Manos Antes das Minas
10 O Valor da Confiança
Ao separar seus lábios dos meus, ficamos paralisados por alguns segundos. Olhos vidrados uns nos outros, faces surpresas, respirações ofegantes e corações acelerados. Lu toca seus próprios lábios, desacreditando o que acabara de fazer.
─Ah... – atrevi-me a dizer algo.
─Me desculpa. – soltou desesperada. ─Eu não sei o que estava pensando.
─Tudo bem, Lu. Acalme-se. – coloquei minhas mãos sobre seus ombros, dando uma leve chacoalhada nela, tentando chamar sua atenção para mim enquanto murmurava pedidos e mais pedidos de perdão. ─Acalme-se.
Ela abre seus olhos e os mira para mim, aqueles enormes olhos verdes e brilhantes em minha direção, provocando um leve frio em minha barriga. Sua face é abaixada, deixando alguns fios de cabelo cair sobre sua vista, ajeitando-os por trás da orelha e erguendo sua face corada para mim.
─Por que o beijo? – perguntei.
─Eu não sei. – desviou seus olhos do meu, logo se virando de costas a mim. ─Acho... Que confundi as coisas. Me desculpe.
─Ok, ok. – andei até ela, ficando em sua frente. ─Eu sei como é, sou irresistível mesmo. – a fiz rir.
─Bobo.
─Isso não vai mudar nada, né? – a fiz arquear a sobrancelha. ─Na nossa amizade.
─Ah. – deu um leve sorriso, aparentemente, descontente. ─Claro que não. Foi só um reflexo meu. – colocou sua mão sobre meu rosto, acariciando a mim. ─A noite foi ótima, obrigada.
─Disponha. – a vi virar-se de costas e ir em direção ao portão de sua casa, abrindo-o e parando antes de adentrar, virando-se para mim novamente, mandando um sorriso leve de lado. ─Tchau.
─Tchau... Te vejo amanha?
─... – apenas consentiu com a cabeça.
...
Adentro em minha casa, retirando meus sapatos e carregando-os em minhas mãos, evitando fazer qualquer barulho e acordar meus pais. Subo as escadas com um pouco mais de pressa, seguindo o corredor e encontrando meu quarto. Jogo meus sapatos no chão e me jogo sobre minha cama. Minha respiração ainda estava agitada, e meu coração, palpitava como um tambor.
A noite havia sido incrível. O Dih tinha sido um anjo que iluminou a minha vida em meio á escuridão que me assombrava nos últimos dias. Relembro-me do beijo e solto um sorriso despercebido, questionando-me o porquê daquilo. Acho que, como havia me explicado, eu apenas estava confusa. Talvez por Diego estar sendo tão fofo e prestativo comigo eu havia confundido as coisas e achado que havia encontrado nele o que me reconfortaria, me fazendo esquecer de Julio. Talvez seja isso, tinha que ser isso. Diego é meu amigo, o meu melhor amigo. Não poderia eu estar apaixonada por ele, poderia?
...
Seis horas da manhã de sexta-feira, meu celular desperta e logo o lanço contra a almofada próximo a minha cama, pretendendo calá-lo. Levanto-me e encaro meu reflexo no espelho, fazendo caretas e mais caretas. Visto uma bermuda sobre a cueca que eu dormira e abro a porta de meu quarto, encontrando com minha mãe que me dá um beijo de bom dia. Arranco minha toalha sobre o varal da área de serviço e vou em direção ao banheiro. Ligo o player de meu celular e, como de costume, faço um show durante o banho. Ao terminar, encaro novamente meu reflexo e, agora, abaixo minha face até próximo a torneira da pia e lavo meu rosto, abro a portinha do armário do banheiro e pego minha escova de dentes, logo os escovando. Termino e destampo o vidro de gel e lambuzo de leve minha mão, passando sobre meu cabelo ainda molhado. Novamente fixo meu olhar em meu reflexo e me contento com o penteado desarrumado.Desocupo o banheiro enquanto era alvo de reclamações de meu pai que criticava o tempo que havia gastado no banho... Só para manter o costume. Entro novamente em meu quarto e retiro a toalha, jogando-a sobre a cama e dançando ali mesmo, pelado. Abro meu guarda-roupa e retiro uma cueca, meu uniforme e uma calça jeans escura. Visto-me e passo na cozinha apenas para beber uma vitamina que minha mãe havia preparado para mim. Aproveito que meu pai ainda estava no banheiro e caio fora dali, pegando minha mochila e me despedindo de minha mãe. Coloco meus fones de ouvido e vou em direção a escola.
Enquanto escutava as letras da musica, me relembro da noite passada com a Lu, não podendo evitar a lembrança do beijo, que logo me deixa excitado. Eita, que isso Diego?! Seu pervertido, abaixe esse fogo que aquilo não foi nada de mais. Isso... Assim mesmo.
Escola, que beleza. A única coisa boa é que era sexta, adoro sextas-feiras. Por mim só teria aula nas sextas, de tanto que eu gosto. Passo pelo portão da escola e de longe já encontro James conversando com alguns de seus novos amigos. O safado estava me evitando desde que eu havia voltado de viagem. Nem uma satisfação ele me deu. Estava, simplesmente, sem falar comigo.
Vi que aquela era a hora, ele não tinha nenhuma desculpa naquele momento, então, não havia escapatórias para evitar um dialogo. Vou em direção a ele, mas sou impedido por Oliver, um colega de sala, que me para.
Oliver é alto e forte, esse ultimo por frequentar bastante a academia, já o primeiro por ser alto mesmo. Tem cabelo crespo e olhos castanhos escuros. Usa aparelhos e está sempre rodeado de garotas de todas as idades. Até mesmo as tiazinhas da cantina.
─Iaí Diego! – estendeu a mão para me cumprimentar. ─Beleza, cara?
─Opa, beleza. – apertei sua mão com força. ─O que me conta?
─Eu que ia te perguntar isso. Como foi lá nos States?
─Foi fantástico, cara. Não vejo a hora de voltar para lá. – respondi meio com pressa, mas com um tom educado, não demonstrando muito a falta de interesse.
─Sei. – notou que eu inclinava a cabeça para o lado na intenção de alcançar James a todo o momento. ─Eu te interrompi em algo?
─Não, imagina. Eu só ia ver qual é do James, ele ta me evitando desde que voltei de viajem.
─Ah... O pegador de novatas. — caçoou de James.
─O, o que? – ri desentendido.
─Pegador de novatas. – repetiu com a mesma expressão, ainda sorrindo. ─Por que ele ficou com a novata, entendeu?
─Ah... – balancei a cabeça em sinal de compreensão. ─Espera... Ele o que?
─Ficou com a Lucy... Eles estavam praticamente namorando. Você não sabia?
─Não. – eu procurando o porquê dele estar me evitando e acabo encontrando a resposta sem nem precisar procurar muito.
─Ah... Vocês são super amigos, pensei que ele havia te contato. Que estranho.
─É... Também acho. Cara, vou só ali conversar com ele pra ver uma coisa que lembrei agora. – dei um leve tapa em seu braço, seguindo em frente.
Eu não lembro com detalhes como estava a minha mente naquele exato momento. Só me lembro que estava bravo, bastante bravo.
─Quando é que você pretendia me dizer que ficou com ela? – joguei logo de cara, chamando a atenção de seus amigos que se silenciam.
─Di-diego? – engoliu em seco. ─Eu ia...
─”Eu ia”. – ri junto de um suspiro sarcástico. ─Você é muito hipócrita mesmo. – serviu como um convite para seus amigos saírem de perto.
─Diego, calma cara. – colocou as mãos sobre meus ombros.
─Calam nada, porra. – retirei suas mãos sobre mim. ─Você quase pariu um filho quando eu disse que gostava dela. Reclamou que eu escondi de você e quando você fica com a garota, o que você faz?
─Você disse que não queria ficar com ela...
─Eu estou pouco me lixando com quem você ficou. Se foi com a Gisele Bündchen, com a Oprah Winfrey ou com o Papa. Eu estou puto por que você escondeu isso de mim e chegou ao ponto de ficar me evitando para que eu não descobrisse.
─Eu ia te falar, mano. – tentava me acalmar a todo o momento.
─Não, não ia. Você ia continuar sem falar comigo até que um esquecesse do outro. Eu te conheço, James. Só não sabia que fosse tão hipócrita ao ponto de repetir a mesma coisa que provocou uma briga há um mês. Eu pelo menos fui homem o bastante para te dizer a verdade.
A discussão começa a chamar a atenção das demais pessoas ali entorno, criando um alvoroço em nossa volta.
─Eu posso ser hipócrita, mas pelo menos tive coragem para ir falar com a garota e dizer que queria ficar com ela. – retrucou.
─Não acredito que você está dizendo isso. – aproximei-me dele para olhar bem nos seus olhos. ─Eu permiti você ficar com ela. Mesmo ainda gostando dela, eu ignorei o que sentia pra você seguir em frente. A única coisa que eu queria era que você confiasse em mim e dissesse o que estava rolando. Não era nada demais.
─Você não entende. Eu estava com medo da sua reação...
─Reação de quê, droga? Eu que falei pra você procurar ela antes deu viajar, eu já estava imaginando que rolaria algo, mas quando eu vi que você não tocou no assunto, pensei que nada havia acontecido. Você escondeu o fato de mim e ainda se distanciou para não revelar a verdade. Cara, nem no aeroporto você foi. – parei por um instante, notando o circulo de pessoas que havia se formado. ─Você evitou conversa com medo de como eu reagiria, pois bem, agora que já sabe como eu iria me reagir, permaneça sem falar comigo, pode ser?
─É sério isso? Vai brigar comigo por uma bobeira dessas? – gritou enquanto eu saia de perto.
─Você pôde me ignorar por algo mais bobo e não se sentiu mal, então você vai conseguir viver sem mim. Não se preocupe.
Parti em direção á minha sala, esbarrando em Luana e seguindo em frente sem dizer uma palavra.
─Oi... – disse sendo deixada no vácuo. ─O que houve?
─Ele descobriu que eu tive um caso com a Lucy. – respondeu a ela.
─Você não havia dito a ele? – indagou incrédula. ─Não acredito nisso.
─O que é? Eu sou obrigado dizer tudo da minha vida pra ele?
─Deixa de ser insensível, James. Ele sacrificou o que sente pela garota pra você abusar e cuspir na cara dele, escondendo o que houve e ainda se distanciou dele. Vocês sempre foram super ligados e de repente você o abandona sem dizer um por que. Você quebrou a confiança dele quando não confiou nele... Queria ver como você reagiria se estivesse no lugar dele.
Ao terminar de esculachá-lo, Lu vai a minha direção, deixando ele para trás que fica em silencio, observando o nada enquanto pensava no que ela havia dito.
Continua...
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