Maldito Intercâmbio
1 Prólogo
Notas iniciais
Vinte e oito de agosto de 2016 -Aeroporto, seis horas da tarde.
A hora estava chegando. Alice estava chateada por conta de estar sendo trocada pelo celular, porém ela entendia a razão para tal feito. Ele estava indo embora, um ano longe: da família, dos amigos e bem, longe dela. Ela realmente queria que isso desse certo, mas agora não tinha tanta certeza, normal não saber se fez a escolha certa ou não, certo? Ela insistirá tanto para que tentassem o relacionamento à distância, não conseguia entender o por que de ele querer acabar algo que durará anos por culpa de alguns meses, e agora que ele estava indo para a outra ponta do continente, o pensamento de que algo estava errado, de que o certo seria conversar sobre a relação não saia de sua cabeça. Patético, isso para não dizer que já estava sentindo falta de uma pessoa que ainda se encontrava em sua frente. Ridícula. Era assim que Alice se sentia. A vontade de chorar vindo com uma força descomunal, mas ela não iria derrubar lágrima alguma, teria que ser forte, por ela e por ele, um simples deslize, uma singela demonstração de fraqueza, e ele poderia desistir de um sonho, e se isso acontecesse, nunca se perdoaria. Não tinha o direito de ser egoísta em uma hora daquelas, por mais que quisesse, sabia que não poderia. E mais, e mais pensamentos invadiam sua mente, sem que desse conta de que estavam falando com ela.
— Alice. Está tudo bem, querida?
Sua sogra, era a melhor do mundo. O modo como ela a tratava era maravilhoso, como se fosse sua própria mãe, o que obviamente ela não era, porém sabia que tinha algo de errado com a garota. Ela estava mais quieta que o normal, e isso é muita coisa para alguém que pouco fala, como Alice. Bem, de certa forma, a pergunta fez com que ele ao menos tirasse os olhos do celular e observasse a garota, como se quisesse achar algo de errado. Parecendo achar algo, ele suspirou e simplesmente bloqueou a tela, olhando-a, esperando pela resposta.
— Estou sim, Vâ. – foi sua resposta, dando um pequeno sorriso em seguida.
Ele não acreditou, nem por uma fração de segundos, os olhos dela não conseguiam mentir, e por uma fração de momento pensou que ela iria desabar. Ao invés disso, ela somente levantou e levou sua bandeja vazia para o local correto, logo sentando em sua frente novamente. Ele gostaria de saber o que se passava em sua mente, sua expressão era aflita, apesar de ninguém, além dele, ter reparado. Pensou em perguntar o motivo dela estar assim, mas isso logo foi esquecido quando sua mãe disse para eles irem sentido à entrada para a área de embarque.
Ele estava eufórico, não tinha como negar, iria realizar um de seus sonhos, e ainda por cima iria a um lugar que sempre quis conhecer, e agora aquela seria sua nova casa por dez meses. Dez meses em que iria conhecer pessoas novas, uma cultura nova, um lugar extremamente novo. E mesmo assim, parecia que algo estava fora do lugar. Ele gostaria muito que ela pudesse ir junto, mas sabia que era impossível. Queria continuar com Alice, ele a amava. Mas será que é certo prende-la a ele, mesmo que ela tenha insistido para tal? Isso o atormentava desde o dia em que recebeu e soube a data da passagem. Ele estendeu a mão, em um gesto para que Alice a segurasse e juntos, de mão dadas, eles foram rumo ao que seria uma despedida.
Ambos preferiram ficar com seus próprios pensamentos no pequeno trajeto que fizeram, mal sabiam eles que pensavam a mesma coisa. Será que era realmente certo continuar com aquilo? Estavam com aquele sentimento de estar protelando algo inevitável. Por fim, continuaram com o silêncio, sem que nenhum percebesse que o outro abrirá a boca para dizer algo, fechando-a logo em seguida, achando bobagem, e desnecessário no momento falar sobre aquele assunto. Voltaram a se falar quando finalmente chegaram ao portão de embarque. A despedida mais perto do que nunca. A vontade que Alice tinha de chorar chegará ao ápice, e a dele de abraça-la e nunca mais soltar também. Ele recebia as instruções de última hora: “ Não se esqueça da bagagem. “ Você irá troca-la de uma esteira para a outra e seguir para a parte de migração.”, “Você sabe o seu portão, certo?”, ”Avisa quando chegar.” , “Pelo amor de Deus, filho, cuidado na hora da escala.” E então chegara o momento deles. Não sabiam o que fazer, odiavam despedidas, ainda mais essas que são quase um adeus. Em um movimento automático se abraçaram, mais forte do que normalmente, com mais intensidade, carinho. Bem, era uma mistura de emoções. Ficaram assim por uns bons minutos, até que o silêncio começou a ficar estranho.
— Se cuida tá? E me avisa quando chegar.
— Eu te amo, Alice. – ele sussurrou apenas para que ela escutasse. Ela sorriu com aquelas palavras.
— Eu te amo, Henry. – respondeu vendo-o abrir aquele sorriso que ela tanto amava.
— Claro que irei te avisar. – se afastaram após essas palavras, para se olharem uma última vez.- Se cuida também, está bom ?- E logo voltaram a se abraçar, nos braços tão conhecidos.
-Vou sentir sua falta, pequena.
— Também vou sentir a sua, amor.
Com um último aperto e um simples beijo de despedida, se afastaram completamente. Não precisaram dizer a palavra, seus olhos diziam por si só, mostrando que aquilo estava matando ambos. E então ele se virou, e tomou seu lugar na fila que começava a se formar, enquanto ela era abraçada pela sogra que murmurava :“ Sei que essa cena também é difícil para uma namorada, assim como é para uma mãe.”, e tudo que ela fez foi assentir com cabeça, sabendo que sua voz falharia se por acaso tentasse responde-la.
A última coisa que ela viu, foi ele se virando para mandar um beijo, sorrindo.
A última coisa que ele viu, foi a única lágrima que ela não conseguiu segurar.
E então, com um último suspiro dos dois, seguiram seus caminhos por direções opostas. Ela três horas de carro para chegar à sua casa, ele prestes a enfrentar dezessete horas em aviões, para chegar em um lugar que seria seu lar pelos próximos dez meses .
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