Manos Antes das Minas
8 Enquanto Estive Fora
Final de Julho, o clima em Los Angeles estava bastante agradável naquela manhã. Uma brisa leve invadiu o quarto, passando pela porta da sacada, movimentando as cortinas penduradas sobre as portas como pequenas e calmas ondas e banhando nossos rostos com frescor, despertando-nos com o sol, que resplandecia lentamente sobre nossas pálpebras que se forçam com a luminosidade... Sim, “nossas”. A noite com Miley foi perfeita. Não totalmente perfeita, pois era nossa primeira vez. Éramos inexperientes e tudo aquilo era novo para nós. Primeiras vezes perfeitas só acontecem em filmes, novelas, séries ou livros de adolescentes. Na realidade nem sempre é assim. Bom, eu acho. Também sou inexperiente em falar sobre experiência com primeiras vezes... Nossa, me perdi aqui, espera.
Acordo primeiro e me ponho de pé, vestindo-me e indo em direção á cozinha. Todos ainda estavam deitados, apenas Theo já estava de pé e, ao vê-lo na cozinha, me encarou com uma cara sacana que logo se tornaria de zoação.
─Ah, seu safado! – exclamou sem medo de gritar aos quatro ventos.
─Sorry?! – fiz-me de santo inocente.
─Não adianta disfarçar... Eu sei o que você fez na noite passada. – sussurrou tendo uma arqueada de sobrancelha como resposta. ─Você e a Miley, ficaram não foi?
─Se já sabe por que perguntas? – peguei uma maça em uma tigela sobre a mesa e encostei-me na pia, ficando de frente á mesa em que ele estava sentado.
─Parabéns, cara. Virou homenzinho. – levantou-se, passando a mão sobre meus cabelos que já estavam bagunçados. Então, não fez diferença.
─Para com isso. – ri encabulado. ─Pensei que ficaria furioso. Por que tipo... É a sua irmã mais nova.
─Que nada. – deu leves tapas sobre meu ombro, apertando-o com força e olhando nos meus olhos. ─Se fosse outro cara eu ficaria incomodado, mas sei que você é um cara gente boa. E ela sempre teve uma quedinha por você e tal.
─É. – sorri de lado. ─Mas, eu quero que você saiba que a gente não tem nada sério, ok?
─Ahan. – retornava á mesa, pegando o copo e prato que usara para levar á pia, colocando dentro do lava-louças e fechando a porta do mesmo após ativá-lo. ─Você gosta de outra né?
─Infelizmente. – suspirei com pesar. ─Se dependesse de mim. Se eu pudesse escolher por quem me apaixonar...
─Mas não pode cara. Ninguém pode. Mas essa é a graça, mano. A sensação de descobrir que gosta de alguém é como abrir um presente no Natal. Pode acontecer de não sair como você queria, ou usando o exemplo que citei, não vir o presente que esperava. Mas isso é o de menos, não devemos nos preocupar em nos decepcionar, e sim em não corrermos atrás da pessoa com receio de levar um fora. Acredite em mim, é experiência própria. Você acha que não vai conseguir ficar com ela, não tem confiança no futuro entre vocês dois, beleza. Mas você não deve desistir. Ao menos deveria dizer á ela o que você sente. Quem sabe, inesperadamente, ela também sinta o mesmo por você.
Ao terminar de falar, Miley entra na cozinha com um enorme sorriso ao rosto, radiando alegria. Logo, cumprimenta Theo e depois aproxima de mim, dando-me um beijo inesperado.
─Good morning!
─Mo-morning. – gaguejei após o ocorrido. ─Temos... Ehhh... Temos que conversar.
─Sim, claro. Só irei tomar um café, tudo bem?
─Sure. – respondi consentindo com a cabeça com um olhar atônito.
Após o café da manhã, fomos para meu quarto.
─Então... – procurei as palavras certas.
Enquanto procurava um modo simples e não grosso de dizer a verdade, acabo deixando um silencio chato e incômodo. Que logo é quebrado por ela.
─Eu sei o que você quer falar. – calou-me antes mesmo de dizer algo.
─Sabe?
─Você está com medo de eu estar pensando que estamos juntos. – sorriu levemente. ─Não se preocupe, esqueceu que fui eu que lhe aconselhei e disse que te ajudaria a esquecer a outra pessoa?
─Não... É que, sei lá. Você pareceu estar bastante feliz.
─E estou. – aproximou-se de mim, segurando minhas mãos. ─A noite foi ótima. Mas eu sei que não é de mim que você gosta. Então pode ficar despreocupado. Não irei exigir nada de você.
─Obrigado. – abracei-a aliviado. ─Você é incrível, sabia?
─Sim, mas pode continuar falando. – nos fez rir.
No final daquele dia, fomos para a casa de meus avós, que ainda não sabiam da minha chegada, pois era segredo. Eles apenas sabiam que eu iria naquela semana, então foi uma grande surpresa quando eles abriram a porta e me viram ao lado de meus tios e primos. Tanto, que nos demos um forte e longo abraço que matou de vez a saudade que carregávamos. Almoçamos lá e acabei conhecendo novos parentes que eu nem sabia da existência. Dormi lá por alguns dias e minha avó aproveitou para me levar para todos os pontos turísticos da cidade.
Os dias foram passando e fui aproveitando cada um deles. E, estranhamente, não mantive contato direito com James e Luana. Sempre que eu tentava chamá-los pelo Whattsapp eles estavam ausentes. A ultima vez que falei com Luana, ela me atendeu com uma voz estranha, parecia estar triste e não me dizia o porquê. Já James tentava driblar minhas perguntas. Não me sentia em uma conversa com ele, o tom da conversa soava mais como se estivéssemos jogando uma partida de basquete em que ele estava com o domínio da bola o tempo todo, respondendo de modo vago, que parecia querer esconder algo.
As férias chegaram ao fim, e lá estava eu de novo, me despedindo de minha família, mas agora, para retornar para minha casa.
─Faça uma boa viagem, filho. – disse minha avó com os olhos lacrimejados.
─Obrigado, vó. – abracei-a com força.
─Ligue para nós assim que chegar em Belo Horizonte. – pediu minha tia.
─Eu vou. – sorri, virando-me para Miley e Theo que estavam ao lado de minha tia, logo vindo para se despedirem de mim.
─Vem mais vezes, cara. – falou Theo abraçando-me.
─Vou pensar no seu caso. – sorri.
─Ahan, pensa mesmo. – tocou sua mão com a minha e retornando para o lado de sua mãe.
Miley se aproxima de mim, ficando calada por um tempo. Podia-se notar que ela estava triste com a minha partida. Seus olhos imploravam para que eu ficasse, mas seu coração sabia e entendia que eu não poderia, e mesmo se pudesse, não era com ela que eu ficaria.
É estranho eu dizer isso, me sinto um crápula. Mas si alguém é crápula aqui, é o amor. Esse idiota não sabe juntar as pessoas certas, poxa. Só sabe fazer burrada. Se existe mesmo um cúpido, ele tem que melhorar a mira dele, por que ele só está errando os disparos de suas flechas.
Após alguns segundos em silêncio ─ olhando para o chão ─, ela segura minhas mãos e olha no fundo de meus olhos, logo me abraçando.
─Vou sentir sua falta.
─Também vou sentir a sua falta, linda. – respondi ainda em seus braços.
─Vai continuar mantendo contanto, né?
─E eu por acaso não mantinha antes de vir? – indaguei com um tom sério, como se estivesse ofendido.
─Bobo. – sorriu, permitindo-me admirar suas bochechas coradas pela ultima vez.
Dei-me as costas á ela e fui em direção ao portão de embarque, parando e virando para eles pela ultima vez.
─Adeus! – disse em aberto, alcançando todos ao mesmo tempo.
Embarco novamente, agora com destino de volta para casa. Para ser sincero eu estava um pouco animado, queria retornar. Queria finalmente conversar com Luana e James e contá-los as novidades. Poder voltar á escola que, incrivelmente, fez bastante falta. Talvez pelos amigos, sei lá. O voo de volta foi diferente, pois consegui dormir mais, em comparação ao anterior. Assim, passou mais rápido e “num piscar de olhos”, já estava no aeroporto internacional de minha cidade novamente. Diante de meus pais e os de James.
─Seja bem-vindo de volta, Dih. – recebeu-me Dona Neide, mãe de James.
─Oi Dona Neide! Obrigado. –abracei-a.
─Que saudades, filho. – minha mãe me puxou em um abraço que esbugalhou meus olhos para fora, junto do oxigênio.
─Mãe... E-eu preciso respirar. – tentei dizer, encenando uma dificuldade em respirar.
─Ai, desculpa.
Olho para os lados e não encontro uma pessoa, logo questionando sua ausência.
─Cadê o James?
─Ah... Ele não pôde vir, tinha uma festa com uns amigos ou coisa do tipo. – explicou-se com certa pena de mim, que estranho a escolha de James.
─Sério?
─É, mas não fica assim não. Ele disse que depois iria passar na sua casa. – consolou-me.
─Ah, então tá. – fingi não ter ficado incomodado. ─E a Lu? Eu tenho mesmo uns péssimos amigos. – caçoei, notando que a pergunta fizera um clima estranho surgir. Logo, esfriando o sorriso sobre meu rosto. ─O que houve?
─Você não ficou sabendo? – indagou minha mãe, me deixando mais preocupado do que de inicio.
─Não, fala. – aprecei-a.
─A Luana cancelou o casamento, ela pegou o Julio com outra.
Continua...
Fale com o autor