Maldições e dádivas - Mate o conjurador
3 Capítulo 2: Roseiras de Rosária
Notas iniciais
A noite de Eliort se prolongou numa insônia sem fim. Tentou abafar os pensamentos sobre o pai, Léia e afins. Não obteve êxito. O circuito de sua manhã era complexo, mas não para ele. Acordava com o digníssimo brilho solar, comia alguma coisa e partia para a selva atrás de uma presa fácil para o almoço da família. Quase sempre se unia a Irineu ou a Pietro Rodrick filho da curandeira Matilde. Depois de caçar a carne ou pescar um peixe do lago, voltaria para sua casa onde entregaria a sua coleta nas mãos de sua mãe e brincaria com Merina. Améliz não sabia, mas essa brincadeira envolvia facas e maneiras estratégicas para caçar, escalar árvores e se camuflar, Ele achava necessário à garota aprender essas coisas, até por sobrevivência já que como o irmão, não possui uma maldição. Se bem que existem maldições que trazem maleficio, no caso de Irineu por exemplo. Você deve estar se perguntando: como se sabe quem possuí uma maldição? Simples. Os sofredores do caos não possuem as linhas das mãos. Outra dúvida surgirá em sua cabeça não é mesmo? E sua maldição, como você sabe qual é ela?
As primeiras possuidoras de uma maldição e benção ainda vivem. As irmãs do meio termo são senhoras que receberam a missão de esclarecer o mundo dos sofredores do caos e dos vencedores da aliança. A senhora Verona vive no fim da floresta do povo amaldiçoado, no ponto mais extremo e perigoso. Quando uma mulher engravida, ela tem a obrigação de ir até Verona para que ela dê o veredito se ali em seu ventre, há um amaldiçoado e qual a maldição da criança. No império, Vorane é encarregada para anunciar os vangloriados abençoados, aquele que possuí uma dádiva é respeitado e treinado no alto escalão do exército ou estuda nas melhores escolas. No vilarejo, aquele concebido com uma maldição é aceito e acolhido. Para sorte de alguns e tristezas de outros, as maldições e dádivas são singelas, existem poucos casos conhecidos em ambas.
Retornando a rotina de Eliort. Dispôs de treinar a irmã, quase sempre começa a percorrer pergaminhos antigos, os traçando e consumindo-os na memória como se não houvesse amanhã. O incrível era que na maioria das informações existiam combates, guerras e conflitos entre os povos, coisa que não aumentaria muito sua esperteza, porém o enriquecia culturalmente e ele adorava se gabar por isso. Retornando a floresta caçava mais um animal e ao fim da tarde descansava. Obviamente as refeições estavam incluídas no itinerário.
Hoje decidiu inovar. Pediu permissão a mãe para levar Léia até as roseiras, o único canto da floresta prazeroso. No caminho pensou em diversas formas para começar um assunto, exemplificando: “Você gosta de cupim? Os guerreiros do império não venceram a batalha da batata, sabia que existem árvores que escutam?”. Felizmente para todos os leitores, quem deu a partida no diálogo fora Léia.
— Saiba que seu pai é alguém muito respeitado. – Sugeriu o assunto, Eliort tratou de desenvolvê-lo.
— Eu sei. – Sorriu de lado. – Mas, é sempre bom ouvir isso principalmente de ruivas!
— Por que ruivas? – Ela levantou suas sobrancelhas.
Eliort buscou mentalmente o retrato da sua avó, da qual se gabava por ter um filho tão exemplar e ético. Faleceu há três anos e ainda assim continuavam em meio aos seus cabelos brancos, cabelos cor de cobre.
— Nada especial — Se esquivou. –. Falemos sobre a senhorita. Gosta de festejos?
— Não muito. – Concluiu – Só da comida. Festejos contem muito barulho e muitas pessoas. Sinto-me abafada entre multidões, posso parecer tola por isso... Enfim me sinto vigiada, perseguida não é uma sensação agradável, evito o máximo possível. – Seu rosto enrubesceu.
— Para que a vergonha? Todos têm medo de algo.
— Você tem? – Perguntou curiosa.
— É claro. – Disse secamente aquebrantando o clima amigável.
Os dois então silenciaram a partir da sequidão ocasionada por Eliort.
A trilha cada vez mais se alongava encontrando caminhos múltiplos e direções sem saídas. Tiverem dificuldade apenas em uma ponte feita de árvore que balançava de acordo com as coordenadas do vento. Depois de ultrapassá-la o suor pingou dos rostos juvenis. Há algum tempo caminhavam e até então nada que pareça florescer fora encontrado. Eliort negava-se a considerar o fato de estar perdido e por esse orgulho ainda caminhavam sem direção num rumo cada vez mais novo para os dois.
— Certamente estamos perdidos não é? – Falou ela ofegante.
— Só precisamos caminhar mais um pouco e...
— Diga a verdade. – Ela o encarou.
— Sim. – Revelou ele com dificuldades em assumir seu erro. – Desculpe-me, prometo que irei me lembrar!
— Sem preocupações. – Afirmou. – Até foi bom isso acontecer por que eu acabei conhecendo a floresta.
Eliort saltitou sem explicações visualizando o horizonte, deixando Léia abismada.
— Eu deveria saber o porquê dos saltos? – Ela indagou.
— Tranquilamente. – Animado, estranhamente segurou a mão da garota e a levou mais a frente correndo como se na dianteira existisse um presente fantástico que precisasse muito. Indagações surgiram na cabeça dela, mas passivamente o acompanhou. Sentia uma conexão de confiança instantânea com Eliort, não sabia explicar, só sentia como se ele fosse seu melhor amigo, aquele confiável e conhecido há anos, geralmente na infância.
A floresta vinha atenuando a cada pegada dada por eles. As árvores arqueadas começavam a sumir, o piso de terra e pouca grama naturalmente substituída por um solo germino lembrava Eliort que estava próximo das roseiras. A luz do sol invadiu vivamente o fim da grande área verde decorrida por eles, servindo-o de clímax para o campo de rosas vermelhas e azuis em seguida.
— Que esplendido e lindo! – Exclamou ela abismada com a extrema beleza do lugar.
— Venho aqui muitas vezes com a minha irmã, mas nunca deixei de estar como você está agora, sorridente. – Ponderou Eliort caminhando livremente ao lado de Léia, pelas roseiras vermelhas. – É esse o motivo da minha vinda contínua a este lugar. A felicidade que ele emana.
Léia sorria para Eliort amigavelmente, infelizmente não era desse sentimento que ele achava que se tratava. Em sua mente o relacionamento e o respectivo casamento com a ruiva já estavam praticamente prontos. Outro defeito dele: se apaixonar fácil de mais, planejar o incerto até os fins dos seus dias.
O campo das roseiras vermelhas e azuis só existe por causa de Rosária, filha de Verona. A mulher adorava o aroma das flores. Aquele coletivo de rosas se mantem lindo e vivo há décadas mesmo passando por anos de seca, chuvosos, frios e quentes. Alguns dizem que é o espirito de Rosária é o mantedor do campo.
— O aroma é tão doce... – Maravilhada arrancou uma rosa azul e inalou seu cheiro.
— Tal como você. – Foi direto.
A face espantada da garota quebrou o coração apaixonado de Eliort. Era uma expressão emanando a resposta não. Parecia que ela não esperava jamais por alguma cantada do tipo, até por que fazia um dia que haviam se conhecido e comparar uma garota com uma rosa é exigir muito dela. Léia simplesmente jogou a rosa ao vento e fixou compaixão no olhar. Opinião do autor: “levou um fora, vai de novo”.
— Obrigada, mas...
— Não precisa proferir nada. – Ele sorriu envergonhado para ela. – É que desde quando te vi, senti meu coração pulsar.
— Seu coração está em constante pulsação.
— Essa é diferente. – Alertou. – Pulsação do amor.
Ela não queria despedaçar ainda mais o coração dele, mas teve.
— Eliort você apenas está confuso. Não diga mais nada, somente esqueça-me como uma amada e me aceite como uma amiga. – Ela suplicou.
Os olhos azuis acinzentados dele pareceram trincar ao ver a imagem da moça apenas como uma amiga, entretanto sabia que podia se acostumar. “Tomou um gelo amiguinho” – autor.
— Confirmada nossa aliança amigável! – Ele estendeu sua mão alegremente, fingindo que não estava na pior.
— Sim. – Riu de lado e apertou a mão firme e machucada do rapaz.
Eles passaram o restante da tarde conversando coisas aleatórias, bobas por sinal. Tiraram um pequeno cochilo antes do sol se por, mas acordaram antes da lua surgir cheia e mais brilhante do que jamais fora vista.
Sentaram na grama, cruzarão as pernas em borboleta e observaram a plenitude do céu estrelado onde as constelações de Burso, lebre-lobo e serpente cipó eram eminentes. Mas nem as estrelas fizeram esquecer nos dois uma sensação estranha, sentida por ambos após acordar naquela noite. Tentaram absorver a ideia da mudança mais não conseguirão relacionar a nada. Eliort de repente sem pretensão de olhar figurou as roseiras à frente e notou dois detalhes importantes sobre como estavam agora. Primeiro, não exalavam mais o seu perfume, segundo, estavam decaindo, secando como se há dias não recebessem uma gota d’água ou muito menos a presença dos raios solares. As rosas morriam consequentemente uma após a outra, sem pausa. O campo das roseiras estava morto, nem uma rosa se quer sobreviverá.
Léia também notará a situação, ficando tão chocada ao ponto de paralisar olhando a cena funesta. Os dois estavam extremamente espantados.
— O que houve? – Léia perguntou quase sussurrando, segurando a mão de Eliort como um porto seguro.
— Eu não sei... – Ele não tinha palavras para serem usadas. Aquelas roseiras fizeram parte de sua infância e adolescência, uma riqueza natural tão pura quanto à água de uma fonte cristalina. E ressaltando mais uma vez: ele amava aquele lugar. – Vamos para casa, está tarde e a floresta é extremamente perigosa à noite, no caso teremos que enfrentá-la assim mesmo.
Ela aceitou em silêncio. Viu que estava segurando a mão dele e logo a soltou, pois o gesto poderia causar impressões amorosas. Ficaram de costas para o campo e começaram a caminhar para a penumbra floresta à frente. Léia parecia paranoica ao olhar para a escuridão, Eliort via o sofrimento transbordante na face da garota, entretanto quis só continuar.
O vento há pouco tempo se quer tocava seus rostos. Agoraarrancava pequenos fios de seus cabelos e torneava seus corpos com um frio de bater os queixos. Eliort simplesmente decidiu olhar para traz antes de entrar com o pé direito, além das poucas macieiras, roseiras mortas e pequenas borboletas, um homem encapado de preto, usando um capuz da mesma cor sorria para eles. O garoto perplexo logo teve a reação de virar seu corpo totalmente e retirar seu sabre da bainha. O clima estava tenso. A cada passada do homem pelas roseiras mortas mais os dois adolescentes regrediam.
— Quem é você?! – Exclamou ele abruptamente.
Sorrateiramente o encapuzado retirou as luvas de suas mãos e as estendeu causando um fenômeno mortífero no local. As árvores começaram a murchar, a grama tornou-se amarelada, já as rosas se dissolveram como pó e foram carregadas pelo fluxo de vento. Eliort não sabia o que fazer além desomente apontar sua espada prateada em direção ao homem que visualmente abria um sorriso sagaz.
— Um mensageiro. – Sua voz era amena e afeminada, contudo dava para notar que seu gênero era o masculino. – Seu vilarejo entrará num colapso profundo e uma enfermidade se alastrará para todos aqueles que não tiverem a linha da vida. Os Ceifadores agradecem a compreensão.
— Como pode saber? – Indagou furioso, demonstrando confiança e poder.
— Seremos nós os causadores. – Ele se virou para os jovens e caminhou descendo o morro.
O loiro decidiu que não deveria ficar parado e deixar que alguém venha dizer tais coisas sobre seu vilarejo. Caso acontece-se algo ao seu povo e ele não tivesse feito nada para evitar, se sentiria um moribundo, descartável tanto para seus amigos e familiares.
Eliort correu em formação de ataque contra o homem retirando a grama a cada pisada firme. Ao aproximar-se do homem o rapaz atacou-o, mas ele conseguiu desviar-se do golpe de Eliort mesmo de costas causando calafrios ao jovem. Nem precisou deslocar de sua posição para atingir o loiro em cheio com um chute poderoso. Caído ao chão com a mão em seu machucado no rosto, o filho de Pasquim permanecia impotente ao ver o mensageiro dos ceifadores sumir em meio ao campo das roseiras de Rosária.
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