Manos Antes das Minas
15 Epílogo
Três meses depois...
Já era 28 de Março de 2016, dia do meu aniversário. Luana e meus amigos combinaram de me levar á uma lanchonete e pagarem um lanche para mim. Fora uma ótima idéia, pois após a formatura, a maioria de nós estava trabalhando e não nos víamos com frequência, com exceção de Luana, é claro.
Estávamos assentados em uma mesa do lado de fora da lanchonete. Sentados estávamos eu, Luana, Julia e Oliver.
─A Lucy não vem? – questionei á Julia que conversava com Luana sobre seu incrível trabalho em alguma revista de moda, ou loja, eu não me lembro.
─Ela disse que viria, Dih. – respondeu-me com um tom calmo em sua voz. ─Ah, falando na vaca, aí vem ela!
─E o Douglas também. – exclamou Luana levantando os olhos sobre o cardápio.
Levantei-me e cumprimentei primeiro Douglas e sua nova namorada, Camila. Apresentei-a para os demais, que se levantaram para também cumprimentá-los.
Senti um leve toque em meu ombro direito e me lembrei que eu esquecera de cumprimentar alguém.
─Feliz Aniversário! – ela disse atrás de mim.
─Oi, Lucy... Obrigado. – abracei-a com força e depois puxei uma cadeira para ela se sentar.
─E então, novidades? – ela perguntou enquanto retirava sua bolsa e guardava sobre a mesa.
─Bom, pelo que podemos ver o Douglas finalmente arranjou alguém. – eu falei, puxando um olhar penetrante de Doulgas que parecera querer me matar, mas começou a rir junto de Camila.
─Diego, eu só não te bato por que é seu aniversário. – socou meu braço de leve, voltando a abraçar sua namorada que ainda ria.
─E por que vocês me amam. – empinei o nariz. ─Vão até pagar um lanche para mim. Vou escolher o mais caro.
─Quem disse que iremos pagar algo pra você? – indagou Oliver com um sorriso desentendido ao rosto. ─Não dissemos nada disso.
─Não, é? – fingi estar decepcionado. ─Poxa.
─Calma mor. Ele está zoando com a sua cara. – acalmou-me Lu, acariciando meus cabelos.
─Eu sei disso. – soltei um sorriso aberto, logo levei minha atenção a Lucy, que até então estava quieta.
─E então, Lucy, quando é que você vai desencalhar? – lançou Julia, chamando a atenção da morena.
─Oi? Hã... Eu não estou procurando ninguém no momento. – disse aquilo, e sua feição se tornou nebulosa. Senti um aperto no coração e pude entender o porquê dela não estar querendo encontrar alguém.
─É por causa dele, não é? – perguntei e ela assentiu, hesitando, mas assentiu. ─Lucy...
─Miga, já faz três meses desde... – ela se calou, olhando para mim e para Lucy que curvara a cabeça. ─...Você não pode ficar evitando conhecer alguém pra sempre.
─Ela tem razão, Lucy. – eu disse, franzindo os lábios ao balançar a cabeça para Julia positivamente. ─Eu sei que você gostava muito dele, mas, infelizmente, ele não está mais aqui com a gente. Você tem que seguir a sua vida.
─Eu sei disso, Dih. Mas não é fácil pra mim, eu gostava dele, muito mesmo, mas não deu certo. Eu não entendia meus sentimentos e não pude me declarar a ele, e quando decidi fazer isso, ele partiu. Partiu sem me dizer um adeus. – desabou-se em lágrimas. ─Me desculpe, eu não queria estragar o seu aniversário.
─Não está. – segurei sua mão. ─Olha... Demorou muito tempo para eu entender isso, mas ficar se prendendo ao passado não irá preservar a memória de James. Porém, você seguir em frente e guardá-lo no coração com espaço suficiente para outras coisas que virão na sua vida, é o melhor que você pode fazer por ele, por você e também por nós.
Seus olhos se ergueram em direção aos meus e um sorriso se projetou em sua face triste, uma ultima lagrima caiu sobre a mesa e um expiro pesado foi exalado pela suas narinas.
Após alguns minutos em silêncio, ela disse algo...
─Você tem razão. – sua voz falhou, mas pude ver sua animação se erguer, junto de sua postura. ─E então... Não vamos pedir nada? Já estou com fome.
Todos nós sorrimos, contentes com seu esforço.
─Eu não falo nada. – disse Oliver. ─Tô varado de fome.
─Então vamos pedir logo. – anunciei, erguendo a mão em direção á garçonete e chamando-a até a nossa mesa.
Doze anos depois...
Nos corredores de um dos hospitais mais bem sucedidos de Nova Iorque, um homem de boa postura, trajado em um terno elegante e um penteado que combinava com sua barba desenhada. Ele anda pelos corredores como se já conhecesse bem o caminho. Com sua mão sobre a orelha direita, ele conversa com alguém por um fone auricular Bluetooth e parece estar concentrado na conversa.
─Não, a história ainda está pela metade... Não, não tenho como começar a planejar outra história com um projeto pela metade... – me calei ao parar de frente á um quarto fechado. ─Olha, depois discutimos sobre isso... Tenho algo importante para fazer agora. É... Vou visitá-lo novamente.
Desliguei a ligação e abri a porta lentamente, dando uma leve batida sobre a porta já semi-aberta, chamando a atenção de um velho senhor sobre a cama no centro do quarto, totalmente centrado em um livro com uma capa juvenil.
─Te atrapalho em algo? – perguntei.
─Filho! – a face dele se iluminou. ─É claro que não, entre.
Passei pela porta e a fechei logo em seguida. Fui em direção ao meu pai e beijei sua mão em um cumprimento de respeito, sentando na poltrona ao lado.
─Como você está? – perguntei analisando o seu estado.
─Estou melhor... – interrompeu sua frase com uma tosse brusca. ─Tirando essa tosse do cão.
Curvei minha face. Triste por vê-lo naquele estado.
─Eu sinto muito por você, pai.
─Sentir? Sentir pelo o que? – colocou a mão sobre a minha. ─Essa doença veio como consequência dos meus atos. Você nada poderia fazer.
─Eu sei, mas...
─Mas nada. Você já está fazendo muito por ter me trazido até este hospital chique em Nova Iorque. Mesmo eu não merecendo. – meus olhos se ergueram para os de meu pai, que apertou minha mão com força. ─Eu queria lhe pedir perdão por tudo que eu já te fiz, filho. Por tudo que eu já te fiz passar e por tudo que eu já lhe disse...
─Pai, não precisa pedir perdão. Eu sou seu filho, é o mínimo que eu deveria fazer.
─Não, não é. Eu não mereço o filho que tenho, e só agora reconheço isso. – a expressão dele se entristeceu ainda mais. ─Depois que sua mãe partiu, ao invés deu ficar mais ao seu lado e ta apoiar, eu te abandonei. Ficava mais em bares bebendo e fumando do que ao seu lado... E, bom, cá estamos nós.
Uma lagrima percorreu pelo seu rosto enrugado e ele começou a soluçar.
─Pai... – abracei-o com força. ─Não importa o que você fez no passado. Eu ainda te amo e irei fazer de tudo para a sua melhora.
─Obrigado.
Largamo-nos do abraço e um silencio rápido passou por ali.
─E então, o que estava lendo?
─O seu livro... Novamente. – ele sorriu, erguendo o livro e mostrando a capa. ─Fico encantado como você me descreveu com tanta perfeição. – sorriu.
─É. – concordei. ─Já outros eu não consegui adaptar com tanta exatidão. – ri de mim mesmo. ─Quem diria que uma historia baseada em minha vida lucraria tanto.
─Você é um bom escritor, filho. Um trabalho honroso. – seus olhos brilharam.
Meu celular zumbiu no bolso do terno e estendi minha mão de encontro á ele.
─Ah, me desculpe, hoje é o primeiro dia de escola do seu neto. – levantei-me. ─Eu fiquei de levá-lo á escola. A Luana está no Brasil na casa da família e só virá na sexta, então sobrou pra mim.
─Tudo bem, filho. Obrigado por vir. – lançou-me um sorriso orgulhoso. ─Mande um abraço pro pequeno.
─Eu vou.
...
Ao longo de minha vida, lancei vários livros que fizeram sucesso. O primeiro foi uma historia de fantasia com seres sobrenaturais que fez sucesso entre as crianças e os jovens. Após alguns outros lançamentos, decidi lançar uma historia de romance e amizade inspirado em um fato de minha vida, mas com algumas mudanças, já que um dos personagens que me inspirou já não estava mais vivo.
No decorrer desses anos, vi muitos de meus amigos se darem muito bem. Encontraram suas paixões e se casarem. Douglas, Julia, Oliver... Todos trataram de se casar e tiveram o tão procurado, mas clichê, “felizes para sempre”. Lucy, diferente dos outros, embarcou em uma viajem pelo mundo, conheceu diversos lugares e não parou até visitar todos os locais de sua listinha de viagens.
Até que, em sua viagem de volta ao Brasil, encontrou um britânico, poucos anos mais velho que ela, que também viajara por diversos países, e se apaixonou por ele. Cena típica de filme, não?
Eu e Luana, após o nosso primeiro livro de sucesso, nos mudamos para Upper East Side, um bairro nobre do condado de Manhattan, Nova Iorque. Após a doença de meu pai, não pude deixá-lo sozinho em BH, e o trouxe para ficar junto a sua família, fazendo os melhores tratamentos que o eu pudesse pagar.
Nesse exato momento estou no meu carro, indo de encontro a meu apartamento para levar meu filho a seu primeiro dia de aula na escola elementar.
─Bom dia! – cumprimentei Sydney, a baby-sitter hispânica que acabara de descer com o pequeno Coen trajado em uma jaqueta de frio dupla, uma calça moletom cinza e tênis do Homem-Aranha.
Em seus seis anos de idade, ele tem os lindos olhos verde-esmeralda de sua mãe e cabelos castanhos claro do pai. Pele também clara e poucas sardas na região do nariz.
─Ele tomou seu café da manhã?
─Sim, senhor. – ela assentiu. ─Demorou um pouco, por causa do nervosismo, mas ele comeu tudo.
─Que bom. Obrigado... – respondi com um sorriso, abrindo a porta traseira direita para que ele entrasse. ─Vamos, garotão. Hoje é o grande dia.
─Ele está bastante nervoso, não disse nenhuma palavra desde que levantou. – disse Sydney á janela do carro.
─Não se preocupe, filho. Primeiros dias de aula são realmente difíceis, mas você poderá ver que não é de tão ruim. – tentei tranquilizá-lo, mas acho que não consegui. ─Pode até fazer amizades.
─Ele tem razão. – Sydney assentiu, tentando fazer o garoto se sentir melhor.
─Então vamos lá. Se não você chega atrasado e sua mãe me mata. – liguei o motor do carro. ─Diga tchau para a Sydney.
─Tchau. – falou com sua voz aguda de um garoto de seis anos e um sorriso desanimado ao rosto.
─Adeus, meu querido. Tenha um ótimo dia. – passou a mão sobre seu cabelo, alisando sua face.
─Thanks.
Dirigi com cautela até a escola. O transito em Nova Iorque nunca perdoa ninguém. Então eu tinha que me manter calmo na frente do garoto, que já não estava tranquilo com seu primeiro dia na escola primária. Por sorte, ou melhor, graças a Lu que escolhera a escola mais perto de nossa casa, não demoramos muito. Estacionei o carro de frente a entrada da escola e me virei para ele, que olhava vidradamente a escola pela janela do carro.
─E então... Preparado?
─Não. – balançou a cabeça, completamente aflito. ─Não posso ficar em casa hoje?
─Você sabe que não. – tirei o cinto de segurança e me estiquei até ele, retirando os cintos de sua cadeirinha de segurança infantil. ─Aliás, adiar não mudará nada. Se você deixar pra amanhã, será seu primeiro dia do mesmo modo. – ajeitei sua roupa e parei por um instante, olhando no fundo de seus pequenos e apavorados olhos. ─Vamos fazer um acordo? Você entra lá, tenta se entrosar o máximo que puder, faça bastantes amigos, e assim que eu vim te buscar no final da aula, te levo para tomar sorvete e comprar alguns livros que você estava querendo, combinado?
─Até Percy Jackson? – um sorriso se projetou em sua face.
─Era um dos meus favoritos, sabia?
─Então, ok... Combinado. – ele sorriu, agora animado, e se levantou, abrindo a porta do carro e se preparando para sair. ─Te amo, pai. – virou-se e deu-me um abraço inesperado, apertando-me com suas pequenas mãos frias.
─Eu também te amo, filho.
Ele saltou do carro e foi em direção á escola. Fiquei parado dentro do carro por alguns minutos até que resolvi sair e entrar para vê-lo em sua sala pela primeira vez.
A escola era um enorme prédio de dois andares. Tinha a construção padrão de escolas da região e um enorme gramado na frente da entrada com arvores que servia para alguns dos veteranos se reunirem em grupinhos distintos. Os corredores já estavam quase todos vazios quando entrei no prédio. Algumas ultimas crianças fechavam seus armários e corriam em direção a suas respectivas salas de aula.
Me informei na secretaria aonde meu filho estudava e fui até a sala, tendo que andar alguns poucos corredores. Quando encontrei, parei de frente a porta ao lado de outros poucos pais corujas que também vigiavam seus filhos. Pela vidraça da porta podia-se ver todos dentro da sala, inclusive ele, que havia se assentado na primeira carteira da fileira do meio e se mantinha calado até que a professora o solicitou para se apresentar. Ele se pós de pé diante a classe e ficou calado e encontrando, de ultima hora, um enorme interesse em seus cadarços desamarrados.
─Pode dizer seu nome para que seus colegas de classe possam ouvir? – a professora repetiu, com sua voz calma e serena, chamando sua atenção para ela.
Ele encarou a multidão diante dele e virou-se para a porta, me encontrando, que acenei para ele, sorrindo e fazendo um sinal de positivo com o polegar, encorajando-o. Portanto, ele se ajeita novamente, enrijecendo o corpo e dando um leve suspiro antes de abrir a boca e dizer...
─Meu nome é Coen... – pigarreou, ajeitando sua voz que falhara. ─James Coen.
Fim.
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