Notas iniciais
Aleatoriedades amenas, parcerias, autoconsciência, teorias interessantes, pequenas explosões e um master plano arriscado pra testar. Se certa pessoinha topar. Muita coisa num só capítulo para ponderar. ENJOY!

Acolhimento e treinamento (para acolher com respeito) – isso não são coisas ruins. São na verdade muito boas e são ofertas gentis para se aceitar. Ainda mais se possuem o cuidado e a atenção de ir nos detalhes, nos seus detalhes de necessidades. Para a desorientação, a aleatoriedade. Para a agitação, o sossego. Para o peso no peito, as amenidades. Para a dificuldade de se deslocar, uma companhia a cada passo. E, claro, tudo o que há de positividade.

Sair do meu quarto – e do casulo obscuro – é me aperceber de tudo isso, que é de um valor imensurável. De saber que estavam pensando em mim não para consertar uma situação, mas me abraçar em todas as minhas problemáticas e dificuldades, principalmente as necessidades. Até mesmo para eu também saber me acolher. Quem sabe, até me treinar. Porque estava tão entremeada ao furacão, rodando e rodando e rodando, presa, que também não me percebi em meio a um novo tufão de paranoias. Elas só me engoliram e eu me machuquei. Cheguei a bater as costas na beira da cama em um ato de loucura. Cheguei a me torturar e achar que o mundo tem um problema diretamente comigo.

Logo comigo.

E tudo bem, porque não preciso me exigir autoconsciência o tempo todo. Nem autodomínio, nem clareza mental. Só me respeitar. Me abraçar e me aceitar. Eu me dar meu espaço, tomar um fôlego e entender que acaba e eu fico, eu sobrevivo. Que preciso me nutrir e me cuidar. Entender que existe saída. Que estou próxima de alcançar uma nova saída dessas.

E que tenho companhia e aliados nessa luta.

Após pedir desculpas para mamãe, sobre como gritei e reagi, me enclausurando no quarto sem contatos, ela fez que não queria saber, só mesmo me ver e de eu a aceitar por perto. Mas como pedir desculpas era importante pra mim, fiz com que visse que ela importava também. E, como a Iara tinha dito, havia algumas variáveis diferentes hoje para ter ocorrido do jeito que ocorreu. Fora que tempestades são imprevisíveis e nem sempre controláveis. Deixei claro meu esforço ali para reconhecer esses pontos todos.

Para a gente não se gastar mais ainda e reencontrar as boas sensações, foi nessa hora que a I apresentou suas fotografias do Natal – da ceia, do feriado e alguns closes discretos do Fred. Dessa vez ela não fez uma maquiagem em mim, como fiz nela na semana passada; até porque a casa não tava aberta para eventos, tava era fechada para visitas. Iara que conseguiu uma brechinha que outro não teria a mesma sorte – coisa que também agradeço. Ao sair do quarto, só lavei o rosto e a I foi me guiando, sempre pela mão e sempre seguindo meu passo lento. Foi ela também que plugou o fone, o meu simples, no meu celular, para que eu pudesse ouvir baixinho Tomorrow, da Avril continuamente, como eu queria. Assim eu poderia me proteger, prestar alguma atenção no mundo e me manter em certa presença.

Na mesa da cozinha, sendo levada pelas imagens em mãos, assisto a conversa dela com mamãe sobre o animalzinho surpresa que tem sido mais visto, admitido e adotado pela casa. Uma aleatoriedade positiva e amena que me faz querer ver ele de novo. Não sei se de perto assim. Só avistá-lo mesmo. Tomo meu caldo apimentado de frango e fico quieta, apreciando o alimento e a calmaria, dois nutrientes fundamentais para minha recuperação. Logo as duas migram o papo para o vô Júlio e o vô Luiz, e então a história da bola das crianças que vovô furou, que mamãe conta mais detalhes.

Meio aérea, olho para a cadeira vazia da mesa e então para o corredor de casa. Que de enorme não tem nada, mas meu acidente na faculdade o tornou longuíssimo. E agora, me sinto distante. Do Murilo. Que pouco deu as caras.

Tive um pequeno vislumbre dele quando eu saí do buraco escuro e logo mamãe apareceu afoita para me envolver. Quando perguntei dele, ela só disse que estava descansando. Longe, no quarto dele.

Volto para o presente quando a Iara me toca no braço.

— E essa aqui é pra você.

A fotografia que ela me direciona é uma dos closes do Fred. Ele estava entre algumas plantas com flores laranjas, e por isso o tom da sua pele estava alaranjada, com umas partes em verde ainda, quase totalmente camuflado. Já mais familiarizada com o bicho, já não parecia tão feio ou esquisito ou horrendo.

— Por que pra mim?

— Só pra lembrar que tem coisas – vidas – no mundo que estão além da nossa consciência e compreensão. E porque vou dar uma fotografia minha pra cada pessoa e a sua é essa. Pode lembrar de muita coisa a partir desse serzinho fofo aqui.

Do maquinário lento que é minha cabeça, processo um pouco mais da foto e do que minha amiga acaba de atribuir.

— “Fofo” não é uma palavra muito forte para um camaleão?

— Com o tempo tu te acostuma.

— Qual é a foto de mamãe?

— É a da apresentação dela no Natal, com Djane e a dona Marília.

— E a do Murilo?

— Tô um pouco indecisa. Mas acho que essa aqui dele com a Lia na boia.

Estão os dois na piscina em roupas de banho, com as famílias ao redor. Tudo o que a gente construiu junto. Na captura, meu irmão tem um sorriso incrível, bem genuíno dele, todo enfeitiçado pela garotinha.

— Parece perfeita. Qual é a outra?

— Essa.

Num movimento rápido, ela me repassa mais uma do montante espalhado na mesa. Nessa em específico, Murilo está brincando com o autorama no escritório da casa. Pela camisa que usa, sei que é a do feriado. Também sorri besta. Mais atrás estão o Vinícius e o papai, igualmente empolgados. Acho que foi um pouco da ação que deixei para trás quando fui no banheiro e não pude voltar porque Filipe quase quebrou o nariz após uma trombada em mim.

Mamãe, que tinha sumido de repente da cozinha, reaparece levando meu prato mais que “limpo”, porque eu havia raspado todo o conteúdo do caldo saboroso. Não sei nem onde a I arranjou ele de última hora e, pra falar a verdade, acho que nem vale perguntar. Não agora. Não é mais tempo de ficar me lamuriando por fazê-la desviar seus caminhos. Ela fez essa escolha, assim como mamãe também faz a dela ao pegar meu prato pra lavar. Eu poderia dizer qualquer coisa mais sobre estar se sobrecarregando ou fazendo novamente uma atividade doméstica, porém, além de meu cérebro já não aguentar tanto, só quero agradecer e respirar essa tranquilidade.

— Que tal a gente ver mais episódios daquela série, filha? Aquela da cidadezinha de Capeside.

Apesar de meus avanços, sinto que ainda não tenho cérebro pra isso.

— Acho que... não vou conseguir... tipo, acompanhar. Quer dizer, eu ainda tô... errr...

Então a I salva o dia outra vez enquanto eu só pisco vendo a cena na minha frente.

— Ei, a tia já viu os clipes da Avril?

— Que clipes?

— Dona Helena, temos que te apresentar oficialmente à Avril Lavigne.

— Eu conheço algumas músicas.

— Mas conhece os clipes?

— Não sei dizer.

— Então é hoje!

~;~

Às 22h45, dona Helena chutou a Iara. Quer dizer, disse para ir para casa, que sua família devia estar preocupada, ou pelo menos em sua espera. Foi só quando mamãe falou da visita na grande casa que eu acordei um pouco pro mundo e me lembrei que o Silveira estava marcado para chegar hoje. Acho que para me preservar, a I não falou nada durante o tempo que ficou conosco, mas tenho a certeza de que ele deve ter perguntado de mim. Sei que a Iara e o Vini deram seu jeito de tomar conta disso. Confio neles para me guardarem assim.

Confio tanto que até mesmo para interagir com o mundo, deixei outra vez a Iara assumir o posto de pessoa falante e preencher o tempo e espaço que foi sua visita. Às vezes eu até ficava um pouco imersa no papo sobre os videoclipes da Avril, de como ela influenciou muito nossa geração, como inovava e saía de sua zona de conforto, e às vezes eu só viajava um pouco assistindo as pequenas historinhas que suas músicas contavam durante os vídeos. Nem vi a hora que mamãe pegou o brigadeiro e nem vi como ele sumiu rápido entre algumas colheradas. Não posso dizer que foi um momento de todo gostoso, vez que meu cérebro ainda falhava comigo e o cansaço me abatia, porém, não posso dizer também que foi uma noite tão ruim assim. Foi o que conseguimos fazer dela.

Ajudo mamãe a recolher os potes que a fadinha do tempero nos trouxe, uma das poucas coisas que ainda consigo me manter em ação, mesmo que lenta. Ao abrir a geladeira, para pegar mais um dos potes, me deparo com a caixa de chocolates que veio no presente de Natal de Djane. Coloco dois na sacola assim que a I retorna do banheiro.

— E ganhei chocolate chique! Vou levar um pro meu irmãozinho. Ainda vou passar lá pra ver como ele... tá.

Algo morre na boca da I quando mamãe faz algum tipo de sinal pra ela que eu não consigo pegar. Ouso perguntar, muito da inocente.

— O que foi? O que tem o Vini?

Posso estar bem lerda, no entanto, dá pra ver que mamãe tá disfarçando e que a Iara tá seguindo algum tipo de instrução e que não é sobre os potes.

— Coloca essa sacola aqui para reforçar o conjunto.

— Mãe.

— Só um contratempo, meu amorzinho. Nada demais.

— Que tipo de contratempo?

Quando a I carrega a sacola pelas alças, para se dirigir pra saída, eu puxo uma alça de volta. No alto de meu cansaço desse dia confuso, faço um pedido quase silencioso, de tão baixo que o lanço.

— I. Fala.

Ela, contudo, volta-se para mamãe, com uma expressão franzida.

— Desculpa, dona Helena.

— E teria como não falar? Tudo bem, pode contar. Até porque agora tá tudo ok também.

Só com essa permissão que minha amiga se vira para mim. Ela coloca a mão na minha costa para podermos caminhar até a porta, a da cozinha que leva para a garagem, vez que ainda chuviscava e o nosso terraço não tem cobertura.

— Então, Lena... O Vinícius teve um probleminha. Nada grave! Ele só precisou tomar um tempo de descanso mesmo.

— Mas o que aconteceu? Ele se machucou?

— Hã... Não necessariamente. Ele teve uma crise alérgica. Ficou todo vermelho e empolado. Assim, do nada. Quer diramzer, não tão do nada, né. É só que ele precisou ir na emergência. Mas foi atendido super rápido e já tá em casa.

— Como foi isso? Quando foi isso? Ele foi sozinho?

Mamãe é quem toma a frente, abrindo o guarda-chuva para levar a I até o carro.

— Foi mais ou menos na hora do almoço.

A I complementa:

— É, logo que eu saí daqui que Djane me ligou. Pra avisar que eles não poderiam ir pro almoço lá de casa porque precisava acompanhar o Vinícius no atendimento.

— E o que deu alergia nele?

— Essa é uma história engraçada, apesar de um pouco trágica. Foi uma colônia pós-banho que ele usou. Estreou, na verdade. Ele nem notou de primeira, mesmo se coçando todo. Daí quando deu de cara com Djane, que ela viu que... não tava exatamente legal. Mas, como te disse, ele foi logo atendido, o hospital é perto, e ele levou umas injeções.

Umas... injeções? Plural?

— É, foram preciso duas. Ele ficou dopadaço, quase dormiu sentado no corredor. Papai foi lá pra ajudar e tudo.

— Tadinho do meu Vini.

E eu pensando atrocidades dele. E atrocidades de mim.

A Iara segura o guarda-chuva e se vira pra mim enquanto mamãe destranca o portão.

— Que tá perfeitamente bem, inteiro e saudável. Só talvez um pouco... lerdinho e molenga. Dormiu quase o dia todo.

— Então...

Iara preenche os pensamentos comuns que me dominam em períodos de baixa. Só que não foram esses que me pegaram dessa vez.

— É, ele não sabe do que rolou aqui. Também por isso que vou lá. Para atualizá-lo e dizer que tá tudo bem.

Sem jeito, falo o que há em minha cabeça.

— Na verdade, ia te perguntar sobre o almoço de família.

— Ah. Acabou nem rolando tanto. O ônibus do Silveira ficou no prego na estrada e ele só chegou no meio da tarde. Fui buscá-lo na rodoviária.

— Ah.

Então foi um dia... complicado... pra geral.

— Como a tia falou, alguns contratempos. Agora preciso ir. Dá um abraço no Mu por mim que dou um abraço no Vini por ti. Qualquer coisa, me chama, me grita no chat. E, Lena?

— Hum?

— Você é mais forte do que pensa.

— Valeu.

Assisto ela se juntar à mamãe para andarem grudadinhas debaixo do guarda-chuva pela calçada e saltar num ponto onde não tivesse tanta água ou lama. Assim que Iara entra e liga o carro, mamãe já refaz seu caminho e logo fecha o portão.

Antes que saia do lugar, lanço minha pergunta:

— Mãe, por que não queria me contar?

— Ô, amorzinho. Estava dando o seu tempo de recuperação, só isso. Agora ande, que aqui está com vento frio. Não quer pegar uma gripe, quer?

Fico parada olhando para ela, quieta, sem esboçar muita reatividade.

— Não faria isso com você, filha. Não era como se estivesse escondendo, só postergando mesmo. De verdade.

— Me conta mais.

Ela entrelaça seu braço no meu para me fazer andar junto.

— Deixe-me ver... Hmmmm. Djane me ligou assim que eles deram entrada na emergência. Tava muito, muito nervosa. Pudera, né, foi um grande susto. Fiquei no telefone com ela até o Filipe aparecer.

Ao chegarmos na divisa da porta entre a garagem e a cozinha, ela para e se desvencilha de mim para fazer um carinho aos meus cabelos, embora sem me olhar diretamente.

— Depois ela me ligou quando estavam indo pra casa. Isso tudo antes de eu acordar você e seu irmão. E como você não estava muito para conversa, só falei mesmo pro Murilo. Voltei a ligar no comecinho da noite, porque imaginava que o Vinícius iria apagar com tanta medicação no corpo. Se com um comprimido, seu pai vira pedra, imagina o Vini com duas injeções.

Quando mamãe desliza por meus braços e se concentra nas minhas mãos, que entendo um pouco de sua hesitação.

— Nessa hora, você já estava bem mais calma e ativa, meu amor, e justo quando tava levando sua fruta e te contar o que havia acontecido... bem, aconteceu aquela outra coisa.

Vagando o olhar entre nossas mãos, digo, sem muita energia:

— Pode falar a palavra, mãe.

— Sem problema, Milena. Só não quero te deixar mais confusa, não com isso. Ainda mais estando tão tarde. Aliás... tenho que... tomar meu banho.

Diz ela, entre bocejos. O fato de eu me sentir meio ausente do mundo, mas ainda assim acordada, às vezes me faz esquecer que as outras pessoas estão em outro ritmo, em outro tempo. Já eram mais de 23h e não exatamente sentia sono, só cansaço.

— Vai precisar de mim pra alguma coisa agora?

— Mãe.

Puxo as mãos dela, para que não mude de assunto de novo.

— Conversamos depois, tudo bem? Agora mamãe precisa encerrar este dia.

— Ok.

~;~

Fico um tempinho encostada na parede do terraço, bem no limite de onde tem cobertura e não tem, assistindo a chuva leve, as nuvens ainda carregadas e essa certa calmaria que guarda tantos alvoroços em minha vida. De braços cruzados, assisto um pouco de mim, de fone aos ouvidos, o acessório plugado no celular ao bolso do meu pijama, e Nobody’s Home da Avril Lavigne tocando baixinho em repetição. Depois da viagem ao passado e os videoclipes da cantora, me apeguei a essa.

Com todo esse papo de alergia e emergência, lembro de como tava desejando acontecer algo ruim com outra pessoa só para eu poder fugir da minha loucura. Não que isso tenha sido determinante ou tenha influenciado o universo a cumprir tal pedido insano, mas, bem, aconteceu. E eu nem soube a tempo de realmente dar no pé. Não sei de fato se teria insistido para sair de casa, mesmo com um tempo tão pesado, só para ir lá ver o Vinícius ressonar dopado. Djane teria me deixado entrar, isso é certeza. Mas eu levaria mais um problema pra ela. Não que ela fosse algum dia me dizer isso.

Meus olhos se enchem outra vez, porque eu só quero poder acabar logo com isso. Menos lerda, agora a consciência bate cada vez mais. De como exigi tanto do Vinícius. E do Murilo. Que ninguém vem com manual. Que ninguém deve dizer o modo que o outro deve ser ou fazer. Ou estou enganada sobre isso também?

Sobre o que mais estou enganada?

Ao retornar à cozinha, pela entrada da garagem, vejo o Murilo puxando um prato do armário. Parece estar mais distante do que eu do mundo. Acho muito irônico que antes eu só quis afastá-lo e assim que o senti muito longe, só quis ficar perto. Quis bater na porta de seu quarto e entrar. E pedir desculpas. Mas depois entendi que ele também tem o tempo dele. Que eu precisava dar o tempo que ele me dá. Respeitar seu espaço. Por mais impelida que me sentisse de ir aonde estava.

A consciência agora é como o Fred no jardim, de repente muito perceptível.

Quando o prato que Murilo segura bambeia um pouco em uma de suas mãos, por ele estar ajeitando os outros no espaço do armário, me aproximo pra segurar. Pego a tempo. Pra isso, tive que infringir minha distância a ele, que me encara, surpreso. Ao segurar de volta, ele põe o prato no lugar, em cima dos outros no armário. Assim que fecha a portinhola e faz menção de sair da cozinha, eu me faço presente.

— Não vai.

Murilo para, de costas pra mim.

— Fica. Eu saio. Seu jantar tá no forno.

Coçando-se no pescoço, ele vira de volta, sem me olhar diretamente.

— A Iara já foi?

— Já.

Vez que o silêncio reina entre nós, dou os primeiros passos para deixá-lo com sua refeição. Quando passo por ele, Murilo comenta:

— Você tá com a tornozeleira.

Tenho um grande impulso de falar, então só sigo o fluxo.

— É, e o chão tá mais esquisito do que antes. Ainda mais com a chinela junto.

Ele permanece de olhar baixo, retraído.

— Fico... errr... feliz... pela transição.

— Fica?

— Claro. Quer dizer, é um avanço.

Reservado, ele enfim se mexe, vai para o lado do fogão e tira o prato montado com seu jantar. Eu só me viro, com cuidado, observando seus movimentos e como a distância emocional tá me doendo com ele desse jeito.

Logo que meu mano se senta à mesa, digo:

— Desculpa, Mu.

Murilo paralisa seus movimentos ao ar, de repente perdido.

— Pelo quê?

— Pelo que acha que seria? Eu gritei com você. Eu empurrei você. Eu chutei... você. Pra valer. Eu... eu não reagi bem.

Consigo reviver exatamente o momento em que Murilo tentou me segurar e me fazer sentar e encontrar meu centro, e eu tava tão alucinada com os trovões que me debati, e numa dessas esperneei e meu pé foi bem na sua barriga. Ou dorso, não sei. Sei que o chutei e foi forte.

De olhos vagos, meu irmão fica distante novamente. Só sei que está ali porque ao menos pisca. Respira. Quieto. Chamo-o para que responda.

— Murilo.

— Eu quem tenho que me desculpar, Lena. Eu... fiz errado. Eu... hesitei. E me atrap...

— Murilo, tu ouviu o que eu disse? Eu te chutei, cara! Isso não se faz. Isso... é horrível de se fazer.

— Você tava em crise, Lena.

— Ainda assim, Murilo. Eu não devia... Eu não tinha o direito. Ninguém tem esse direito!

— Eu tô dizendo que tá tudo bem, só isso. Eu entendo.

— Mas eu não entendo.

Passo a mão no rosto, meio trêmula de tudo isso. Também puxo os fones dos ouvidos, que ficam pendurados aos meus ombros, porque de repente é muito barulho de uma vez.

— Mana, só não se exalta, tá. Já teve muita coisa hoje e... Olha, só senta aqui.

— Não, Mu, acho que vou pro meu quarto, tá? Só come teu jantar, valeu?

Me viro e, por não estar acostumada com o novo material ortopédico, sou mais lenta ainda para sair do lugar. Se ontem o chão pareceu estranho só com os pés tocando a superfície, hoje parece bem mais esquisito, o que me dá vontade de voltar pra bota de novo, só pra ter mais mobilidade. Merda de tornozelo que não sara logo!

Isso dá tempo o suficiente pro Murilo se levantar e se colocar à minha frente, agitado.

— Não sai assim, tá?

— Eu te evitei, você me evitou, estamos quites eu acho. É o que acontece nos dias de crise, não é? Precisa dar um espaço. Não ficar observando demais, nem ficar falando demais. E quando tiver a oportunidade de dizer algo, que seja a coisa mais aleatória possível. E falar coisas positivas.

Nem eu entendo essa erupção silenciosa em mim, só sei que vou lançando e disparando as coisas que ele mesmo disse. Só que, dessa vez, contra ele.

— Você... Nos ouviu.

Ele constata mais para si mesmo do que para mim, engolindo a seco.

— Se você quer tornar o meu chute em ti como algo positivo, eu prefiro me retirar.

Passo por ele, que fica maquinando sozinho até algum ponto que acorda dessa situação toda e se vira pra mim. Eu, no entanto, permaneço de costas.

— Não é isso que tô fazendo, Lena.

— Então o que é que tá fazendo?

Murilo outra vez me alcança, o que não é nada difícil pra ele, que me interpela, ficando frente a frente comigo.

— Eu... te entendo. Entendo a situação toda. Só não me entendo. Quer dizer, eu só consigo me ver errando. O tempo todo. Tipo, eu travei. Me atrapalhei. Não consegui conduzir. E ainda assim... continuo... tentando... tentando demais.

Por não encontrar sentido no que diz, pergunto de uma vez:

— O que isso quer dizer?

Mas o Murilo só quer olhar pra essa coisa toda que não sei o que é.

— Olha, Lena, eu fiz besteira, tá?

— O que você fez, oras? É isso que não consigo entender!

Se tivesse em condições de bater o pé, faria, só pra dar mais ênfase. Ao menos, enfim, faz o Murilo se pronunciar. Antes, ele toma um fôlego e aperta os próprios ombros, meio derrotado. Quando fala, fala pausadamente e para o chão entre nós.

— Eu tentei controlar a situação. Tentei me controlar e tudo o que veio. Tentei controlar você e controlar nossa mãe. E... foi mil vezes pior.

É uma confissão e eu não sei o que fazer com ela.

— Como assim, Murilo?

Ainda cabisbaixo, ele explana um pouco mais.

— Eu só... tentei controlar. Foi mais forte do que eu.

— Mas...?

Fico sem ação e sem palavras, porque as coisas seguem bem confusas. Tive a crise, ele me segurou, eu gritei, ele se afastou, e veio pra cima de mim de novo, eu o chutei, me embolei na cama, e mamãe lá, assistindo tudo, e algumas vezes não sei se tentou segurar a mim ou ao Murilo.

— Essa conversa que você ouviu... Ouviu o que mamãe disse logo depois? Sobre eu fazer as coisas sozinho? Tentar demais... sozinho?

Um tanto distanciada, soo seca.

— Não.

— Senta aqui.

Murilo estica o braço para me alcançar e me guiar até o sofá. Além de martirizado e agoniado, parece bem mais perturbado em si mesmo. Ainda assim, sento, em desagrado. Também tomo um fôlego para poder processar essa coisa toda.

Da mesinha onde está sentado, de frente pra mim, ele começa:

— Você lembra do que a gente conversou na madrugada?

— Lembro. A maior parte, acho. Até sonhei com isso. Ficou um pouco embaralhado durante o dia, mas fui lembrando aos poucos, reencadeando... devagar... os fatos.

Meu irmão assente conforme me ouve. Seu corpo tá presente, porém, a cabeça parece não estar, vide seus olhos vagos. Mas então ele faz uma pergunta que demonstra que está sim bem atento.

— Lembra da parte que... Bom, logo que nos encontramos aqui, na sala, nesse sofá. Que eu disse que o fato de mamãe estar aqui, presente, me deixava desorientado?

Desorientado é uma boa palavra para ele nesse momento.

— Sim. Que cruzava com as impressões que ela tinha de você, ou com as...

Ele dá continuidade em suas divagações e maquinações.

— Com as impressões que eu achava que ela tinha de mim. Que eu devia ser o responsável, que eu devia ser o protetor, que eu devia... Eu confessei tudo isso a ela, mana. Mesmo com a profunda vergonha que estava tendo dela. Fiquei tão louco naquela hora com você em crise que mal pude agir. E quando agi, fiz mais merda. E isso piorou tudo. Piorou a proporção da tua crise. E da minha crise. Cheguei a gritar com mamãe porque tudo parecia errado demais. Pra mim. Parecia que eu não tava preparado e que eu não tinha te preparado, nem preparado a ela. Então eu explodi.

— Como assim, explodiu?

Essa me pega desprevenida.

— Só sei que eu tava cada vez mais aumentando a voz e de repente a gente tava duelando aqui sobre quem tinha mais razão. Que, claramente, não era eu, mas eu não tava em condições de entender isso.

Ainda embaralhado, ele confessa:

— Em algum ponto, mana, eu só parei e comecei a chorar. Na frente de mamãe mesmo.

Fico boquiaberta. Tipo, quer dizer que foi uma briga séria mesmo. Eu ouvi só uma pontinha e do que ouvi até pareceu meio que esse duelo que fala, mas ao mesmo tempo... Acho que eu tava dando razão a ele. Que não era pra dar. Tipo, ele tentou treinar. E foi algo que saiu pela culatra.

Mas como não ouvi se eles estavam assim, gritando um para o outro?

— Mu... Mas como? Quer dizer, se você explodiu assim, eu teria ouvido.

— A gente tava na garagem essa hora já. Justo pra você não ouvir. Mas a questão, Lena, é que eu precisei disso. Não que ela me visse louco daquele jeito, não. Precisava ter uma conversa sincera com ela. Sobre o que tem aqui dentro. Sobre minhas insanas tentativas e desvios, muitos desvios. Sobre o que vinha falando na terapia. Sobre como não conseguia me abrir por completo para ela, sequer ser visto. Eu vinha me segurando esse tempo todo.

Ele balança a cabeça de tudo que é jeito, baralhado, e acabo por segurá-lo. Porque estava se torturando na minha frente. Faço que foque em mim.

— Eu vinha te protegendo também.

Mexido, Murilo respira devagar e pesadamente.

— Não sei se deveria agradecer, mas agradeço.

— O peso diminuiu? Agora que ela sabe... das coisas todas.

Meu irmão levanta os ombros, incerto.

— Diminuiu um tanto, acho. Só que ainda me sinto envergonhado sobre muita coisa. Mesmo a gente tendo conversado bastante. Mas ao menos ali pude ver mais da visão dela de mim. Pude ver que não penso nada assim de mim.

— Como ela te vê? Ou pensa de ti.

De braços apoiados às pernas, ele cruza os dedos das mãos e se concentra em como os mexe, não atrapalhado, só... vacilante. Dou esse espaço a ele sem ficar observando demais, apenas atenta.

— Bom, ela não me vê como o protetor que eu sempre me impus ser. Nem como tutor, nem como responsável por você. De mim ela não esperava essa responsabilidade toda. Disse que devo ser só filho e irmão. E te apoiar, não como um guardião, mas sim um aliado. Te apoiar no que for. Uma viagem, um mestrado... uma crise. Que era isso que ela imaginava que eu fazia. Não imaginava que eu tinha passado – tanto— do ponto. Estranhava algumas coisas, como papai, porém, também não questionava. E a distância geográfica acabou atrapalhando muito disso. Contato e acesso a nós e nossos problemas mais internos.

— É, foi algo que conversei com ela não faz muito tempo. De só aparecer quando alguém precisa de cuidados. A tua catapora ou eu de material ortopédico. A conexão verdadeira foi se perdendo.

Mais equilibrado, ele se reafirma.

— Sim. Além de nos distanciar emocionalmente, também fez da gente visita na casa um do outro. Não mais família. Com isso, acabei ficando muito sozinho em minhas ideias, sem ter alguém pra me refrear. Pra me lembrar disso, de verdade. De ser filho e irmão e só. Acho que precisei dessa autoridade pra me colocar na linha.

— Ou só amor, né.

Algo se ilumina no rosto dele, como uma grande resposta.

— É. Eu senti muita falta de conversar com eles assim, abertamente. Mesmo que antes eu não fosse lá tão aberto. Mas senti muita falta deles. A proximidade, as brincadeiras, a simplicidade, a convivência. Via muito isso na família da Aline. Ou mesmo na do Vini. Nesse meio tempo, só me acostumei em sentir o peso de ter que cumprir um papel, tendo que corresponder a confiança de nossos pais. Me acostumei a fazer as coisas sozinho. Sem abertura.

— E agora tirou isso do seu peito.

— Tirei. Com muito custo, mas tirei. Aliás, a gritaria toda era por ela estar insistindo em me mostrar que eu tava me colocando sozinho. Fazendo sozinho. Tentando sozinho. Sem dar uma brecha para ela agir também.

UAU. Apenas UAU. Até porque... acho que até eu subestimava minha mãe.

Quer dizer, ela vê as coisas. Sente. Chama atenção. Tá, faz chantagem. Mas também faz um tantão de coisas mais.

Como sempre diz, é mãe de dois filhos adultos. Dona Helena também sabe como a vida é. Ela fez o que nem eu me imagino fazendo, que é parir duas crianças. E cuidar e educar e separar briga. E enviar as duas pra dividir uma casa em outra cidade. Confiar nelas a esse ponto.

E eu a subestimava. Por conta da sua doçura em demasia, colocava nela uma imagem de fragilidade quando na real... era sobre cuidado. Às vezes extremo, às vezes danoso. Mas, caramba, ela só tava correspondendo com amor. Desmedido amor.

E talvez por não ter mais acesso a nós dois, seus filhos, ficou com a imagem nossa que acompanhou pelos últimos anos, quando morávamos juntos. Ficou a minha imagem de quinze ou dezesseis parado no tempo. A do Murilo com seus vinte e pouquinho. Novos demais pra uma cidade tão grande.

E ela conseguiu ver essa questão do Murilo, um traço hiper específico dele, que nem o próprio via direito. Debateram sobre responsabilidades. E ela usou a autoridade dela de pessoa maior, de mãe, pra colocar o filho no lugar de filho.

Embasbacada, o que eu consigo dizer sobre isso é:

— Foi corajoso. Das duas partes.

Balançando a cabeça, Murilo nega esse ponto sobre si. Como muitas vezes eu também nego sobre mim.

— Não sinto essa coragem.

Ainda estarrecida dos fatos, volto no ponto sobre mamãe.

— Nessa questão, eu concordo com ela. Sobre sermos apenas aliados, irmãos. Não tutor e tutorada, desnivelados.

No entanto, no Murilo só mora a culpa e recompensação desvairada, novamente maquinando demais.

— Eu tentei compensar muita coisa. Tentei e tentei fazer o que não era pra fazer. E me atrapalhei em todo o processo. Mesmo com a terapia, ainda tô tentando demais. Desculpa por tentar demais.

Apoio minha mão no irrequieto movimento das suas, no espaço entre nós.

— Bom, você tá... tentando. Fazer o certo. Isso não é uma coisa ruim. Tipo, não diminui o meu amor ou admiração por você. As coisas que fazia antes... sim. Mas você não faz mais. Não sai batendo, não sai gritando... não como antes. Você conversa.

Ele solta uma mão só pra poder levar o braço ao rosto, pra passar nos olhos. Provavelmente estava de olhos cheios de novo, e de culpa. Por ter se perdido no que propôs a fazer.

Por isso divaga.

— Desde aquela confusão nossa do ano passado... eu quis te contar sobre a terapia no serviço. Tipo, tu me aceitou de volta, pra a gente se reinventar e se escutar. Só que a coisa toda ainda era diferente na minha cabeça.

— Eu esperei, não esperei?

— Não deveria ter sido tanto tempo assim.

Meu mano funga, sem novamente reconhecer seus esforços. Parece muito uma pessoa que conheço: eu. Ainda mais porque ele ri um riso de quem aprecia o que faço ao mesmo tempo que se descontenta do que ele fez.

— Foi o tempo que conseguimos, na orientação que tínhamos.

Ele segue descrente.

— Às vezes gostaria de ter essa resiliência que você tem.

— O que é isso... de resiliência?

Ele pensa uns segundinhos sobre isso.

— É um tipo de equilíbrio de reconhecer uma fase ruim e aceitar que foi apenas isso, uma fase ruim. Ter ainda a capacidade de se recuperar depois desse algo ruim.

— E eu tenho isso?

Me sobressalto, porque sinto que não tenho e de maneira nenhuma. Tudo pra mim é tão a duras penas, no modo mais difícil e tresloucado e desvairado e complicado de ser. E cansativo. Custoso. Com sagas e desastres e... tudo desequilibrado. Tudo desalinhado.

Ou sou eu que tô me julgando demais, como ele tá fazendo agora?

— Tem. Tem muita. Sem mesmo saber.

Ele parece pasmo com isso. Fico em dúvida sobre o que dizer.

— Acho que também não sinto isso em mim.

E aí que ele me dá a grande resposta.

— Muita coisa do que o que a gente sente não é necessariamente verdade, né.

Você é mais forte do que pensa, disse a Iara.

Suspiro, em concordância. Até porque foi como há um minuto atrás, que eu falei da coragem dele e ele diz não a sentir, não assim. Eu o mesmo, não penso e não sinto assim sobre ter força, coragem ou mesmo essa tal resiliência, porém, de alguma maneira as pessoas veem isso em mim. Deve ser porque existe em mim.

Assim como existe nele.

— Então você foi sim corajoso. É corajoso. E é resiliente sem saber.

Agora sim um traço de riso de reconhecimento e descanso aparece em seu rosto.

— Talvez eu seja mesmo. Talvez me falte um pouco dessa crença. Talvez eu deva acreditar mais nessas coisas que as pessoas me dizem e percebem em mim.

No que ele parece mais descansado das ideias, eu também baixo minha guarda sobre isso. Papai mesmo me pediu pra eu não mais me esquivar sobre essas coisas. Pensar mais sobre elas, sobre o que faço sem perceber e... reconhecer. E agradecer quando alguém reconhece um traço meu assim. Sem vergonhas ou autojulgamento.

E talvez... não é que a mensagem volte para mim, mas eu aceitar ouvir de outras pessoas. Eu me acolher como acolho outras pessoas. Quebrar essa barreira de mim para mim. Os outros também. As pessoas fazerem isso umas pelas outras.

Falo um pouco disso em voz alta.

— Talvez se acolher como me acolhe, não seria isso?!

O rosto de Murilo não só se aviva, como quase brilha. Estupefato e maravilhado.

— Sim. Exatamente isso! Caramba, às vezes – muitas vezes – você é certeira em dizer essas coisas, sabe? Parece até uma psicóloga, só que sem formação?! Porque é tão natural pra você. Só que... Não é natural pra mim...

Acho que algumas pessoas precisam aprender, e até treinar, como acolher a outra, e outras pessoas fazem de uma maneira bastante natural. E não tem problema, sabe? Um pode ajudar o outro. Aprender junto.

A Iara apontou isso, direitinho. Acho que agora que tô captando a mensagem.

— Que é, acho, o que me deixa mais doido. Porque me vejo com muitas barreiras nesse sentido.

— De ti pra ti mesmo?

— Caramba, sim. Viu, só?

Novamente, Murilo se mostra estarrecido com o que digo.

Eu? Processo as coisas com cautela.

— Na minha cabeça, eu só converso com as pessoas, só isso. E conversar é importante. Estar mais aberto para isso. E tu também tem feito tudo isso, caramba.

Quase posso puxar a orelha dele pra colocar a cara mais próximo dessa verdade.

Dessa vez, ele ri um riso mais aberto. Impressionado.

Pode parecer que eu esteja me esquivando de assumir esse traço, só sei que vou e encho mais a bola dele.

— Até onde eu sei, tu até instrui. Nessa lógica, tu é mais psicólogo do que eu.

O traço de riso dele não alarga, porém, também não diminui.

— Não sou, Lena, acredite... Não sou. Mas é um fato que eu tento fazer as coisas funcionarem. Agora pelo menos tô numa direção melhor.

Ele solta um grande fôlego como quem enche um balão. Ao inspirar novamente, percebo certo receio seu.

— E sobre isso, ainda tem uma coisa que preciso te falar.

— Sobre isso o quê?

— Sobre... instruir. Como sabe, tô trilhando um caminho imenso de aceitação... Sobre não ter controle sobre todas as coisas, que é um processo lento e é claro que eu não sei tudo. Só que eu aprendi algumas coisas... úteis. Para as crises. Para lidar com as crises.

Paro no tempo processando devagar o que diz. Ainda mais que ele gesticula e tudo, um pouco mais centrado, embora vacilante. Parece que quer me convencer de algo.

— Não posso parar um trovão, mas talvez... talvez eu possa parar uma crise. Quer dizer, eu posso conduzir uma. Vinha discutindo mais ou menos isso com a Katiana antes do recesso, mas só nos últimos dias que percebi do que se travava. Ou entendi a grande verdade por trás.

— Eu não tô entendendo muito bem, Murilo.

Ele sai da mesinha, senta bem do meu lado no sofá e toma minhas mãos nas suas.

— A questão, Lena, é que as pessoas querem eliminar o problema, não aprender a lidar com o problema. Eu sou uma dessas pessoas. Ou, pelo menos, fui. Eu quero te ajudar a lidar com o problema. Com a crise. Diretamente a crise.

Sorvo aos poucos a informação, a digerir devagar os pedaços e o sentido dela. Ainda mais porque ele tá me encarando com muita firmeza.

— Pensa um pouco sobre o que isso quer dizer.

— Fala sobre soluções rápidas?

— Também. Mas principalmente sobre aceitação. A qualquer problema, nosso primeiro impulso é eliminar. Não se pensa em entender, aceitar ou aprender a reagir ou a agir. E isso meio que acaba tornando o problema ainda maior e mais problemático.

Meio estática, não compreendo como a gente tava evoluindo na conversa e de repente isso, de parar um trovão. Ou uma crise. Acho que ele entende que isso não só me assusta como me deixa sem o que dizer.

— Olha, o que eu mais quis nesses anos todos foi eliminar muita coisa, coisas que não cabiam a mim de remover ou mesmo ter controle sobre elas. Quis remover nossas discussões, mas não aceitar que a coisa era outra. Bati em pessoas por isso. Briguei loucamente com você por isso. Nossa, tanta coisa.

Puxo minhas mãos das dele e me amparo numa almofada. Porque se for o que imagino que seja, é loucura.

— Mas... isso.... Do que você tá fal...? Por que tá me dizendo isso?

— Acho que os trovões... e as crises... acho que é sobre aprender a lidar com o problema, não eliminar o problema. Não de todo. E as crises podem não ser mais crises.

— Fala que... elas vão deixar de existir?

— Não, porque isso seria querer eliminar o problema. Falo que as crises podem ser diferentes, não sendo tão desgastantes ou aterrorizantes. Você ainda vai sentir algo, mas pode agir e reagir diferente. Atravessar sabendo lidar com elas. De modo que já não te dominem, nem te prejudiquem tanto.

Meu tico e teco se esforçam nessa:

— Não é pra isso a terapia?

— Sim! Totalmente. Só que isso é a longo prazo, né. Porque tem que ir nas particularidades do caso.

Por que ele tá tão empolgado com isso, meu Deus?

— Eu não sei se tô entendendo aonde você quer chegar.

— Acho que posso te instruir nesse sentido, Lena. Fazer uns experimentos. Bom, isso foi o que tentei fazer naquela hora. Só que... com a presença de mamãe e meus conflitos sobre isso, eu travei. Me atrapalhei todo. Me senti observado, à prova, sei lá.

Agora que entendo o que ele tanto repetia desde o começo sobre se atrapalhar.

— Se tem uma pessoa que pode fazer isso, agora, nesse momento, sou eu. Mamãe e a Aline concordam.

Quer dizer que eles conversaram sobre isso.

— Mas, mano.... Eu nunca te pediria isso. Quer dizer, sim, eu peço no auge do momento para poder fazer parar, mas é que... me atinge de um jeito... Só que... Você não pode parar um fenômeno dessa magnitude, Murilo!

— Talvez eu possa.

Até a confiança dele me assusta.

— Esse é um peso de expectativa que não quero que assuma. Como mamãe e a Aline podem concordar sobre isso?

Ele faz uma careta, comprimindo o rosto, então retorna a essa confiança doida que surgiu sabe-se lá de onde com uma pretensão medonha dessas.

— Acho que me expressei mal. É que contei pra elas sobre eu testar isso, sabendo o que agora eu sei. A gente mesmo, Lena, já fez exercícios de respiração. Só que antes e depois da crise. Temos nosso sistema de músicas, não é? Eu só acho que podemos ir além nisso.

O mp3, nesse sentido, foi uma ferramenta mais elaborada do que achei que fosse? Ele mesmo disse há um minuto que conversou com a terapeuta antes do recesso.

Enfim, me concentro no que ele pede.

— Isso me parece arriscado, muito arriscado. Você mesmo disse que travou por se colocar à prova.

— É porque eu não contava com a variável de mamãe estar aqui e reviver coisas que tavam enterradas.

Me exalto um pouquinho, apesar de baixar a voz.

— Só que ela vai continuar aqui!

— Mana...

— Tá, acho que em alguma instância eu também me enganei sobre ela estar aqui. É como se eu tivesse me fingindo de forte, ou me sentindo forte, e na hora foi tudo por água abaixo. Porque a presença dela também me afetou. Algo consciente e inconsciente ao mesmo tempo.

— Mais ou menos que o senti com ela.

Ao que assente, pontuo novamente essa variável.

— Murilo, ela vai continuar aqui. Como isso poderia dar certo?

— Ela vai se afastar. Ela prometeu. Quer dizer, ela entendeu. O modo dela de agir, ou de reagir, vai ser de se afastar. O que, né, vai contra toda aquela ideia de ela participar, mas é uma solução boa. Temporária. Só... enquanto... enquanto a gente testa.

A agitação dele me preocupa de verdade.

— Mas aí você volta ao ponto inicial de novo. De se colocar uma função. De se exigir demais. Tentar demais. De novo.

— Me deixa fazer isso, Lena. Nem que seja só uma vez. Um teste. Eu acho que dá.

— Eu não sei, Murilo. Não tenho nem ideia de como fazer isso.

— Porque isso eu vou te guiar. Olha, podemos rever umas respirações. E repassar um pouco dos sinais, do que você sente e o que dá pra fazer a respeito. Entender o ponto central do sintoma. E tentar não se fechar, não lutar contra a sensação, não como tem acontecido.

Não sei se fico mais alucinada por ele ter tentado antes, sem me avisar, e agora insistir – atrapalhado, mas obstinado – pelo meu consentimento.

— Isso é loucura, Murilo! Pu-ra loucura.

Levanto, desvairada dessa proposta insana. Porque é uma maluquice. Doideira. Impossível. Ele tá levando isso de tentar demais a um novo nível de... delírio.

De pé, de braços cruzados e bem firmes de defesa, ou autoproteção, encaro sua expressão ainda me pedindo por isso. Enquanto o NÃO se enche por dentro de mim, me vem outra coisa também.

Se o Murilo faz isso... um treinamento e tal... Ele não faz por mal.

Não é como se ele fosse se cansar de você ou desistir de você. Muito pelo contrário. Ele quer melhorar isso pra você. Pros dois, na real. Não é à toa que ele não sossegue. Só que isso não é uma coisa ruim. É um esforço por algo bom.

Um esforço por algo bom?

Agora seria eu a treinada da história?

— A gente faz devagar. Juro.

— E a Aline e mamãe concordam com isso.

Sigo descrente.

— Não é algo tão fora do mundo assim, Lena. Mas se for pra testar...

— Tentar. Tentar demais.

Ênfase, ele tá ouvindo essa ênfase?

— Se for pra tentar... Preciso que esteja mais aberta a isso. Não vai dar certo se... se a gente não...

— Vou pensar no caso, tá bom pra você? Me deixa pensar sobre isso. Vai... Só vai jantar. Eu vou... Eu tenho que pensar sobre isso.

Notas finais
E você, toparia essa proposta do Murilo? Tic-tac. Não há muito tempo para pensar. Trechinhos do próximo? "Acordo no pulo com um estrondo medonho que parece tremer a casa inteira. Ainda desnorteada, avisto parte da sala ser tomada por uma claridade forte, pelas frestas da janela, o que significa um novo trovão intenso." e "— Qual o nome? — Too Much To Ask. Significa “muito para pedir”." OS TROVÕES VÊM AÍ, NA MESMA MEDIDA DE UMA COISA MUITO MAIS EXTRAORDINÁRIA DO QUE AS MÚSICAS. Entreguei muito? VOCÊS NÃO PERDEM POR ESPERAR!