Manchas

1 Parte unica


18 de julho. Sábado.

Chegou a isso, eu, com minhas próprias pernas persegui a única pessoa que já confiei, com meus lábios a declarei culpada de um crime imperdoável e com minhas duas mãos lhe pôs algemas.

É um pouco estranho contar assim, portanto seria melhor voltar um pouco na cronologia, porém há sim motivo para declarar o culpado agora, existe uma lição a ser aprendida do que vivi, uma para ser levada ao futuro, assim, daremos alguns passos para trás.

13 de julho. Segunda-feira.

Desde o dia 5 estava chovendo ininterruptamente, aquela cidade alemã que fazia fronteira com a França jamais viu algo assim, como pode ocorrer isso logo agora? Assim que decido tomar minhas férias da burocracia e corrupção da policia americana e tento voltar para visitar a terra natal, reconectar-me com o que fabuscando afinal?z deste que vos fala o que ele é. Lá sou um imigrante, aqui isso não faz-se exceção, perdi meu sotaque totalmente, não, mesmo falando alemão as vezes uso vocábulos e flexões inglesas sem pensar, o que estou

“Chega de resmungar… isso tomou tempo demais”

Penso isso ao colocar minha capa de chuva amarela… já me perguntei uma vez o porquê dessas peças de roupa sempre serem amarelas, é uma cor um pouco estranha também, mesmo quando tentei ler alguma enciclopédias não pude ir além de “pois é uma cor fácil de se distinguir numa chuva” ou ainda “pois é a cor do sol” isso tudo, pensar que não tinha como apenas isso explicar esse padrão mundial, imaginei outras coisas

“Por que médicos usam jalecos brancos? Por que policiais usam azul?”

É apenas um padrão seguido pelo acaso? Depois de passar horas me perguntando isso enquanto olhava para a chuva do lado de fora, recorri a única pessoa que podia ter uma resposta. A pessoa a qual mais confio.

Bati na porta duas vezes e esperei, assim que a chuva ficou insuportável bati mais vezes, com ainda mais força.

—Não precisa de aperreio, dei toda a atenção a o que disse pelo telefone, lhe esperei todo esse tempo.

Estava lá, a amiga que tenho desde minha infância, mal a vi desde meus 12 anos quando mudei para a América, contudo… talvez só sejamos insistentes.

De frente a chuva sem fim ela portava apenas um guarda-chuva com padrão de joaninha.

—Ei! O que você está fazendo ai?! Isso não serve de nada com esse tempo!

Mexi a maçaneta e percebi que a porta esteve sempre aberta, tentei a empurrar para dentro da casa imediatamente, porém ela insistiu em fechar o guarda-chuva antes de entrar “para não dar azar”

Entrando lá ela me recebeu bem, imediatamente trouxe doces que apenas encontro nessa cidade, por mais escura e por mais altos que os prédios aqui sejam, em apenas alguns quilômetros se torna uma área rural, é uma construção de cidade bem esquisita do meu ponto de vista.

Notei algo esquisito ao morder uma bolacha de sabor laranja.

“Apesar da chuva… ela não parece que realmente saiu…”

Então, finalmente fiz a indagação sobre o tema, ela desde sempre parecia saber de tudo, se tornou uma professora ainda, pela casa com paredes longes umas das outras e tetos a grandes distâncias do chão, ela conseguia ganhar mais que eu.

Sua resposta foi como esperava:

—Todos esses padrões e essas cores são assim pelo mesmo motivo, essa vai ser minha primeira dica.

Jamais recebi uma resposta direta de primeira, não, jamais ganhei uma resposta direta.

—Isso não vai funcionar… não posso adivinhar só com isso.

E ela insistiria.

Segunda dica.

—Envolve não as cores em si, mas o que elas são.

Terceira dica

—Você tem que lembrar do seu ensino médio, vamos, qual era a sua pior matéria?

—Física?… Talvez seja então algo ainda mais complexo…?

Quarta dica.

—E mais, por que era sua pior matéria?

Quinta dica, sexta dica, sétima, oitava, nona, décima, décima primeira, trigésima sétima, quadragésima quarta.

E assim ela continuaria sem parar, até que não houvesse mais como ter duvidas da resposta e apenas pararia quando eu mesmo a respondesse, por isso tive duvidas do que contava como uma resposta direta.

—Fotons então são err… como átomos da luz? E esse é o mótivo das cores se repetirem?

—Exatamente!

—Ainda não vejo o ponto disso tudo, elabore mais por favor.

Esperava que isso a fizesse falar mais antes de outra questão ser direcionada a mim.

—Quando a luz atingi um objeto, dependendo de suas propriedades, ele refletira uma certa parte da luz, nossos olhos vêem as cores nisso, diferentes feixes, branco se destaca por não ser um feixe, mas o resultado de todos eles juntos.

—Sei disso em partes, mas como pode explicar minha pergunta?

—Portanto, o que você vê é apenas uma ilusão, a luz que rebate num objeto e volta a seus olhos, e por isso tudo que vê está sujeito a erros, falsos, incongruências, assim como o que houve agora.

—Então, qual é a conclusão que pode ser tirada?

—Quantas vezes você viu uma capa de chuva que não fosse amarela? Um jaleco que não fosse branco? Na verdade, o que deveria pensar é, você o reconheceria como um se as cores não fossem de acordo? Se visse um jaleco cinza, o que pareceria? Para você, o que aquilo seria?

Assim ela concluiu, não sendo que todas as capas de chuva são amarelas, mas que se não fossem amarelas, não seriam capas de chuva, jalecos que não fossem brancos não seriam jalecos, assim por diante.

Depois a questionei por que precisava levantar uma questão física, algo tão complexo apenas para resolver isso, que depois de receber a resposta, me pareceu apenas um problema de lógica.

—As pessoas irão negar que o que observam é apenas uma ilusão até não existir outra possibilidade.

Com isso, resolvi mudar de tópico, enquanto não estivesse fazendo essas perguntas a ela, na verdade essa era uma pessoa bem normal, a única pessoa que confio e que sempre pareceu estar lá.

—Inclusive? O que te inspirou a vir até aqui? Correndo em meio a uma chuva e pondo tanto esforço em andar apenas para me encontrar e fazer uma pergunta tão boba? Você ainda tem 17 anos? Sua adolescência vai durar para sempre?

Dizer isso para mim me lembrou que sim, sempre fiz coisas assim desde que a conheci, porém a ultima vez foi a 8 anos, precisamente quando tinha 17 e estava visitando essa cidade.

Me pergunto por que fiz isso novamente? Talvez para lembrar? Era apenas uma desculpa para vir? Se não posso responder nem isso com sinceridade, o que diria saber sobre mim mesmo?

Assim, após um jogo de cartas e usar a oportunidade para assistir um filme de terror passando no especial da TV, senti que ficar até mais tarde realmente concretizaria estar agindo como meu eu de 17 anos, por isso coloquei a capa de chuva e voltei a andar pelas ruas de prédios como muralhas e onde apenas chuva podia alcançar, ruas claustofóbicas com vários centímetros de água sobre o chão, naquele clima apenas eu parecia conseguir andar por lá.

Parecia, até lá.

Só existe outra cor que pode se destacar tão bem quanto amarelo em meio a uma chuva, vermelho.

Olhando para os meus pés, foi o que observei, a água da chuva mudando de tom, essa cor cruel se espalhando pelos arredores até cobrir tudo que podia observar.

Minha experiência não deixava que pensasse duas vezes, aquilo era sangue.

E ainda assim parecia não ter sinais de uma fonte, porém pelo ritmo, devia estar muito próximo, a alguns metros apenas, deveria estar a plena vista.

Andei até achar uma… linha.

Uma corda parecia, ela estava se estendendo para cima, como se algo a prendesse ao céu, assim que me virei para onde ela apontava.

Do céu veio a resposta.

Um homem caiu sobre a água, logo tudo ao se redor virou um vermelho vivido, sua garganta estava cortada, seus olhos fechados e havia sangue descendo pelo rosto, como se imitando lagrimas.

Amarrado a sua cintura estava aquela corda, por instinto, buscando alguém para culpar por isso, olhei para cima, tentei achar alguém pelos telhados das casas, porém não havia mais nada para ver, quem quer que fosse, já havia desaparecido.

“Espero que a policia possa fazer algo”

Pensei enquanto puxava meu telefone com cuidado e apertava os botões.

Depois de 8 minutos e 32 segundos, a policia havia chegado a cena do crime, onde estava?

Esperando, pois quando liguei disse com todas as palavras:

“Irei aguardar na cena do crime, estou usando uma capa de chuva amarela. Vou garantir que ninguém tente mover as evidências, quaisquer que sejam”

Então lá fiquei, olhando para os corpos caídos, olhar aquilo era um terror que fui forçado a me acostumar, é parte do meu trabalho afinal.

Com o tempo, naquele exato dia 13, resolvi encarar aquilo de outra maneira, percebi o quão belo era o que via, um pensamento tão mórbido que temo fala-lo, mesmo aqui, onde jamais isso poderia virar-se contra mim.

Pois aquilo não era uma casca sem vida, era uma pessoa cheia dela, do corte seu sangue, portanto sua vida, vazava e dava outra cor à água, poderia dizer que a alma dessa pessoa estaria para sempre naquelas águas, não importa por onde elas fluíssem.

“Não… isso é muito otimista, ele já está morto. Morreu em um instante, agora a sua tristeza de não poder seguir em frente infecta as águas, não sua alma em completude, apenas arrependimento. Talvez, as vezes, a morte possa ser poética, bonita até, contudo até uma alma perturbada poderia ver o quão terrível esse crime foi, bárbaro e sem razão”

Somente pela forma que ele foi executado, subseqüentemente os minutos os quais encarei a morte, uma resolução foi feita dentro do meu coração, achar quem cometeu esse ato terrível, faze-lo ver a justiça.

E pensando um pouco em outras coisas… quando eles chegaram, reconheceram que era a pessoa da denuncia instantaneamente, muito de longe.

Eles não viram a capa de chuva, eles viram o amarelo dela, se não fosse amarelo, o que teria ocorrido?

Dia 14 de julho. Terça-feira.

A chuva havia ficado mais fraca, era logo antes das 11 e podia ver o sol, pequenas falhas entre as nuvens me diziam que ele ainda estava lá.

Finalmente as pessoas tinham saido para as ruas novamente, com guardas chuvas, ou capas de chuva, elas voltaram a trabalhar e alguns, freqüentar a escola.

“Nisso…”

Sai de casa com um sobretudo, não devia ter que caminhar tanto até lá.

Pois naquela cidade não havia muito para mim, nenhum entretenimento, nenhuma atração turística ou cultural que me interessasse, o único valor pessoal dela para mim foi que aqui nasci e por metade de minha vida vivi.

Na verdade, dizer isso seria demonstrar muita ingratidão, havia mais uma coisa que me fazia enxergar valor naquela cidade.

Forscher, Else Forscher, sendo Else pronunciado como si mesmo, porém constantemente ofuscado pela forma que eu e as outras crianças pronunciavam seu sobrenome, em vez de Forscher, “Rorschach” esse se tornou um apelido que pendura até hoje, pelo menos a mim. Era essa a única pessoa que devia confiar.

Enquanto a mim, meu nome é Ermittler, apenas isso, meu sobrenome não será importante em momento algum.

Cheguei logo ao meio-dia, na escola que a anos havia estudado, foram tantos que sequer lembrava, o homem no portão, o qual não podia sequer chutar seu trabalho, foi quem me reconheceu, por sorte diria, vim até lá apenas para ver como era a grande escola que minha amiga do passado dava aulas.

Quando virei um corredor, como se me esperasse, ela estava lá, aquela mulher de baixa estatura e pele pálida, cabelos e olhos negros.

Lhe contei o que havia ocorrido no outro dia, foi naturalmente, não deveria ter dito nada, porém evitar era apenas atrasar, nessa ocasião.

—A policia encontrou o culpado?

—Não, uma investigação foi aberta, mas sei que não será fácil, por pelo menos uma semana, diria que esse louco vai estar livre pelas ruas da cidade.

—Isso é misterioso, isso é bem estranho e mais de tudo, isso é assustador.

—Tenha cuidado, muito cuidado até lá, na verdade, talvez tirar férias e se afastar da cidade por enquanto serviria bem a você.

—Hum, por que seria isso? O que lhe faz acreditar que deveria evitar o culpado como se a fosse a praga?

A resposta me veio no mesmo momento, por mais que insistisse em ignorar isso, ela sempre teve motivos para evitar uma situação assim, o que a afligia era o medo extremo e irracional de sangue, “hemofobia” ou “hematofobia” uma patologia de nascimento.

A lembrei disso.

—Obrigado por se preocupar, porém tenho que dar aulas ainda, meus alunos são o mais importante para mim.

Resolvi aceitar essa diligência, logo sai da escola após olhar a sala que ela iria dar suas aulas logo após, não conseguia de forma alguma lembrar de estudar lá, por isso quis sair imediatamente.

Pois não conseguia lembrar do meu passado, aquelas memórias eram em cinza, mas não era tão dificil saber o motivo.

Nunca me importei em falar com quem estava próximo de mim, apenas em ajuda-los, como um herói sem nome, as vezes problemas se apresentavam a minha frente e meu senso de justiça dizia que ignorar era errado, tomava a atitude certa então e resolvia o problema da melhor forma que conseguia.

Sem emoção, sem pensar em quem ajudava, isso era desconexo de mim mesmo, por dentro não via motivo para tais ações, era só como agia.

Tal qual estou fazendo agora, andando pela cidade em meio a chuva que se agravava conforme chegávamos mais próximo da noite, procurando uma pista qualquer para descobrir quem cometeu o crime, tudo isso por quê?

Enquanto andava, ouvi alguns alunos do ensino médio fofocando, uma coisa que aprendi no serviço de policial é o quão rumores assim são úteis, por mais distorcidos que sejam, onde há fumaça, há fogo, por isso prestei atenção ao o que eles diziam.

Era sobre o assassinato do dia anterior, falavam que o próximo alvo seria alguém importante da cidade, uma garota disse saber quem em especifico, disse ouvir que seria o prefeito, os outros acharam que seria muito, pois ontem era apenas um policial que estava de férias, parecia um pulo muito grande.

Ainda assim, sabia o rosto do prefeito e fiz um caminho que deveria dar a prefeitura, esperava conseguir alguma informação dele.

No caminho ainda, num parque encontrei ele, mas certamente algo estava errado.

Era apenas o prefeito de uma cidade pequena, normalmente ele poderia andar sozinho pela cidade com uma roupa semi-formal e iria conversar com qualquer pessoa que encontrasse, contudo não foi isso que vi.

Tinha 5 policiais ao redor dele, armados e marchando até a prefeitura.

Estavam em um instante, não estavam em outro.

Com um estalo, todos eles foram presos por cordas e sumiram da minha visão.

Vendo as cordas se estendendo para o alto, como antes elas pareciam inverter as leis do mundo e “caírem” para os céus, corri para uma delas e me segurei, comecei a escalar.

Tinha algo estranho… era quase fixa, não parecia uma corda realmente, já escalei cordas como parte do treino, consigo lembrar claramente que não eram assim.

Olhando para cima, através das gotas de água, não parecia ter ninguém ainda, mas era o mesmo criminoso, pelo padrão ele tinha que cortar a garganta de todos eles mais uma vez, iria se expor para isso, então teria minha oportunidade.

Foi o que pensei, a ilusão que criei.

A realidade foi que as cordas se “soltaram” como se sua energia tivesse acabado e assim todos que estavam lá caíram ao chão.

Perdi a noção de meus arredores por alguns segundos, assim que me levantei percebi o quão errado estava, não todos, apenas dois haviam ido para cima e voltado

Eu mesmo e o prefeito, todos os policiais haviam sumido, o destino deles é desconhecido.

Cai na água com mãos e pés me protegendo, porém o prefeito não teve essa sorte e precisou ser levado ao hospital, eu mesmo o carreguei até lá.

—Rorschach? Por que aqui?

—As noticias circulam rápido nessa cidade, quando soube que estava aqui, vim imediatamente.

—Você não… deixa, mas não sou eu o ferido,o prefeito que se machucou, vou esperar ele acordar para não dormir com a consciência pesada.

Novamente me expliquei, lhe disse tudo sem pensar.

—Tenha cuidado, é a segunda vez que você se encontrou com esse criminoso, você precisa ser um exemplo, não posso fazer o que me pediu se não seguir a própria dica.

A única coisa que não lhe disse, foi que estava ativamente indo de encontro a esses crimes, apenas isso.

—Sim, não vou mais deixar isso acontecer, talvez fique em casa amanhã, tem vários livros que devia ler, as chuvas de agora parecem deixar tudo… apropriado.

—É uma boa idéia, veio até a cidade para descansar, não devia pensar em mais nada…

Ela deu meia-volta e saiu do hospital, estava com uma capa de chuva dessa vez, era amarela, se não fosse, não seria uma capa de chuva.

Quando saiu, ainda continuei no hospital por pelo menos uma hora, a chuva continuava e a noite se aproximava de seu ápice, onde a lua estaria no topo do céu, mas ainda coberta pelas nuvens.

E após esse tempo, tudo isso esperando, ouvi de longe, do fundo do hospital um grito, não de desespero imagino, mas pedindo ajuda, de alguém se deparando contra algo além de si mesmo, percebendo sua própria impotência e fazendo a única coisa que pode, pedir ajuda.

Me levantei e corri naquela direção, conforme ia, logo percebi que isso parecia coincidir com o caminho onde o prefeito devia estar, ao chegar, o que imaginava havia ocorrido.

O grito veio de uma doutora, ela estava com as costas a um canto da parede e olhando fixamente para uma janela aberta.

“Está chovendo muito, quem abriu essa janela?”

O assassino, era a resposta, pois ao olhar para baixo, apenas uma das 3 pessoas dormindo naquele quarto estavam feridas, o prefeito, e agora seus olhos também pareciam derramar lágrimas de sangue, sua garganta também estava cortada.

Dentro daquele hospital… após ver que a segurança foi reforçada nos arredores, ele o deixou viver apenas para isso, não o fez como com os policiais.

Isso foi uma mensagem, não há como se proteger, não há com o que se defender.

Isso também, consolidou em mim o desprezo que tinha sobre aquela pessoa, seja lá quem fosse, ela estava vendo beleza em por medo no coração de pessoas que sequer conhece, seus alvos seriam sem motivação e se defender parecia realmente impossível, mas…

“Deixou uma testemunha? O que ela poderia saber?”

Dizendo ser um policial, o que tecnicamente é verdade, a fiz dizer o que ela viu.

Uma pessoa com uma capa de chuva, uma amarela, cabelos e olhos negros, foi tudo que consegui.

Tinha uma simples descrição, uma idéia dos métodos bizarros do criminoso e uma espécie de motivação, devia agir assim que possível.

Dia 15 de julho. Quarta-feira.

No dia seguinte, por volta as 2 da tarde, percebi que minha capa de chuva havia sumido, minha capa de chuva amarela. Andar pela cidade enquanto ainda chove se tornaria bem mais difícil.

Dia 16 de julho. Quinta-feira.

Apesar de tudo, da chuva não parar e das ruas começarem a se esvaziar. A investigação tinha de continuar, o crime do dia 14 foi o ultimo, porém parecia certo de que outro ocorreria, em breve.

Nesses dias segui os procedimentos de investigação conforme fui treinado pela policia da América, pode não parece, na verdade, não parece, porém no outro continente eles me condecoravam como um grande investigador, reservavam a mim os casos mais complicados, porém nunca entendi o motivo, bastava seguir uma lógica simples, seguir procedimentos, diretrizes, dado esforço e tempo suficiente, o que não poderia ser resolvido? Tudo poderia.

E felizmente, a fonte do modus operandi do criminoso ficou claro quando estava perdido e buscando informações na biblioteca.

Lá achei um livro de mitos locais, encontrei um.

Que não foi falado por anos, décadas até, um que existia a tempos, porém não mais na mente dos moradores da cidade.

Assim dizia a lenda:

“Caso uma pessoa deprimida saísse de casa num dia chuvoso, sozinho e sem um guarda-chuva, ela poderia encontrar o anjo da chuva” apesar de o chamarem de anjo, entre histórias seu nome varia muito, demônio, aparição, estranho, cartomante, dentre outros títulos são dados a ele, porém a história em si sempre mantém esse modus operandi:

“E assim que a pessoa o encontrasse, o demônio se revelaria como uma pessoa usando uma capa de chuva, a qual na tentativa de atormentar o humano…” atormentar também parece ser uma parte volatil do mito, algumas vezes o que só darei o título de “mancha” em referência a como imagino que a criatura se destacava na paisagem, também ao seu poder que me parece deixar uma mancha no mundo, de qualquer maneira, algumas vezes a mancha é dita como benevolente, fazendo o que faz esperando bons resultados, no entanto…

“Então o anjo mostrara o futuro da vitima, caso a pessoa vendo seu futuro goste do que está vendo, ela ira voltar correndo para casa e será feliz pelo resto de sua vida, em homenagem ao anjo da chuva, ela iria sempre andar com uma guarda-chuva em mãos ao sair de casa, por mais ensolarado que o dia fosse, para jamais esquecer os seus dias de tristeza, para garantir que o anjo soubesse que seria lembrado”

“Do contrário, caso a pessoa se depare com um destino terrível, ela ira chorar lágrimas de sangue e morrera ao ser sucumbida por tamanho desespero, dizem que, arrependido…” em algumas versões, numa demonstração de desdem “ira ao enterro da pessoa morta, ele não estará usando sua capa de chuva e dizem que essa é a única maneira de ver sua forma verdadeira”

E como não poderia ser melhor, o enterro da primeira vitima, o policial de férias, este ocorreria no dia seguinte, as 6 da tarde.

“Isso me da… 29 horas para me preparar… bom…”

Me levantei e guardei os livros, agora tinha o objetivo de formular um plano.

Primeiro passo: comprar uma câmera.

E assim que saia da biblioteca, reconheci alguém enquanto saia.

A única pessoa que conhecia daquela cidade, a quem chamava constantemente de Rorschach, a quem não era realmente chamada de Rorschach.

—O que você está fazendo?

Foi apenas isso que ela perguntou.

—Estou lendo, não foi isso que disse que faria?

Essa a resposta que lancei.

Algo pontudo encostou no meu lábio direito, era um pouco afiado e parecia quase cortar minha boca, com essa força, abriu o lado direito e atravessou até chegar a outra ponta.

—Ei! O que foi isso?!

Perguntei o que Rorschach tinha feito, perguntei exatamente assim, esperando entender o que ela queria alcançar.

—Tinha um zíper na sua boca, estava abrindo ele.

—O que é essa metáfora dessa vez?

—Não é nada, estou apenas passeando um pouco, hoje as aulas terminaram mais cedo, por mais que tenha o que fazer em casa, posso andar pela cidade antes disso.

—Entendi… poderia olhar alguns mitos da cidade, encontrei um interessante sobre o “cartomante da chuva”

—Quis dizer “demônio da chuva”? Este é um mito que estou familiarizada.

—Sério?… Não sabia nada dele até ler sobre, depois disso começo a achar que o criminoso que apareceu recentemente seja um imitador, ou algo parecido, pode haver um termo mais técnico para isso, mas só me acostumei a lidar com criminosos normais na minha linha de trabalho.

—E para você um criminoso pode ser normal?

—Bem… se fosse realmente normal, não seria um criminoso, portanto… poderia dizer que foi um uso de palavras infeliz, que não diz absolutamente nada no fim.

—Falando em nada… tenho uma pergunta para você, uma ultima questão.

—Ultima…? Diga do que se trata.

—Caso você quisesse catalogar, melhor definir as regras de todo o universo, sendo ele infinito e guardando infinitas possibilidades, para escrever todas as regras do universo, seria necessário um livro de regras ilimitado?

—Bem…

Deixei que pensasse um pouco, parecia uma pergunta bem importante.

10 minutos passaram.

—Não exatamente. Diria que seria impossível e inútil fazer algo assim, mesmo construir, sequer pensar nesse livro de infinitas regras parece inútil, posso não ser tão bom em matemática, mas…

—Entende, não é? Infinitas regras significa infinitas contradições, é impossivel para nós pôr absoluta ordem ou absoluto caos sobre o plano em que vivemos, é essa a lição que você precisa carregar.

—O que…?

—Há muitas exceções sobre as regras, demais para contar.

Então, antes de perceber, meu mundo virou escuridão.

Dia 17 de julho. Sexta-feira.

Quando acordei, estava sentado entre duas estantes de livros, num corredor daquela mesma biblioteca.

Mas ao tentar me mover, logo percebi, sem sequer olhar, apenas pelo material e pelo som.

“Algemas?”

Olhando para trás, havia fileiras e fileiras de cadeiras, presas umas nas outras por algemas, me mover certamente não seriai impossível, porém não estaria carregando um peso enorme pelos pulsos e calcanhares.

“E quem fez isso?… A ultima coisa que me lembro…”

Foi fácil de pensar. Não havia ninguém mais que pudesse ter feito aquilo.

“Dei todas as respostas, ela percebeu quem estava perseguindo o criminoso, assim tomou uma atitude bem extrema para que parasse? Isso soa como uma boa narrativa, porém há vários furos”

Como ela conseguiu tantas algemas? Tantas cadeiras? E as outras pessoas dessa biblioteca? Afinal, como alguém com um porte físico tão frágil me derrubou antes que percebesse?

Sem ter como resolver tantas questões, olhei para o relógio da biblioteca.

Eram quase 5 da tarde.

Me preparei para esperar naquele lugar até que alguém me achasse, por maior que fosse a richa pessoal contra o impersonador do cartomante da chuva, tinha muitos dias ainda para acha-lo, enquanto Rorschach soubesse das regras, não havia perigo, também não havia mais nenhuma familia minha na cidade.

Minha mãe e pai morreram logo depois que terminei a faculdade. Minha irmã está na América, o que havia para proteger lá? Um monstro com tantas regras jamais seria perigoso.

“Há muitas exceções sobre as regras”

Essas palavras ressoaram conforme pensava, finalmente entendi o que estava acontecendo.

Não era impossível, por isso me levantei, esperei que toda a dor já suportada no mundo viesse a meus pulsos e calcanhares, então puxei as algemas para frente.

Ouvi o barulho das cadeiras caindo entre sim, como um castelo de cartas caindo, se amontoando e ganhando mais passo, como se quisesse dizer que aquilo era só o começo.

Estava querendo lidar um impersonador quase perfeito, poderia muito bem estar contra o ser verdadeiro, queria mesmo enfrenta-lo assim? Sendo fraco a ponto da Rorschach conseguir me derrotar?

Carregando a montanha de cadeiras por trás de mim, notei a biblioteca como fazia, até agora não posso sequer imaginar o porquê.

Eventualmente, depois de puxar a tonelada de cadeiras de um canto ao outro da biblioteca, as algemas quebraram e estava pronto.

Sai na chuva, sem uma capa, sem um guarda-chuva.

Depois de virar a esquina, por coincidência, no mesmo lugar onde nos encontramos pela primeira vez, em cima do mesmo prédio, vi alguém com uma capa de chuva amarela.

Subi o prédio, fui até o seu topo, ainda mais perto do céu, agora, mais perto do que nunca do meu nemesis, de quem persegui por essas curtas férias.

—Demônio da chuva, cartomante da chuva, anjo da chuva, aparição da chuva, estranho da chuva, é assim que você gosta de ser chamado? Não espere tanta cordialidade de mim, para quem vos fala, você é apenas a mancha, uma mancha.

A capa de chuva amarela, os olhos e cabelos negros, sabia que havia encontrado o alvo.

Entrei numa pose de luta, esperei uma resposta, queria ver o que aconteceria então.

Quando notei, o chão rachou em pedaços, todos eles se separaram.

—AH! -O impacto que senti não era um soco normal, nem mesmo um lutador profissional poderia fazer aquilo, era a força de meia tonelada nos meus pulsos.

“Meia?… Sim, só metade”

Empurrei o golpe de volta, com aquela velocidade, se existia alguma hora para contra-ataca, só poderia ser agora.

—VOCÊ É UM IMPOSTOR! Não é o cartomante da chuva! Não é o demônio da chuva! Não é o anjo da chuva! Você é só um falso, um criminoso que vai passar o resto da vida na cadeia!

Com isso, fomos em direções opostas, mas ainda juntos do prédio desmoronando.

Não desmaiei, por sorte, porém mal conseguia focar minha visão, estava chovendo tanto, mal podia ver a mancha amarela, a luta de um segundo não deixava que me movesse, mas… o mito do demônio da chuva estava acabado, pois ele não chegaria ao enterro a tempo, agora… ao menos essa seria uma vitória que teria.

Até que… próximo a mancha, o impostor que enfrentei… havia outra pessoa, também com uma capa de chuva amarela.

Conseguir me levantar pela urgência.

—Cuidado! Não se aproxime…! Ele é um monstro!

Mas não imaginava quem estava lá, outra mancha, de cabelos e olhos negros, uma mancha menos marcante. Rorschach.

“Ela veio ver o resultado desse confronto? Foi isso?”

Minhas duvidas sanaram, em outro segundo, com o som de um tiro, assim que a água ao redor da mancha de capa de chuva amarela, que agora sequer era uma capa de chuva, ou amarela, tingiu-se de vermelho.

“O que…?”

—Você conseguiu derrota-lo, sendo ele o real demônio da chuva, anjo da chuva, ou cartomante da chuva, ou sendo ele um mero impostor, agora ele jamais fará algo assim novamente.

—Rorschach… é você…? O que você fez?

—Sim, você não notou que um dia inteiro se passou desde que vocês dois se confrontaram? A chuva piorou muito e por isso ninguém pode ser mandado ao resgate, apenas eu vim aqui. Não trabalho nos sábados.

Dia 18 de julho. Sábado.

—Mas o que… o que você fez?

—Uma vez, estava chovendo assim como hoje, era um dia tão triste. Andei pelas ruas sem uma capa de chuva e sem um guarda-chuva, nesse dia…

—A mancha? Isso é como o mito dele…

—Mas você nunca ouviu dele na sua infância, não é? Por que não?

Novamente, ela me daria todas as respostas, mas não diretamente.

—Por que um mito assim existe? Qual a sua moral? Quando ele pode ter surgido? Você sabia que capas de chuva não são um invento muito antigo?

“Sim, eu acabei vendo algo durante as minhas primeiras pesquisas, a patente de um foi feita em 1824, mas ainda assim não era exatamente como esses, apenas uma patente não inclui o tempo para as pessoas se familiarizarem com ele, para então criar um mito”

—Então… esse mito é recente…?

—Bingo. Foi criado no dia 13 de julho, apareceu na biblioteca de um dia para o outro, quando você me visitou, estava voltando da biblioteca após ler o novo volume que surgiu do vazio.

—Qual o sentido disso tudo agora? Por que tudo isso aconteceu?

—Uma resposta tão completa você precisa achar por si mesmo.

Ela se aproximou de mim, percebi que as algemas ainda estavam nos meus pulsos, mesmo que com as correntes quebradas, talvez isso tenha me salvado no dia anterior.

E Rorschach usou uma chave e as soltou.

—Você é livre agora. Só precisa exercer seu direito de punir crimes.

—Executar a justiça…

Não podia entender por completo o que havia acontecido, aquela foi a semana mais estranha da minha vida, porém, eu sai com vida, agora posso usar todo o tempo que me resta para entender, refletir sobre o que houve. Tirar uma lição, a lição que precisava aprender.

Assim, com as algemas que tinha em mãos, exerci o que tinha o direito ainda.

—É isso tudo que posso fazer por você. Pois agora não sou a mesma pessoa. Como uma capa de chuva que não é amarela, eu mudei além de reconhecimento, não posso dizer que sou eu mesmo mais.

Fin.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!