Notas iniciais
Não, eu não me esqueci dos extras. Muito pelo contrário, pois estão rendendo até demais! Hoje tem latinhas, soluços e uns papos meio estranhos

(releia o cap. 64 *temp 7* para se situar)


Numa noite de sexta-feira, tendo chegado cedo da faculdade, Daniela liga a televisão da sala para ter algum barulho na casa. A tia havia saído para um jantar e o silêncio era algo estranho à garota. Parecia que evidenciava sua temporada de solidão e de estranhamentos com seus amigos. Evitava pensar no Bruno e já havia deixado de encarar a página da rede social dele como se prometeu. Era melhor se concentrar em qualquer coisa. Mas não no artigo do professor Paulo. Isso ficaria pra depois mesmo.

Decide então assistir um de seus ensaios no Youtube, que uma das últimas mensagens do CK foi de indicar rever umas rimas de improviso que eles fizeram há um tempo e que ele remixou. Daniela ainda não tinha conferido o vídeo final. Só que enquanto logava a televisão na plataforma, seu celular começa a tocar em algum canto da casa. Era a abertura da música Complicated, o que reforçava um misto de sentimentos sempre que alguém ligava.

Ao seguir o som até a dispensa, perto da máquina de lavar, ela até se pergunta como foi deixar o bendito do aparelho ali. Ao encontrá-lo, também pensa em não atender, porque o Yuri andava sendo meio áspero com ela. Mas era praticamente o único que havia ficado e perder mais um amigo tocava naquele ponto delicado.

- Oi?

- Dani.

Apesar de apenas um segundo de ligação, a voz dele se mostra estranha. E séria. Mas ela não tinha interesse em uma nova discussão, então só leva a conversa enquanto volta para a sala com o celular na orelha.

- Quem tu achava que era se foi tu que me ligou?

A resposta dele é uma outra pergunta e atravessa a dela com um tom diferente de seriedade. De gravidade.

- Ele te... Ele te fez uma “cousa”?

Yuri parecia estar se esforçando pra dizer cada palavra, como se fosse realmente algo difícil de perguntar, não pelo seu teor, mas por sua dicção. Tava um negócio esquisito mesmo. Ainda mais que tinha um barulho longe de conversas e de algo que não soube identificar bem.

- Do que tu tá falando? Onde tu tá?

- Eu só preciso... saber. Alguém te fez algo? Essa semana.

Pega de surpresa com essa questão, Dani vasculha brevemente suas lembranças e se alguém em específico havia a chateado. Não, não havia ninguém. Não nessa semana e não... Não deve se encaixar na pergunta dele.

- Não, ninguém me fez nada.

- Tem cer...t-teza?

Esse quase engasgo de Yuri se junta a um barulho de uma latinha sendo aberta e umas risadas ao lado, o que a deixa mais preocupada. O cara liga do nada, fala umas coisas nada a ver e fica todo estranho assim. É então a vez dela de ser séria.

- Onde tu tá, Yuri?

- Tô numa mesa aqui. Perto... Perto de casa.

Vez que a hesitação dele foi entrecortada por um soluço, soluço de quem tá bebendo além da conta, o pensamento de Daniela corre. Ela já dá um pulo no quarto para pegar um short que não seja de pijama caso precise pisar na rua.

- De carro?!

- Não, tá na garagem. Vim... andando... mesmo.

Talvez estivesse forçando a voz no começo da ligação para não soluçar e agora não segurou mais uns na conta. Bêbado não consegue dar conta de muita coisa ao mesmo tempo, né? E se fosse o contrário, ele também iria atrás dela, que ela bem sabia.

- Tu tá com alguém aí?

- Não mais e ainda bem.

O tom dele muda de papo aleatório para algo que revela certa chateação e isso não é lá bom pra se misturar com álcool. Daniela troca de roupa enquanto isso, puxando mais da conversa.

- É aquele da esquina do teu condomínio?

Ele já havia mencionado umas vezes esse bar e Dani espera que seja esse mesmo, porque seria mais fácil de chegar.

- O que tem a esquina do meu condomínio?

É, ele tá alterado mesmo.

- O bar. Tu tá no bar da esquina?

- E tu tá onde, Daniela Azevedo? Posso saber?

Dani revira os olhos, porém releva.

- Eu tô em casa, ué. Mas vou aí.

De bêbado perdido, ele vai pra bêbado mandão.

- Não vai não!

Pra pegar esse distraído no pulo, Daniela inventa uma interrupção, já calçando uma sandalinha básica, pronta pra sair.

- Ei, me liga daqui uns minutos. Uns dez minutos.

- Por quê?

É claro que ela embroma qualquer motivo, aproveitando uma conversa recente com a tia e a vizinha.

- Tenho que atender a porta. Acho que tem algum vizinho me chamando e acho que é por conta da calha.

Yuri tá tão mais pra lá do que cá que nem se dá conta que estava um pouco tarde para uma conversa dessa entre vizinhos e logo aquieta, sendo um bêbado mais obediente.

- Tá bom então.

Em minutinhos, tendo basicamente só dobrado sua rua e atravessado uma avenida, Daniela localiza Yuri sozinho numa das mesas da calçada. Ele olhava algo no celular, totalmente vago, e tinha um conjunto de latinhas consigo. Dani só não pergunta por que ele foi de latinha e não de garrafa porque vê um cartaz de promoção às sextas-feiras. Dando uma checada ao redor, todas as mesas estavam com latinhas. Ela nem se dá ao trabalho de contar quantas havia naquele montante com seu amigo, só chega diante dele e ordena:

- Bora pra casa.

Yuri quase escorrega da cadeira com a surpresa dela ali.

- Ué, mas eu já tava indo. Tava esperando pra te ligar.

Dani vai pro lado dele e dá um soquinho no seu braço.

- Essa era a ideia, seu chato. Agora bora.

Yuri a encara mais perdido do que outra coisa. Pisca e ela não sabe dizer se o amigo entendeu o que ela fez. Mas algo muda no semblante dele de repente. Preocupação.

- E tu veio andando? A... essa hora?

Agindo como uma namorada ou uma companheira chateada por ter que ir buscar seu homem bêbado e soluçante no bar, Daniela cruza os braços. Logo ela, que jurou nunca se colocar nesse papel. Mas ela é amiga assim. É verdade que muita coisa mudou desde que se separou do Bruno, porém, essa é uma das poucas coisas que mantém enquanto essência. Aqui Dani tem o poder de escolha e escolhe ser o norte de seu amigo.

Por isso se firma outra vez na sua ordem.

- Bora, Yuri.

Ele se levanta meio cambaleante, segurando-se na mesa.

- Tá bom... Mas eu... eu que te deixo em casa.

Em outro momento, ela faria piada dos “ics” que ele solta de soluço, mas não gosta do que vê. Seu amigo não é de beber assim e tem cada vez mais se comportado estranho. Estranho até mesmo pros padrões dele.

Contudo, não era momento pra questionar isso, porque a coisa pode ficar de um jeito que ela não goste e é melhor só se certificar de que ele vai chegar inteiro no seu apartamento. Só teria que empurrá-lo para atravessar a rua, andar mais uns metros e fazê-lo subir umas escadas. Nem que seja driblando ele.

- Eu vou pra tua casa e de lá peço um táxi.

Yuri retém a cabeça de repente, surpreso com a proposta. Surpreso de uma maneira que ele sorri, contente e desacreditado.

- Tu vai pra minha casa?

- Eu vou te deixar em casa e depois volto de táxi. Tá bom pra você?

Um Yuri muito do volúvel muda o semblante novamente, agora sério e raivoso. De quem contém sua ira, apesar de despejar um tanto dela ao falar as coisas emboladas enquanto tenta alinhar e bater as latas de cerveja na mesa.

- Não, não “tal” bom pra mim não... Eu te “disso”... Eu não vou deixar. “Ningu” vai. Ele que nem “tento”. “Ningu” rela em “to”. “Ningu” vai te fazer mal. Eu não deixo!

Dani só levanta uma sobrancelha pra ceninha que ele arma e opta em não se alongar nessa bagunça que pouco entendeu. Do jeito que o Yuri tá, é melhor nem perguntar.

- Tá, cara, tá. Mas bora logo. Tu pagou a conta?

Dessa vez ele se segura na mureta do bar e faz uma cara quase engraçada.

- Eita.

E começa a rir loucamente, o que faz com que ele se engasgue um pouco pelos novos soluços que o tomam. Indignada, Daniela pega a comanda e depois empurra o Yuri, para que se vire, e puxa a carteira do bolso traseiro dele. Ele se acaba de rir mais ainda, tomando uma postura mais charmosa. Do tanto que dá pra ser charmoso nesse estado.

- Que é isso, linda, a gente nem...

Dani não fica pra ouvir o resto, logo sai a caminho do balcão. Só que ao abrir a carteira, encontra só um cartão e umas notas baixas que não cobrem aquele tanto de latinha, mesmo em promoção. Ela retorna e encontra o amigo a mirando como se estivesse com muito foco.

- Qual a senha?

- Tu já vai roubar meu cartão? Não tá satisfeita de me roubar o...?

Dani interrompe antes de ele completar a frase.

- A senha, Yuri. Anda!

- Mas não teve nem cinema antes!

- O cinema fica pra amanhã. Agora eu preciso da senha.

- Eu gosto quando...

Dessa vez é um cara qualquer que topa no seu amigo e ele quase cai. Dani consegue firmá-lo na mureta, ficando próxima dele, que só inspira, como que cheirando o perfume dela. Mas não tem lá tanta folga, porque Daniela o estapeia no braço pra se ater à questão do momento.

- A senha, Yuri.

- Tá. Doze... Zero, quatro. Noventa e dois.

Daniela se detém um segundo e não é pelos novos soluços dele. Então arrisca uma pergunta.

- Por que tu usa a data do meu aniversário?

- Ih, é o teu aniversário? Hoje? Por que tu num...?

Quando Yuri ia dar um passo para abraçá-la, ela o empurra para a mureta de novo.

- Por que o número da tua senha é a data do meu aniversário?

- E tu é de noventa e dois?

- Sou.

- Caramba. E dia doze?

- Sim, exatamente dia doze.

- Por que eu jurava que era quinze? Mas hoje é doze?

- Por que tu usa o meu aniversário de senha?

- É o teu aniversário na minha senha? Maluco, nem em mil anos eu ia...

- Yuri, fala sério comigo. Meu aniversário, tua senha.

- É o meu... apartamento... aí tem o... como é o nome daquele negócio que eles pedem na farmácia? A placa do carro! Mas shhhhh... não pode contar! Meu pai me fez jurar. Não se diz senha pra “ningu”. Só pra quem a gente ama.

Dani fica sem fala com essa revelação, um pouco desconfortável de ter que arrancar dele assim, na marra. Com um novo fôlego, ela segue para o balcão, fecha a conta, nem vê o valor, só passa o cartão e ele que lide com esses números depois.

- Bora. Vai andando aí.

Sentado na cadeira de sua mesa, Yuri se empolga com essa perspectiva.

- Pra tua casa?

Outra vez nessa noite, Daniela mente, sem o olhar nos olhos, já empurrando-o para que levante e siga.

- Meus pais estão em casa. Eles não são liberais como a minha tia.

- Já disse que gosto da tua tia?

- Já.

- E se a gente fosse pro...?

- A gente vai pra tua casa, lembra?

- Não quero ir pro apartamento.

- Mas lá tem aquela macarronada que tu gosta.

- Tem?

- Tem, ué. Tu que me disse.

- Hummmm... Não tava lembrando disso. E o ketchup?

- Aí só quando tu entrar em casa pra saber. Por isso que a gente tem que ir.

- E tem pra mim e pra ti? Porque eu lembro que tinha pouco macarrão.

- Eu já jantei, Yuri. Eu só vou contigo e pego o táxi no final.

- E quem que vai pagar essa brincadeira aí?

- A macarronada?

- O táxi.

- Tu, ué. Se tem dinheiro pra pinga, tem pro meu táxi.

- Tu é a melhor, sabia?

Dani ecoa o que ele fala, já que consegue guiá-lo para seguir pela calçada.

- Sabia.

- E ele é o pior.

- Aí já não sei.

O tom dele muda de novo, carregado de raiva de novo.

- Sabe sim.

Dani, que o segura no meio-fio enquanto espera que os carros passem, solta qualquer coisa sem pensar muito.

- De quem tu tá falando?

- Eu vou derrubar ele!

Esperando o último carro passar, o mais lento da avenida, para eles atravessarem na faixa de pedestres, Daniela só complementa a conversa.

- Se tu diz.

- Eu vou mesmo. Ele não perde por esperar. Eu não sou nenhum Hermani!

Esse nome quase faz o tempo parar e a avenida silenciar, quase. Dani vira de imediato para o Yuri, enquanto o segura por trás de sua camisa.

- O que tu disse?

- Que vou derrubar ele!

Impaciente, ela segue o fluxo da conversa como se estivesse entendendo.

- E vai fazer como, pode me dizer?

Firmando-se mais ou menos, Yuri se gaba.

- Já virei o esquema, linda. Eu vou ser o cabeça agora.

- E o Hermani?

- Ele é um nada, aquele filho da mãe. Ele que achava isso de mim e agora vai ver só. Eu virei o jogo, baby. Mas é tu que me preocupa.

Dani fica um tanto desnorteada com essa.

- Eu? Por que eu?

- Esse merdinha pode ser bem perigoso.

- Não mexe com a minha paciência, Yuri. Fala direito!

Ele, por outro lado, parece perdido dentro da própria cabeça, com os pés vacilando em se manter em um só lugar. Mas Dani ainda não soltou a sua camisa.

- Promete que vai me dizer, linda.

- Dizer o quê, droga?

Com certo foco, ele se mantém no que falava.

- Promete que vai me dizer se ele fizer alguma coisa. Porque eu acabo com ele.

Daniela suspira meio brava, meio alvoroçada. Não via o palerma do André fazia muito tempo e graças a Deus. Mas vez que seu amigo tava arisco e espinhoso como um gato pronto para atacar qualquer um, ela resolve dar uma resposta mais tranquila. Até porque ele estando mais sossegado facilitaria levá-lo para casa.

- Ele não fez nada, tá? E não vai. Porque tu não vai deixar.

- Isso mesmo. O Pompeu vai perder tudo!

Essa agora foi diferente, pensa Dani, sem entender bulhufas de nada.

- Mas não era o Hermani?

- Ele que vá para o raio que o parta! Nunca teve o domínio de nada e não vai ser agora. Eu que tô no comando, baby. Odeio tudo isso, mas é o melhor que tenho no momento.

Dani quer perguntar algo mais, porém a pista tá liberada e ela não quer perder a chance de atravessar. Até porque ainda tem que andar de volta pra casa e tá ficando tarde.

Já na calçada do condomínio dele, Yuri tropeça em umas caixas e sacos de lixo jogados por ali, o que mantém a conversa de antes em suspenso e a Dani mais atenta a como ele tá andando. O porteiro deixa que os dois entrem com facilidade, por um lado por conhecer a Daniela de outras ocasiões, e, por outro, pelo estado do morador dali. Por sorte, alguém abre a porta do prédio dele quando se dirigem para lá e Dani consegue fazer com que ele suba as escadas, apenas dois lances, outra vez falando da macarronada e alguns condimentos que ela gosta. Yuri parece ficar encantado com a conversa leve e até quando ela pede as chaves da porta, ele as cede de boa.

Dani espera que ele entre primeiro e depois coloca as chaves nas mãos dele.

- Tá entregue.

- Ué, e tu não vai comer não?

- Eu já jantei, te disse isso desde cedo. Tenho que ir, que o táxi tá me esperando.

- Eu te acompanho.

- Não, o táxi tá na porta do condomínio e eu não quero que ele espere demais. A conta fica maior, tu sabe.

- Tá bom. Mas leva mais uns 10 pro caso de aumentar o valor.

Daniela recebe a nota de 50 reais que ele puxa do bolso da frente na calça e suprime a vontade de bater nele pela confusão do cartão de crédito. Ela mesmo fecha a porta e espera que ele se mova dentro do apartamento. Quando a sombra dele some da área, Dani devolve o dinheiro, passando a nota por debaixo da porta.

Sem saber muito o que pensar sobre o que ouviu e viu dele, desce as escadas e enfim volta andando para casa.

Notas finais
Se fosse a Milena, vocês acham que ela devolveria os cinquentinha por debaixo da porta? *aquela quebra de clima típico dela mesmo*