Manos Antes das Minas
9 Até Que a Traição os Separe
Após ser informado da situação de Luana, pedi para que me levassem até ela, deixando para passar em casa e me descansar mais tarde. Ao chegar a sua casa, sua mãe me atendeu com uma feição triste. Seus olhos cansados, com marcas nos olhos que indicavam que ela havia chorado, e pelo estado que eu encontrei Luana, deve ter sido bastante. Ela adorava o genro, nunca imaginaria que ele faria aquilo com sua filha. Ele não só traiu sua noiva, mas toda uma família junto.
─Graças a Deus você chegou. – disse demonstrando seu primeiro sorriso naquele dia.
─Onde ela está, Dona Clara? – exclamei com uma voz calma e ao mesmo tempo apressada, pois queria encontrá-la o mais rápido possível para consolá-la.
─No quarto... Ela está lá desde que descobriu. Não sai nem pra comer. – respondeu de imediato. ─Acho que só você pode convencer ela.
Cumprimentei o resto de sua família e subi as escadas em direção ao segundo andar, onde se encontrava o quarto de Luana. Subi apressadamente, saltando uns e outros degraus. Cada passo que eu dava em direção ao seu quarto eu podia ouvir com mais clareza ruídos de choro e resmungos engasgados com as lagrimas. Meu coração estava acelerado, sentia-me como um traidor. Ela estava passando por algo horrível e eu não estive ao seu lado. Logo ela que sempre me ajudou quando eu precisava.
Ao chegar á porta de seu quarto, pude encontrá-la deitada sobre a cama. Trajada em um roupão branco, cabelos desarrumados e fones de ouvido rosa que reproduziam suas musicas preferidas em ultimo volume. Entrei sorrateiramente, evitando ao máximo fazer algum barulho. Arrasto meus pés no piso, desviando de objetos jogados ao chão e cacos de vidro que, provavelmente, fora jogado em um ato de raiva. Sento-me sobre o colchão de sua cama e observo-a ali parada, praticamente imóvel. Ela estava deitada lá, encolhida com as pernas dobradas no alto do estomago com seus braços entorno, abraçando suas pernas na altura dos pés. Seus olhos fixos, olhando vidradamente alguns pisca-piscas que decoravam seu quarto escuro.
Vou com minha mão até seu rosto, acariciando-a com os dedos e ajeitando alguns cabelos que caíra sobre sua face, trazendo sua atenção a mim. Ela me olha por alguns segundos, calada e calma, sem demonstrar nenhuma reação ou emoção sequer. Sua respiração fraca era a única coisa que preenchia o silencio naquele local. Ela se levanta, sentando sobre suas pernas e me abraçando com força, aproximando o máximo de mim, permitindo-me sentir seu coração bater aceleradamente.
─Dih, não acredito que isso está acontecendo comigo... – sussurrou ao meu ouvido, enroscando os braços sobre o meu pescoço e aproximando seu rosto pra perto do meu, podendo ouvir sua respiração falha.
─Shhhhh. – a interrompi. ─Fique calma, eu estou aqui com você agora. Não precisa se preocupar.
Para explicar melhor, ela havia pego o seu ex-noivo com uma colega de trabalho na casa que eles iriam morar após o casamento. Eles haviam alugado-a a poucos dias e só havia um colchão de casal e uma geladeira ocupando o apartamento. Ele havia dito que iria para uma festa de aniversário de um parente em uma cidade não muito distante de Belo Horizonte e que provavelmente passaria o final de semana lá. Ela, como qualquer outra pessoa apaixonada, depositou sua confiança nele e o permitiu ir. No dia seguinte, ela resolveu passar no prédio onde iria morar para resolver um ultimo assunto com a dona do imóvel e decidiu dar uma passada em seu apartamento para ver como estava... Bom, acho que o resto já dá para vocês imaginarem como foi, né? Ela encontrou os dois despidos deitados sobre o colchão que ela ajudara a pagar enquanto o canalha contava para sua amante algumas histórias de "Como a Luana é ingênua".
Desde o ocorrido, ela se afastou da escola por alguns dias. Ela nem mesmo saia de casa. Só saia de seu quarto para, quando eu estava lá para obrigá-la, comer algo e tomar seu banho. Sua mãe estava bastante preocupada, ela já dava sinais de estar começando a entrar em depressão. Dona Clara já havia perdido uma irmã com essa doença, então não podia imaginar ver a filha no mesmo estado.
Todos os dias, após a escola, eu ia para sua casa. Ficávamos assistindo nossas séries favoritas e até conseguia arrancar alguns sorrisos despercebidos dela. Aquilo me contentava mais do que ela podia imaginar. Ver sua recuperação, longe daquele estado deprimente era algo recompensador. Após algumas semanas em recuperação, fazendo tratamento psicológico, ela retorna á escola.
No seu primeiro dia de volta, acordei mais cedo que o normal e fui até sua casa para acompanhá-la até a escola. Ela não estava completamente recuperada, ainda estava pouco pra baixo, com o olhar fraco e sem vida. Podia notar no tom de sua voz que ela já não estava como antes, o seu brilho natural havia sido apagado, ela estava desnorteada e sem esperança. James nos encontra no caminho e nos acompanha. Seguimos a rota quase toda em silencio, ele estava estranho comigo desde que eu havia viajado. Não fora conversar comigo pessoalmente e só nos víamos na escola e quando ele ia visitar Luana em sua casa.
Ao chegarmos, encontramos Lucy ao lado de Julie ─ morena de cabelos cheios com cacheados pequenos e bem feitos, olhos castanhos claros e pele ligeiramente bronzeada ─ e Samantha ─ mulata de olhos verdes, cabelos castanho claro e corpo bem definido. Essas, suas amigas, que cochichavam algo uma pra outra, mudaram logo suas expressões ao notar nossa presença.
─Ah... Oi Luana! – Julie cumprimentou-a. ─Como você está?
─Melhor. – respondeu com a voz quase inaudível.
As três garotas se entreolham ao receber a resposta. Lucy me vê e sorri para mim, logo avistando James e corando as bochechas ao ouvir sua voz que a cumprimenta.
─Então, James. Vai trazer mais uma vitoria pra gente hoje? – questionou Samantha, tentando quebrar o clima deixado ali.
─Sempre. – respondeu prontamente. ─Falando nisso, vou encontrar com meu time. Tchau garotas.
─Espera, tenho que conversar com você. – disse.
─Ah... Agora não vai dar. Depois a gente se fala. – recuou, correndo em direção ao vestiário.
─Tem algo de errado? – perguntou Lu em um leve cochicho.
─Eu não sei, mais quero descobrir. – respondi com o olhar fixo no fugitivo.
O sinal toca e vamos para nossas salas. Era aula de física, a mais interessante de todas. Aquela que quando o professor abria a boca para começar a explicar a matéria, todos caiam no sono. Às vezes até eu, que não aguentava resistir uma aula inteira. O que não foi diferente naquele dia. Eu estava cansado, então deitei minha cabeça sobre meus braços e cai em um sono pacífico e calmo que trouxe finalmente o descanso que meu corpo tanto exigia. Acordei com Luana me sacudindo, alertando que já era o recreio e que iria na frente para pegar uma mesa para nós enquanto eu acabava de me recuperar do sono. Ponho-me de pé, esticando as pernas que haviam ficado dormentes de tanto tempo sentado e sequei uma baba seca sobre o rosto, colocando meus óculos e indo em direção ao pátio.
Ao sair da sala eu já encontro um alvoroço que se formava na quadra. Logo pensei que fosse uma briguinha qualquer, então, como sempre, ignorei e segui em frente. As mesas que eu e Luana sempre sentávamos ficavam depois da quadra, assim eu teria que passar pelo olho do tumulto. Ao passar por lá me deparo com pessoas jogando arroz sobre alguém e rindo incansavelmente. Olho para os lados e fico indignado como aquilo não chamava a atenção de nenhum responsável da escola. Viro-me em direção ás mesas e não encontro Luana. Portanto, em meio ao fuzuê e ao amontoado de pessoas, encontro a pessoa alvo das gargalhadas cruéis. Isso mesmo... Era Luana. No mesmo instante meu sangue ferve e perco a paciência, adentrando no meio daquele cercado de pessoas com fogo saindo pelas narinas. Passo por eles e a encontro imóvel no meio de todos enquanto dois caras com a camisa do time de basquete faziam mugidos de vaca e retiravam arroz de um pacote de papel e jogava sobre ela, fazendo uma brincadeira irônica e idiota que remetia á tradição de jogar grãos de arroz sobre os recém-casados, enquanto abusavam do fato de ter sido traída. Vendo aquela cena, sem ninguém fazer nada, eu não pude pensar duas vezes. Minha face repleta de raiva e indignação se fecha, meus pés trêmulos de raiva me direcionam á um dos idiotas e, enchendo o punho direito, acerto em cheio o nariz de um deles que logo vai ao chão.
O feito silencia á todos, as faces preenchidas de zombarias e sorrisos sustentados pela tristeza alheia se tornam surpresas. "Uai?! O cara tranquilo e na dele, que não mata nem uma mosquinha sequer havia acertado um dos jogadores de basquete?"
Minha respiração ofegante era a única coisa que eu ouvia. Olho para as costas da minha mão e vejo a mesma avermelhada na região dos dedos, local onde acertei o soco. Viro-me para Luana e ela me olhava atônita. James aparece no mesmo instante e passa por mim, ajudando seu parceiro de time a se levantar, junto a ele, aparece o coordenador e ordena para que todos evacuassem o local.
─O que houve aqui? – exigiu logo uma explicação.
─Estavam abusando dela, mas como sempre, vocês só chegaram quando não era mais preciso. – retruquei ainda ofegante.
─O que você quer dizer com isso, garoto?
─Você me entendeu. – rebati com olhar firme. ─Quer me suspender? Vamos, eu não me importo. Mas dá próxima vez, vê se melhoram o trabalho de vocês. Por que, pelo o que eu sei, você deveria coordenar á todos nós, não é mesmo?
James me encara pasmo, com uma expressão negativa. Como se eu tivesse acabado de matar algum familiar dele. Aquilo só me deixou com mais raiva, minha cabeça girava e meu coração estava á mil. Mas, em meio aquilo tudo, pude sentir a mão fria de Luana segurar a minha e apertar, chamando minha atenção para seu rosto que desperta um leve sorriso.
Após aquilo tudo levei uma suspensão de apenas um dia e fui para casa. O lado bom é que pude ver o safado com um saco de gelo sobre o nariz, aquilo pagou o meu dia. Fui para casa e após tomar um belo banho, me deitei sobre a cama e descansei. Acordo novamente com a chamada de minha mãe que me alerta a visita de Luana. Levanto de imediato e vou até a sala, encontrando com ela que me abraça no mesmo instante.
─Obrigada. – disse ao meu ouvido.
─Você não tem que agradecer. – respondi. ─Não pudia ficar parado lá vendo aqueles crápulas zombando de você.
─Ai, que fofo. – beijou minha bochecha com intensidade, deixando uma fraca marca de batom. ─Como posso recompensá-lo?
─Olha... – calei-me por um instante, abrindo um sorriso leve e sacana antes de prosseguir. ─Tem uma boate nova na cidade que eu queria conhecer.
─Aí... Boate? – virou-se de costas á mim.
─Vamos. Você precisa se divertir um pouco. – cutuquei-a na cintura.
Ela ficou em silencio por alguns segundos. Pude ouvir os pensamentos altos dela, analisando as finalidades que aquela noitada lhe traria. Até que finalmente ela se vira para mim e me responde com um leve sorriso.
─Ok... Chega de sofrer, né?
─Isso aí, gatinha. – peguei-a e comecei a dançar valsa desengonçadamente. ─Vá até a sua casa, se arruma e fica mais perfeita o possível que depois vou te buscar.
─Sabe que eu te amo? – encarou-me no fundo de meus olhos.
─Sei... – sorri. ─Amigo como eu não existe outro melhor.
─Tenho que admitir. – largou-se de mim, buscando sua bolsa sobre o sofá. ─Vou indo então.
─Não demore.
─E eu por acaso demoro?
Duas horas depois...
─Vamos Lu, a gente está indo para uma boate, não na festa de aniversário do Barack Obama. – apressei-a pela quinta vez.
─Calma. – gritou de seu quarto.
─Tenho que te agradecer Diego. Se não fosse por você... Eu nem sei o que seria dela. – disse a mãe de Luana, aproximando-se de mim.
─Que isso, Dona Clara. Sabe que ela é bastante importante pra mim, nunca a deixaria naquele estado. – sorri, recebendo um forte abraço.
─Sabe... Às vezes me pergunto do por que a Luana não arranjar um cara assim igual a você. Que goste dela de verdade.
─É, acho que ela deve só procurar um pouco melhor e com mais calma. – disse antes de perder meu foco ao ter minha atenção direcionada á Luana que aparece na escada, vindo em minha direção.
─E então, vamos? – ela estava completamente linda. Com um vestido preto fechado na frente e com um bordado nas costas que revelava uma pequena tatuagem que eu desconhecia a existência. Um penteado simples, com os cabelos soltos e uma maquiagem leve que realçava ainda mais sua beleza.
─V-vamos! – exclamei boquiaberto.
Pegamos um táxi e fomos para uma boate nova que recebia vários elogios de jovens e adultos que frequentaram o lugar. Adentramos e já fomos acompanhando a musica eletrônica que tocava. Dançávamos em sincronia, com os corpos próximos um do outro. Após alguns minutos, coloco minha mão sobre sua cintura para espantar os olhares sobre ela e continuo a acompanhá-la no ritmo da musica. As luzes da boate faziam um show de cores que banhavam nossos corpos e refletia sobre nossas faces. Bebemos algumas poucas vezes e sempre retornávamos a pista de dança. Ficamos maior parte do tempo dançando, a maioria dos casais saiam e se sentavam á bancada do bar, mas nós não, ficamos lá esbanjando suingue e disposição para dançar, gritando euforicamente sempre que uma de nossas musicas favoritas passavam.
Após horas na boate, pegamos um táxi e a levei de volta para casa. Durante o percurso ela se sentou bem ao meu lado, pousando sua cabeça sobre meu ombro, enroscando seu braço direito envolta do meu esquerdo e acariciando minha perna com a mão esquerda, provocando uma leve excitação que não pude evitar.
─Se divertiu? – indaguei após pararmos de frente ao portão de sua casa.
─Bastante. – sorriu de uma forma que há muito tempo não a via sorrir. ─Obrigada, eu estava precisando disso.
Abraçou-me forte, permitindo-me sentir seu perfume. Ao sairmos um dos braços do outro, deslocando nossas faces de perto uma da outra, ela se aproxima novamente de mim, me beijando inesperadamente. De inicio, mantenho meus olhos abertos, surpreso com seu ato, mas no decorrer que fui sentindo a delicadeza de seus lábios sobre os meus, fecho meus olhos e aproveito o momento.
Continua...
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