Notas iniciais
Oi, oi. Foi aqui que pediram mais cena extra? Dessa vez, a insegurança bateu forte na porta de umas criaturinhas. Boa leitura!

(reveja o cap. 35 *temp 7* para se situar)


Mais uma vez Murilo não consegue conversar com a irmã de manhã. Por um lado, porque sai cedo, por outro, porque ela não o corresponde mesmo. Agoniado como está, passa a falar mais diante dos silêncios dela. Fala qualquer coisa. E se mantém perto. Mal consegue trabalhar ou fazer outra coisa. Ele sabe que isso é ruim, que não é saudável e que traz monstros antigos à tona. Não sabe até que ponto é cuidado ou vigilância. Mas já não consegue evitar, é mais forte do que ele e não é capaz de parar.

Nesse ínterim, ele fica de levar a Milena para a faculdade, para entregar um trabalho. Ela só iria por força maior. Mas como estava bem cedo para a aula, ele deu a ideia de passarem num supermercado lá do Center. Era também um modo de ele segurar sua onda, distrair-se. Continuava falando com a Milena, ela que muitas vezes ficava aérea, sem respondê-lo. Nem mesmo às suas piadas. Mas Murilo respirava e continuava.

Como ela se mostrava cansada, ficou boa parte do tempo numa área de espera, perto do caixa no saguão. Sozinho pelas seções, Murilo até envia uma mensagem pro Vini, mais uma vez agitado. Eles trocam opiniões novamente, preocupados e inquietos.

Quando a Milena entra na faculdade, Murilo volta pro trabalho, achando que fez besteira em trocar seus horários antigos. Assim poderia ficar mais disponível. Mas logo vê que esse é um pensamento não confiável, que é o medo dele falando, que é a agonia tomando de conta e ele precisa ficar mais autocentrado.

No serviço, ele acaba preso resolvendo uns pepinos de última hora. Parece que quanto mais ele quer sair, mais ele fica preso. E ele tinha combinado de ir buscar a Milena. Quando ele vê a mensagem que ela tá de carona, fica aliviado. Porque a irmã vai estar em casa quando ele chegar. Que ele poderia tentar de novo.

Mas quando entra em casa e não a encontra, Murilo fica receoso de novo. Meio alucinado até. Liga e só chama. Não tem ideia de onde ela está, com quem está, se está sozinha, se está em perigo, se precisa dele. Tava acontecendo essa porra de novo!

O que ele não sabia, e nem teria como saber, é que, a quilômetros dali, o celular da Milena estava no silencioso. Toda vez que ela entra em sala de aula, deixa nessa configuração e muitas vezes esquece de voltar ao volume comum. Mas nesse momento em que o Murilo ligava, a irmã também estava distante do próprio aparelho. Nesse ponto, o Sávio já tinha estacionado na praia e ela já tinha ido para o bar sem a bolsa. Tudo o que queria era se distanciar de tudo e pouco se importar com o que fazia.

A agonia de Murilo acaba culminando de um jeito que ele tem uma crise de nervoso. Que ele vê que isso não tá funcionando pra ele. Que precisa saber a verdade. Logo. Não para controlar a situação, mas para dar alívio ao seu coração. Ele pode lidar com tudo, sente que sim, mas precisa estar a par. Precisa ter noção do que está enfrentando. Precisa saber o que fazer.

Para liberar-se da agonia, ele sai para tomar um banho. Isso até que alivia um pouco da pressão em si. Ele também lembra das coisas que vem trabalhando na terapia, como prestar atenção na sua respiração, nos seus pensamentos e nas sensações. Demorar-se nessa observação ajuda de fato.

Estava começando a relaxar, já na sala, quando a Milena chega. E tudo se embaralha de novo, porque os dois discutem. Ele preocupado, nervoso, ela distraída, imprudente, e aquele cheiro de cerveja muito do inesperado no ar. Murilo engole essa e tenta outra estratégia, uma que lhe dê tempo de respirar antes de confrontá-la de novo.

Mas aí a questão da bebida super pega na cabeça dele. O problema não é o fato de a Milena beber, é ela se refugiar na bebida para anular algo dentro de si. E sabe-se lá com quem estava. Sávio? Bruno? O Gui com certeza não. Mas ele precisava de foco. Saber falar, saber comunicar, saber perguntar.

Murilo então começa o tópico pelas beiradas, para entrar no assunto da vez. A Milena enrola um pouco, esquiva, e o Murilo acaba se exaltando. Chega a bater punho na mesa, bruto, exigindo respostas. Exige saber o motivo do seu estado e se esconde isso pelo histórico de raiva dele.

Em meio à confusão da conversa, a Milena enfim abre o caso, revela o que havia a abalado, pontuando também que não tinha a ver com ele, não com o Murilo, mas que isso, essa merda toda, a quebrava. Murilo não sabe se respira aliviado (por não ser sobre a violência que morou por tanto tempo dentro de si) ou se ele se quebra junto por vê-la tão vulnerável. No desespero dela, ele faz de tudo para juntar seus pedaços. Mas é algo que ele realmente nunca poderia imaginar.

No fim da noite, depois que a Milena dorme, ele se recolhe no seu quarto e liga choroso pro Vinícius.

- Ei, cara. Alguma novidade?

- Então... ela... Ela finalmente me contou.

Murilo funga e isso não passa despercebido pelo cunhado, mas o Vini fica tão aliviado de saber que essa barreira foi derrubada que ele comemora a boa nova primeiro.

- Graças a Deus! Graças! E aí, do que se trata?

Murilo funga outra vez, o nariz segue meio congestionado, porém, tenta se manter forte, até mesmo para poder explicar ao outro a situação. Só que o cenário é dificultoso de se falar, ainda mais por telefone. Apesar de sentado na própria cama, seu corpo parece que vai ruir a qualquer momento e essa sensação é transposta na sua voz arrasada.

- E aí que é uma coisa horrível mesmo. E tudo que ela falou no outro dia fez... faz sentido. Mas eu ainda tô processando aqui. É algo que eu nunca, nunca poderia imaginar.

Inquieto, Vinícius insiste em perguntar, pois Murilo estava sendo tão vago quanto a irmã.

- Mas... o que aconteceu?

- Eles de fato brigaram, ela e o Gui. E a Flávia. Eles fizeram algo que... Eu não sei nem dizer. Nem nomear.

Vez que a indignação toma conta do amigo, Vini tenta fazê-lo focar no principal.

- Calma, cara. Explica isso direito.

Murilo se deixa cair na cama, de cansaço. Do pânico, das emoções em frangalhos, da barra que agora teria que enfrentar com a Milena quebrada.

- É que eu realmente não sei dizer, porque não tem muito como se dizer isso. O que sei é que ela precisa muito de nós. De verdade.

- Com certeza, Murilo. Mas pode ser um pouco mais específico? Por favor?

- Eu não sei... É um lance bem delicado e envolve tanta coisa. Eu quero te contar, mas eu também não consigo. E não consigo ver minha irmã desse jeito, cara. Mas ela tem a gente.

Vinícius reafirma isso, apesar de sua agonia e do abalo do amigo.

- Ela tem a gente.

- Olha, eu sei que tu também tá maluco pra saber e fazer alguma coisa. Mas no momento, ela precisa de um espaço. Precisa se distanciar um pouco das coisas. Te peço pra não fazer nada que vou te contando aos poucos. E não vai atrás do Gui, tá? Nem da Flávia. Por favor. Confia em mim nessa.

Esse pedido e como ele é feito atinge diretamente o sentimento de impotência do Vinícius, que fica limitado em suas ações.

- Tem certeza?

- Eu só liguei pra te tranquilizar um pouco e também pra impedir que faça disso um zona maior do que já é. Vamos nos concentrar nela, tá? Ela é prioridade agora.

Resignado, Vinícius aceita o trato. Não sabe bem como agir, no entanto, tem o Murilo compartilhando o passo a passo disso tudo, com atualizações e promessas de mais informações. É o que tem no momento e precisa seguir isso.

- Entendo. Obrigado por avisar.

A linha fica silenciosa por um momento, os dois pensativos com o que teriam que lidar. Murilo torna a se sentar à beira da cama e acrescenta mais umas descobertas.

- E outra coisa... Ela sabe que a gente tá trocando informações e isso meio que mexe com ela também, sabe? Não sei dizer como, só sei que isso também motivou a fuga dela.

- Fuga?

Vinícius fica surpreso com essa. Sua namorada tinha fugido e ele se encontrava de mãos atadas, mais uma vez. Longe até e sem respostas.

- É, eu não pude ir buscar ela no intervalo e daí ela saiu com o Sávio... E chegou aqui cheirando a cerveja, me afastando e tudo mais. Daquele jeito todo arisco. A gente quase discutiu feio.

Vini quase não processa todas as informações duma vez, porque o nome do Sávio pisca bem no meio disso tudo, atingindo-o em outro ponto sensível. Sem saber, a Milena tava o ferindo bem nas suas dificuldades e inseguranças. E ele teria que se manter calmo e não fazer nenhuma besteira a mais com isso.

Como o Murilo havia dito, ela é prioridade agora.

- E ela disse que tava se sentindo vigiada. Por nós dois. Por isso que... que a Milena pediu pro Sávio desviar o caminho, pra ela não vir pra casa.

Do outro lado da linha, Vini aperta as têmporas e se sente um fracasso. Fica aborrecido e até intimidado com essa. Primeiro ela foi se distanciando dele, não quis aceitar ajuda dele, não quis falar com ele, nem ficar perto dele. Também não respondia nenhuma de suas mensagens, mal o atendia quando ligava, não lhe dizia muita coisa.

Teve que se contentar com as informações do Murilo e se organizar no que tava fazendo, para não interferir no espaço que ela pediu. E agora chega esse cara do nada, que simplesmente a leva sabe-se lá pra onde, que deu cerveja pra ela, e ela aceitou de boa. Aceitou fácil até. Enquanto ele tava batalhando por uma migalha qualquer.

O que esse cara tem que ELE, o namorado da história, não tem? Como pode a Milena confiar nesse Sávio? E como pode confiar mais nele do que no seu próprio namorado? Como se abre assim pra esse sujeito? Como podem beber juntos? E por que não consigo junto? Por que é ele quem tem que esperar, se afastar, e o outro não? Por que ela guarda essas coisas dele? Por que foge dele? É por que teriam feito algo a mais? Teriam? E aí a Milena o dispensaria? É isso? É assim que terminariam? Perderia ela dessa vez? Por algo que ele não sabe nem de onde veio e que nem foi ele que fez?

E o Murilo, ele diria se esses dois tivessem feito algo a mais?

Murilo se calou de novo. Nem é tanto por respeito que Vinícius não diz nada, é porque ele não sabe mais se quer essa facada no coração. Que poderia ser tão maior do que a facada de saber que ela aceitou o Sávio e não ele, seu namorado. Que tava queimando os sentimentos e preocupações por ela, atrás dela, disposto a qualquer coisa. Nem essa migalha de interação ele teve.

Ao mesmo tempo, ele precisa saber. Precisa de mais detalhes. Até mesmo para saber se articular. Porque tava acontecendo exatamente como no ano passado, em que a Milena correu pela avenida, colocou-se na frente de carros, tudo para se distanciar dele. E depois deu um novo perdido nele, viajou, não queria saber dele, não queria lhe ouvir.

Ainda teve que lidar com a história do Lucas, ela saindo com esse cara, sempre um cara no meio, o que o deixava maluco. E agora era fim de ano de novo. Com a droga das músicas do N’sync rondando-o de novo, deixando-lhe cada vez mais desolado, confuso e impotente. Pra completar o cenário, tem a porra do Sávio se metendo na história. Ele, que já a beijou uma vez e fez isso num momento vulnerável dela. E a Milena tá vulnerável outra vez. Teria mesmo acontecido alguma coisa? Teria esse cara tentado algo? Teria, inclusive, traído sua irmã?

Murilo volta a se pronunciar na ligação, para seu alento de perguntas insanas.

- Tá aí ainda?

- Tô... Tô ouvindo. Tu falou que ela desviou o caminho.

- É, aparentemente estávamos muito em cima. O que era natural, já que as coisas estavam ficando tensas, né. Mas o fato é que não sei se ela quer que eu te fale tudo... Ou se ela quer falar por ela mesmo.

Isso o faz soltar um pouco do ar que mal notou estar segurando. Vinícius inspira e expira agitado, vendo que sua cabeça estava levando as notícias para lados completamente absurdos. Ele não pode mais vacilar. Não agora, não de novo. Foi assim que acabou com um vaso na cabeça. Foi imaginando besteiras e foi concluindo loucuras que a coisa piorou pro lado dele. Não pode se deixar dominar mais uma vez por essa velha insegurança. Ele não perdeu a Lena no ano passado e não vai perder agora. Não vai. Precisa só segurar sua onda. Ele ainda tem uma chance. Esse sentimento alucinante é só frustração.

- Eu tenho que esperar dela, é isso?

Murilo parece mais determinado nas suas ideias. Preocupado, mas focado.

- Temos que ir com calma, Vini. Eu não quero que a Milena faça coisa pior.

- Tudo bem. Eu... eu entendo.

Ele se força a entender, na verdade. Se força a querer entender.

- Te ligo amanhã e a gente conversa melhor, tá? Prefiro digerir isso um pouco mais.

- Beleza, vou te deixar descansar. Valeu pelo toque. Boa noite.

Sozinho com seus pensamentos, Vinícius enfia o rosto no travesseiro e urra um pouco. É para dispersar essa merda de sensação agoniante de ele ficar de fora e não poder fazer nada. E tampouco pode dar a entender que ele sabe de alguma coisa. A Milena é bem sensível quanto a isso e, como o Murilo mesmo disse, pode desencadear algo pior. Algo pior do que ela fugindo com o Sávio para beber, coisa que ela fez pra se sair dos dois que estavam desesperados demais para obter qualquer notícia.

Que merda de droga do caralho! Vinícius se exalta e soca o colchão.

Como prestar seu apoio se a Milena não quer nem o sentir perto? Como, se só aceitou outro? O outro. Aquele outro. Logo esse outro. Confiou mais no Sávio no que nele. Por que fazia isso com ele?

Não pode ficar em silêncio. E não vai ficar em total silêncio. Ele pode dar espaço e se manter presente, não? Uma mensagem, algo sucinto mesmo, algo para preencher o vazio. Assim ele respeita a distância e não exige nada de volta, né, por mais que tanto quisesse.

Voltando-se a si novamente, Vini se senta no meio da cama para pegar o celular. Não pode recuar agora, nem a deixar tão à deriva. Mas... O que diria? Encarando a tela de conversa deles, com as mensagens antigas sem resposta, ele se sente transtornado. Estava se equivocando mais uma vez, insistindo e não focando na Milena. Em como ela está, na dor que sente, na coisa horrível em que ela passou. Um pouco de oxigênio entrando e saindo o faz tomar um pouco mais de autoconsciência. Era melhor não provocar, nem teimar. Eles vão conversar. Em algum momento, eles vão.

Abrindo o teclado do aparelho, ele hesita no que escrever. Rascunha algo do tipo “quero muito te ver” e “saudades de você”, mas logo apaga. Termina enviando algo mais suavizado, removendo a pressão de sua insegurança e de sua frustração.


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Apenas pensando em você. Descanse.

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A Milena não responde, nem visualiza. Mas o Vinícius escolhe não interpretar isso de um jeito ruim.

Notas finais
Gente, o Vini *chora* Foi uma fase complicadona pra muita gente. Mas o Vini, além da Milena e do Murilo, claro, me deixou de coração pequenininho. Volto em breve com mais confusões! *oh a promessa da pessoa haha*