Notas iniciais
Espero que gostem.
Comentários sempre são bem-vindos o/

Queria ir pra casa e tirar esse vestido. Hoje certamente não era um bom dia para vir à faculdade de vestido branco. Vestido branco não combina com chuva, tampouco com lama. Na verdade, se eu não tivesse saído no intervalo para ir à papelaria do prédio vizinho – porque de última hora, praticamente, minha impressora resolveu fazer gracinha e parar de funcionar sem razão aparente bem na hora de eu ir pra aula, então tive que esperar o intervalo para poder imprimir meu trabalho. A impressora do meu bloco também estava em manutenção na hora que eu mais precisava – então provavelmente estaria intacta agora. Digo provavelmente porque ainda depois do intervalo, o zelador com as mãos sujas de graxa quase topou em mim. Eu consegui meu trabalhinho e minha mancha... Queria ter ficado pra xingar o zé mané que passou de bicicleta por mim jogando lama, mas tempo... tempo é uma coisa que falta pra estudante.

Pelo menos foi na ponta do vestido e o atingiu de lado, de forma que, seu eu usasse a bolsa corrida pelo corpo – graças, ainda bem que é de alças longas – quase ninguém veria a mancha do meu lado esquerdo. E claro, pelo menos também, não sujou ou molhou meu trabalho, porque aí eu arranjaria tempo só para esse cidadão mal-educado pagar a segunda via! Eu até poderia ter deixado o trabalho com alguém que o entregasse à professora, para poder ir pra casa e tirar essa roupa, mas do jeito que essa mulher anda, seria capaz de passar um risco enorme na capa com aquela canetinha vermelha dela e me chutar um zero. Por isso, melhor não arriscar. Hoje o último horário é dela.

Faltam cinco minutos para a professora entrar e arrasar todo mundo. Se você for fazer Administração e se matricular na disciplina de Ética Nas Organizações, reze para que a professora ministrante não seja a Djane Garra. A mulher é para-dura até no nome. É uma ótima professora. Quer dizer, foi até período passado. Era minha primeira disciplina com ela, Estrutura e Processo Organizacional, e ela era daquelas que impulsionava mesmo os alunos a se aplicarem, com vontade, apesar de deixar a galera louca de vez em quando. Mas era até legal. E nesse período, ela começou bem, só que depois de umas histórias aí, ela começou a ficar meio ranzinza e exigente demais. Eu não sei bem o que houve, só sei que foi um barraco que teve que chamar até os seguranças do prédio. Eu não sei porque... bem, nesse dia, eu estava meio avoada e o ônibus passou da minha parada... quando me toquei e pedi parada, ele já estava na avenida de trás, então tive que ir andando. E pra quem já estava um pouco atrasada, você entendeu.

Hoje é entrega de um trabalho que vale segunda nota, a terceira ela vai anunciar o que pretende fazer. Não sei se prefiro prova, porque passar num exame dela é como atravessar adoidado numa avenida no meio dos carros, sem sinal nem nada, passando de raspão no raspão.


~;~


PROVA! Eu prefiro prova!

Eu não consegui dizer isso pra professora quando ela fez sorteio e meu nome saiu. O sorteio era pra escolher um monitor que a ajudaria num evento que haveria no departamento daqui umas quatro semanas. O monitor seria dispensado de algumas aulas e, se conversasse com alguns professores, livraria a cara de algumas provas finais. O diretor escolheu cinco professores do departamento, que deveriam escolher três alunos monitores para realização do evento. E a professora Djane já tinha feito sorteio em duas outras turmas dela. Eu, Milena, fechei o grupo.

O problema não era o evento, a organização, a monitoria, nem os outros dois monitores, até porque eu ganharia créditos e certificado; o problema era a professora. Na hora do sorteio, eu senti todo mundo segurando suas respirações e comendo os dedos – as unhas já eram – pra não saírem seus nomes, e quando saiu o meu, o silvo de alívio foi quase alto. Ela perguntou se eu aceitava e eu só pude balançar a cabeça – ou algo assim, porque fiquei meio sem reação. Então ela me disse que eu estaria dispensada da última avaliação, que seria a minha participação de monitora que definiria minha nota. Esse de “um pelo outro” que não faz muita diferença se ela vai tentar te arrasar.

No grupo, conheci o Bruno, que faz Estrutura e Processo Organizacional com a professora, e reconheci a Daniela, da turma de Ciências Políticas. Dani de vez em quando pega ônibus comigo, então conversamos de boa. A professora nos reuniu no final da aula, dispensando os outros um pouco mais cedo, depois de ter detalhado o que seria a avaliação final, que, a propósito, tá de matar um do coração. Semana passada, Marcinha teve um treco por uma atividade dela dessa professora ter sido apagada por causa de um vírus que ela pegou. Ela conseguiu recuperar o arquivo, mas até ela se acalmar foi um sacrifício da galera. Nem quero ver o próximo que vai ter um siricutico. Não sendo eu também está de bom tamanho.

Fomos pra sala dos professores encontrar os outros monitores e professores. Dessa reunião, ficamos com a parte de programação e divulgação, e no tal dia do evento, iremos cuidar das palestras. O diretor vai nos passar amanhã algumas informações quanto aos espaços abertos da programação, que só serão fechados quando o grupo de inscrição concluir na sexta os trabalhos. Até aí tudo bem.

Na hora de ir pra casa, o Bruno ofereceu carona pra mim e pra Dani. Ia dar meus pulinhos de felicidade, mental claro, e... Espantosamente a professora me ofereceu carona, dizendo que queria me passar uns documentos que tinha o contato de algumas gráficas que nos ajudariam no evento. Ela poderia ter me passado amanhã, mas ela insistiu pra diminuir logo o trabalho. Aceitei, né. A lama do meu vestido já tinha secado mesmo, já tinha perdido minha carona, não tava com coragem de pegar ônibus, e ela só iria passar na casa dela, então vai me deixar em casa.

Mais relaxada, entrei no carro e partimos pras ruas. Ela sempre séria. Eu sempre na postura de educada. Até que um celular toca... e não era o meu, porque o meu ainda deve estar no silencioso. Sempre mantenha seu celular no silencioso no horário dessa mulher, nunca se sabe o que esperar desse poço de frieza. Um tiro certeiro? Um grampeador voando na sua cabeça? Sendo ela, eu acreditaria. Se bem que ela costuma dar aquele olhar de peixe morto que assusta até zumbi. Pra todo caso, celular no silencioso ou desligado, você não vai querer saber as consequências.

– Alô? Oi? Sim, sou eu. Hum.

Fiquei na minha, olhando os postes passando. A lua estava cheia e encoberta por muitas nuvens escuras. Que não chova, que não chova, que não chova...

– Mesmo? Já estou chegando aí.

Pronto, perdi minha carona. De novo. Aposto que ela vai me deixar na parada mais próxima e se tacar pra onde quer que seja. A pista ainda está molhada e cheia de poças. Já posso ver os carros passando com velocidade e a “manchinha” no meu vestido vai ser ilustração comparada com o que eu vou conseguir.

– Milena, temos que fazer um desvio. Talvez demore um pouco. Eu ainda posso te levar pra casa, mas se você não quiser esperar, eu te deixo em algum ponto de ônibus.

Não é todo dia que a professora Djane é gentil, e por mais que eu não tenha sentido nem uma ponta negativa na voz dela, a oferta não parece boa. Mas diante das circunstâncias, melhor eu continuar com a mulher, se ela tá oferecendo, melhor não contrariar. Além disso, é mais seguro. Estou sendo bem sucedida em me convencer de que isso é uma boa ideia?

– Tudo bem, professora. Sem problemas.

Não consegui me convencer muito. Entretanto, melhor que nada.

– Tenho que ir ao hospital Santa Rosa que o diretor me chamou. Tenho que checar algumas coisas.

E seguimos pro tal hospital. Ela deu uma acelerada bacana e soltou um sorrisinho que me deu medo. Ou foi apenas imaginação minha? Agora se eu pedir pra sair que vai pegar mal... Estou presa com uma maníaca! Eu devia ter me ouvido e ido pro ponto de ônibus mesmo.


~;~


Deixei meu material no carro e a segui apenas com minha bolsa. Pegando o elevador, chegamos ao terceiro andar. Todo esse tempo, ela me falava de coisas para o evento. Senti um nervosismo de sua parte, mesmo com ela disfarçando. Será que os resultados dos exames dela de sanidade saíram? Eu não quero ver essa cena.

Tudo bem, horrível de minha parte pensar isso. Ela estava era ansiosa por algo.

Me deixou na sala de espera do lado da recepção. Do outro lado, ela entrou numa sala que acho que era do médico. Ele a esperava na porta. Entraram e eu fiquei sentada lendo os avisos sobre os malefícios do cigarro. Minutos depois, entrou um enfermeiro. Era muito bonito, olhei discretamente. Claro, não tinha como não ver...

Ainda bem que tinha jantado no intervalo. E ainda bem que tinha sobrado tempo pra jantar, porque ir até o outro prédio só pra imprimir o trabalho gasta um bom tempo. Não estou exatamente com fome, mas com vontade de beliscar alguma coisa... Um salgadinho, uma barra de chocolate, um biscoito, que seja.

Pergunto a mocinha da recepção onde tem uma cantina. Ela diz pra eu seguir o corredor, virar pra esquerda duas vezes e mais uma direita que vai dar na lanchonete. De boa vou pra lá, sabe-se lá quanto tempo a professora Garra ia demorar naquele consultório.

Quando volto, as coisas parecem estar do mesmo jeito que deixei. Acabei comprando uma gelatina. Tava até boa. Nos filmes eles fazem parecer tão ruim. Como naquele desenho do Doug, eu peguei um horror terrível de bife acebolado na infância, e hoje em dia eu adoro. Como a televisão mente!

Sento no lugar que estava antes e continuo a ler os cartazes do mural, muito interessada. Mentira. Ao lado dos malefícios do cigarro, tinha um explicativo sobre a diferença de resfriado e gripe – era melhor que ficar contando ladrilhos. Batendo pé na ponta da cadeira, espero e espero. Então aquele enfermeiro que vi anteriormente sai da sala e se aproxima de mim. Bom, ele pode apenas estar vindo na minha direção... ou ele quer falar comigo. Hummm. Ele quer falar comigo.

– Hã, você está com a senhora Garra?

Só por isso? E eu achando que vinha uma cantada digna de pedreiro...

– Sim, estou à espera dela.

– Então lhe mostro o caminho. Siga-me.

E ele começou a andar devagar, me esperando para acompanhá-lo. Vai ver a professora saiu do consultório quando eu estava na cantina e mandou me buscar. Andamos lado a lado, indo pelo outro lado do corredor do que eu tinha ido pra cantina. Viramos uma direita e ele abriu uma porta pra mim. Muito gentil.

– Você pode entrar. Logo ela aparecerá.

– Obrigada. Onde ela está?

– Ficou com o diretor no consultório, mas logo logo ela virá pra cá. Ainda bem que ela trouxe você.

Então entro num quarto, de costas, enquanto o agradecia pela gentileza.

Tô perdida: como assim, ela ainda estava no consultório com o médico? Por que esse cara me trouxe aqui? Por que “ainda bem que ela me trouxe”? Eu fiquei sem jeito de perguntar enquanto ele fechava a porta. Tinha que esperar de qualquer jeito, aí me virei pra arranjar um lugar pra sentar. Foi quando vi que não estava sozinha.