Mantendo O Equilíbrio - Tempo de Mudança (T6 + T7)
192 Capítulo 87
Notas iniciais
Assistir o cover da Daniela de “Sorry Seems To Be The Hardest Word” ontem e hoje me pareceu um divisor de águas. Com o Murilo, antes de irmos cada um para a sua cama, foi como fechar a noite com chave de ouro. O tom ameno da Dani e a calmaria do teclado acompanhando ela deu um alento tamanho. Já com mamãe, após o café da manhã, que o Murilo acabou comentando do vídeo e colocou de novo na televisão para mostrar a ela, eu pude ouvir mais da letra e até busquei a tradução, vez que alguns trechos não compreendi de imediato.
Porém, não foram os versos ou o ritmo que me abriram o mar de pensamentos. Foi o vínculo afetivo. O marco afetivo, na verdade. Durante o banho, enquanto o shampoo espumava na cabeça, parece que eu vi o que foi de fato meu dezembro, dessa vez em retrospecto. Foram tantas insanidades de uma vez que eu fiquei bugada por bastante tempo. Como não ficar, né? A queda na escada, os feriados e os trovões foram só o período de conclusão mesmo, porque desde o final do semestre estava eu despedaçada, colando os caquinhos de volta. E não estava sozinha. Havia meus agentes especiais grudando tudo isso junto e principalmente quando não tinha forças em mim pra isso.
Só que, pra mim, o cover que acabei não gravando ficou demarcado pelas confusões, um período mega estressante. Fim de semestre, fim das aulas, a alma já sugada pelo trabalho e pela faculdade, sem falar da operação e seu catastrófico último dia. Mas ali, naquele espaço de tempo de cantoria, tive uma pausa da vida – no quanto deu, claro. Tive também meu momento de reconexão com a Daniela, de uma relação que fomos reconquistando aos pouquinhos. Foi o meu respiro no meio de tanta loucura.
O fato é que muita coisa desandou dali pra frente e, agora, olhando o hoje e esse ontem, em retrospecção, eu tô respirando de novo. A minha cabeça não tá mais dentro d’água, em sufocamento. Até meu pé e tornozelo – e punho! – estão mais inteiros. E eu voltei a me sentir amada, segura e compreendida. Respeitada. Voltei a me sentir com a cabeça no lugar. Voltei até a sentir um ventinho pelos cabelos, com tudo tão mais leve e sereno. Ter essa visão e sensação agora tão nítidas é de um alívio tamanho.
Tanto que nem dá vontade de sair desse casulo protegido.
Mas a vida tá me exigindo sair dessa redoma e por isso fico sentada à beira da cama, considerando a mensagem de Thiago para comparecer logo cedo na empresa amanhã. Sendo que tem previsão de chuva e trovões para esta noite. Na minha cabeça, até então, daria pra lidar com os trovões e me recuperar pelo período matutino, mas se vou ter que estar lá tão cedo, talvez isso interfira... no meu desempenho.
É algo que deixaria uma pessoa na minha situação um tanto hesitante, não é? Hesitante até de sair e ver minhas criaturas preferidas.
Daí a minha ideia de faltar o almoço e me resguardar.
— A Iara vai tá lá a essa hora?
Esse é o Murilo tentando me convencer a não fazer um velório antes de tudo e ir para o almoço na casa dos Muniz. Noutro momento ele teria dispensado qualquer programação de domingo; no entanto, agora, ele acha que é uma coisa boa. Até porque a o tempo tá um nublado de sol nessa manhã.
— Não sei, acho que sim? Ela até disse que não acordaria mais tão cedo... Só não disse a referência de quão cedo isso era.
— Vocês podem fazer um combinado, ué. Posso apostar que ela iria com você, estando ou não dentro dos novos horários dela. E sim, isso seria uma gentileza, e não, não estaria atrapalhando a vida dela.
Murilo também aprendeu sobre meus bloqueios e o que dizer quanto a eles.
— Mas não tem como tu afirmar isso, Mu.
— Então vamos ligar pra ela e perguntar.
Titubeio um pouco, incerta até mesmo de fazer essa ligação. Então o Murilo se senta do meu lado e traz uma nova abordagem. Pelo jeito, também por conta dos meus bloqueios.
— Se acha que ainda não consegue fazer as coisas por si mesma, mana, o que acha de me usar de “agravante”? Pode me pegar emprestado. Vai lá e vence por mim. Hoje e amanhã.
Vez que não emito uma opinião, ele acrescenta:
— Dá pra lembrar também que tu atravessou a tempestade mais louca da temporada e conseguiu dormiu super bem depois.
Foi uma madrugada bem extraordinária mesmo. Porém...
— É, mas eu falei durante o sono.
Isso me escapa sem querer.
— E isso é tão ruim assim, Lena? Não é como se tu tivesse entregado alguma coisa. Fora que ninguém tava ali pra te exigir ou colher algo de ti. E sobre o que tu falou... Aquilo tudo eram apenas as tuas preocupações. Aflições até dentro do campo dos sonhos, que encontraram outra maneira de se esvaziar.
Permaneço quieta, sem dizer se sim, se não, sobre essa sua perspectiva.
— Talvez seja esse um momento de aceitar que isso faz parte do pacote.
A parte boa e a parte ruim vem num pacote só, disse vovó quando esteve aqui.
Mas não poderia eu só ficar nos colinhos, quietinha e encolhidinha nessa redoma... de proteção?
Só o mero pensamento de querer proteção quando eu tanto lutei pra afastar qualquer tipo de proteção me parece confuso e contraintuitivo. E talvez nem seja sobre proteção, mas sim o ato de me resguardar. Tipo usar o plástico filme pra não deixar adentrar nada que pudesse estragar o conteúdo. No caso, o conteúdo sendo eu.
— Ei, eu sei que tu consegue.
Murilo me faz acordar para a realidade ao bater seu ombro no meu, de modo que quase me leva de tão à deriva que eu me encontrava.
— Tu conseguiu em muitas... Em todas. E eu entendo teu conflito, de verdade.
— Entende? Porque tem hora que eu nem entendo... Não entendo como que uma hora tô tão certa do que quero e depois não quero nem tentar.
Meu mano coça a cabeça, também de olho na chinela que eu me recusava a calçar e caminhar para o mundo.
— É, às vezes é mega difícil encontrar o ponto da questão. É difícil também largar as nossas concepções. Mas uma vez que larga, mana, as coisas fluem de um modo até mais suave, o que até parece contraditório.
No que o Murilo ri, daqueles risos nervosos que nem são uma risada de verdade e sim só umas reações meio desequilibradas, entendo que ele esteja falando de uma experiência sua também. E nisso acho que presto atenção, mesmo que seja uma mera divagação.
— Só que a gente só percebe isso colocando em ação... Se colocando na situação.
Voltando-se pra mim, ele afirma:
— E tu já fez isso, mana. Tu foi na casa da Flávia debaixo de um céu escuuuuro da porra de chuva. Colocou plástico filme no pé. E ainda pediu pra ir na casa do seu Júlio. Tu quis arriscar. E assumiu as rédeas na hora do pé d’água. Essa Lena aparece na hora da ação. Então deixe que ela apareça, maninha.
Um pouco atordoada de como isso faz sentido, pisco pra assimilar mais dessa ideia. Porém... Lembro das consequências também. Que me parecem ser o ponto da questão de meus bloqueios.
— É, mas o que sobra pra essa Lena aqui é só dor e cansaço. Como que eu vou encarar o Thiago ou mesmo fazer alguma coisa minimamente decente naquela empresa... se eu estiver só o bagaço?
Murilo me apresenta um sorriso bondoso. Não contido, não nervoso.
O que não entendo de imediato. O que foi que eu perdi?
No que se move, é para pegar minha mão entre as suas e repousá-las na minha perna. Brando e muito certo do que pensa, ele começa:
— Essa Lena aqui... é a que vai garantir força para a outra Lena ir com tudo.
E são duas de mim? É isso mesmo, Brasil?
— Acredito que vocês vão se articular em algum momento.
E se eu... se eu e a outra não conseguirmos nos articular?
— Olha, hesitar também faz parte. É o que mais acontece em começos de algo que é difícil. Mas uma vez que se coloca em ação, pergunta-se por que não fez isso antes. Sempre tem isso. Sempre! Te digo que sim porque eu também passo por isso. E tu sempre me impulsiona a aceitar, não é? Então faço por ti.
Você fala pra mim e eu falo pra você. Como meu combinado com a I.
— Só vai. Sério. Se divirta hoje, angarie boas energias hoje. Não pensa muito não. Eu mesmo vou tentar não ser tão cuidadoso ou desesperado.
O riso nervoso dele volta, mas dessa vez... autoconsciente. Auto... aceito?
Murilo desvia o olhar e dá umas batinhas na minha mão demonstrando mais desse seu estado de pensamento.
— Viu só? Também tô com meu desafio aqui nas pernas... Então, bora, a gente se ajuda.
Me parece (mais) uma das coisas mais lindas que ele já fez pra mim – que de hora em hora tem se superado, mas tem um pontinho meu que me segura. Com cautela, pergunto:
— Eu sou o teu agravante, é isso?
Murilo se levanta, muito do agradado, e faz um carinho nos meus cabelos.
— Muito pelo contrário. Tu é meu ouro. Mas se pensar no outro te ajuda, faz, sem problema nenhum. Em algum momento tu vai pensar em ti mesma e isso vai valer pra caramba. Vai ser um ponto de virada.
Seria esse o meu verdadeiro ponto?
Perceber e reconhecer os pensamentos estapafúrdios, de estar fazendo o velório antes de tudo, também me parece ser um desses.
— Só quero que tu acesse esse ponto de virada. E pra isso, tem que dar um passo pra frente.
Minha criatura chuta um pouco da minha chinela para alinhar ela pra mim. Ver essa disposição, tanto da chinela, quanto de meu irmão, me parece algo bom.
— Tá.
— Tá o quê?
Desfaço o enlace das pernas, colocando os pés no chão. Quer dizer, nas chinelas. Não é com elas que vou sair (porque teria que colocar o plástico filme de novo e é um tanto incômodo), porém, é um ato simbólico. Um passo com elas para eu pegar o tênis.
— Tá, eu não quero te privar de sair. Nem mamãe.
Levanto e busco os tênis para calçar. Eu já tinha terminado de me trocar quando vi a mensagem de Thiago e logo depois o Murilo apareceu, também já arrumado pra sair.
De volta à beirada da cama, me detenho a outra questão, meio que só... sei lá.
— Tem certeza que não vai ter chuva pesada agora de tarde?
Murilo ri de palhaço sério que é.
— Aí tu me quebra, porque estudar o tempo é sempre uma questão de dados, e dados variáveis, junto de muitas probabilidades.
Ele passou uma vida me dizendo isso e ainda assim é complicado assimilar.
— Mas uma coisa eu posso falar com plena convicção: ontem o tempo tava muito mais fechado e tu saiu mesmo assim. Saiu, se divertiu e foi feliz. Eu só tô dizendo pra repetir a dose.
Eu que dou um sorrisinho contido dessa vez. Porque ele tem razão. Eu tava confusa e saí. Eu me diverti bastante mesmo quando achei que não dava. Tive uns momentos estranhos e ainda assim permaneci onde estava. Ri a danar com mamãe, com a fadinha, com Vinícius, seu Júlio... toda a turma.
Toda a gangue.
Se fosse para criar um grupo com eles, acho que nomearia de “gangue do bem”.
Isso me faz abrir um sorriso mais genuíno, o que o Murilo parece adorar.
— Tá bom, eu vou.
A criatura então pega o cordão que tá na cômoda ao lado, logo o que ele me presenteou há um tempo atrás, de pingente de bolinhas pretas, e coloca a minha frente para eu receber dele. Enquanto ponho em mim, meu mano busca o dele dentro da própria camisa para colocar à vista.
— Ah, só um adendo: eu tô muito pronto pra dar com o travesseiro na tua cara se for preciso.
Eu nem queria, mas desato a rir a risada mais sincera que tenho. E rio ainda mais com o complemento que vem.
— Caramba, até a adaptação dessa frase pode me colocar na cadeia. Tu tem noção?
De pé, com minha bolsa mochilinha nas costas, só alcanço o perfume pra borrifar rapidinho uma fragrância leve. Ainda pego a pulseira e o cordão do Vinícius, além dos brincos de Djane, para pôr pelo caminho, e empurro o Murilo para fora do quarto.
— Não te preocupa que eu te tiro de lá.
— É bom mesmo que tire, porque a Lia viria aqui só pra te caçar.
— Iria eu e a Lia pra te buscar.
De peito cheio e pomposo, a criatura segue pelo corredor à minha frente.
— Taí uma coisa que eu gostaria de ver. No caso, não indo pra uma delegacia e sim as duas juntas numa missão.
Mas uma voz perdida nos situa de que havia plateia para o drama de meu irmão.
— Quem vai pra delegacia?
Acuso o Murilo porque sim. Porque ele merece.
— O seu filhinho. Pelo crime de ser a coisa mais fofa dessa casa.
A criatura para no caminho da porta, com a mão ao coração.
— Eu sou fofo? Ah, é... Sou fofo sim.
E com essa discussão besta, aleatória e muito da gostosa engatada, seguimos para nosso dia de doidices da boas.
~;~
Por todo o caminho, de cantorias genuínas e casuais, fiquei fortificando o que o Murilo colocou na minha mão e na minha cabeça. Na verdade, ele e todo mundo.
Até eu mesma.
Porque lembrei do que eu disse pra Iara um tempo atrás. Eu escolho estar com você, escolho tudo o que te traz boas sensações. E as pessoas escolheram isso também. Na roda do Natal, inclusive, decidi fazer mais “algos” de que me orgulhe.
O que bate com aquilo que papai deixou para mim: quero que confie mais em si mesma. Disse também para eu “tirar de letra”, e para isso tenho que me colocar mesmo nas situações. “Tirar de letra” é até uma expectativa grande, um incentivo grande demais para um resultado magnífico demais, mas acho que ele falou isso como manifesto de querer algo bom pra mim ou de saber que sou boa demais quando me empenho em algo.
Eu que não sou lá de reconhecer isso. Me dou pouco crédito por isso.
Mas tô fazendo esse movimento de regressão, né? Uma regressão do bem para cuidar dos meus desarranjos. E tô com a orientação certa, de uma profissional certa, com o apoio dos familiares certos.
Até porque não hesito quando alguém precisa. Só que agora quem tá precisando sou eu. Se não dá para fugir de quem se é, não tem por que não respeitar meus eus, se respeito o de todo mundo. Os meus agora têm que vir primeiro, né?
Circunstâncias de baita coragem.
Somos mais fortes ao reconhecer nossas fraquezas.
E deixar que supram nossas fraquezas para ficar forte de novo.
E se for com a bagunça que eu gosto, com as doses de amor e risos leves e bestas que eu amo, melhor ainda. Até porque já não me sinto aquela despedaçada. Me retraio uma vez e outra e tenho agentes mega especiais pra me colocar de volta aos trilhos quando acontece. Como tem acontecido. Também para me acompanhar e dar pisadas mais firmes.
Afinal, não se alimenta traumas,cuida-se deles. Nem eu lembrava disso, mas o Murilo guardou essa consigo. Eu também vou guardar.
Então quando desço do carro e encontro o Vinícius vindo na minha direção, não o abraço para me esconder, nem nada do tipo. Ele também não esconde seus carinhos dos outros. Logo me beija com sorrisos traquinas e cruza os dedos nos meus para me levar ao centro da gangue.
Topamos com o Murilo na varanda, pois minha mãe já tinha fugido com dona Djane pra outro canto, e encontramos o cabeça logo na entrada da casa, removendo alguns enfeites natalinos da árvore que seguia presente e estonteante na sala.
— Meus queridos. Que bom que chegaram. Se um dos dois puder ajudar a Iara na cozinha, eu agradeço muito.
Uma voz tempestuosa vindo de lá alcança a nós todos.
— Vovô! Eu sei trocar uma lâmpada, viu? Aliás, se alguém aparecer aqui, eu vou dar com a lâmpada falha na cabeça do cidadão!
Aos risos, Murilo se faz de bobo e dá um toque no Vini.
— Não parece alguém que a gente conhece?!
Eu? Faço um bico. E devolvo a traquinagem.
— Agora sou eu que vou quebrar uma lâmpada na tua cabeça.
Meu mano tenta se sair dessa e de fininho, indo pro lado do seu Júlio, para remover alguns adornos pelas paredes.
— Eu não disse quem era, mas se a carapuça serviu... O que eu posso dizer?
Ecoo uma mensagem pra Iara:
— I, separa essa lâmpada que falhou aí, que eu já tenho candidatos pra ela.
Vinícius se manifesta na mesma hora ao se descobrir alvo.
— Mas eu não disse nada.
— Mas eu vi a tua cara.
Como quem não quer nada – além de acrescentar intrigas, sinto –, Seu Júlio derrama sobre o neto a grande fiação de pisca-pisca que ele acaba de remover da sala. Meu Vini segura, só que de olho no sacana do meu irmão.
— Não são nem 12h e o Murilo já me meteu em roubada.
Bato com o dedo na ponta do nariz do namorado.
— Tem que saber escolher bem teu time, amor.
E saio lindamente desfilando para a cozinha, serelepezinha, deixando a intriga no ar. Mas quando adentro o cômodo dos cheirinhos gostosos, já sabendo que ia ter frango, farofa e acho que purê, quase toca uma música de faroeste, com a Iara me fulminando da bancada.
— Tu não veio pra me ajudar não, né?
Eu amo uma fadinha e amo quando ela tá uma pimenta esquentadinha. Mas eu também amo a vida e por isso balanço a cabeça em negativa.
— Bom saber. Aliás, a lâmpada com defeito tá ali, caso queira usar em certas pessoas.
Iara pega uma caixinha que deixou separada e puxa uma cadeira, olhando pro teto, pra ficar certinho abaixo do ponto de iluminação em questão. Ela já tinha desligado a luz pra poder fazer a troca. Me recosto observando o jeito dela, mas também sigo na conversa.
— Eu já deixei disso, I. Prometi pro Vini ficar longe de hospitais esse ano.
— Um ótimo acordo por sinal.
— Falando em acordo... ou não tão diretamente sobre acordo...
Com um impulso, ela pisa no assento e seu corpo sobe para poder fazer a instalação. Apesar de ela ser baixinha, a cadeira faz com que alcance o ponto sem problema. Só estranho que tenha retirado a lâmpada anterior sem fazer a troca pela nova num mesmo minuto. Tipo, ela tirou a com defeito e desceu e agora subiu de novo.
Isso me distrai até do que eu tava falando. Principalmente por assistir como ela enrosca a lâmpada e termina o serviço. Logo ela tá no chão de novo.
— Pode ligar a luz?
Me movo meio destrambelhada e fascinada pelo que acabei de ver. Quando retorno e me encosto na pia onde ela lava as mãos, logo Iara me nota nesse estado curioso.
— O que era mesmo que tu tava dizendo? Sobre acordos e... Tá me olhando assim por quê?
— Assim como?
— Assim, sei lá.
— Nadinha em particular.
Ela enxuga as mãos numa toalhinha da lateral, com aquele desconfiômetro ligado.
— Milena, Milena.
— Ei, e a dona Fanny com a assistente dela, cadê?
— Não puderam vir hoje. Mas tu pode me contar o que tem nessa cabecinha. Esses olhos aí dizem coisas.
— Que tipo de coisas?
— Coisas.
— É só que admiro teu senso de independência, sabe? Tipo, trocar uma lâmpada é mega fácil? Sim, mas também me parece perigoso e eu não me meteria a fazer isso, jogaria pro Murilo, claro. Se bem que com a atenção daquele ali, não sei como ainda não tomou um choque. Enfim... É só que eu não faço isso, não troco lâmpadas, I. Mas tu faz e isso me faz pensar em fazer, sabe? Até mesmo pra simplificar as coisas.
— E por que não passa pro Vini? Porque se é pra explorar...
— Se o Murilo existe, por que eu iria passar pro Vinícius?
A voz da criatura então surge ao recinto:
— Eu desconfiava desde o princípio!
Iara se volta para meu irmão, na entrada da cozinha, que traz o outro de companhia. Aparentemente, também para ver o circo pegar fogo.
— De quê, Chapolin?
Murilo se reserva na entrada, mas aponta para nós duas.
— Vocês juntas e mancomunadas.
Iara remove alguns panos que cobriam as travessas e panelas com o almoço na mesa e no processo me coloca bem atrás dela, divertida toda.
— O último que ousou falar de mim engoliu uma muriçoca. Quer mesmo me testar hoje, Murilo?
Vinícius passa pelo amigo para vir até nós, todo amorosinho. Bem diferente do que ele aprontou ontem. Será que aprendeu a lição?
— É, cara, não pode chegar acusando assim não. Tem que dar primeiro um beijo em uma... e em outra...
Conforme fala, Vini dá de fato um beijinho ao rosto de cada uma e termina me enlaçando, abraçando-me o dorso enquanto fica atrás de mim.
— E aí desarma as duas na hora.
Vez que ele me usa pra me desarmar, eu também jogo sujo.
— É até um plano mais favorável, embora isso possa ser encarado como uma declaração de guerra. Quer mesmo estar no time do Murilo, amor?
Seguro firme o braço dele ao redor de mim e me viro para ver sua resposta.
— Aí vocês me colocam numa situação complicada.
Do outro lado, Murilo cruza os braços.
— Tá traindo o time na minha cara, é isso mesmo?
— Sou agente duplo, só isso. Atuo em diferentes frentes de batalha.
Quando a Iara dá língua pro meu mano, eu não me aguento nessa palhaçada. Quando ela passa o braço no ombro do Vini e mostra que ele é bem aceito no nosso time, vejo que não tem jeito mesmo pra esse teatrinho doido.
— Ou seja, é melhor se render, Murilo.
Ele resmunga ao receber da I as primeiras travessas de comida, para levar para a mesa da copa.
— O que eu não faço para sobreviver nessa casa, viu.
Assim que ele sai, vou pegar também os talheres e uns pratos pra ajudar a levar. Nisso, ouço atrás de mim:
— Cadê nosso pai?
Iara ri de maneira contida, meio que elaborando o que falar.
— Então... Ele foi escovar a língua depois que engoliu uma muriçoca.
— Quê?
— Ninguém mandou falar da minha camisa do Botafogo. Aliás, em algumas partes do mundo, isso se chama “carma”.
— Nessa parte do mundo, acho que isso se chama “e uma botafoguense aqui se criou”.
— Amei? Vou já falar pra ele! Valeu, irmãozinho!
Logo após um beijo estalado, Iara passa por mim feliz da vida em sua camiseta de Botafogo. Sim, aquela que o Murilo deu de presente.
~;~
Eu sei que tá tudo muito bem articulado pra mim quando nos espalhamos todos pela sala após o almoço e a mesa de centro está plenamente coberta por um montante de fotos. Fotografias da Iara. A geração dos mais velhos então – vulgo seu Júlio, Filipe, Djane e mamãe – logo se entregam demais em seus risinhos curiosos.
Mamãe é a primeira a pegar uma das fotos e cochicha algo pra Djane.
Ainda de pé, vislumbrando como a família vai encontrando seus lugares, me viro pro Murilo. Porque foi por isso que ele insistiu que eu viesse hoje, tenho certeza. Porque eu teria feito isso por ele e pelos outros. Teria arquitetado algo para recarregar as baterias, rodeado de suas pessoas favoritas.
Engenhosa, fulmino a criatura pra assumir.
— Tu sabia disso, não sabia?
— Claro, fui o cabeça da ideia.
Mais atrás, a Iara protesta. E seu irmãozinho endossa.
— Que mentira, Murilo!
— E põe mentirada nessa.
Meu irmão coloca as mãos na cintura, voltando-se para o Vinícius em específico.
— Tu tá traindo o movimento de novo, cara?
— Tu me traiu primeiro!
— Quem disse?
Viro-me pra eles pra tirar logo toda a informação do plano.
— Então o acordo é vocês se engalfinharem na minha frente, né? Porque eu só tô esperando isso. Bora, bora, agilizem.
Até bato uma palminha de incentivo, à espera da próxima cena dramática deles. Mas os três ali se unem. E o Murilo joga essa pro Vinícius:
— Ela não sabe brincar, né? Violenta toda.
Meu Vini, com amor à vida, protege-se.
— Prefiro me abster. Tudo o que eu digo ou faço tá sendo usado contra a minha pessoa.
Só pra agitar mais meus agentes, solto mais uma engenhosidade:
— É, mas na hora de me beij...
Murilo intervém, colocando-se à frente dos outros:
— Parou, parou! Bora só ver foto de gente bonita, só isso. Bora.
E me empurra para o sofá, onde mamãe dá um gritinho e levanta uma foto ao ar como se tivesse achado um bilhete premiado.
— Olha essa que eu achei, Milena!
Quando vou conferir, nem eu acredito. É a fotografia que o vô Júlio tirou de seus netinhos fazendo algazarra para proteger a comida da ceia. É a foto do Vinícius com a vassoura na mão, olhando pro teto por conta de uma borboleta, e o Murilo abaixado. Eu, tipo, AMO essa imagem. A minha expressão entrega logo. Que sim, é como um bilhete premiado.
Só que o Vinícius não pega bem o sentimento da coisa.
— Ainda não entendo como tu pode gostar tanto de mim com essa vassoura na mão.
Mas a Iara...
— Ah, eu entendo.
— Não acredito que tu imprimiu essa, I. Ela tá aqui na minha mão e eu não acredito.
Dou um abraço esfuziante na minha amiga e alguém já vem atrás, com ciúmes.
— Eu fiz tudo e nem crédito levo e nem abraço ganho. É mole?
Eu já ia pular da I pro Murilo quando o vô Júlio chama a atenção do netinho numa coisa:
— E a caixa, Murilo? O que tem a caixa?
— Eita, a caixa!
Meu mano vai pro outro lado da sala, na penteadeira onde fica um grande espelho. Vai num pulo e volta em outro, colocando o presente na minha mão.
Fico uns segundos só piscando, sem entender. Que a caixa é pra mim.
A caixa que o Murilo trouxe é pra mim.
Quando viemos para a casa do vô-sogro, Murilo saltou do carro com uma caixa ao estilo presente. É até um pouco grandinha, dessas que é aberta em cima, pela tampa, com laço de prata e tudo. Não vi quando ele colocou no carro e não vi nada durante o caminho. Ele também não disse um A sobre isso enquanto seguia na frente pra entrar na casa. Quando eu fui encontrar a Iara na cozinha, depois da ameaça sobre as lâmpadas, ouvi de longe o vô Júlio perguntar sobre a caixa e meu mano falar que era algo para depois do almoço, que todos iriam descobrir.
E quem vai abrir sou eu.
— Já passou o Natal, Murilo.
Antes que meu irmão desse uma respostinha, o restante da família se junta para intervir, por conhecer a gente bem demais.
— ABRE LOGO!
Com um pedido tão gentil desses, né, puxo a tampa. E acho que meu rosto se ilumina. Sei que abro a boca, estarrecida. Porque são outros achados únicos, fotografias do casamento do enfermeiro bonito com a turma toda!
Bom, não vejo a fuça do Gui de imediato, mas se foi o Murilo que fez a curadoria, ele com certeza tirou aquelas com o Aguinaldo no meio.
Vez que a Iara gruda em mim pra espiar do que se trata, puxo a fotografia de cima para colocar ao lado do meu rosto e apresentar pra todo mundo o Murilo e o Vinícius de terno e gravata. E não apenas estando lindos, mas fazendo graça pra câmera com os apetrechos que ganharam na festa. Acima da cabeça do namorado, estava uma cartola colorida, e da cabeça da criatura, uma coroa de rei.
Lembro que eu fiquei com uma tiara de princesa e disse lá que era porque ser rainha envolve responsabilidades demais e eu não queria mais nada na minha conta naquela noite.
Mas a melhor parte nem são as fotos, é o comentário do vô Júlio ao capturar a imagem de mim, bem sério:
— E o vídeo? Eu soube que tem um vídeo.
É assim mesmo que se recarrega as baterias, Brasil!
Com os familiares certos que te conhecem do jeito certo, que sabem onde te apertar e te fazer se soltar, com uma maneira gostosa de cuidar, bem nos seus detalhes. Entendo que fazem isso pra mim e por mim, como muitas vezes fiz por eles, que também tiveram muitos dos seus dias – semanas, meses, anos – difíceis. Eu fiz e agora eles fazem. Minha parte agora é só sentar e curtir o que eles, meus agentes especiais, têm pra mim.
E eles têm muito pra mim. Têm fotos, histórias, risadas altas e pérolas, para além de abraços, beijos, picuinhas, traquinagens e chamegos. Tudo isso bem acompanhado de – surpresa! – gelatina e músicas no Youtube.
Eu amodoro essas pessoas!
~;~
Ver o vô-sogro sentadinho na sua poltrona, de olhos fechados e de sorriso gratuito na cara, é mais do que um sinal de que passava da hora do seu descanso pós-almoço, e que se permanecia ali, junto com a gente, era porque não queria perder a algazarra de sua “meninada” fazendo barulho. Ele já nem mais piscava de sono, já tava era quase entregue ao cochilo mesmo.
Acontece que esse senhorzinho já não tem lá mais idade ou disposição para acompanhar nosso ritmo; precisa de tempos em tempos fazer pausas. Mas ele quer entender isso? Ou melhor, quer obedecer a esse ritmo? Enquanto tem gente na casa, seu Júlio quer porque quer estar no meio.
Tem domingo que é até fácil levar ele para o quarto, mas tem dia, como esse, que é uma batalha. De modo geral, a gente já costuma se articular para amenizar os ânimos e não chamar tanta atenção dele, para que vá sossegado, achando que não vai perder nada, porém, como hoje tá uma baderna só, de histórias, conversas animadas e gaiatices sem fim, não estamos facilitando tanto assim pro Filipe, que é quem costuma levar esse malandrinho pro quarto.
Eu nem queria rir, mas é fofa a resistência do vô-sogro. No caso, o motivo dela. Mas, assim como os outros, seguro o riso, porque Filipe tá lá, no pé dele, de novo.
— Pai.
— Tô aqui e tô vendo tudo.
— O senhor sabe que tá na hora.
— Quando for a hora, eu vou.
Vez que Filipe, de mão na cintura, fica sem ter o que dizer, Djane se levanta pra tentar também. Ela chama o velhinho casca dura pelo nome em tom de repreensão.
— Júlio.
— Só tô descansando os olhos.
Queria poder admirar a conexão Filipe e Djane se ajudando nessa, tal qual Vinícius comentou no outro dia, mas não dá tempo, pois a fadinha se levanta também pra colocar juízo nesse espertalhão.
— Vovô! O senhor prometeu!
Ele nem se mexe quase, a não ser as sobrancelhas, como um grande mestre em silêncio. Filipe então tenta puxá-lo pela mão.
— Pai... anda. Bora.
Atrás de mim, o Murilo sussurra pro Vinícius, ao seu lado:
— E aí, aposta em quem dessa vez?
— Essa tá difícil. Antes era só a Iara falar que ele ia sem problema.
Eu deito a cabeça no alto do encosto do sofá pra me meter na conversa.
— E por que tu não tenta, Vini?
— E ele lá me ouve? Só atende quem ele quer.
Taí uma verdade, penso comigo. Fora que para convencer um trambiqueiro desse naipe, tem que apertar ele no ponto certo. Ou seja, num interesse direto dele. Assim, sem mesmo sair do sofá, testo uma abordagem:
— Se o senhor for agora, vai dar tempo de pegar nossa saída.
Isso faz o homem abrir os olhos na mesma hora, Brasil!
Não só abre, como se apruma devagar para se levantar e aceita o suporte do filho como se não tivesse acontecido nada. Como se não tivesse rolado nenhuma birra.
Filipe até ri de como o pai parece criança – que, nessa idade, é mesmo uma criança de grande idade – e me solta um “valeu” sem som quando coloca esse picaretinha de pé. Mas quando estão se encaminhando pro corredor, ousa o sogrinho questionar esse fato extraordinário.
— Ela o senhor ouve, né?
— Argumentos, comigo é nos argumentos.
Assim que eles somem de vista, eu jogo um novo argumento para quem fica:
— Já que ganhei essa, tô livre do cantinho do pensamento, né?
Vulgo cuidar da louça do almoço. Mas antes que o Murilo abra a boca, seu Júlio retorna à sala só para me conceder esse desejo e dar seu veredito:
— Os três meliantes já podem seguir pra cozinha, porque esse aqui também tem que ir descansar.
“Esse aqui”, no caso, é o Filipe, que preparou o almoço da vez e agora torna a puxar o senhorzinho seu pai para o caminho do quarto. Já os três meliantes de que seu Júlio fala se trata do Murilo, Vinícius e da Iara, que estavam fazendo de um tudo hoje para perturbar meu juízo com gosto.
Não que eu estivesse reclamando – pelo contrário, estava amando as picuinhas.
Pelo que a I revelou, essa foi a ideia dela, baseada em acontecimentos reais e recentes: a minha expectativa de ver a briga dela com o Vinícius no dia de virada de ano, por conta do atraso dele, e também ao saber do meu divertimento pessoal de assistir a confusão do Vini com Djane na porta de minha casa. Só que ao contar isso, basicamente fiquei “exposta” e o vô Júlio quis me proteger.
O que nem precisava, porque a depender de mim, eu que tocaria o terror ali. Mas esse foi o jeito desse velhinho matreiro se meter na muvuca também.
Nem preciso dizer o quanto ele amou o vídeo da famosa dança de Locked Out Of Heaven e pentelhou seus netinhos para dançar de novo. Murilo e Vinícius foram se saindo, contando a velha história de ser uma coisa única da vida, que ele tinha era um baita privilégio de chegar naquelas imagens e ter roubado para si umas fotos para o acervo pessoal.
Sim, foi nesse nível.
Eu poderia ter entregado sobre o que presenciei naquele 31 de dezembro na sala de minha casa, em que um nsynquer se criou lá? Poderia. Porém, de bondosa que sou, eu disse que tinham razão e que seu Júlio conseguiu tudo num dia só. O quanto eu fiquei atrás dessas fotos, eu já tinha até desistido.
O Murilo depois soltou que quem teve a ideia de uma reunião de fotos foi a Aline, o que combina com um hábito meu de rever clicks em dias bem ruins (algo que eu sei que ela sabe) e com a mais nova fotógrafa da família. Mas foi o Murilo que foi atrás de uma rede social do Diogo e lá encontrou várias fotos. Na época da festa, eu também fucei por lá, só que como ele demorou a postar, não pude conferir quando saíram e isso apenas passou por bastante tempo.
Meu irmão foi também no shopping para imprimir as fotos, algumas em variadas dimensões e algumas também já em porta-retratos – por isso a caixa que guardava era grandinha. Em adendo, isso harmonizou bem com o outro plano da Iara, que já estava com as fotos da festa de virada de ano, muitas para distribuir. Assim, essas criaturinhas se articularam.
E é claro que logo guardei aquela do Vinícius com a vassoura na mão.
Preciosidades, né? Preciosidades espontâneas.
E falando em espontaneidade, Murilo logo se manifesta quanto ao canto do pensamento e o que lhe esperava lá:
— Eu também sou visita, tá?
A Iara, para seu muxoxo, usa (parte) do meu argumento:
— Bora, que começando agora, a gente termina cedo.
Ela basicamente empurra a criatura, que se mexe a muito custo, resistente.
— É impressão minha ou a Iara anda muito mandona?
Respondo a favor da fadinha porque sim.
— É impressão sua.
E aí mando um beijinho ao ar pra ela, o que faz o Vinícius resmungar, enquanto segue a irmã.
— Aí se eu reclamo disso, quem vai pra fogueira sou eu.
Sobra somente eu, mamãe e Djane. A sogrinha vem logo pro meu lado.
— O que tu anda fazendo com esses três, hein, Milena?
— Tudo intriga da oposição, como a senhora bem viu e ouviu o seu Júlio falar.
Vou dizer que não?
— Hmmmm. Melhor pra mim e pra Helena, de qualquer forma. Porque eu tenho uma incumbência para você, mocinha.
Djane dá uma batidinha na minha perna, toda entusiasta. Me surpreendo com essa, ainda mais que as duas parecem muito juntinhas, com novos planos arquitetados. Penso com meus cordões no que podem elas aprontar comigo a essa altura do campeonato.
— Incumbência, é? Parece sério.
Mamãe intervém, deixando o controle da televisão no meu colo.
— Nada, é facinho. Aposto que vai tirar de letra.
— O último que me falou isso me colocou só pra subir o monte Everest.
Sim, pai, estou falando do senhor.
Dona Helena me alisa o cabelo, muito da mansa e eu não sei mais o que esperar.
— Garanto que não é nada que não saiba. É só para apresentar oficialmente a tal da... Pink, certo? Apresentar ela pra Djane, do jeitinho que tu e a fadinha me apresentaram a Avril e depois aqueles... É, eu não vou lembrar o nome daqueles grupos.
Balanço meus pingentes ao cordão, resolutiva.
— Isso eu posso fazer, de fato.
— Tava falando com Djane que tocou essa artista no carro e achei a música uma gracinha. Meio doidinha, mas interessante.
— E acho que essa é a sensação de muitos em relação à Pink. Tipo, ela é da zoeira, encrenqueira, maluquete mesmo das ideias. Não sou por exato uma especialista ou mega fã, porém, tenho algumas referências dela.
Pego o controle da televisão para ativar o Youtube de volta lá. Como a gente teve que colocar o vô-sogro pra ir dormir, tivemos que remover as músicas e também deixar o canal local com volume bem baixinho para aquele pilantra não voltar de novo.
Djane se ajeita no próprio assento, com uma almofada ao colo.
— E por que o nome dela é Pink?
— Sabe que eu não sei? Tenho a impressão de que é para quebrar estigmas, porque ela não é nada do que as pessoas costumam esperar de uma mulher. É, aliás, o que gosto nela... A quebra de expectativas, sabe? Uma adversária bem potente em relação a outras cantoras pop, como Britney Spears e Christina Aguilera.
— Dessa Christina que tu me falou dia desses, né?
Porque horas antes de conhecer a terapeuta Cristina, estava eu ouvindo a Christina.
— Aham. Ela tem umas músicas que dão o que pensar. Da Pink acho que nunca parei pra ver as letras. Só sei que envolve um espírito beeeeem traquina.
Recordo o que a Iara me falou ontem sobre certos versos e fico indecisa sobre buscar na barra de pesquisa do Youtube os videoclipes com tradução. Mas considerando a experiência anterior com mamãe, acho melhor apresentar o conteúdo, não só os clipes.
— Então, vamos começar do começo com Get The Party Started. Ou seja, que “comece logo essa festa”. Juro pra vocês que é esse o título.
Logo a Pink domina a tela da televisão e Djane fica vidrada.
— Ela tá com o cabelo rosa!
— Ih, verdade. Não tão rosa, mas um pouco sim.
— “Maluquete” resume bem. Olha essas caras e bocas, Helena!
— Tô vendo o porquê da Milena falar dela como encrenqueira.
— Parece com alguém que a gente conhece, né, Helena?
Eu não poderia ameaçar a sogrinha com uma lâmpada na cabeça, podia? Então faço meu drama.
— Se tão falando da minha pessoa, eu vou levantar, porque já é a segunda acusação só hoje!
Djane vem com a almofada grande pra cima de mim pra me impedir de sair.
— Levanta nada porque é isso que a gente gosta em ti.
— Isso porque falam que é para eu parar de encrencar com as coisas.
Mamãe me belisca a cintura, sabendo que tô fazendo graça. Mas mesmo assim quer levantar minha moral.
— O que acho que a Djane quer dizer é que você tem esse espírito vivo e não deixa pedra sobre pedra na hora de agir. Vai lá e faz e ai de quem se meter contigo.
— Agora sim estão melhorando. Podem continuar.
Djane também já sacou que persisto no humor sacana.
— Acho que a Helena já resumiu bem.
— Vou dizer que aceito porque já sei qual é a próxima.
Coloco “Don’t Let Me Get Me” assim que a outra termina.
— Essa que eu lembrava do cabelo rosa.
— E o título, o que significa?
— Algo como... “não deixem eu me pegar”.
As duas se viram pra mim com a interrogação na cara.
— Assistam para entender.
Dessa vez elas se viram mesmo para a televisão e para a narrativa da Pink de não gostar de si mesma a ponto de ser uma encrenqueira que briga consigo própria. Briga com a própria imagem, dá um soco no espelho da escola e o verso do título aparece como “não me deixe comigo”, que é uma tradução melhor do que a minha para capturar a ideia.
Também lendo um dos versos traduzidos na tela, Djane faz uma observação:
— Ela quer ser outra pessoa.
— Parece alguém?
Não é mera provocação como antes, porque não falo isso com tom espinhoso, falo é no sentido de instigar mais da percepção dela. Só que a Pink também me instiga quando canta o refrão e diz “eu sou a minha pior inimiga” e então “não quero mais ser minha amiga, quero ser outra pessoa”.
Apesar de a música falar sobre autoestima quanto a imagem e as expectativas e exigências do mercado da música, me pego pensando sobre essa ideia de não aceitar os seus próprios traços e ser carrasca consigo mesma. Algo que faço – e muito.
Mergulhada nesse entendimento que vem como uma epifania, parece que me encontro numa redoma que me sussurra uma lista dessas coisas. Como o fato de que não costumo me dar os créditos das coisas. Que posso parecer bastante confiante, mas não confio em mim e que ainda luto para confiar nos outros.
Como a Cristina mesmo apontou – a terapeuta, não a artista –, eu não tenho “cantado” minhas vitórias. Eu deixo passar. Eu sempre acho que não é lá essas coisas, que não é grande coisa. E eu falo isso para as pessoas. Eu digo isso com todas as palavras e letras. Logo eu que tento de um tudo para fazer a vida dar certo. Logo eu que aponto isso também às outras pessoas.
Nunca foi modéstia e nem tá perto de ser alguma presunção. É o simples espírito carrasca de ser. Que, como num estalo, ficou nítido demais pra mim.
Já Djane, vidrada na história na tela, ela comemora quando a Pink sobe ao palco e assume a forma de várias pessoas – ou várias pessoas assumem a sua forma e o conflito dela. Depende da interpretação.
— Ela conseguiu ser ela mesma!
Em conformidade, mamãe também atesta sobre essa narrativa:
— E não a Britney.
Então elas basicamente conversam, comigo bem ao meio, literalmente entre as duas, como as amigas de coração aberto que são. Djane puxa a questão que começou tudo isso – sua perspectiva sobre o acidente capilar – e a correlação que encontrou com a história da Pink. Inclusive, toca nas próprias madeixas, mostrando mais de seu conflito pessoal.
— Mas se eu antes não gostava desse cabelo rosa... Gostar dele agora seria uma maneira de agradar outras pessoas?
Mamãe a observa melhor, de maneira curiosa, mirando mais detalhes de Djane.
— Agora que você passou a gostar... e não mais a esconder, parece que ele te dá um brilho diferente. Então se gosta... e de verdade... não acho que esteja agradando.
A sogrinha fica um tempo encarando as pontinhas rosadas. Daí mamãe mesmo se complementa:
— Parece que está na verdade se permitindo... Se permitindo algo diferente e inesperado. A opinião dos alunos só te ajudou a ver isso, Djane, porque antes parecia algo absurdo. Pra mim também pareceu absurdo quando aconteceu. E agora tá tão bonito!
— Não tá dizendo isso pra me agradar também, está?
— E eu lá digo algo só pra agradar? Diz pra ela, Milena.
Mamãe me cutuca e eu confirmo, mesmo que me encontrasse meio dividida entre os meus conflitos e os dela. Acabo não dizendo muito e minha mãe preenche o restante.
— É tudo isso que ela falou, acho.
— Como a Milena disse no outro dia... Se for da tua vontade, pode voltar à cor anterior. A questão é: você quer? Porque também pode.
Djane dá uma titubeada, movendo os olhos de maneira vaga. Já que não temos uma resposta direta, mamãe me rouba o controle remoto e aperta play para o Youtube prosseguir com um novo clipe.
— Vamos para o próximo enquanto ela pensa.
Para nossa sorte, o Youtube sugere um vídeo traduzido. Não é o clipe oficial, mas é da música que tocou no carro mais cedo. Como eu não quis manter o clima de contenção de dano com meu mp4 ou pen-drive, pedi pro Murilo sintonizar numa rádio. Tocou umas variadas de modo bem disperso, de Bruno Mars a Linkin Park, e então essa “So What” que aparece na tela. Acho inclusive que nunca vi o clipe.
— A música do nanana nanananah! A que tava tocando no carro!
Mamãe se agita, indicando a televisão. Djane também se anima e as duas se empolgam com os primeiros versos, com a Pink falando sobre perder o marido de vista, gastar dinheiro sem dar conta dele e estar no ponto de arrumar briga com o primeiro que aparecer. Vez que dá pra ver que o próximo vídeo é o do clipe verdadeiro, aviso que vou ao banheiro e deixo elas curtindo esse momento de descobertas.
Também estava tendo as minhas, mas tenho pra mim que Djane precisasse ter isso com sua outra amiga. A real é que, do jeito que elas ficam quando me retiro, dá pra ver que nem vão dar por minha falta. Iria só passar no banheiro e atazanar minhas criaturinhas. Mas antes de entrar, meu celular faz um bipe diferente, um barulhinho que conheço sendo notificação do meu e-mail. Na porta do banheiro, por reflexo, confiro a tela do celular só pra me certificar do que era, pois pensei que poderia ser algo do Thiago.
Só que não é.
aguinaldovi@gmail.com
Aguinaldo Villaça
Não vou tomar teu tempo
~;~
Continuo a respirar, continuo a encarar a tela, certifico-me.
Segurando o aparelho ao rosto, mantenho-me quieta no corredor, apenas ouvindo as conversas baixas de Djane e minha mãe na sala, e uns poucos burburinhos da cozinha, com os clássicos barulhos de louça e torneira ligada. Para todo caso, checo a minha direita e, não, ninguém à vista.
Eu vou mesmo fazer isso? Pergunto-me.
De passos quietos, sigo o corredor até dobrá-lo e ali ficar, para não topar mesmo com alguém. Torno a olhar a tela do celular e outra vez confiro como está meu estado. Respiração ok, coração ok. Sem tremores, sem suores. Sem sensação esquisita.
Não vou tomar teu tempo.
O último e-mail que recebi assim, da Flávia, deixei tempo demais na minha caixa de entrada. Não que me arrependa. Li no momento certo, mesmo que o Murilo ou Vini não fossem a favor. Eles não queriam mesmo me ver quebrada por um contato desses e entendo isso. Mas o e-mail acabou sendo uma reviravolta intensa, não só por suas revelações, mas por como impactaram na minha força de querer mudar certas realidades. Me fez ir com tudo atrás da Flávia. Me fez aceitar a história da Flávia.
Só não perdoei a Flávia. Mas sei que em algum momento vou.
Não tenho é como afirmar isso sobre ele. Tampouco quero deixar esse e-mail vagando em meus pensamentos por dias e semanas inteiras. Também não acho que não há nada que vá me fazer ir com tudo atrás dele. Eu já sei muito sobre sua história, de sua família, e disso eu quero distância. Quero distância de tudo sobre ele.
O quanto puder ficar longe de confusão esse ano, fique.
Ficarei. Aliás, é uma decisão consciente, sensata e sóbria. Firme. Poderia estar do jeito que fosse, no lugar que fosse, não tenho vontade alguma de fazer algo por ele.
Tenho por mim. De eliminar logo isso, por mim.
Posso até eliminar de cara esse e-mail, jogar para a lixeira e de lá apagar. Posso fazer isso se eu quiser, como se não tivesse existido. Como se fosse um papel que rasgasse em pedaços e então tocasse fogo, para não sobrar nada além da memória em cinzas. Ainda mais que ele foi esse ousado de tentar contato quando deixei claro que não haveria mais isso entre nós. Vai ver achou que o fato de eu ter lido o e-mail de sua namorada era uma chance de algo. E com esse título então... Nem sei que adjetivo mais lhe dar.
Algo em mim, no entanto, quer ver o conteúdo, só pra me despedir de vez. Para não ser tola mais uma vez, de ficar sem respostas – se é que aqui reservou ele alguma resposta. É algo como descargo de consciência. Só conferir, de maneira fria e prudente (a mim), isso que ele me apresenta.
Então... Vamos ver mesmo se não vai tomar meu tempo. Clico para abrir.
Milena,
Diante da impossibilidade de qualquer conversa, envio este e-mail na esperança de que possa lê-lo. Não vou tomar teu tempo, juro.
Entendi que perdi minhas chances com você. Assumo que fui além e que fui avisado. Não sei nem mesmo como me perdoar por isso, se existe um modo de se perdoar. Mas isso não é com você, então vou deixar quieto.
Melhor, eu não vou mais te importunar com nada. Não precisa se preocupar com minha presença por perto. No que eu puder, eu vou me retirar.
Espero que fique bem. Te desejo o melhor.
Aguinaldo.
— Lena?
— O-oi.
Salto de repente da parede, onde me encontrava escorada sem perceber. Muito menos percebi que alguém se aproximava e que esse alguém era o Vinícius. Seu semblante ligeiramente confuso deixa uma nova questão ao ar e acredito que meu estado de desnorteada é uma resposta óbvia para ela. Mas ele pergunta outra coisa, como quem investiga primeiro para poder tirar suas conclusões.
— O que tá fazendo aqui... sozinha?
— Eu... Errrr... O que tu tá fazendo?
Eu sei que ele notou algo estranho e diferente, eu só não sei por que eu tô reagindo destrambelhada assim. Quer dizer, não é como se eu fosse esconder dele isso. Não é, Milena? Pode ser só o susto mesmo.
Vinícius mostra o que ele detém às costas, uma raquete elétrica.
— Vim buscar a raquete que tava no quarto da I... Tem muito mosquito na cozinha. Agora me diz por que você tá assim.
Pisco, de repente arfante.
— Assim... como?
Pergunto mais para saber o que estou demonstrando, como uma maneira de avaliar minha própria reação. Mas o Vinícius entende de outra maneira e, no que responde, é deixando isso claro. Que ele acha que eu tô enrolando.
— Lena...
Num impulso, revelo:
— Só estava lendo um e-mail.
— Escondida.
— Não escondida. Só... fora de circulação.
— É essa a sua resposta?
— O que acha que eu estava fazendo?
— Eu não sei, por isso perguntei. E agora você tá assim, na defensiva.
— Eu tava lendo um e-mail. Que recebi ainda pouco. E você me assustou, chegando na surdina assim. Eu só... hmmm... preciso retomar o fôlego.
Vinícius leva a mão livre ao meu rosto, fazendo um carinho.
— Desculpa se apareci do nada. Só não te vi nos outros cantos da casa. Ia ver se estava no quarto de hóspedes, se tava precisando de algo.
Aquela frase do Murilo ressoa de novo na minha cabeça. O quanto puder ficar longe de confusão esse ano, fique. Assim, encaro apenas o colarinho da camisa do Vini, que continua bem próximo de mim.
— Obrigada. E desculpa.
— Não precisa se desculpar, amor, eu que... eu não quis... não era pra...
— Eu tava mesmo lendo um e-mail.
— Tudo bem, eu sei que eu exagerei, como se tivesse... Foi mal, não era minha...
Focando novamente em seu colarinho, aperto o celular em minhas mãos, no espaço entre nós, e sou determinada em dizer:
— Vini, me pergunta do e-mail.
— Como assim, do e-mail? Olha, não precisa me mostrar nada, tá? Eu acredito em...
— Vini, pergunta do e-mail.
— Por que tá falando desse e-m...?
Então levanto o aparelho ao seu rosto e ligo a tela, para que veja não só o título e o corpo de e-mail, mas também o remetente. Assim que ele vê e entende, fecha os olhos e abaixa o rosto, pendendo a cabeça.
— Lena...
— Como eu disse, eu só tava lendo um e-mail. E você me assustou quando apareceu. Mas eu não ia esconder de você.
Ele levanta o rosto, de repente.
— Por que leu?
— Porque...
Abaixo o aparelho e solto uma lufada de ar, buscando as palavras. Acabo encarando-o, pois quero deixar bem claro as minhas intenções com isso.
— Porque não queria isso em meus pensamentos, não depois de ver a notificação. Porque quis eliminar logo da caixa de entrada. Porque quis... tirar o peso de significados.
Vinícius morde os lábios com força, ouvindo e assimilando minhas razões.
— Eu sei que poderia ter apagado de imediato, mas eu quis me livrar do jeito certo: não ignorando a existência da mensagem. Acho que já passei dessa fase. Entende?
— Vai contar pro Murilo?
— É claro que eu vou contar pro Murilo. Em casa. Mas não contar tá fora de cogitação.
— Que bom.
Ele vira o rosto de lado e leva a mão livre ao pescoço, apertando a própria nuca, desconfortável. Assim, chamo-o para que se vire pra mim.
— Vini.
— Tudo bem, Lena. Eu acredito em você.
— Vini.
Ele meneia a cabeça, persistindo em ficar de rosto virado, no caso para o corredor. Além disso, fica com um mão na cintura e a outra pensa, segurando a raquete, pendurada.
— Eu tô incomodado, só isso. Não com você... Nunca com você. Acontece que não esperava isso dele. Que adivinhou que no e-mail você não teria bloqueado ele. Ou só tentou a sorte. Mas tentou.
Puxo-o delicada pela camisa, para ver se ele torna a virar pra mim.
— Ele pode ter só seguido a ideia da Flávia, o que também não me importa.
Nesse aspecto opinativo meu que ele vira de volta.
— Não?
Toco-o seu rosto, para que se desarme.
— Me pergunta como estou, não o que vou fazer ou deixar de fazer com isso.
O peso parece decair de seus ombros e braços.
— Tem razão. Como está? O que tá sentindo?
Tomo um fôlego longo e o sopro devagar, outra vez buscando as palavras.
— Eu não sei, para falar a verdade. Porque não tô sentindo nada de tão concreto. E eu tô inteira, sabe? Eu tô bem, eu acho. Me sinto bem. E sinto que isso não mudou nada. Nada além de que agora posso sossegar meus pensamentos... e saber que ele vai estar afastado. Que ele não vai mais insistir. Que não vai ter briga. É bom saber disso.
Ao passo que divago um pouco, Vinícius se faz presente e me toca o rosto novamente, encostando sua testa na minha. Eu continuo:
— É bom saber que... ele tá sentindo coisas. E eu preciso que ele sinta isso, todas essas coisas. Mas eu já não sinto. E isso é bom, eu acho. Não sei.
Rente a mim, roçando o seu rosto no meu, Vinícius se lamenta.
— Desculpa... Desculpa pelo modo que agi, como fui incisivo, como... exagerei.
— Eu entendo, eu acho. Mas você me entende?
Sondo-o e ele abre os olhos para mim, penoso.
— Entendo. Desculpa mesmo.
— Tudo bem. Tá tudo bem de novo. E não há nada grande ou tão novo.
É isso, não é lá uma grande surpresa, nem lá uma reviravolta e ter sido assim “tranquilo” me faz apreciar esse sossego, assim como a presença do namorado e seu rosto tão rente a mim. Seguro-o de maneira carinhosa, traçando o polegar à sua mandíbula, que ele luta para destravar. Pra ajudar nisso, alargo a boca num sorrisinho fraco, pra ver que o pior já passou mesmo.
— Obrigada por ficar aqui e perguntar. E entender. E me ouvir.
Sua resposta é ele me envolver com o braço livre, me beijar o rosto e me tomar o lábios de maneira lenta. Um toque de amor e cuidado, sendo ele meu abrigo. Recebo-o e o correspondo na mesma medida, meio em quietude, meio em alívio, aninhada nele.
Ficamos assim tão entregues que quando nossa bolha é estourada, nós estreitamos ainda mais o abraço.
— Muuuuuuito bonito vocês aí, hein? Eu disse que era pra eu vir pegar essa raquete, eu disse!
Sei que o Murilo resgata o dispositivo do Vinícius porque seu puxão reverbera em mim e o Vini nem protesta, só me envolve mais para que a culpa nem recaia sobre mim.
Ao menos depois a criatura nos deixa a sós novamente, apesar de fazer questão de anunciar para a casa toda:
— Quem é o meliante agora?!
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