Notas iniciais
Dessa vez, não foi culpa do Murilo, só da vida mesmo. Finalmente CHEGOU O MOMENTO DO CAPÍTULO GIGANTÉRRIMO, ILUSTRE E LINDÃO DE EMOÇÕES. Cortesia da peste mais amada. Bom de-lei-te! P.S.: FORAM MAIS DE VINTE PÁGINAS! Revisei só umas 397298999 vezes e cada vez entrava mais texto XD P.P.S.: Também fiquei chocada com muitas dessas informações =O

Me sento na cama no modo ninja de agir – com o coração agitado, mas silenciosa e meticulosa em cada movimento para não chamar atenção. Tateio o local de tudo que é jeito e permissível para passar despercebida, mas não consigo achar meu celular pelo escuro e nem sei onde foi parar o mp3, que dirá os fones de ouvido.

Desde que o meu abajur morreu, há meses, eu quis experimentar viver sem a luz baixa e só agora dou realmente por falta. Se não fosse um relógio digital na mesinha e sua luzinha vermelha planando as 3h37 da madrugada, não teria como saber que horas são.

Merda de trovão que não troveja, merda de trovão que não acaba logo com isso!

Porque não sei quanto tempo mais aguentaria isso sem pifar.

Estava acontecendo sem propriamente acontecer. Quer dizer, a chuva não caiu e nem trovões foram ouvidos até então. O climinha havia mudado, estava cada vez mais frio e nublado. O tempo não estava tão carregado quando o Vinícius veio me deixar, mas carregou um bocado depois que ele saiu. Então a noite se resumiu a esperar o inevitável. Por mais que um e outro – no caso, mamãe e Murilo – me distraíssem, a agonia da ansiedade retornava a qualquer minuto.

Como agora. Só quero sair da cama, o mais rápido possível.

Deslizo a mão pela lateral do móvel até achar a bota protetora. Sinto que deveria colocar a tornozeleira depois de fazer o primeiro teste, porém, sem luz seria complicado ajustar as fitas. Isso porque também não saberia dizer onde a tornozeleira estaria depois da baguncinha que fizemos no meu quarto.

Porque nem Murilo e nem mamãe saíram do meu lado. Me dispersavam, conversavam, não falavam sobre a grande questão. O cabelo rosa de Djane acabou suprindo muito do papo e de alguma maneira chegamos no assunto da bota e da tornozeleira.

Que eu poderia ao menos testar, pra ver como ficaria no meu pé, como seria eu de pé com ela. Porque eu já tinha ficado de pé sem nenhum material ortopédico antes, então não seria nada mal só colocá-los no chão com a tornozeleira. No caso, eu sentada na cama e os pés no chão. Foi o que permiti diante do cenário.

Vez que quero – preciso— me movimentar e com bastante liberdade, no momento a bota é ainda minha segurança, por ser algo já conhecido.

Apesar do exaspero para sair, me levanto com calma, porque não quero ninguém atrás de mim. Numa coisa acertaram dessa vez: o colchonete do Murilo ficou no espaço entre minha cama e a mesinha, e não entre minha cama e a porta, como da última vez em que fizemos uma festinha do pijama com mamãe. Isso porque na outra vez precisei ir ao banheiro e quase pisei na criatura. A logística agora era pra me dar esse espaço de andar sem eu ter que pisar ou, pior, tropeçar nele. Ao menos isso facilita minha fuga.

Mesmo no corredor, continuo com essa sensação de aperto, com a respiração curta e presa. Quando adentro o banheiro, puxo o ar e até seguro um tantinho antes de liberá-lo pesadamente. Logo em seguida fecho a porta para poder ligar a luz e não atrair nenhum dos dois. Sei que meu irmão e mamãe estão ali para me ajudar e que fui eu que me propus a passar pela situação com eles, mas... acho que ainda busco um autodomínio por si só. Ou algo como minha voz interior.

Não sei em que ponto da vida eu perdi essa voz, só sei que não tenho ouvido muito de mim dentro de mim. O que a Milena diria? Não tenho certeza.

“O que a Milena diria?” na verdade foi o que mamãe me lançou quando ela quis que eu testasse a tornozeleira e eu tava lá com meus receios de trocar de suporte.

Começou como uma brincadeira, corroborando com aquilo que ela havia me dito após o papo do Murilo, quando avisou sobre as chuvas e trovões, de que cuido do outro de uma maneira singular, porém, não faço por mim – não ainda. Pela lógica dela, se eu incentivo as outras pessoas, eu poderia me incentivar pensando em outras pessoas.

Para trazer o recado pra mim.

Por mais que esse raciocínio doido faça sentido, não consigo propriamente fazer essa mensagem chegar a mim nesse momento. Não para fazer essa agonia toda passar. Nem me digno a seguir o cálculo de subtração, como em outras crises, pois depois de tirar 7 de 100, empaquei em tirar 7 de 93. Simplesmente pifei. Meu cérebro travou.

Foi assim que o quarto de repente se tornou pequeno e sufocante por tanta espera. Esperando acontecer o que devia acontecer e que não acontecia logo. Droga!

Lavo um pouco do rosto e me concentro – ou tento – no livre movimento de pegar a água com uma mão e refrescar a pele. A testa, os olhos, a bochecha. O aperto ao estômago, no entanto, segue me tirando do eixo, de modo que, sem pensar duas vezes, desligo a luz do banheiro e apresso o passo para alcançar a sala. Quando me refugio enfim no sofá frio, que sinto os olhos cheios, além do tremor de todo o meu corpo e nenhum trovão por perto, sei que não tem muito pra onde fugir. Não de mim com esse problema.

— Lena?

O coração já agitado dá um salto que meu corpo mal consegue acompanhar só de susto. Susto pela voz à quietude e susto por me sentir pega assim. Não consigo ver onde o Murilo está por conta da escuridão, mas ele não tarda em aparecer ao lado do sofá com a luz do celular. E se agora eu consigo vê-lo, ele consegue me ver. E me ouvir. Ouvir minha respiração esganiçada de quem tá sur-tan-do.

— Ei, sou eu. Tudo bem.

Não sei se é do susto ou de tudo, só sei que quieta fico e um soluço de choro dá a partida na crise. Porque a coisa toda me comprime de um jeito que nem sei explicar, só... sentir. E agora liberar.

— Ô, mana.

Murilo logo se senta ao meu lado e vem pra cima de mim com seus braços pra me envolver. Mas tô tão tensa e angustiada que me desvio dele. E assim sinto as primeiras lágrimas descerem. A luz do celular dele, felizmente, apagou antes disso.

— N-não, eu... E-eu preciso... preciso respirar.

— Sem problema. Quer um pouco de vento?

— Vento?

Por já estar me acostumando ao escuro, consigo ver a silhueta do meu irmão se movendo e pegando algo na mesinha. Pelo movimento que faz, concluo que está me abanando com alguma correspondência. Paro-o assim que consigo acertar onde seu braço passa e reúno minhas forças para ser firme com ele.

— Sem agitação. P-por favor.

Ele para, mas sinto-o apreensivo também e, como horas antes, tentando demais. Maquinando demais. Pulando de abordagem em abordagem pra me dispersar. Não é que eu não agradeça seu gesto, é que no aqui e agora isso me deixa mais nervosa. E culpada.

— Desculpa, Mu.

— Sem p-problema.

Sua resposta me dita mais do que sua aflição, o que intensifica a minha. Principalmente porque seu estado não está audível, e se não está, é porque ele tem segurado com todas as forças.

Lamento:

— M-mu.

— Eu tô... Tô bem.

— Acho que não... Não estamos bem.

— É. O Fred está entre nós.

Agora meu cérebro para. E não entende.

— Quê?

— Não tinha uma opção... de repetir uma frase... até desfazer o sentido... e ter sentido de novo? Opção de exercício mental. E frases aleatórias.

— A-ah.

Deixo um pouco a conversa e me recosto no sofá. Com as pernas dobradas ao alto, apoio os braços nos joelhos e faço um pequeno casulo. Apesar de permanecer tudo escuro, ainda assim fecho os olhos para me concentrar no movimento do meu corpo. No esvaziamento de emoções, nas lágrimas e na respiração irregular. Busco não me deter a nada mais se não o tremor de minha barriga, querendo gritar para que suavize e normalize logo. Mas só fico em silêncio mesmo. Ficamos, na verdade, eu e o Murilo quietos.

Em algum momento, sinto que ele se mexe no sofá só para também se recostar e, embora não acenda a tela do seu dispositivo, tenho a noção de que deitou a cabeça no alto do espaldar para se esvaziar também. Quando minha respiração se torna finalmente pesada e menos arfante que me dou conta de que ele estava aqui bem antes de mim.

— Mu?

— Oi.

— O que tava fazendo aqui no escuro?

Ele não responde. Isso me instiga a ver a situação de outro ângulo.

— Você tá aqui faz muito tempo?

— Errr... Mais ou menos?

Fungo, com a mão no nariz, para abrir melhor as vias nasais.

— Mais ou menos o quanto?

Ele expira e dessa vez é audível.

— Vim pra cá depois que vocês dormiram.

— Então... você não dormiu nadinha?

— Não.

— Se eu bem lembro, você não dormiu bem na outra noite.

— Não muito.

— Mu...

Soo lamentosa de novo, porque, ao mesmo tempo que quero cuidar dele, quero que não seja tão afetado assim.

— Eu vou ficar bem.

— Por que você saiu do quarto?

Sinto que ele vira a cabeça para mim.

— Por que você saiu?

É, essa é difícil de responder. Mas faço um esforço e uso esse gancho para devolver-lhe a pergunta.

— Me senti um pouco... sufocada. Você... também?

— Acho que se pode dizer que sim.

— Mas por quê?

Desfaço um pouco do meu casulo soltando devagar os braços e as pernas ao sofá. Murilo, por outro lado, apesar de estar estirado no móvel, parece uma pedra tensa. Ainda consigo ver mais ou menos ele movimentando o braço, não sei se para apoiar no próprio rosto ou se está apenas se movendo, só sei que ele não parece nada legal.

— A espera, né? A longa espera também me pegou.

— Quer dizer que... você tava em crise?

Ele não responde. Não de imediato.

— Sim.

Me aproximo dele no sofá, mas de modo que haja algum espaço entre nós. Não fazia muitos minutos que eu o tinha barrado e não queria que ele se sentisse sufocado comigo.

— Tudo bem eu ficar aqui com você?

— Tudo bem, pequena. Acho que eu só não queria ser pego. Pelo menos não de novo.

— De novo como?

Meu mano expira com força, longamente.

— Você me viu mais cedo. Viu como eu tava na direção.

De fato, ele estava mais que estabanado e agitado, estava agoniado. E eu não fui exatamente uma pessoa bondosa com ele, que se esforça tanto para ser bondoso comigo. Mais uma falha minha para levar nas costas dessa droga de fobia.

— Desculpa, Mu.

— Pelo quê?

Me ajeito novamente no sofá, dessa vez para que eu fique de lado e deite a cabeça próximo da dele, no alto do encosto. Aproveito uma almofadinha ali para agarrar e desfiar nervosamente um de seus enfeites. Parece que minhas mãos não conseguem sossegar.

— Por não ter sido gentil... naquela hora do carro... Por não... Não ter percebido do que se tratava realmente.

Murilo fica quieto por uns segundinhos. Se pensando, se maquinando, se me perdoando, não sei. Mas em dado ponto ele também se ajeita no sofá, pelo que sinto no móvel. Ele se senta mais para a borda, porém, noto, voltado para mim.

— Não se preocupe com isso. Como eu disse, eu só tava chateado comigo mesmo.

— Sim, mas por conta de mim.

— Não nego que em parte sim. É que eu sempre acho que dá para fazer algo mais e é por isso que às vezes insisto e vou bem além da conta. Mas... tem outras coisas... Tem outros lados que tento não demonstrar. Ainda tô aprendendo a manejar isso.

Não sei se o entendi bem. E digo isso. Ou quase isso.

— Manejar?

Outra vez Murilo expira. Também sinto quando ele se mexe para se voltar para frente, mantendo certa distância – física e emocional.

— Ainda tento me esconder de olhares. É uma reação natural e nem sempre dá para ir contra ela. Ou aceitar e só deixar ir. É estranho, sei lá. Só que... É, não queria que mamãe me visse assim. Meio que fugi do assunto a noite toda e agora... Não sei se consigo lidar com ela me vendo desse jeito.

Deus meu, o que fiz? Nem me liguei desse fato!

— E é bem conflituoso na minha cabeça, porque eu sei que tenho que enfrentar isso, me permitir ir um pouco além e tudo mais. Que não preciso ser forte o tempo todo. Mas, argh, é difícil deixar essas amarras irem e me expor mais um pouco.

Não só eu tinha essas barreiras, lembro. Com mamãe aqui em casa, isso foi ficando cada vez mais claro mediante a passagem dos dias. Inclusive, foi uma das coisas que conversei com ela. E que percebi dela no Natal. Vovó fez com que ela (e todos ali) também passasse por certa exposição. Não é fácil mesmo se colocar nessa posição.

Nem todo mundo tem abertura para isso, como vovó mesmo disse. E acabei colocando o Murilo na reta sem perceber o que eu fazia. Sequer perguntei como ele ficaria com a situação.

— Você, por outro lado... Caramba! Foi essa pessoa incrível... e forte... e a convidou diretamente para dividir esse momento. E eu também quero dividir com ela, quero muito, só que... ainda é estranho não ser essa montanha forte que ela achava que eu era. Ou que eu pense que ela ache isso. E, sei lá, entrei em fuso, entrei em crise.

Os meus olhos se enchem novamente, de culpa, e quero me convencer de que há alguma saída nisso. Que dá pra fazer algo a respeito. Mas o desconsolo me toma.

— Eu nem me toquei de que poderia te expor nesse processo.

A silhueta de meu mano parece pesada em si.

— Você já tinha muito em mente, pequena.

Exatamente o que falei para o Vinícius horas atrás e ainda assim sinto um aperto no peito. Sei que é culpa e sei que também tenho que lutar contra essa sensação. Porque não necessariamente é uma verdade. Mas não tem nenhum mal em assumir essa culpa. Aliás, assumir, por mais esquisito que seja, é ainda a melhor opção. Para se libertar dela.

— Sinto muito. Sinto por isso também te atingir.

Murilo então dá a resposta mais respeitosa e serena possível. Quase uma piada e até que de bom gosto.

— É, o Fred está entre nós.

Agora entendo o que ele quer dizer e que é provável que estivesse repetindo isso faz um tempo para si. Bem melhor do que o meu cálculo mental de tentar tirar 7 de 93. Acabo entrando nessa onda, mesmo que eu não queira parecer que estou tentando demais.

— Os Oliveiras também.

— Quem são os Oliveiras?

Murilo funga baixinho e mais uma vez se mexe no sofá. Agora se coloca quase de frente comigo, bem mais próximo, mostrando-se interessado nesse gancho mais ameno. Até eu paro de desfiar os enfeites da almofada. Pelo contrário, tento refazer o nozinho da fitinha.

— Não te falei essa?

— Acho que já ouvi algo sobre isso, mas não sei dizer bem do que se trata.

Puxo o ar como quem só busca um pouco de alento em si mesma.

— Foi invenção da Dani.

Murilo torna a deitar a cabeça no encosto do móvel, dessa vez menos disperso ou vagante em suas ideias. Ele entoa o que digo e entendo que quer se manter nesse rumo mais seguro e plácido.

— Invenção da Dani.

— E depois da Iara.

— A Iara e suas ideias.

Isso me faz rir um pouco, mas nada que seja visível ou audível. Só continuo a história para lhe dar mais contexto e esse lugar de descanso mental.

— Tipo os “Milenares” do Vinícius.

— Um grupo então? Do chat?

— Isso. De personalidades que só desabrocham quando... errr... quando dão de encontro com outras peças... tão singulares quanto.

Quanto mais eu penso sobre esse nome – ou sobrenome, mais perfeito ele parece para nós. Uma pequena gangue do bem.

— Ideia da Dani ou da Iara?

— Das duas. A Dani batizou o Bruno assim e a Iara percebeu que valia pra gente também. A gente, no caso, eu, a Dani, a I, o Bruno e o Sávio. Então... “Os Oliveiras”.

— Camargo Oliveira ou Oliveira Camargo?

Tá, com essa eu sorrio e é um pouco audível sim.

— Oliveiras.

~;~

Sorver pequenas goladas de um chocolate quente me dá um grande repouso. Murilo tinha razão, era melhor algo mais substancial. Depois que conseguimos amenizar mais da crise que tivemos, pensei em fazer um chá de camomila para poder relaxar mais os músculos, para poder voltar pra cama, e o Murilo propôs o chocolate quente, que forraria melhor o estômago. Assim ele me acompanhou na cozinha e com o mínimo barulho possível, para não acordar mamãe, preparamos a bebida.

Sentar-se à mesa da cozinha e apenas me deixar envolver pela fumacinha já me deu um alívio enorme. Se pudesse, manteria a xícara quente na mãos por mais tempo. Me permito apreciar a sensação, soprando de volta para a xícara, para poder beber sem me queimar. A combinação de leite e chocolate também forra bem, como o Murilo falou. Forra o corpo e o espírito. A mente até clareia melhor.

Avril Lavigne – I’m With You

O início de uma música ressoa na minha cabeça, das que acabei ouvindo em repeat depois do teste do mp3 junto do Vinícius. Logo que Djane se recolheu para um banho e preferiu ficar fora de nossas vistas, o Vini preparou um lanche e eu fiquei próxima dele na cozinha ouvindo essa música, “I’m With You” da Avril Lavigne, sem mesmo pensar na letra, embora alguns trechos soltos me pegassem – como os que diziam “estou tentando entender essa vida”, “porque nada está dando certo e tudo está uma bagunça”, “por que tudo está confuso?”, que batiam com minha vibe.

É curioso que diante das tempestades do Vini ou mesmo de Djane, eu me deixei de lado para apenas segurá-los em suas loucuras. Também com o Murilo. Bem do jeito que mamãe me frisou, que não hesito quando alguém precisa. Mas que hesito em me permitir comigo. E enquanto ouvia a Avril, que foi a primeira música que tocou quando testamos o mp3 e eu não quis outra se não essa, e aí o Vinícius pegou o notebook dele para deixar tocando no modo repetição, o ritmo foi me guiando nessa minha permissão de deixar as coisas serem sentidas e expressadas. A Avril foi perfeita pra me colocar em suspensão e fazer fluir isso aos poucos. Quer dizer, eu me ajudar de fato. E deixar que as pessoas ao redor contribuíssem para isso.

Na volta pra casa, que o Vinícius conectou o pen-drive no carro, fomos ouvindo os arranjos de músicas mais calmas para eu adivinhar. Assim, sem expectativas. Teve uma que precisei recorrer ao Google, vez que nem eu, nem ele, sabíamos o nome. Era “Sentimental”, dos Los Hermanos. Que também é ótima para se colocar em suspensão assim, com uma vibe pra ficar distante e ao mesmo tempo presente às sensações. Dá um ritmo interessante à mente, assim como à respiração e até mesmo aos músculos, que vão relaxando aos poucos.

Terapêutico que chamam, né?

Mas como é... a terapia em si? Como é feita? O que perguntam? O que um profissional faz de verdade com a pessoa dentro do consultório? Olho para o conteúdo da xícara, no escurinho do dia que está quase para amanhecer, vez que deixamos a luz ligada só até terminarmos de usar o fogão, e não tenho ideia. Suspendo o olhar para o Murilo a minha frente, o cansaço em pessoa e ainda de pé, também desfrutando de sua bebida morna, estando além-mundo em seus pensamentos.

— No que tá pensando, mano?

— Que não sei se vou conseguir comprar o almoço hoje, porque vou tá bem quebrado. Por não dormir mais uma noite. Então acho que vou ter que preparar mesmo.

Perdido ou centrado demais no que ele mesmo fala, Murilo até se coça.

— E se eu não tiver nem forças pra isso, tem miojo, né? Mas tenho a impressão de que o churrasquinho ali da esquina abre.

— Está pensando mesmo sobre isso?

— Tô. Por quê? O que tá pensando?

— Tenho uma pergunta. Ou várias. Mas por que pensa no almoço?

— Porque temos que comer? Considerando que não vamos sair de casa hoje. Considerando que não vou estar inteiro pra dirigir. Considerando e considerando o futuro antes mesmo de ele chegar. A mente de um ansioso.

Acho que faço o mesmo, mas em outras proporções, ou pra outros lados. Murilo está pensando em coisas mais imediatas e eu em coisas mais... abstratas. Mas planos de qualquer jeito. Planos de virada, planos de encarar essa situação.

— Qual é a pergunta?

— Estava pensando sobre o mp3, que você me deu, e que eu tava ouvindo com o Vini ontem. E sobre... esse chocolate quente. Coisas terapêuticas. Coisas que curam uma parte da gente. Eu já vi algumas ideias no Youtube de como aliviar crises, os exercícios mentais e tudo mais, mas eu nunca pesquisei sobre... como é... a terapia. A terapia em si. Como começa, o que tenho que fazer. Eu sei, eu tô me apressando, porque não vai ser amanhã, ou mesmo nessa semana, mas, sei lá, só pensei... sobre isso.

— A mente de um ansioso reconhece a mente de outra ansiosa.

A mente de uma paranoica também, eu diria, porém, prefiro não me atentar nesse ponto.

— Então... você quer saber como é a terapia, certo?

— Sim. E quero saber como foi pra você. Como começou. Como... decidiu.

— Essa... É uma longa história.

Murilo constata, pensativo. Algo morre em mim porque nem me toquei de que talvez ele queira deixar isso privado. Mais uma pequena bola fora pra coleção, né. Genial. Fui mais uma vez genial de fazer merda.

Suspiro diante disso, porque, ao mesmo tempo, tenho tantas perguntas que não sei bem para quem perguntar. Porque dele ao menos teria alguma referência.

Mas não quero que fique mal por isso.

Isso tudo é uma merda, isso sim.

Ou minha cabeça que não tá habitável de novo?

— Não precisamos falar se não quiser.

Saboreio uma nova golada e Murilo quase pula da cadeira. Quer dizer, ele salta de seu assento para poder atravessar seu braço pela mesa e me alcançar. Então divaga um tantinho em pensamentos tumultuados.

— Não, não me entenda mal, eu quero. Muito, muito mesmo. Muitas vezes já pensei em te falar, mas não sabia como iniciar. Acho que tô apenas surpreso que você perguntou e foi direta. E agora posso falar. Meio que esperei por isso um bom tempo, sabe? Também pra me sentir pronto para isso.

— De verdade?

— Não sabe o quanto. Mesmo. O que acha de irmos pro sofá? Preciso me esticar um pouco.

Cada um com sua xícara na mão, levantamos e voltamos ao sofá, novamente quietos e a passos silenciosos. Não tenho ideia de que horas são e vez que o tempo está friozinho e nublado, é também difícil de saber se já está amanhecendo ou se o céu apenas está fechado. Por um acaso, espio na tela do celular do Murilo, que se acende quando nos sentamos ao móvel. São 4h56.

A luz do aparelho também me permite ver a expressão de meu mano, que detém quase um sorriso ao rosto. De quem está agradado de alguma maneira. Animado até. Isso me esquenta mais do que a bebida em mãos.

Após acomodados, ele bem encostado ao fundo do sofá, com as pernas esticadas à mesinha, e eu de volta com as pernas cruzadas, com a almofada ao colo, bebemos um pouco mais do chocolate em silêncio. Então o Murilo inspira, mais disposto. Meio emocionado? Acho que me emociono junto.

— Primeiro... errr... Obrigado por perguntar. Significa muito.

— Pra mim também. Principalmente por... poder ouvir de ti.

— Pra falar a verdade, eu nem sei por onde começar direito, porque isso já faz um bom tempo. Tipo, não é de agora mesmo. Então acho que preciso voltar um pouco na minha história. Mais de um ano até.

Posso sentir minhas sobrancelhas se levantando, surpreendidas por essa determinação de tempo. Mais de um ano? Como pode?

— Errrr... Lembra quando tive um problema no trabalho... e fui suspenso?

— Caramba, desde dali?

Deixo essa escapar, porque, realmente, não me passava pela cabeça que seria tanto tempo assim.

Diferente da hora que o encontrei aqui na sala, dá pra ver melhor sua silhueta e até um tantinho mais de sua expressão. Murilo segura a xícara firme ao colo com as duas mãos e parece bem mais centrado. Ele anui quanto à demarcação que mencionou e segue de olho em sua xícara.

— Sim, desde dali. Basicamente, todo o setor foi obrigado a fazer aconselhamento. Era terapia, mas ninguém na minha sala chamava assim. Eu, inclusive, fui bem relutante, tanto em reconhecer o que isso era, quanto de... de me entregar à própria atividade em si. E fiz isso por um bom tempo.

Me mantenho atenta e quieta, ouvindo sem interromper e ouvindo sem lhe direcionar o olhar, para que não se sentisse observado.

— Confesso que era estranho e que... É, eu não gostava de ficar falando da minha vida. Isso porque aquilo não fazia muito sentido e eu sequer tinha um objetivo, fazia por fazer e fazia por estar sendo obrigado a fazer. Então não foi exatamente um bom começo. Mas depois... conforme as coisas foram se sucedendo, e se ajeitando, isso mudou de figura.

Ele faz uma pausa e as imagens na minha cabeça, de como ele se descreveu, fazendo o aconselhamento por exigência de seu departamento, continuam, pois não é tão difícil imaginar um Murilo desconfiado e arredio, bruto até, de se esquivar desse jeito. Deve ter sido bem esquisito mesmo.

— Com os apontamentos da psicóloga, eu entendi que... Eu editava muita coisa do que eu dizia. Tipo, muita coisa mesmo. A gente conversava geralmente sobre a dinâmica de trabalho e das pessoas relacionadas, afinal, foi por conta daquela confusão no departamento que todos fomos chamados atenção e, né, encaminhados. Ainda assim, a psicóloga me perguntava vez e outra sobre minha vida pessoal. E eu... ignorante como era... não comentava muita coisa.

“Ignorante como era” é uma boa descrição, penso. “Era”, verbo no passado.

— Só que aí ela foi levando as conversas, foi... direcionando... esses assuntos. Quando me vi, tava respondendo algumas coisas mais pessoais. E fui conversando, e sendo ouvido, e me percebendo mais enquanto falava. Me deparei com umas questões valiosas até. Porque não só tava avançando ali com ela, eu tava tendo melhorias no espaço de trabalho. Estava me relacionando melhor com as pessoas. Isso em nível profissional e pessoal, naquele círculo de colegas. Já estava vendo e fazendo as coisas de maneiras diferentes.

Essa foi uma das coisas que Murilo já tinha deixado escapar um tempo atrás. Eu até brincava que devia enviar uma cesta festiva para o departamento de RH, porque eu achava que isso eram atividades do RH. Bom, todo mundo no nosso círculo de vivência. Agora que ele revela que se tratava de outra pessoa; no caso, intervenções de uma terapeuta. Penso que se omitiu isso, ou disfarçou, foi por conta de suas resistências.

— Uma dessas coisas diferentes foi voltar a fazer atividades físicas com mais frequência. Só que foi mais no sentido de encontrar prazer no exercício e não ser só um ato mecânico. E aí, por conta dos meus horários diversos, a maioria das atividades eu costumava fazer lá na academia do trabalho, porém, tava sempre com a cabeça a mil, do tipo perturbado mesmo. Quase que à base de raiva. E os exercícios que fazia, ou do modo que eu fazia, sempre me deixavam... mais preso... e na minha própria cabeça. Não tava sendo bom pra mim.

Nem eu sei o que pensar. Muitas vezes encontrava suas roupas de treino na máquina de lavar ou mesmo pegava umas do varal, e isso nunca foi exatamente um assunto entre nós. Murilo não comentava. Era feito, de fato, e eu também nunca pensei por esse lado – de ele fazer exercício para aliviar o estresse e meu mano parecer ainda mais estressado. Apenas passava batido.

— Foi aí que voltei a fazer algumas corridas, aqui mesmo pelo bairro, por indicação da terapeuta. Também fiz lá na academia, e no estacionamento do centro meteorológico, mas só me senti melhor mesmo quando fiz por aqui.

Lembro vagamente de uma vez que ele chegou todo suado enquanto eu tomava café da manhã e mencionou que foi correr por conta de coisas do trabalho que estavam lhe bagunçando a cabeça. Em parte, também pela ansiedade. Foi uma das vezes que disse que ofereceram um nova função para ele, que ficou incerto de saber se era o momento de seguir ou não. Isso me faz lembrar ainda do que Vinícius comentou – que se jogou na corrida pra colocar a cabeça no lugar e ajudar a tomar uma decisão, de como seria essa decisão.

Assim pergunto:

— Te dava uma clareza mental?

— Exatamente! Como sabe disso?

Murilo vira pra mim, menos acanhado e mais desenvolto, e acho isso bom.

— O Vini também tava nessa, um dia desses, de fazer corrida. Ele e um colega de trabalho. Disse que a atividade melhorou a cabeça dele. Ambos disseram, na verdade.

Meu mano se mostra bem empolgado com isso, de uma maneira que nunca vi.

— É, a corrida tem esse super efeito. Nos desliga e nos concentra ao mesmo tempo. Gasta energia cerebral e dá um gás pra disposição. Como você disse ainda pouco, uma coisa terapêutica. Que cura partes da gente. Correr, sem me sentir limitado num espaço, ou mesmo preso às minhas obrigações, se tornou essa coisa terapêutica. Uma necessidade até. Porque, sei lá, eu me sinto em ação, a minha cabeça fica em ação, e o resto das coisas também parecem em movimento. Foi quando realmente senti as melhorias. E que vi como a minha cabeça funcionava.

Cativada, até esqueço do restinho de chocolate morno na xícara. Murilo demonstra-se cada vez mais livre e espirituoso, de modo que nem parece que é de madrugada ou que tivemos alguma crise. Parece uma tarde de conversas sinceras, das boas, e sinto que poderia ouvi-lo por horas, aberto desse jeito, e propenso até mesmo para comentar das partes ruins ou feias de sua história.

Vejo quando ele se vira pra mim, embora não me olhe diretamente.

— O fato, Lena, é que por muito tempo, e falo de anos da minha vida, eu vivi sob algum tipo de... “lei”... que eu mesmo determinei... e hoje eu nem sei explicar direito. Tinha sempre que ser do meu jeito e no meu tempo. O que, claro, foi uma baita fórmula para desastres, vide aí as nossas brigas. Só que eu... eu realmente não... eu não via que isso era ruim. Você mesma me gritou várias e várias vezes, mas eu não compreendia. Havia tipo uma barreira. Um muro. Sei lá. E quando a psicóloga foi comigo... removendo tijolo por tijolo... eu pude sentir... acho que uma corrente de ar... que pôde passar, entende? Foi quando... finalmente... pude respirar.

Ele descreve de uma jeito que parece que estou lá. Tanto nas discussões, quanto no consultório. Consigo ver e ouvir seu alívio pessoal. Seu clic.

— Mas não quer dizer que a coisa tava bonita. E olha que havia de um tudo aqui guardado. Guardado e bem escondido. A Tamara até tentou abrir um pouco mais desses baús e ela... Nossa, ela quase perdeu os dedos por isso.

Murilo ri um riso nervoso. Então abaixa a cabeça e passa a mão pelos cabelos, mexido. Arrependido.

— Teve um dia... que eu gritei com ela de um jeito... que mal tive cara pra voltar. Acontece que eu não queria falar sobre essa parte da minha vida e, por mais que ela respeitasse, a conversa sempre voltava pra esse ponto, e nesse dia eu me senti pressionado. Não exatamente por ela, porque, na realidade, tratava-se de uma vergonha minha. Que ficou pior quando eu gritei com ela. E ainda assim, ela entendeu. Respeitou. Perdoou. E quis saber mais dessa minha reação. Tipo, o que de fato me levou a esbravejar daquele jeito. Então, por um tempo, a gente se demorou nisso. E outra vez eu percebi o quanto... a paciência dela, a gentileza dela, a atenção dela, tava me ajudando.

Nesse ponto, fico imensamente feliz por meu irmão. Por ter encontrado alguém para tratar dessas suas partes guardadas e escondidas. Como uma vez ouvi de mamãe, o Murilo precisava ser ouvido por alguém, de uma maneira que ela nunca poderia alcançá-lo. Porque ela não era capacitada pra isso. Mãe e pai também têm seus limites. E o Murilo precisava mesmo de um acolhimento especial – esse feito por uma pessoa profissional.

Quem ficaria depois de uma discussão calorosa com gritaria e tudo? Eu não ficava. Eu não podia ficar mesmo. Além de não capacitada ou especializada, eu era também uma das vítimas. Aquilo não tava no alcance de ninguém de nossos entes queridos. Só esteve sob a decisão do próprio, que por muito relutou. Até ver os resultados.

Será que a terapeuta também me aguenta se eu relutar? Acho que eu não grito.

E acho que só por considerar isso, já tenho meio caminho andado na direção de um atendimento especializado. Espero. Quer dizer, existe um acolhimento especial para cada caso, certo? Existe para fobias. Distintamente para elas.

Mas por que tive TANTO medo disso? Se sempre foi para meu bem?

Bom, o Murilo mesmo teve seus bloqueios. Que agora entende que eram bloqueios. Vergonhas. E eu sempre senti uma imensa, bem descomunal e monstruosa, vergonha. Desmedida e descomedida. Um constrangimento para lá de desgraceiro, impedindo e ameaçando qualquer pessoa que tentasse dar um passo a mais.

Em pontos guardados e escondidos. Fora do alcance de meus familiares.

Acho que já gritei o suficiente, e por toda uma vida, por conta disso.

— A abordagem dela, de me direcionar e de me ouvir, sem julgamentos, foi... simplesmente... essencial pra mim. E desde ali isso tava se tornando inegável, sabe, porque a minha vida tava se ajeitando de verdade. Daí, do que eu tava reavaliando no trabalho, eu passei a trazer pra nossa vivência. Eu... e você. Eu e a Aline também.

Murilo soa um pouco envergonhado. Relevo, pois, acima de tudo, é um ato corajoso enfrentar essa sensação.

— Mesmo que eu ainda não conseguisse falar sobre minha vida privada, fui testando, fui fazendo coisas diferentes, experimentando, e deu certo... Umas boas vezes deu certo. Houve vezes que não deu tão certo assim, como o caso do André. Mas foi nessa situação que... Lembro de uma coisa que a Tamara me disse: “Não dá para fugir de quem a gente é”. Para onde você for, pro trabalho, pro supermercado, pra trocar um pneu, que seja, sua história vai junto. E eu poderia escolher fazer mais e melhor pela minha própria história.

“Não dá pra fugir de quem se é” – isso é bonito. E verdadeiro.

Em todas as vezes que tentei fugir disso, ou não dava certo ou não gostava do resultado. De fato, o que dá para se fazer é melhorar a própria história.

É o que quero fazer também. E não mais fugir da minha.

Quero perguntar sobre o que testou, mas entendo que ele tem muita coisa para encadear.

— Só que... ainda assim... eu não queria ir além daquele “muro”, aquele que foi derrubado. A Tamara tentou bastante, isso ela tentou mesmo, tentou avançar nesse sentido e eu segurei a barra mais do que queria, e mais do que deveria. E foi por aí que aconteceu o lance de papai ter que ir ajudar nosso tio, viajar e acompanhar os trâmites da prisão da Denise... E eu tinha que ir junto. Tipo, precisava ir, mesmo.

Nem gosto de lembrar de como difícil deixá-lo ir. De papai saber. De ter ficado sem o Murilo por semanas. Ficar longe de casa, ainda por cima. Mas sua determinação era uma de uma necessidade que precisei abrir concessões. Entender, confiar e esperar. Ansiar e apostar que seria o melhor para ele. E foi.

— A merda, de que muito me arrependo, é que viajei coberto por esses medos, vergonhas e culpas. Não conversei sobre isso antes. A viagem até que aconteceu de uma hora para outra, sim, porém, eu vinha me esquivando da Tamara fazia meses. Hoje penso que eu poderia ter ido com mais calma se eu tivesse tocado no assunto com ela. Se não tivesse sido tão arredio. Mas, ao mesmo tempo, tento pensar que era a cabeça que eu tinha naquele momento. Foi o jeito que consegui lidar.

Vê-lo se compreendendo, avaliando o quadro geral, e não só suas atitudes, e pegando leve consigo mesmo é tão diferente que nem sei tipificar o que sinto por ele nesse instante. Orgulho, felicidade, admiração. Ou tudo misturado num contentamento só.

Murilo funga, mas não está abalado. Parece é impressionado consigo mesmo. Acho que me encontro assim também em relação a ele.

Com o dia começando a amanhecer e feixes de luz adentrando a casa, dá para perceber mais de seu rosto e semblante. Ele divaga e relata o que viveu, o que sentiu, expondo-se de verdade.

— Lembro de estar na estrada com papai, no escuro do ônibus, eu me sentindo... terrivelmente... miserável e impotente. Todo encolhido, sabe? E com medo, muito medo. Cheguei a me massacrar de medo mesmo. E aí, teve um momento que conversamos e, eu não sei nem como, apenas me vi falando. Coisas que eu sempre me imaginei falar com papai, mas que nunca consegui. Porque o meu maior medo, de t-todos, era de como ele ia reagir. Se iria me odiar, se envergonhar, se d-decepcionar... Se iria me rechaçar... ou m-me renegar. E ele... Me acolheu. Simples assim. O que... me q-quebrou... e me... sustentou, tudo ao m-mesmo... tempo. E foi incrível, incrível demais. E eu me senti um idiota completo por ter demorado tanto tempo pra contar. Por ter prolongado tudo isso mais do que deveria. E ter me machucado tanto nesse meio tempo. Longo tempo. E ter te machucado nesse processo.

— Awn, Mu.

Meu mano funga novamente, dessa vez mexido e irrequieto, porém, ainda determinado para continuar sua história. Quero me aproximar mais dele, no entanto, dá pra sentir que ele quer só atravessar essa parte. Assim sequer o interrompo mais.

— Durante aqueles dias, eu pude pensar bastante. Voltamos a conversar algumas vezes e conversei também com o Vinícius. Lembro até de... um conselho... que a Iara tinha falado pra ele faz um tempo. Que... “somos mais fortes ao reconhecer nossas fraquezas”. Era exatamente isso. Ao reconhecer a minha fraqueza, reconhecer que existe e que me acomete, e colocar isso pra fora, eu me senti mais forte. Mais capaz. Até mesmo pra encarar aquela psicopata.

De fato, só de narrar tudo isso, ele está mais forte. Firme. Decidido.

— Mas acho que o que mais me pesou, sobre procurar ajuda, ajuda de verdade, foi quando eu tava frente a frente com a Denise, lá na penitenciária. Ela tava presa e ainda muito livre, e eu, tava livre e me sentindo preso. Quer dizer, olha onde ela tava, sabe?

É uma pergunta retórica, contudo, válida. Pois instigou sua percepção.

E mesmo que fale diretamente de Denise, agora não vejo mais aquela carga pesada que meu irmão deteve por tanto tempo. Não há fúria lhe queimando sequer a própria fala. Não mais. Enquanto busca pelas palavras, Murilo fala de coração leve e ponderado. Acho que até pacífico.

— Ela me disse umas coisas também que... Na real, eu percebi... que por mais que ela instigasse todo o meu ódio, eu não precisava corresponder. E poderia tratar toda essa raiva de um modo que eu não fosse mais uma fera. E eu não poderia fazer isso sozinho. Quando me deparei do lado de fora, que vi o que eu tinha atravessado, foi que senti que era hora.

— Isso é incrível, mano. Magnífico!

Comento sem querer de pura emoção. Maravilhada. Orgulhosa demais!

Murilo ri – felizmente, um riso satisfeito. Compartilho um também.

Quando ele coloca sua xícara na mesinha central e se vira pra mim, que quero abraçá-lo, felicitá-lo e não mais largá-lo, ele pega a minha xícara com delicadeza e mostra que tem mais, muito mais para ser liberado. Contado. Revelado.

— Eu te disse que conversei com o noivo dela, não foi?

Aceno que sim, para não mais interrompê-lo.

— Poisé, a gente se encontrou na penitenciária naquele dia. O carro que eu tava teve um problema na sinaleira e ele me avisou. Eu tava de saída, ele de entrada. Mas a gente nem se conhecia. Foi só uma gentileza do cara no estacionamento. Isso foi de manhã. Já de tarde, depois do almoço, que a tia tava descansando, e papai e titio tinham saído, o cara simplesmente apareceu na nossa porta.

Como quem assiste uma novela ou uma série e acontece uma reviravolta, até dou um sobressalto de susto. Se não fosse o que fosse, poderia incrementar o momento com uma bacia de pipoca.

— Pelo que me disse, o advogado dele tinha visto meu registro de visita, porque, né, pra entrar, tem toda uma burocracia, tem que assinar, mostrar documento, informar relação. Enfim, o caso é que o cara queria saber algumas coisas sobre a Denise.

Agitada, sem nada para morder, roo uma unha. Esperava por essa história faz tanto tempo e nem acredito que tô aqui de fato ouvindo-a, de tão preciosa que é.

— E pra te falar a verdade, eu já nem lembro direito o nome do cara. Tenho impressão de que é Rodolfo, mas não tenho certeza agora. E ele, como muitos, não sabia quase nada da vida da Denise. Da verdadeira vida dela, né. O cara tava bem desnorteado, sobre tudo mesmo. Mas estava vendo as coisas como elas eram, pelo menos dessa vez.

Murilo parece aliviado com isso e acho que me alivio junto.

— Daí que, uns dias depois daquela conversa nossa, eu e você no telefone, sobre o tal do caderninho, que eu procurei e procurei e nada... Depois eu encontrei. Existia mesmo. Eu não vi muita coisa, só quis colocá-lo nas mãos certas. Foi assim que fui atrás do... Rodolfo.

Extasiada com o suspense, até paro de morder meu próprio dedo.

— Marcamos um encontro numa lanchonete. Entreguei o caderno e esperei notícias. Tipo, da polícia mesmo. Sei que em tese era para ajudar nossos tios, mas eu nunca iria ajudar a Denise. Soube depois que o caderninho foi adicionado ao inquérito. E foi aí que soube que poderia voltar. Eu tinha feito o bastante.

Sinto como em final de filme, que o protagonista cumpriu sua missão e poderia ir pra casa. Fico tão incrivelmente feliz pelo meu irmão que quero chorar de plena felicidade. Se me seguro, é porque ele sinaliza que quer falar mais.

— No caminho de volta, eu disse pra papai que iria fazer terapia e que iria levar a sério. Ele me deu um abraço grande e disse que... Ai, Deus. Ele tem orgulho de mim.

Murilo se emociona e se transborda nessas últimas palavras. Emocionada junto, me escapa até uma fungada e eu logo cubro o rosto, aos risos, que também impacta o Murilo, de modo que ele ri, mais aberto e animado.

— Antes mesmo de voltar ao trabalho, eu liguei pra Tamara, mas tive dificuldade de contato, porque o celular dela foi roubado. Tive pressa em voltar pro departamento por conta disso. E por aquela história do novo prédio. Quando finalmente a encontrei, falei que dessa vez queria começar o tratamento pela porta certa. Isso significava pra mim um recomeço e significava também que não iria mais fazer o tratamento através do meu serviço. Ela entendeu e me indicou uma pessoa, a Katiana, que, por sorte, atende meu plano de saúde.

Meu mano sorri, tão singelo, que parece que está contando algo bobo.

— O fato é que eu já tava tão acostumado em conversar com a Tamara que me pareceu bem natural continuar sendo atendido por uma mulher. Mesmo que... errr... mesmo que às vezes eu fique um pouco travado... pra comentar certas coisas.

Nem me importo em saber do que se trata essas certas coisas, porque tô explodindo de amor e felicidade pela minha criaturinha preferida do mundão, que teve uma baita jornada. Também nem escondo minhas emoções, até porque está bem mais claro na sala e já podemos vermos distintamente um ao outro.

Confiante, Murilo ri meu riso bobo que amo mais do que chocolate quente. A vontade que tenho de espocar ele de amor não é sequer mensurável.

— Tá. Então. Fui marcar a primeira consulta. Quer dizer, a gente chama de “sessão”. Os horários seriam diferentes agora, mas dei um jeito de fazer encaixar, e aí agendei um dia e fiquei esperando a confirmação.

O dia que estive na casa da Lia! Eu tava deitada no quarto, já nem sei o porquê mais, só sei que o Murilo se sujou mexendo no que não devia e nisso o celular dele tocou. O Vinícius quem atendeu a ligação. Era a clínica confirmando a tal sessão.

— Ao mesmo tempo que eu tava ansioso para começar, tinha uns receios... de como seria tudo isso. Com a data confirmada, eu fiquei bem nervoso. Só que no dia, tive um imprevisto no trabalho e precisei cancelar. Por um lado, foi um alívio; por outro, eu sabia que tinha que tentar de novo.

Não aguento, me aproximo mais de minha criatura no sofá, que suspira por assumir suas inquietações. Mantenho um espaço entre nós para que não fique pressionado ou mesmo sufocado. Só quero que veja que estou exultante por ele.

— E uma coisa que demorei a perceber nesse meio tempo, de uma marcação pra outra, foi que... essa fuga toda era por sentir vergonha. A vergonha faz a gente esconder coisas até da gente mesmo.

Meu mano faz uma careta esquisita, demonstrando o quão danoso isso pode ser. Assinto, porque minha sensação diz o mesmo. A vergonha nos move para direções erradas. Como eu e ele nessa noite, fugindo de mamãe, mesmo se pondo à prova numa exposição.

— Daí, claro, que chegou o fatídico dia, de novo. Tentei não ficar nervoso, mas... Acho que é natural. Quer dizer, a gente chega com todo o peso do mundo pra ser atendido e... Quer saber como foi lá?

E TEM COMO NÃO QUERER?

Principalmente depois de ele se gesticular todo pra mostrar essa carga pesada e soltá-la assim pra mim?

Seguro-me de não gritar efusivamente a resposta, apenas uno as mãos para apoiar o rosto e deixo a minha curiosidade transparecer antes de confirmar.

— Sim. E como é lá.

Novamente espirituoso, meu irmão se permite divagar sobre suas impressões do local.

— Fica em um prédio comercial. Parece um escritório, só que mais aconchegante. Eu não fico deitado como a gente vê em filme. Pelo menos até agora não encontrei um consultório com divã, então não sei se é assim em todo lugar. No caso, eu fico num sofá, um menor do que esse. A terapeuta fica numa poltrona, de frente pra mim. Tem uma mesinha do lado com uns livros e artigos decorativos, bem minimalista. E um vaso de planta no canto. Mal bati o olho lá e lembrei de cara de mamãe falando dos seus vasos.

Um Murilo divertido é uma Milena divertida, penso, sorrindo sobre como ele se move demonstrando cada coisa e principalmente sobre essa sua última observação.

— Assim que nos sentamos, a Katiana confirmou o meu nome na prancheta, que ela trazia ao colo. Murilo Lins Albuquerque.

— Camargo.

— Isso. Nome grande o nosso. Daí ela confirmou minha idade e profissão. E então... fez a grande pergunta: “o que te traz aqui hoje, Murilo?”.

Meu irmão divaga um pouco mais observando algo além de mim. Entusiasmada de onde chegamos, e em como ele chegou enfim nessa parte, espero com paciência o restante.

— Nessa hora, Lena, eu só respirei. Pra encontrar as palavras, o sentido e dar voz ao meu objetivo de verdade. Daí desatei a falar, no que consegui falar. Eu disse então: “Eu tenho problemas com raiva e com hiper proteção. E não gosto de ser assim. Já machuquei pessoas, já perdi pessoas e... já fiz coisas horríveis. E não quero mais isso na minha vida. Eu quero... tratar essa parte em mim. Pra não mais ser assim”.

Do jeito que vejo os olhos da minha criaturinha cintilarem por se encherem, os meus se enchem junto. Mesmo falando pausadamente, ou quase de modo teatral, ele se firma decidido. Outra vez passa a mão no rosto, pra não se limitar nessa emoção.

— E aí ela disse que eu era muito corajoso de estar ali, de assumir essa postura e de querer fazer diferente. Contei que já tinha iniciado um tratamento antes, no trabalho, e que foi por conta de um problema de mau comportamento. Falei que tava tendo bons progressos, porém, havia questões internas mal resolvidas de que eu ainda resistia e muito. Ela respondeu que, se eu a deixasse entrar, iria... me ajudar a s-sair.

Uma lágrima escorre na sua bochecha e ele passa rápido a mão ao rosto. Também dá um pigarreio para poder se manter falando com firmeza e clareza.

— Assim concordei. Ela também me explicou como funcionava o tratamento, a abordagem que utiliza e como poderíamos nos arranjar nos horários. Ficou uma sessão por semana, de noite, depois do meu serviço, e tentamos desde então manter um dia fixo.

Que dia é, quero perguntar, porém, são tantas emoções ao mesmo tempo que nenhuma palavra sai. Meu irmão, por outro lado, funga e toma um novo fôlego para poder chegar ao fim de sua história.

— Nessa primeira sessão, conversamos bastante e a hora passou que eu nem senti. O que, pra mim, é uma das grandes belezas da terapia. Fiquei tão tão tão leve. Nossa! Senti que poderia conquistar o mundo. Saí de lá acreditando que tudo era possível, uma sensação realmente fantástica. E geralmente saio assim de lá. Mais seguro, esperançoso, otimista, bem-disposto. Venho sorrindo pra casa.

Acanhado, Murilo levanta os ombros, porém, no que se mostra, está muito feliz.

Considero, outra vez explodindo de emoções, sorrir mais quando eu chegar em casa, do lugar que seja. Gentil, pego a minha xícara de suas mãos, que ele só sabia virar e virar ela, coloco na mesinha central e apoio as minhas mãos nas suas.

O sorriso dele? Aberto e livre e bobo.

— Antes me achava muito louco, Lena. Agora sei que não é sobre loucura, não é como as pessoas dizem. É sobre sempre encontrar maneiras de melhorar, de fazer dar certo. E isso porque a gente ainda tá no começo, mas sinto que estamos no ritmo certo.

— Eu nem sei o que dizer, Murilo. Você foi tão forte. E sincero. Nossa, tanta coisa. Que fez e tentou e insistiu. Pra fazer seu melhor de verdade.

Umas lágrimas descem ao meu rosto e eu não tô nem aí, não me movo um décimo para tirá-las. O mesmo com o Murilo. Ele deixa que elas saiam e ainda ri sobre isso. E, radiante e esperançado, é firme sobre outra coisa.

— É, tem hora que nem eu acredito. E quero muito que você tenha uma experiência dessas. Espero que a m-minha história ajude na sua.

— Com certeza, Mu! Eu não tenho nem dimensão de te dizer o quanto você me ajudou agora. O quanto me tranquilizou e me inspirou. Tipo, eu quero essa experiência. Quero sair leve e otimista. Quero fazer mudanças. Quero... muita coisa. Mas, sério, tudo isso foi esclarecedor. Aliás, que bom... que agora... consegue falar sobre isso.

Fungo e só interrompo um tantinho das lágrimas porque passaram a atrapalhar minha visão. Mas esse choro, dessa vez, é de felicidade. Plena emoção. Pleno amor e carinho e apreço por tudo isso.

Agora faz um sentido enorme ele ter pedido pra esperar, para estar pronto para falar – de Denise e da terapia; valeu totalmente a pena. Algo que estampo com orgulho ao rosto.

Murilo me afaga a face e os cabelos.

— Você que me deixa tranquilizado agora.

— Tô muito feliz por ti, serião. A Aline sabe disso? Da saga toda?

Um tanto retraído, Murilo faz uma cara engraçada. De um modo bom, ao menos.

— Sabe. Ela meio que sempre soube, desde o aconselhamento lá no trabalho. Nem sempre eu comentava sobre o conteúdo das sessões, mas sim, ela acompanhava um pouco. Desculpa se nunca te contei.

— Sem problema, maninho. É totalmente a sua vida. Aliás, você me pediu pra esperar e eu esperei. Agora as coisas se encaixaram de um modo que... Tô sem palavras. Sério, parabéns! Tô mega orgulhosa de ti.

O abraço que tanto esperei para dar finalmente dou, com bastante gosto. Sinto que Murilo treme e por isso mesmo firmo mais meu enlace nele. Fungo pela milésima vez e, de alguma maneira, sei que vai ficar tudo bem.

— Muito obrigada por confiar em mim, maninho.

— Obrigado pela paciência.

Estamos nos soltando ao risos exultantes quando ouvimos uma voz fraquinha e desnorteada nos procurando.

— Milena? Murilo?

Mamãe nos pega no sofá assim como Murilo nos pegou assistindo série não muito tempo atrás. Dessa vez, no entanto, o final da temporada era de sua saga. Virada de temporada, na verdade.

— O que foi que aconteceu?

Murilo olha de mim pra mamãe, incerto e certo ao mesmo tempo em sua exposição a ela, por como está e como estou, as faces avermelhadas e ainda molhadas, assim tomo a frente. Para tanto, não era preciso mentir.

— Aconteceu que a gente enfrentou outro tipo de tempestade, mãe. Agora estamos bem. Cansados e emocionados, porém, bem. Confia.

Sinto que Murilo segura minha mão no sofá enquanto mamãe demora uns segundinhos para responder. E ela tem a melhor resposta, pois calma fica.

— Então é melhor voltarem pra cama. Vamos, meus amores. Mamãe vai ficar pertinho até vocês dormirem.

Dona Helena se aproxima do sofá e lança seus braços e mãos para que pudéssemos pegar e ela nos levar de volta. Assim que nos colocamos de pé, segurando nas mãos dela, mamãe me beija a testa e o rosto de Murilo. Logo nos guia para o quarto, o meu quarto.

Com cuidado, ela nos coloca na cama e zela para que relaxemos com beijos, carinho aos cabelos e juras de amor do tamanho do universo. É assim que meus olhos pesam e por fim me entrego ao sono dos justos.

Notas finais
O Fred está entre nós, emocionado e orgulhoso, fungando feliz. A história do Murilo COM CERTEZA vai ajudar muita gente. “Não dá pra fugir de quem se é”. TrechinhoS do próximo? "Essa Iara é meio doidinha, né?" e "Me pergunto se é assim que ficam as pessoas bêbadas. — Às vezes sim. Eita. Acho que falei alto. — Falou. Mas não se preocupe, mana." e "— Eu q-quero voltar. Eu tô em casa, mas tô com esse sentimento de querer voltar pra casa. Faz sentido?" e "Eu não sabia o que ia encontrar, eu só vim."