Manos Antes das Minas
3 Manchas Azuis
Notas iniciais
Após Luana encontrar-me naquele estado, passou o dia todo ao meu lado, só saiu na hora de ir ao banheiro. Isso é obvio, nem sei por que falei isso, mas esquece. James estava cada vez mais próximo de Lucy e ela parecia cada vez mais afim dele. E eu, idiota como sempre, sofrendo calado... Ê vida.
A aula de Educação Física chegou e como de costume James se juntou ao seu time para jogarem basquete. Como sendo um pereba em todo tipo de esporte e como desde pequeno sempre preferi um livro á uma bola de futebol, eu apenas assistia os jogos, sentado na arquibancada enquanto ouvia minhas musicas ou lia algum livro. Porém naquele dia não havia musica ou livro que me animasse.
Saí da sala primeiro que Luana que ainda arrumava seus materiais e acabei por esbarrar em alguém enquanto mexia em meu celular, derrubando alguns livros da pessoa ao chão.
─Ah, me desculpe. Eu sou mesmo um estabanado. – me redimi, abaixando e ajudando a garota á pegar os objetos derrubados.
─Tudo bem. – disse serenamente com uma voz familiar, logo, olhei para ver quem era.
─Lu-lucy?! – gaguejei lindamente. ─Eu não vi que era você.
─Por quê? Se fosse outra pessoa você não esbarraria? – disse em um tom irônico, soltando um leve sorriso entre meus lábios.
─Não, não. Imagina. – suspirei junto de um sorriso leve. ─Queria te pedir desculpas por não me apresentar pessoalmente antes. Acho estranho e antiético, apresentações virtuais.
─Concordo. – levantou, recebendo os livros que eu ajudara a recolher e segurando-os com os braços, apoiando-os sobre o busto. ─Meu nome é Lucia, mas todos me chamam de Lucy. – estendeu uma das mãos, sustentando os demais livros com o outro braço.
─Sou Diego, mas todos me chamam de Diego mesmo. – a fiz sorrir, o que me deixou saltando de felicidade por dentro. ─Esses livros... Vai ler todos?
─Vou. – respondeu consentindo com a cabeça. ─Conhece algum?
─Acho que não. – peguei alguns de suas mãos. ─Com licença.
─Ah... Esse não é para mim. – retirou um de minha mão.
─Espera, acho que já li.
─Já? – arqueou levemente a sobrancelha.
─”Raul da Ferrugem Azul”! – li o título. ─Eu adorava esse livro quando criança, minha mãe lia para mim todas as noites.
─Eu também. – sorriu timidamente, arrumando uma mecha de cabelo por trás da orelha, desviando o olhar dos meus. ─Fica com ele.
─Não precisa.
─Pode ficar, eu ia doá-lo á biblioteca da escola. – esclareceu.
─Ah, então... Obrigado. – sorri.
Ela parte, indo em direção á quadra enquanto eu a acompanhava com os olhos. Observando seus passos e admirando o belo movimentar de seus cabelos á uma leve brisa que tocava em sua face e deslizava delicadamente pelos seus lindos fios de cabelo. Acho que fiquei viajando naquela cena por alguns bons segundos até notar que Luana assistia e ria de mim descaradamente.
─Então, Romeu... Vamos para a quadra ou você vai ficar aí brincando de estatua o dia todo?
***
Após encontrarmos um lugar aconchegante debaixo de uma enorme sombra projetada por alguns galhos de arvore estendidos sobre os assentos da arquibancada, Lu e eu nos sentamos e ficamos em silencio por um bom tempo. Eu, admirando a capa do livro como uma criança de oito anos novamente. Já Luana, observando a minha felicidade e se contentando com isso.
Após abrir a capa do livro, mudo minha feição e me viro para ela, que se disfarça rapidamente, fingindo estar assistindo o jogo.
─Tem alguma mancha azul? – indaguei a ela, puxando a gola alta da blusa de frio que cobria meu pescoço e mostrando-a minha nuca.
─Não, por quê? – estranhou minha pergunta.
─Por nada. – cobri o pescoço novamente. ─ Quando eu era criança adorava ler este livro. – mostrei-a a capa. ─Uma fábula bem simples sobre um garoto que reprimia seus medos, raivas, internalizava tudo e um dia acordou com ferrugens azuis que se espalhavam pelo corpo. Certo dia ele parte então numa jornada para descobrir como desfazer as ferrugens. Até que ele aprende a defender o que ele acredita, a lutar, a pôr pra fora suas emoções, suas raivas, seus medos. Assim, as ferrugens somem e o peso no coração dele também. E é quase isso que estou sentindo, só que no meu caso, as ferrugens azuis estão no meu coração. E preciso por estes sentimentos pra fora. Ou eles me farão mais do que simples manchas. – formei um leve e tristonho sorriso, provocando um sentimento de dó em Luana que me abraça soltando um leve ruído.
─Ohhhh... O Dieguinho está apaixonado.
─Quem me dera se fosse só isso. – suspirei, olhando sobre os ombros dela e avistando o time de James jogando basquete na quadra enquanto do outro lado da arquibancada estava Lucy, torcendo por ele euforicamente. ─Às vezes eu acho que esse negocio de amor e namoro não é comigo.
─Não fale asneiras. – me deu um tapa forte na cabeça, com todo carinho, claro. ─Um dia você ainda vai encontrar alguém especial que goste de você e esse sentimento será recíproco. Você não deve ficar se remoendo por não encontrar ninguém. Sabe, antes de conhecer o Julio eu achava que nunca iria encontrar alguém, que nunca me apaixonaria e que ficaria pra titia. E olha só hoje, daqui a um mês eu vou me casar. – colocou a mão sobre meu ombro. ─Quando você menos esperar você vai encontrar essa pessoa, isso se já não tiver encontrado.
─Obrigado. – abracei-a.
Mais tarde, no mesmo dia, fui para casa de James, pois meu computador estava com problemas e precisava conversar com minha avó que mora nos Estados Unidos. A casa de James era linda e enorme, tão grande que dava duas da minha. Seus pais eram donos de um dos restaurantes mais famosos e requintados da cidade. Ah, eu devo ter esquecido de comentar este pequeno detalhe.
A família de James tem um pé na riqueza, modo que eu gosto de dizer quando quero provocá-lo. Pequeno detalhe porque isso nunca influenciou em nada, mesmo tendo uma condição financeira boa, James nunca foi de ser exibido ou egocêntrico. Muito pelo contrário, sempre foi humilde e bacana, aquele tipo de pessoa que todos gostariam de ter por perto, independente das condições financeiras.
Os pais dele sempre me tratavam bem, eu tinha permissão de ir e vir quando quisesse para a casa deles. A Dona Neide, mãe de James, sempre adorou minha presença. Dizia que eu era uma boa influência para seu filho e que fazia praticamente parte da família.
Como disse, tenho avós e alguns tios e primos que moram em Los Angeles, Estados Unidos. Mesmo com a distância nós nunca perdíamos contato, sempre dava um jeito de vê-los e deixar a conversa em dia.
Ao abrir minha conta no Facebook me deparei com uma mensagem de Luana.
[─Oi Dih, queria saber como vc está.
─Tá na ksa do Jay, né? Se achar um CD do LP aí trás pra mim que é meu.]
[─Hey Lu, tô bem... Não precisa se preocupar.
─Pode deixar, se eu encontrar eu levo ss xD ]
[─Conversou com ele?] – perguntou após ler minha resposta.
[─Ainda não, acha que devo?]
[─Você que sabe. Só acho que, se ele é realmente seu amigo, vai entender e não ficará com raiva de você. Se é o que vc tanto teme.] – as vezes acho que ela lê meus pensamentos.
[─Ok, vou fazer isso ainda hj.]
Fechei meu Facebook e abri meu Skype, logo encontrando Theo, meu primo que mora em Los Angeles, conectado. Chamando-o para uma conversa no bate-papo.
[─Iai cara, como vai essa vida difícil no exterior?] — questionei ironicamente.
[─Hey Dih, blz mano? Ah cara, é complicado mas tô levando.]
[─Imagino rsrs. Sabe da vó ou do vô?]
[─Faz um tempo que não vejo eles, mas eles estão bem, pq?]
[─Nada não, só queria conversar com eles. As férias chegando, sabe? rsrs]
[─Sério q vc tá pensando em vir?]
[─Tava querendo.]
[─Faz isso msm, cara. Vc vai adorar aqui, nem vai querer voltar.]
[─Gostar daí eu não duvido, mas tenho meus motivos para voltar.]
[─Ahhh... Qual o nome dela?]
[─Dela? Como assim? Sei disso não.]
[─Ahan, sei. Já tive dezessete anos, cara. Sei como é.]
[─Falou o cara com dezenove anos.]
[─Vinte, tá?]
[─Ah ss, desculpa xD.
─Aki, vou sair pq tô usando o PC do James e tenho lição de ksa.]
[─Blz mano. Dpois falo com a vó por vc.]
[─Vlw.] – me despedi.
Desliguei o computador e passei pela sala, encontrando meu pai, James e o pai dele assentados no sofá assistindo a um jogo de futebol.
─Ô Diego! Senta aqui e vê o jogo com a gente. – chamou-me o pai de James ao me ver passar.
─Não vai dar, Seu Antônio. Tenho dever de casa e depois quero terminar uma fic que não atualizo há algumas semanas. – recusei educadamente.
─Que nada, esse aí não gosta de futebol, só fica nessas boiolagem de “fic”. – disse o meu pai, o exemplo de “macho alfa”, fazendo uma raiva subir dos meus pés á cabeça.
Meu pai nunca se conformou de ter um filho “perna de pau” que não praticava esportes e que escrevia histórias e livros como passa-tempo. Pra ele, isso não me daria futuro algum, além de não ser coisa de homem. Ele era caminhoneiro quando jovem e se aposentou após chegar a certa idade. Hoje em dia ele vive da aposentadoria e de infernizar a minha vida, esporte preferido dele.
─Invés de perder seu tempo com essas bobagens deveria é procurar um serviço de verdade. – completou, ultrapassando o limite do meu “paciômetro”.
─Serviço de verdade, pai? Como o que? Jogar bola? Ou ser um caminhoneiro aposentado? Me diz aí. – retruquei, deixando-o verde de raiva e, ao mesmo tempo, vermelho de vergonha. Tinham que ver. Parecia uma pimenta amadurecendo.
James e Seu Antônio ficaram em silencio por um tempo até o ultimo mudar de assunto, comentando algo do jogo. Aproveitando o momento eu me despeço e saio às pressas, sendo chamado por James que tenta me acompanhar enquanto eu descia as escadas voando.
─Calma aí, Dih. – repetia até conseguir me alcançar e me parar, segurando meu braço. ─Tudo bem?
─... – apenas consenti com a cabeça, comprimindo os lábios um contra o outro. ─Ele sempre me tira do sério. – completei.
─Liga pra ele não. – colocou a mão sobre meu ombro, apertando com força. ─Tenho algo ótimo para lhe dizer.
─Também tenho algo, não tão ótimo, para lhe dizer. – soltei um leve sorriso.
─Então já que o seu não é ótimo, me deixa dizer primeiro. – parou verificando se alguém estava por perto. ─Vou ficar com a Lucy amanhã.
Continua...
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