pronto.

Deixo ele quieto por um momento, enquanto eu também maquino isso dentro de mim. Quer dizer, tenho que ser pra mim essa pessoa? E desse jeito, quase mandona? Uma pessoa que se desvia das defesas machucadas para se colocar nos eixos como colocaria o outro? Talvez.

Mas o método do Murilo para corresponder a crises ainda é bem efetivo. Pois me vejo sendo a pessoa de papo aleatório para que ele não se sinta mais comprimido do que já está.

— Papai me chamou de estrela ontem.

Vez que o quarto está escuro pelo aspecto nublado do tempo e pelas cortinas acobertando a janela da Iara, mal posso ver ele por completo, mesmo estando bem do meu lado. Uso isso de uma maneira que ele não precise se sentir tão exposto.

— Naquela hora... no carro... Quando eu coloquei o fone, tava tocando Nothern Star, da Mel C. Das Spice Girls. O que é uma música nada a ver e eu nem lembrava o nome, fui ver ainda pouco buscando a letra no Google... Só sei que eu me apeguei a ela, Murilo.

Certa de sua atenção, foco numa luzinha de algum aparelho da Iara carregando mais à frente, na parede do quarto, e sigo no que quero lhe dizer.

— Tô falando que eu consegui viver o momento... o momento do trovão... o momento ruim... consegui viver o momento ruim com essa música, como uma trilha de guia. Pra me manter bem. E só pra você saber, antes, eu não tava triste não... Não fiquei triste por você ter dito que iríamos pra casa. Na verdade, eu só tava pensativa. Pensando sobre... sobre como me movi essa manhã quando li o e-mail da Flávia e em como em pouco tempo eu fui parar na casa dela. Sabe? Como fui... assertiva. Determinada. Por causa dela, do que ela tava passando. Que isso me deu foco. E eu quero saber fazer isso por mim. Tipo, eu agir a favor de mim.

Uno as mãos ao colo, outra vez reflexiva sobre isso. Só que de um modo falante.

— Na verdade, eu venho pensando sobre esse agir faz uns dias. Acho que desde aquele papo em que você me avisou sobre os trovões de virada. Que eu tinha que tomar decisões. E aí depois mamãe me falou umas coisas... Porque quando se trata do outro, eu apenas faço, e faço sem hesitar. Mas quando se trata de mim... quando é comigo, eu hesito. Eu não faço. E eu não sei dizer se alguém faz isso. Nem sei dizer se isso faz sentido.

— Parece que eu tô me ouvindo na terapia.

O tom leve dele me ameniza mais.

— Sério? Os papos são assim?

Sinto que ele se move, de modo a se virar para mim, mas como tô revelando uma confidência um tanto delicada, permaneço do modo que estou.

— Algumas vezes sim. Conforme, claro, a gente se permite falar. Vejo o sentido da terapia nessa parte. Porque... também é sobre assumir o que sente. E como são nossas dúvidas. Os caminhos de pensamento mesmo. E sim, acho que tem pessoas que se acolhem.

Essa palavra, “acolher”, me chama atenção, mas não o interrompo.

— Eu também tô reconhecendo isso. E reconhecendo que não foi uma experiência tão ruim essa do carro. Aquela resiliência que te falei... também é assim. Ela parece abarcar muita coisa e no começo é confuso mesmo. A gente vai encontrando o sentido dela mais na hora da prática... de reconhecer as coisas. Exercendo esse não julgamento, observando como a gente reage... como reage aos conflitos internos. Acho ótimo que tenha visto isso sobre si mesma, Lena.

Me viro de repente.

— Acha mesmo?

— Só totalmente?

Vez que Murilo se mostra mais solto, menos acanhado, tento avaliar o que diz.

— Algumas coisas, mana, parece que só tem valor se validado pelo outro, e não... não é assim que é pra funcionar. É bom a gente validar primeiro. E é bom a gente cuidar de si primeiro. Não falo de vitaminas ou sobre se alimentar bem, falo de fazer coisas legais pra si mesmo. Um elogio, um selo de aprovação, um reconhecimento. Apreciar de verdade uma vitória, de algo que se fez. Saber que foi muito, que fez muito... Que merece um agrado de si para si mesmo.

— Por isso falou sobre eu apreciar meu feito, de atravessar a tempestade?

— Sim. Coisas assim... são pra serem apreciadas... admiradas... ter um instante de saber que foi algo grande e importante. Julgadas com essa régua. Uma régua bondosa, gentil. Tô falando essas coisas pra ti aqui, mas acho que tô falando mais pra mim.

Menos sisudo, meu irmão ri um riso meio sem graça, porém, razoável. Mas isso que ele fala... me desperta sobre isso de falar as coisas aos outros.

— Caramba, eu tive um momento desses... lá com a Flávia. Justamente quando eu ameacei ela por não se achar merecedora ou importante pra eu fazer todo esse arranjo de plástico no pé e... e eu disse que ia dar com a chinela na cabeça dela se falasse aquilo de novo. Só que me deu vontade de fazer essa ameaça pra mim também, entende? Ser ágil assim... pra mim.

— Acho que não tem nada mais a tua cara do que fazer uma ameaça desse tipo.

— O Vini me contou de uma ameaça que Djane fez pra ele, por conta de ele ficar na porta da nossa casa cedo demais, e aí ele disse que lembrou de mim.

— Coisas que tu diria, né?

— É... coisas que eu diria... para outras pessoas. Que quero poder dizer pra mim mesma. Mamãe também tava me falando sobre isso... Me instigando a dizer essas coisas.

— Acho que ouvi uma dessas... quando a gente tava se preparando pro primeiro dia dos trovões. “O que a Milena diria”, né?

— Isso. Quando ela lança essa, eu não sei o que dizer... As coisas me fogem completamente da cabeça.

— Hum. E se adicionar o fator agravante?

— Como assim?

— O fator que faz tu te mexer. O que a Milena diria se... se Djane quisesse se esconder... porque deu algo errado no salão? O que a Milena diria... se o Vinícius desse um passa fora no Renato a essa altura do campeonato? O que a Milena diria... se ele de fato implicasse com o vestido ousado de ontem da Iara? Sabe? O que a Milena diria pro Murilo... se ele sentisse culpa, achando que não tá fazendo o suficiente, ou que tá fazendo muito errado?

O quanto brota de água nos meus olhos em segundos eu não sei. Sei, no entanto, a resposta para essas perguntas. Aliás, é minha vez de falar de voz emocionada.

— A Milena diria... que ele tá fazendo pra caramba... e que tá tentando fazer dar certo. Que ele precisa parar um pouquinho até, pra não pifar de novo. A Milena também diria.., que não é da conta do Vinícius o que a I veste ou deixa de vestir. E que não tem voz no relacionamento da mãe. E que Djane ficou ainda mais maravilhosa de cabelo rosa. Que na verdade, deu foi uma levantada na moral dela. Acho que ela não ficou muito interessada quando eu falei isso. Mas acho que ela tem o tempo dela... e o direito de ter a opinião dela.

Murilo me segura o joelho.

— O que a Milena diria pra Milena... que foi chamada de estrela?

Sorrio com essa.

— Diria pra aceitar o elogio e sorrir, tal qual os pinguins de Madagascar. Mas essa foi papai mesmo que me falou – menos a partir dos pinguins. Na verdade, ele me desafiou a fazer isso. Aceitar, sorrir e agradecer.

Murilo sobrepõe sua mão à minha, na perna.

— O que a Milena diria... para a Milena... que teve crise no meio do caminho e teve que entrar refugiada na casa de outra pessoa, no quarto de outra pessoa?

Inspiro antes de responder, bem lúcida e convicta do que dizer.

— Diria que essa Milena foi corajosa. De se manter na situação e atravessar a parte difícil, apesar das circunstâncias. E que é incrível como os papos dela, que às vezes parecem bem bobos ou mesmo meio ralés, na verdade são boas reflexões. E que sempre ajudam. Essa Milena também tá fazendo muito. Essa Milena é uma estrela mesmo. Tem até fás!

Brinco ao final não para disfarçar ou amenizar o clima, mas sim por um novo nível de reconhecimento sobre isso. A mensagem realmente chega até mim. Chega ao outro e chega até mim. Fico maravilhada com isso e com o quanto esse pequeno exercício é fantástico e libertador. Um recurso inexplorado e inestimável.

Me lembra de certa forma da linguagem brincalhona em que os adultos fazem quando falam de si para os bebês, como o Murilo ou a Aline falam deles mesmos na terceira pessoa. Só que aqui não tem intermediário... ou sou eu a intermediária e a pessoa receptora ao mesmo tempo? Mas nada disso é zoeira. É um tratamento diferente, com uma linguagem mais zelosa, de como se conversa com uma pessoa querida. No caso, eu mesma sendo essa pessoa. E sendo uma querida com ela. Comigo.

Murilo dá uma batidinha na minha mão.

— Eu mesmo sou fã dessa Milena. Admiro pra caramba. E quando acho que não tem mais como ter orgulho dela, ela vai e me impressiona de novo.

Sorrio exultante com essa.

— Valeu por isso, maninho.

— Valeu por tudo isso, maninha. Acho que agora sim posso encarar as pessoas lá fora. Mas se você quiser ficar aqui, tudo bem.

Arrisco perguntar:

— Tu tava mesmo fugindo dos outros?

— Então... sim. Digamos que tenha tido uma pequena crise de ansiedade... ou pânico, não sei, afinal, às vezes são tão parecidos. Eu me fechei no banheiro e depois dei um tempo no escritório.

— Hum. Percebi que tu tava agitado demais. Acho que fiquei mais atenta em ti do que em mim. De certa forma, acho que me saí da minha crise por estar observando a tua. Mas teve o fone de ouvido que bloqueou e a música também rodando... Foi um combo de coisas.

— É, foi um combo de coisas. Tava difícil de sossegar. Achei mesmo que tava fazendo tudo errado. Voltei aqui pra ver como tu ficou, porque queria saber se tava mesmo pior do que eu imaginava. Não tava... e não tá. E você... Me acolheu. E se acolheu. Então não foi de todo ruim eu ter desviado o caminho de casa. Não foi de todo ruim ter saído de casa hoje. Não foi de todo ruim ter esse papo sincero.

— Isso é.

— Vou lá dizer aos outros que tá tudo bem. Ou quer ir junto?

— Acho que vou ficar um tempinho a mais aqui. Não quero exagerar. Não sei nem como minhas pernas ainda não falharam... Mas sinto que a cabeça tá mais ok, o corpo é que precisa de fibras, sei lá.

— Pego uma fruta pra você?

— Agora não, ainda tô cheia do mousse. Mas chama a I pra ficar aqui. Gosto de ficar quietinha com ela.

Murilo me dá um beijo de irmão, firme na cabeça, semelhante a beijo de pai. Quando ele se encaminha para a porta, tenho um certo lampejo e jogo a ideia ao ar:

— Ei, numa próxima vez... Na próxima vez que eu achar que não mereço uma coisa, diz que vai quebrar minha cabeça.

Murilo segura a porta, porém, não segura o riso.

— Tá, e como eu posso dizer isso... sem parecer violência doméstica? Alguém pode me denunciar.

— Eita, verdade. Então... Diz que vai dar com a almofada na minha cara. Eu vou entender o recado.

Meu irmão fica uns segundos pensativo. Então consulta:

— Tá me autorizando de verdade?

— Uhum. Um novo acordo e bem mais... saudável? Atualização da linguagem Lins.

~;~

— Posso entrar?

— Deve. Até porque o quarto é teu.

Repuxo outra vez o plástico do pé, só que dessa vez pra remover mesmo. Iara se aproxima devagar.

— Tá... tudo bem?

Retirado o arranjo, amasso e deixo ao pé da cama. Aproveito para poder me sentar melhor no colchão e então me deitar aos poucos, soltando os membros.

— Tá sim. Inclusive, não precisa de papel higiênico. Só prefiro descansar um pouquinho dos agitos. Agora que a adrenalina já baixou bastante, o cansaço tá me pegando. Mas nada fora do normal.

Ela me encara da porta, hesitando.

— De verdade?

— De verdade verdadeira. Tenho, aliás, algumas coisas pra te contar, mas primeiro... me recolher. E apreciar tua companhia.

Só assim Iara fecha a porta e se encaminha pro meu lado.

— Desse jeito fico vaidosa, viu?

— Acho que quero mais de ti vaidosa. E, se possível, adicionar um pedido de colinho?

Iara falta pular na cama. Logo está atrás de mim para oferecer as pernas.

— Parece bem mais tranquila, Mi. Serena mesmo.

Apenas o alívio após vomitadas – é o que quero dizer, mas no momento prefiro me deter à calmaria, tanto do meu corpo, como das minhas ideias. Assim, divago ao sentir seu leve toque aos meus cabelos.

— Não era bem essa a expectativa, né? Mas tive uns papos instigantes nesses últimos dois dias. Experiências... diferentes. Alguns desafios também. Tem sido muito e ao mesmo tempo necessário. Porque me aliviaram um tantão assim.

— Que bom, Mi. Depois quero saber tudo.

— Assim que eu tiver miiiinimamente inteira, solto tudo pra ti. Já adianto que tem coisas boas. Tem coisas chatas e coisas difíceis também, mas as coisas boas se sobressaem. E vou querer saber da festa.

Levanto a cabeça para trás, para enfatizar.

— Como você acaba de dizer, tem coisas boas e muito boas. Teve umas coisas difíceis, mas as boas se sobressaem.

Me aconchego a um de seus travesseirinhos de pescoço.

— Por enquanto vamos só de colinho mesmo. Esse não tá sendo um dia ruim, apesar de ter chegado do modo cheguei aqui. Tô aprendendo a focar na parte boa.

Vez que o quarto segue no escurinho, quando a luz do banheiro ao lado é ligada, ilumina parcialmente o ambiente.

— I, tenho uma pergunta.

— Diz aí.

— Por que tu não ficou com o outro quarto quando se mudou? Teria um banheiro só pra você.

— É, mas aquele é o quarto de hóspedes, né? Não seria legal fazer nossos hóspedes dividirem um banheiro com papai. Imagina.

De fato, seria estranho.

— Além disso, esse é o quarto de papai. O antigo dele, sabe? Esse onde ele tá era o do tio Gustavo. Ele preferiu assim. Eles dividiam o banheiro quando jovens.

— E agora vocês dividem um banheiro.

— Meio que temos dividido desde que passamos a morar junto? É bem melhor do que com a minha avó.

— Isso é.

A luz permanece e logo mais o chuveiro é ligado. Acaba que a curiosidade me incita a caminhar por essa relação e convivência deles. Curiosidade meio aleatória talvez, mas genuína mesmo.

— O Filipe estranha teus... itens... no banheiro? Itens de mulher.

— Se estranha, nunca disse.

Ela ri de um modo simples e gostoso. Leve.

— Mas desde o começo, tanto no apartamento daqui na capital, quanto no do interior, o meu pai deixava espaço pra mim. Havia sempre uma prateleira com uma portinha pra eu ter privacidade. Ele não sabe as marcas ou os produtos que eu uso e não precisa também. Acho que só o Sávio sabe... de algumas.

Levanto as sobrancelhas, olhando ela de cabeça pra baixo pra mim, risonha.

— Sabe?

— Tive um incidente na casa dele uma vez. Ele teve que ir comprar absorvente pra mim.

— Não me leva a mal, massss... Meu Deus, como eu gostaria de ter visto essa cena! O Murilo faltava me trucidar quando acontecia comigo.

Iara dá de ombros, achando uma graça. Acho que ela começou uma trança nos meus cabelos, que infelizmente não tem o perfil de segurar uma dessas, pois em dois segundos o cabelo mesmo se desamarra. Talvez a I não saiba disso, mas sei que também não se importaria de seu manejo desmanchar, afinal, o intuito aqui é completamente diferente.

— Com o Sávio foi bem tranquilo. Tipo, dei a imagem com as especificações e ele foi e comprou certinho.

Sem pensar muito, minha mente cria uma imagem paralela do Sávio dando a direção pro Murilo sobre como comprar absorventes. Não sei de verdade o quanto gostaria que isso fosse viável. Balanço a cabeça pra desfazer essa imaginação e foco em detonar o drama que meu irmão fazia.

— O Murilo sempre voltava com uma sacola cheia e nem sempre acertava. Mas teve uma vez que ele foi de madrugada, daí teve esse adendo.

Então Iara cria uma nova imagem mental. Quer dizer, solta umas premissas que dão o que pensar.

— Com a Aline, talvez ele se comporte diferente, já pensou? Além disso, ele tinha outra cabeça na época, né?

— De fato. Hoje em dia ele sabe maaaaaais ou menos as marcas. Só prefere não ter que saber os pormenores. Tipo, ele não entende o lance das abas, por exemplo. Mesmo passando na televisão. Mas se bem que agora ele troca fralda, né? Uma hora ele chega lá.

Rio besta pela evolução da criatura. Já a Iara quer saber de outra pessoa.

— E o Vini?

— Hmmm. Até então, esses detalhes não cruzaram com ele... Não virou um assunto ou uma situação. Só teeeeeeeve umas veeeeeeezes... que dei umas “estouradinhas”... porque tava com cólica ou desconforto, e aí ganhava chamego. E contigo? Tu e o Vini.

Iara ri um sorriso engenhoso, de quem tá imaginando isso. Acho.

— É, esses detalhes também não cruzaram com ele. Ainda. Mas acho que nesse ponto prefiro preservá-lo. Tenho o Sávio.

— E eu o Murilo.

Embora eu não saiba exatamente em que pé esse assunto está em relação ao meu irmão. Quer dizer, existe situações em que preservo minha privacidade e existe situações de desespero em que tenho de recorrer a ele. Então tenho que tomar essas decisões, né?

— Pra todo caso, deixo sempre umas reservas na prateleira do banheiro aí do corredor. Até mesmo pra não ter confusão ou briga por horários de uso do banheiro. De briga mesmo, acho que a gente tem é pela pasta de dente?

Iara lança essa de repente e fico mais intrigada. Essa parte de convivência mais íntima e caseira de Filipe é algo que mantenho distância, por respeito a sua privacidade. Mas se é a I que tá contando, não tem problema.

— Sério?

— Ele nem sempre usa a pasta até o final, sabe? Já quer colocar uma nova no lugar. Eu que fico danada com essas coisas e insisto em usar até a última pontinha de pasta. Vivo dizendo que isso é mania de rico.

Explodo em risadas e acho que risadas altas até demais.

— Nossa, isso explica MUITA COISA sobre as manias do Vinícius.

Afinal, eles viveram um tempo juntos e o Vini mesmo já contou que o pai, mesmo enquanto era reconhecido como tio, era estranho. Mas como sempre, ele pouco dava detalhes sobre isso.

— Siiiiiiiiiiiiiiim, e às vezes eu digo isso na cara do Vini também. Ele fica me olhando, sabe, com as vistas meio cerradas, de quem pensa em me matar. Mas falo mesmo e ainda falo com uma faca na mão.

Essa eu não só gargalho, como me reviro em risadas.

— Como... assim... f-faca... na mão?

— Ah, foi uma vez na cozinha. Ele querendo jogar fora o pote de manteiga com manteiga utilizável dentro. Acredita?

Me abano pra me recompor. Iara também me abana, aos risos.

Em mente, repasso algumas situações assim que tive com o Vini, porque é muito a cara dele fazer isso. Eu, por exemplo, costumo levar minha escova de dentes quando vou para sua casa, e ele sempre quer me dar uma nova. Ele sempre quer me dar algo novo em tudo. Ou quase tudo.

Nem vou falar da história do tênis novo dele, pois essa foi confidência.

— Caramba, e acho que nossa primeira briga foi por coisa boba de consumo.

A velha história dos CDs, os chicletes e uma barra de chocolate numa loja de conveniência, envolta de mistérios, planos e segredos.

— E é uma coisa recorrente também, sabe? Fico danada da vida quando ele faz parecer que é tão pouco. Tipo, não ter um uso ou um consumo consciente.

— Só resumiu eu e papai. Teve até uma das palestras lá da empresa, daquele tal Caio-em-cima-do-dinheiro, sobre criar esse tipo de consciência. E eu enchi muito o saco de papai com isso. Porque ele pode não só economizar, como otimizar os gastos.

Ela diz isso como uma sabedoria enorme, só que bem modesta.

Parece muito alguém que eu conheço: eu.

— Tu sabe mesmo como gerir uma empresa, né, I?

Iara dá de ombros, humilde, despretensiosa e uma pimentinha sagaz.

— Eu sei algumas coisas... E sei também onde apertar meu pai.

Rimos juntas novamente e eu abafo ao ouvirmos que o chuveiro foi desligado. Não muito tempo depois, a luz é desligada e voltamos ao escurinho de novo. Um climinha bem aconchegante que me pesa os olhos de repente.

— Precisa ir no banheiro? Agora tá liberado.

Cubro um bocejo.

— Não, não, tava só divagando mesmo, por curiosidade. E falando em curiosidade, tu sabe o que é o presente do Silveira? O Vini disse que tu tava com ele quando a compra foi feita.

— Eu não deveria contar, sabia?

— Mas... vai?

Quase faço um bico. Tá, eu faço sim.

— Só porque é tu. E dia de ano. E tu apareceu aqui com o vestido azul... Tá, é um item de papelaria, nada muito extravagante. Acho que tu vai gostar. Ele me deu uma pasta com zíper e um conjunto de canetinhas. Tem uma roxinha linda que nem dá coragem de usar! Pelo menos não nas aulas. Vou reservar essa pra agenda. Te mostro depois. Ficou lá no escritório. O daqui de casa, não no da empresa.

— Vou cobrar, viu?

Meus olhos pesam novamente, mas o fone ao redor do pescoço me incomoda. Sim, ainda não havia tirado de mim.

— I, se importa se eu deixar o som tocando? Tá baixinho. O fone tá machucando um pouco.

— De boas, pode deixar ligado.

— Acho que vou tirar um cochilo. Tá liberada do cafuné.

— Ligo o ar-condicionado?

— Não, o ventilador tá bem bom.

— Então vou ficar aqui com você. Tirar uma sonequinha a mais.

Logo ela se ajeita na própria cama para ficar emparelhada comigo, também deitada de ladinho, de frente pra mim. O mp4 fica tocando algo entre nós que já nem sei nomear, só produz um barulhinho agradável.

Já sem muito controle de minhas pálpebras, ainda consigo dizer:

— Preciso saber dos babados de ontem, mas... sono primeiro.

~;~

Acordo com um celular fazendo bzzzzzz do meu lado. Mal com um olho aberto, me viro pra pegar. Ao encarar a proteção de tela, sei que o aparelho não é meu e nem da Iara. Passo o dedo e entro direto na tela principal, vez que não tem senha. Sou presenteada com uma foto minha de fundo. Eu de olho fechado, rindo, colocando um enfeite na árvore de Natal do vô Júlio. Por estar com o celular quase colado na minha cara, logo sinto o perfume no dispositivo, o que confirma de vez que ele pertence ao Vinícius.

Piscando pro brilho da tela, encaro as horas: são 18h50. Processo também a informação de que o Vinícius esteve aqui. E que a Iara já levantou. Sonolenta, deixo o celular ao lado e volto a me aconchegar na cama. A chuva já deu uma boa diminuída, de modo que só ouço um pinga-pinga próximo. Quero me levantar, mas também quero dormir. Pode isso, sociedade?

— Oi. Posso entrar?

— Pelo visto já entrou?

Balanço o celular dele ao ar.

— Tava procurando esse bendito faz uns minutos. Quer uma fruta?

Abafo um bocejo para fazer uma pergunta:

— Ordens do Murilo?

Vinícius me encara um pouco perdido na soleira da porta, iluminado apenas pelas luzes do lado de fora.

— É só um lance que a gente combinou. Tem maçã? Das pequenas.

— Volto num minuto.

Ele fecha a porta e eu procuro onde foi parar o mp4, que de repente pareceu silencioso demais. Encontro debaixo do travesseiro, pausado numa música do Hoobastank. A clássica e calminha deles. Vez que preciso levantar, preciso também injetar algo mais ativo para me acordar por inteira. Eu pedi por esse acordo e vou cumprir. Vou fazer todas as refeições e comer frutas nos intervalos, como a Flávia.

Assim, desligo o mp4 e deixo junto do headphone na cômoda colada à cama. Do bolso do vestido, puxo o fone de ouvido pequeno e plugo no meu celular mesmo. Acesso minhas músicas do dia a dia e aperto na primeira que vejo. Mantenho só um lado do fone pra poder permanecer comunicativa.

Quando o Vinícius retorna, já tô sentada no meio da cama. Contrastando com o escuro do quarto, demoro a me acostumar com a luz assim que ele acende, mostrando um pratinho com maçã, faca e guardanapo.

— O que tá ouvindo?

— Red Hot.

— Cansou dos anos 90?

— Essa é dos anos 2000. By The Way. E by the way (a propósito), como estão as coisas lá fora? Na sala.

Levo os primeiros pedaços à boca, atenta. De frente pra mim, Vinícius parece um pouco distraído, mas sereno.

— Estão apenas conversando... O Silveira pediu pra te ver. Se não der, tudo bem. Ele também conheceu o Murilo e gostou muito dele.

Mastigando a maçã com gosto, lanço:

— E quem não gosta do Murilo? Há quem ouse não gostar?

— Boa pergunta.

Sinto uma coceirinha no cérebro por ele não falar a minha frase clássica “tem doido pra tudo”, vez que o Vini adora repetir essa pra mim, divertido. Deixo passar, porque isso pode ser sobre mim e como vim parar aqui. Pode ser preocupação e que ele prefere não se estender tanto. Mas estranho também, já que nessas situações o namorado gosta de me distrair falando de tudo e nada ao mesmo tempo.

Talvez não seja sobre mim... penso, lembrando que houve um problema com a mãe dele hoje cedo. Pra todo caso, continuo comendo a maçã com satisfação, pois, sendo isso ou aquilo lá, quero que veja que estou bem.

— Ei, e o carro de Djane? O que teve?

Bem reticente e vago, Vinícius parece escolher palavras que não revelem muita coisa.

— Na verdade.... foi o carro do Renato. O pneu dele... ficou preso num buraco.

Paro com a faca ao ar, nada sugestiva, apenas especulativa.

— Por que tô sentindo que tu tá editando a história?

Vinícius faz uma careta, dessas em que se fecha um olho e contrai o restante do rosto, entregando-se todo.

— Porque eu tô? É que é uma história um pouco longa e pra ooooooutro dia.

Surpresa, observo-o enquanto corto um novo pedaço. Com aquele comichão de quem quer saber do que se trata e possivelmente fazer alguma coisa, até mesmo sair debaixo de chuva de novo, questiono:

— Foi um problema grande?

A expressão descontentada de Vini diz e não diz muito.

— Um pouco, sim.

— Djane também tá aí?

Ele parece pensar um segundo, disperso, mas então retorna ao seu estado cuidadoso. Zeloso e espirituoso.

— Tá sim. Com exceção do Renato, do Sávio e do Fred, estamos todos aqui. Mas não precisa lidar com a casa toda se não quiser. Eles entendem. Tudo bem pra você?

Se assim prefere manter o papo, intuo que isso é algo pra outra hora. Assim, entro no jogo. Ou melhor, sigo esse seu zelo bem espirituosa também.

— Quer um pedaço de maçã?

O corte generoso que oferto suaviza mais ele, que abocanha de pronto. Mesmo de boca cheia, ele consegue falar.

— Que milagre... que eu não precisei... roubar.

Dou de ombros.

— É dia de ano.

Apesar desse algo em sua cabeça, a malandragem se sobrepõe num brilho diferente no seu olhar.

— Isso me lembra... uma coisa.

Na maior inocência, pergunto:

— O quê?

Meu Vini faz uma carinha de pensativo.

— Ainda não ganhei meu beijo de dia de ano. Ganhei o da virada e só.

Atesto sua afirmação, sinalizando com a cabeça.

— Verdade.

Termino de mastigar e aproximo nossos rostos. Malandrinha, sorrio e desvio do rosto dele, dando apenas um beijinho estalado na bochecha. O bico expresso que fica em sua cara diz que fiz maldade. Por fim, nos uno com um beijo mais calmo. Vinícius me puxa o rosto, sugando-me os lábios e aprofundando a língua em mim, desses beijos que começa sem expectativas e se demora apreciando o contato. Quando noto ele se mexendo, ou melhor, movendo-se para mais perto, a ponto de me tirar das mãos o pratinho com faca e tudo, me deitar ao colchão e ficar sobre mim, eu começo a rir.

— Do que essa namorada tá rindo, hein?

Diz ele, presunçoso todo, passeando o nariz pelo meu.

— Cara, tamo na cama da tua irmã.

Muito do despreocupado, ele me beija o queixo.

— Ela deixa.

Levanto a cabeça, rindo mais do seu descaramento.

— Ainda assim, meio indevido, né?

Com essa, Vinícius inspira, pensativo. Então solta seus pensamentos:

— A cama do quarto de hóspedes tá ocupada. E na sua casa não tá tendo muito espaço pra isso.

Recebo outro de seus beijos que me derrete inteira e também considero as possibilidades. Meio complicado mesmo driblar meu irmão E minha mãe diante das últimas circunstâncias.

— Acho que posso... dar um jeitinho. Massss... talvez... demore.

De testa colada na minha, ele parece pensar sobre isso. E sobre outras coisas, conforme revela.

— Tem umas paredes daqui que ainda não foram batizadas.

Gargalho mais do que ralho, mas ralho!

Vinícius!

De mansinho, ele me beija pela mandíbula.

— Eu tava falando dos nossos beijos, mas se você pensou em outra coisa, eu também tô aberto.

Só não gargalho mais porque ele atenta contra a minha espirituosidade de novo, beijando-me de modo ávido, como se não tivéssemos nos visto há muito tempo. Bom, desde o ano passado. Mas em meio a sua voracidade, percebo a palhaçada. Enquanto busca o ar em cima de mim, ele externa mais um de seus pensamentos. Uma linha inteira de pensamentos... perspicazes. E fala de maneira séria, bem dramático.

— Até agora a gente já se pegou no quarto de hóspedes, no do meu pai e agora no da I... Falta só o do meu avô. E o escritório.

— Isso é uma meta ou algo assim? Só pra saber.

— É o que é, a gente aproveitando espaços e tempos.

— Porque eu me lembro de uma vez no escritório...

— A gente não passou da porta. Mas o corredor conta. Conta como oportunidade. Tudo conta.

Uma batida soa ao quarto. Toc-toc.

— Ô, casal, eu posso entrar rapidinho?

Desvio das gracinhas do namorado só pra barganhar.

— Daqui uns minutinhos. Cronometra cinco minutos.

Vinícius vira o rosto para a porta para sobrepor a minha proposta, todo palhaço.

— Dez minutos, cronometra dez minutos!

Se ela cronometra ou não, não sei, só sei que Iara de fato volta logo.

— Ô, casal, se eu não puder pegar a câmera, vai ficar na cara que vocês tão aí se pegando. E no meu quarto! Não quero nem pensar se minha cama tá envolvida. Ai, Deus.

Ela bate de novo na porta.

— Tu jura, Vini, tu jura que quer que eu me vingue na mesma moeda?

Pelo jeito, a Iara também sabe onde apertar o irmão, pois ele para a brincadeira no mesmo segundo e eu torno a gargalhar da situação. Entoo essa pra minha amiga.

— A ameaça funcionou com sucesso, I!

Se coçando todo de nervoso, Vinícius vai até a porta, ajustando a camisa e vestindo sua pose de ator e palhaço. Ou seria ator palhaço?

Assim que abre, a Iara inspeciona o local da soleira, pra sentir segurança antes de adentrar o próprio espaço. Sentada ao meio da cama, até pego novamente o pratinho com o finalzinho da maçã. Ela fala algo bem baixo com o irmão, algo que não escuto e não sei se quero escutar, na verdade. O que ouço é o celular do Vinícius vibrando de novo, perto de mim. Quando pego o aparelho para fazer menção de lhe entregar, uma notificação rápida me chama a atenção. Dentre muitos, um nome muito específico na verdade.

2 mensagens novas

Aguinaldo

— Vini... Por que tem uma mensagem do Aguinaldo aqui?

Encaro o Vinícius de repente, entrevendo a ele e ao celular. A Iara até faz uma cara diferente, que se volta para o irmão. Aperto no botão lateral de novo quando a luz do aparelho enfraquece e abro a tela principal, num movimento rápido. Vejo a notificação estendida.

Aguinaldo

Sei que faria o mesmo

Como ela está?

— Vocês... estão t-trocando informações?

Quase engasgo.

— O quê? Não! De jeito nenhum.

Vinícius fala como se fosse o maior absurdo impensável do mundo, negando algo que tá literalmente na minha mão. Assim eu balanço o telefone ao ar para mostrar que não é tão impensável assim.

Ao passo que ele leva a mão aos cabelos, em sinal de nervosismo, eu até solto o aparelho a minha frente na cama.

— Não é bem isso que você tá pensando.

Só que eu só encaro o aparelho como se tivesse visto... não sei, algo muito ruim. Assim que ele se materializa ao meu lado, Vinícius pega o celular e recoloca nas minhas mãos.

— Abre a conversa, Lena.

— O q...?

— Só abre a conversa. Por favor.

Sem saber muito bem o que tô fazendo, abro o aplicativo de mensagem e clico no nome do dito cujo.

12h48

Vinícius

Obrigado por salvar a minha mãe

18h41

Aguinaldo

Sei que faria o mesmo

19h27

Aguinaldo

Como ela está?


Notas finais
"Vejo o sentido da terapia nessa parte. Porque... também é sobre assumir o que sente. E como são nossas dúvidas. Os caminhos de pensamento mesmo." e "Exercendo esse não julgamento, observando como a gente reage... como reage aos conflitos internos." e "Coisas assim... são pra serem apreciadas... admiradas... ter um instante de saber que foi algo grande e importante. Julgadas com essa régua. Uma régua bondosa, gentil. Tô falando essas coisas pra ti aqui, mas acho que tô falando mais pra mim." EU FALANDO DE MIM, ELE FALANDO DELE, NOVAS CAMADAS AAAA e "Diria que essa Milena foi corajosa. De se manter na situação e atravessar a parte difícil, apesar das circunstâncias. E que é incrível como os papos dela, que às vezes parecem bem bobos ou mesmo meio ralés, na verdade são boas reflexões. E que sempre ajudam. Essa Milena também tá fazendo muito. Essa Milena é uma estrela mesmo. Tem até fás!" e "A mensagem realmente chega até mim. Chega ao outro e chega até mim." É OU NÃO É DE UMA PRECIOSIDADE? eles realmente me trazem de volta VAMOS DE NOVOS TRECHOS? "- Mereço isso? Merece um travesseiro na cara, mas ele não entenderia o sentido. - Isso e mais um pouco." e "- Sua confusão é minha confusão, e minha confusão é sua confusão. Não sabe?" e "Vou contar até dez. Um... dois... três... nove e dez" e "- Mi, tá aí? O grupo de alunos tá um alvoroço só. Tu tá vendo isso?"