P.O.V. Marco.

Ela nunca disse de onde veio. E eu nunca vi um vestido como o que ela estava usando. Tudo o que sabemos sobre ela é que seu nome é Aurora e que está procurando pela mãe.

—Aurora!

—Olá senhor Marco. Olá pra você também, senhor.

—Eu sou o Cem Olhos.

—Oh! Eu sou a Aurora.

—Muito prazer em conhecê-la. Sabe, você é a primeira pessoa a não me julgar pelo fato de eu ser cego.

—Porque eu faria isso? Sabe, as pessoas gostam de julgar a minha mãe por como ela se parece também. Eles ficam com medo porque... ela é diferente e faz coisas que as outras pessoas não fazem. Porque ela tem algo que a torna especial. Como você.

—Obrigado. Gostei dela.

—Obrigado. Gostei de você também.

Era incrível. Ela soava inocente como uma criança.

—Bem, precisa melhorar a sua técnica.

Quando finalmente ficou noite eu como sempre não conseguia dormir.

—Não consegue dormir?

—Não. E você?

—Estou acordada, não estou?

Ela riu. Como se houvesse algo implícito naquela frase que eu não entendia.

—Porque você está acordado?

—Muitas coisas na cabeça.

—Queria poder te ajudar com isso. Mas, eu não conheço essas ervas. Posso tentar te fazer dormir e acabar de matando sem querer.

—Reconfortante.

—Isso não foi uma ameaça. Foi a constatação de um fato.

Estávamos olhando para o firmamento. As estrelas brilhavam.

—Qual é o nome da sua mãe, Aurora?

Ela respirou fundo antes de responder.

—Malévola.

—Malévola?! O nome da sua mãe é... Malévola?

Aurora fez que sim.

—Nem quero imaginar a reação do povo quando ela chegar aqui. Não que eu já não saiba. As pessoas são preconceituosas.

—Como é a sua mãe?

—Ela é a melhor.

Toda vez que eu faço uma pergunta ela arruma uma maneira inteligente de evitar a resposta ou falar uma meia verdade.

—E o seu pai?

—Ele morreu. Ele ficou louco, paranoico e ai ele morreu.

—Sinto muito.

—Tudo bem. Eu nunca consegui conhecê-lo de verdade.

—Temos isso em comum.

P.O.V. Aurora.

Onde será que a minha mãe está agora? Será que conseguiu chegar aqui? Será que está bem?

Já estou á quase um mês aqui. E sei que minha mãe nunca deixaria de me procurar.

Deve ser difícil pra ela ter que me procurar e lidar com os humanos.

O Palácio até que era confortável, mas agora estamos num acampamento de guerra. Estou servindo a bela Princesa azul, mas infelizmente estou cercada de soldados e não sou tão inocente. Sei de onde os bebês vem. Vejo eles olhando pra mim de uma maneira não muito educada.

Esse exército é diferente. Há mulheres nele. Guerreiras formidáveis, como a Princesa Khutulun.

A Princesa Azul, não é a Princesa Khutulun. A Princesa Azul é Kokashin. Sei que ela ama o Senhor Marco, mas está casada com o Príncipe Jingim. Porque ela faria isso?

P.O.V. Malévola.

Procurei em todos os lugares. Só falta um. E meu coração está apertado de pensar que eles a levaram para lá. Um acampamento de guerra.

Como os humanos interpretariam minha chegada como um ataque de qualquer maneira, decidi fazer uma entrada.

P.O.V. Marco.

Estávamos nos preparando, á espera do exército inimigo, mas o que recebemos não foi exatamente um exército. O sol ficou momentaneamente coberto, no chão a enorme sombra projetada pela... mulher alada. As asas eram lustrosas, quando abertas eram largas. E ela pousou com um baque. Uma batida de suas asas levantava um vento forte o suficiente para fazer um batalhão voar longe.

—O que diabos é isso?

A criatura tinha chifres pretos, longos cabelos castanhos lisos, seus olhos eram grandes e verdes, os lábios vermelhos, os ossos das bochechas eram salientes e sua pele era pálida demais para ser humana. Pálida como leite.

Ela tinha longas unhas que mais pareciam garras.

—Bem, esta é a melhor recepção que já tive. Olá.

O Príncipe ordenou que os guerreiros sacassem as espadas.

—Até que desta vez demorou. Não se alarmem, não estou aqui para atacar vocês, lutar com ou contra vocês. Só estou procurando uma pessoa.

Me levou um tempo para juntar as peças. Mas, eu finalmente entendi. Por isso Aurora nunca realmente falava sobre a mãe. Também, ter uma criatura alada e de chifres como mãe não deve ser algo que se saia espalhando aos quatro ventos.

—Você é a mãe de Aurora. Malévola.

—Você é um inteligente.

Disse apontando pra mim.

—Sabe onde ela está?

—Matou metade do meu exército!

Esbravejou o Khan. E ela respondeu com um sorriso, e orgulho:

—As coisas que fazemos pelos nossos filhos. Além do mais, esses humanos que eu acabo de matar, já estavam condenados. Eles de qualquer forma fariam mais pelo mundo com suas mortes do que jamais fariam... em vida.

Os gestos dela eram delicados e de algum modo isso a tornava ainda mais ameaçadora.

—Então, algum de vocês a viu? Você a viu? Cabelos da cor do sol, olhos azuis, pele pálida.

—Porque está atrás dela?

—Ela é minha filha. Sinto falta dela, estou preocupada. Estou aqui procurando por ela, assim posso abraçá-la novamente. Perder a minha filha, saber que ela sumiu foi o único e mais verdadeiramente doloroso momento da minha longa, longa vida.

—Você diz isso como se a amasse.

—E porque eu não amaria?

—Demônios não são capazes de amar.

—Então, sorte a minha que sou uma fada. Além do mais, nós nascemos, nos alimentamos, morremos assim como vocês. Então, porque motivo não amaríamos? Preciso cuidar da minha filha como a sua gente jamais cuidou.

—Aurora é uma fada?

—Não. Ela é um ser humano. Como você. Só que ela tem sangue real.

Os soldados avançaram encima dela, mas ela era uma lutadora incrível. Ela tinha magia, as asas serviam também como arma e o ambiente era literalmente seu aliado.

A terra engolia os soldados, os cavalos, tudo. As flechas batiam nas asas fechadas e voltavam.

—Mãe! Mãe!

Aurora saiu correndo de dentro da tenda e veio em nossa direção.

—Parem de atacar a minha mãe!

No meio daquela confusão uma das flechas... acertou Aurora.

—Não!

Berrou a criatura. Ela viu Aurora ser atingida. A viu cair.

Em menos de meio segundo ela matou mais de cem homens com um grito. E o que aconteceu a seguir foi inacreditável.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.