Malaxophobia
27 Vasculhando memórias
“Atenção, meninas! Reunião das torcedoras em 15 minutos!” Jenny Simons exigiu ao fim das aulas. Assim que Henrietta agradeceu internamente por isso não ser da sua conta... “E você também, Mascote.”
Sentada no penúltimo degrau de uma escada, fumando um cigarro, Henrietta procrastinava até onde podia antes de comparecer ao seu compromisso. Depois do sorriso fatal que ofereceu à Simons mais cedo, era bem óbvio que a vampira procuraria um meio de incomodá-la de volta. E tinha que ser logo o meio mais imbecil possível.
Ser forçada a fazer algo que não queria e ter seu tempo precioso roubado eram dois strikes na escala Biggle. Se fosse qualquer outra se recusando a aparecer por um dia, Simons certamente relevaria, mas como era ela, uma advertência severa e uma queixa para o diretor certamente estariam reservadas. Esmagando a ponta acesa do cigarro no degrau, a gótica resmungou consigo mesma uma última vez antes de se levantar e arrancar a bituca gasta do suporte.
Numa lixeira próxima, jogou o cigarro acabado fora, refletindo se esses pontos por participar de um clube seriam mesmo necessários. Conjecturou se, talvez, ela só não devesse se empenhar e estudar mais. Então irrompeu pelas portas da quadra ao fim do corredor.
Só percebeu que tinha chegado com raiva ao ouvir a porta batendo atrás de si e ver as cheerleaders na arquibancada virando as cabeças na sua direção. Quase um déjà vu. Caminhando na direção delas, Henrietta engolia a raiva conforme Simons, de pé, a encarava tentando disfarçar um sorriso de quem tinha algo em mente. Antes mesmo que a gótica terminasse de se aproximar, a capitã das torcedoras levantou uma caixa de papelão enorme e aparentemente leve. Henrietta podia enxergar os grandes chifres de vaca feitos de feltro marrom saindo pela tampa aberta.
Aquela maldita fantasia ridícula. A gótica sentia o rosto em chamas ao lembrar que teve que usá-la.
— Se for se atrasar assim, da próxima vez nem precisa vir. — Jenny comentou quando Henrietta parou à sua frente.
— Então me avise na próxima vez, não vai precisar nem olhar pra minha cara. — Henrietta retrucou com expressão neutra.
— Ah, não. — um sorriso cheio de veneno cresceu no rosto da vampira. — Faço questão de olhar pra sua cara daqui em diante.
Antes que Henrietta processasse o que ouviu, recebeu de forma bruta a caixa com a fantasia da mascote nos braços. Abaixou-a um pouco para liberar a visão e se pôs a observar as costas da capitã tomando distância. A gótica franziu o cenho de olhos cerrados.
— Bom. — Jenny prosseguia com o discurso que parou, voltando-se novamente para as torcedoras. — Como todas sabem, seremos fundamentais no último jogo de baseball dos garotos. Infelizmente nossa amiga Clyde não poderá estar conosco, mas foi divertido enquanto durou.
As cinco garotas sentadas trocaram olhares e risadas. Por um momento, Henrietta quis ter passado mais tempo assistindo Clyde bancando o ridículo, claramente as outras viram coisas que ela não viu.
— Como eu dizia antes da nossa Vaca finalmente chegar — Jenny estendeu a mão na direção da Mascote, que a fitava e ouvia com desprezo. — Nossos treinos têm sido muito produtivos e acredito que faremos uma ótima apresentação durante a partida final, mas uma coisa anda me incomodando — agora, Simons olhava a gótica diretamente. — É injusto que só nós ganhemos os aplausos. Com essa fantasia, ninguém na plateia saberá quem está por trás dos incríveis números que a mascote vai fazer. Não é mesmo?
Se a autoconfiança da gótica pudesse ser representada por uma janela de vidro intacta, translúcida, limpa e brilhante, Jenny tinha acabado de arremessar uma bola de baseball com toda a força contra ela e a quebrado em mil pedacinhos. Enquanto a vampira e capitã continuava seu falatório com orgulho, a mente de Henrietta viajava por 5 dimensões diferentes constatando uma única coisa: o seu plano, que consistia em se aproveitar do anonimato da fantasia de vaca e pagar alguém para ser a mascote em seu lugar, tinha caído por terra.
— A ideia é essa — Jenny continuava, imaginando toda a cena. — Ao fim da partida, ficaremos todas juntas e a mascote vai tirar o capacete. Então, nos curvaremos e receberemos as flores e os aplausos, como no fim de um lindo espetáculo.
— Não vou fazer isso.
O entusiasmo da vampira sumiu. Se virou friamente para a gótica que acabara de protestar.
— Como?
— Simons. — Henrietta deixou a caixa cair pesadamente. — Passou mesmo pela sua cabeça que eu me sujeitaria a esse papel? O que foi? Se jogar daquele prédio te deixou retardada?
— Eu sou a capitã dessa equipe — procurou ignorar o comentário ácido para não ser rebaixada.
— Ué. Foda-se. — interrompeu. — O que te faz pensar que tem algum direito de mandar em mim?
— Pelo visto, você não sabe como funciona uma hierarquia.
— Não. Eu sei. Mas se eu não estiver mais acima nessa hierarquia, eu sinceramente não me importo.
— “Beagle” — de punhos cerrados, Jenny perdia nitidamente a paciência. As outras observavam e se entreolhavam discretamente, sem saber como ou se deviam interferir. — Como mascote, você só tem dois trabalhos: dançar pro público e passar vergonha. Quero me assegurar de que vai ser você quem vai estar nessa fantasia. Pensa que não sei que pode botar outra pessoa pra fazer isso por você? Algo te leva a crer que sou ingênua?
— Bom. Pra começar, você usa purpurina no rosto.
— Ou você faz o que eu digo, ou está fora. — Jenny deu o veredito final com surpreendente seriedade e segurança. Sob a camada de raiva e inexpressividade típicas da gótica, Henrietta temeu o “poder” da vampira por um único segundo. — Você e seus amigos não são alunos dedicados, todo mundo sabe disso. Sem as líderes de torcida, você vai ter que tirar pontos do seu cu se quiser passar esse ano, Biggle.
* * *
— Já conseguiu? — Kenny apressou seu amigo gordo.
— Vou conseguir se você calar a porra da boca. — com um canivete e um fio de cobre nas mãos, Cartman tentava um arrombamento à porta da sala da coordenação.
Ao mesmo tempo em que os clubes começavam a se reunir e os membros da coordenação tinham uma pausa para o café, a dupla dinâmica executava a segunda etapa – ou “tentativa” – do plano para desvendar o passado da gótica. No corredor vazio e escuro, Kenny iluminava a fechadura com a lanterna do seu celular enquanto olhava para todos os lados, atento a qualquer um que pudesse flagrá-los.
Com um clique, a porta se abriu num pequeno vão. Segurando a maçaneta com um ar presunçoso, Cartman fitou o mais pobre, inteiramente convencido.
— Interrogar o Bradley não funcionou, mas estou com um bom pressentimento dessa vez. — o de vermelho guardou as ferramentas de invasão no bolso dianteiro. — Você fica aqui e vigia a porta. Enrola se alguém aparecer.
— Agradeço se não demorar. — vendo-o entrar na sala, o loiro guardou o celular no bolso traseiro. — Você que devia ficar aqui fora. Quem sabe enrolar as pessoas na conversa sou eu ou você?
— Se alguém aparecer e vir outro alguém na porta da coordenação, quem vai parecer mais suspeito, eu ou você?
— Ta vendo só? Até me convenceu. — cruzou os braços, recostando-se na parede. — Anda logo.
Dentro da sala, Cartman encostou a porta atrás de si cuidadosamente. Acendendo apenas metade das luzes da sala pelos interruptores, pensava consigo mesmo: Kenny também sabia usar da conversa. Principalmente com o sexo feminino, dependendo do quão vulnerável a garota estivesse. Mas depois do que viu Kenny passar ao vivo e a cores com Henrietta... Bom. Talvez ele não soubesse tanto, assim.
Sem perder tempo, Cartman foi direto às enormes gavetas de aço que certamente guardavam fichas e históricos estudantis. Com a iluminação que tinha, podia enxergar o ambiente, mas quem estava no exterior não poderia ver a sala acesa através das janelas. Abriu a longa gaveta de sobrenomes das iniciais de A à C e se pôs a folhear pasta após pasta até encontrar os sobrenomes de inicial B, onde folheou com mais atenção. Encontrar a pasta “Biggle, Henrietta” levou uma questão de segundos, um nome exótico o bastante para não se repetir.
Tirou a pasta da gaveta e a abriu sobre uma das mesas, dispondo à sua visão todos os documentos que ali estavam. Devido à gótica ter entrado em South Park High este ano, não havia nenhum relatório de professores dizendo o que achavam dela, mas relatórios ou documentos recentes não eram o seu foco. Se concentrava diretamente na ficha de uma Henrietta Biggle de 7 anos de idade. Uma Henrietta que ainda não conhecia South Park.
Eric trouxe os papéis para mais perto de si. A primeira coisa que chamou sua atenção, inevitavelmente, foi a pequena fotografia no canto superior direito.
Por um lado... Decepcionante. Tanto a ficha quanto a foto não eram documentos originais, mas cópias autenticadas em preto e branco. Todos os documentos exceto os recentes eram cópias em preto e branco. Dessa forma, não poderia distinguir as cores nas imagens.
Por outro lado... Era extraordinário. A Henrietta de 7 anos, com bochechas gordinhas e uma cara naturalmente mau humorada, não tinha nenhuma maquiagem sobre o rosto. Nem quando ele coexistiu com ela enquanto crianças a tinha visto sem maquiagem. A roupa, que só podia ser vista nos ombros, era de uma cor clara mas impossível definir. E o cabelo – essa era a parte mais incrível. O cabelo era longo, preso em duas tranças grossas que escorriam pelos ombros. E esse cabelo, definitivamente, não era preto.
Cinza como estava na imagem, o cabelo poderia ser de qualquer cor. Qualquer cor, menos o preto. Se fosse em outro universo literário, o mero vislumbre de algo tão inimaginável para a mente de Cartman poderia levá-lo à insanidade.
O rapaz procurava se manter focado em seu propósito. Poderia pensar sobre isso mais tarde. Estava surpreso, mas no fim das contas não era “nada demais”. Sua mãe também tingia os cabelos, embora de volta à cor original e apenas para esconder os fios brancos. Começou a ler as informações relevantes na mesma ficha.
“WaKeeney Elementary
Cidade de WaKeeney, KS.”
Então, antes de virem para South Park, Henrietta e sua família viviam no Kansas. Cartman achou interessante. A família dele próprio descendia do estado de Nebraska, e ambos os estados faziam fronteira tanto um com o outro quanto com o Colorado. Passeou os olhos pelo restante da ficha apenas por curiosidade, descobrindo por exemplo que Henrietta não tinha alergias, que sua mãe se chamava Harriet e que fazia aniversário no dia 18 de janeiro. Avançando a leitura, encontrou o histórico de notas daquele ano letivo.
Para uma criança no início do ensino fundamental... Era terrível. Eric viu a si mesmo ali, seja na infância ou no agora: nem notas ruins, nem boas, apenas várias “dá pra passar”. Mas as notas em Educação Artística e Inglês Inicial de Henrietta eram impecáveis, com belos A+.
Grampeado aos mesmos papéis, estava um relatório da professora principal. Interessado, Cartman se viu incapaz de fazer uma mera leitura dinâmica. Leu absorvendo cada detalhe.
“WaKeeney Elementary School
Professora A. Doughty
Apesar de ser uma aluna quieta, Henrietta não é fácil de lidar. Protesta ao receber recomendações ou ordens e raramente faz os deveres de casa. Ao contrário de outros alunos com o mesmo problema, porém, Henrietta não dá desculpas para não ter feito as tarefas. Apenas diz que não estava com vontade de fazê-las.
Henrietta não parece motivada a prestar atenção nas aulas ou nas atividades e o resultado pode ser visto em suas notas medianas. No entanto, ela tem habilidades notáveis: aprendeu a ler mais rapidamente que as outras crianças, já leu todos os livros infantis da sala de aula e aprecia muito os trabalhos de desenho, pintura a dedo e colagens. Aprecio estes interesses e procuro incentivá-los.
Henrietta não consegue fazer amigos. Seus trabalhos artísticos são dedicados, mas estranhos. Gosta de desenhar monstros e muitos deles estão devorando ou partindo ao meio alguns colegas de classe, às vezes com demonstrações gráficas de sangue. As crianças têm medo dela. É preciso atenção dos pais ao que Henrietta assiste em casa.”
O manuscrito parava por aí. O restante da página estava vago, sem nada mais. Talvez a professora não o tivesse terminado, geralmente relatórios são maiores que três parágrafos – ou, ao menos, os dele eram extremamente longos e repletos de críticas às quais ele não se importava. Mas apenas esses três parágrafos já eram muita, mas muita informação relevante.
“WaKeeney Elementary”. Eric reorganizou todos os itens na pasta novamente, dos documentos mais recentes aos mais antigos, e guardou todos exatamente no lugar onde os tinha encontrado. Se ninguém tivesse um surto e decidisse analisar as digitais daquela gaveta de repente, era como se ele nunca tivesse estado ali.
Andou a passos silenciosos até uma mesa com um computador ligado. Agitou o mouse para eliminar o descanso de tela e, então, jogou o nome da tal escola elementar na busca do navegador. Quem sabe, poderia encontrar crianças que estudaram com ela para assim ficar mais próximo do cerne da questão? Apressadamente, leu o primeiro resultado.
“WaKeeney Elementary School foi uma escola localizada no estado do Kansas, Condado de Trego. Suas atividades foram encerradas quando uma falha no fornecimento elétrico levou à destruição da sua estrutura por incêndio, causando morte por sufocamento a 12 crianças. Atualmente, a antiga localização da WaKeeney Elementary...”
— E aí? Achou o que queria? — distraiu-se ao ouvir esta pergunta de Kenny. O loiro estava ao seu lado, curvando-se assim como ele para estar mais ou menos à altura da tela.
— Dá pra dizer que achei bem mais do que eu procurava — Eric grifou o parágrafo lido com o cursor. — Use o mínimo de alfabetização que você tem e lê isso.
Kenny moveu os olhos de um lado a outro ao ler, demonstrando choque ao terminar.
— Nem fodendo que isso foi uma falha técnica — Cartman se pronunciou antes que o loiro o fizesse. — Só tem uma pessoa que eu conheço com essa mania de se livrar dos problemas com o fogo e eu sei bem como ela age quando não gosta de alguém.
— Queria eu que ela resolvesse meus problemas com o fogo. — o de laranja provocou.
— Do jeito que ela te odeia, só se ela literalmente ateasse fogo em você. — Eric retrucou com segurança. — Kinny, eu estava certo. Um projeto de retardado em miniatura fodeu com os sentimentos dela muito antes dela vir morar aqui. E existem grandes chances do moleque estar morto.
— Sete anos não é meio cedo pra esse lance de “coração partido”?
— A gente procurava namoradas com 9.
Reflexivo, Kenny apoiou uma mão sobre o queixo. — Verdade.
Apesar de ter mantido um diálogo com seu amigo pobre, Cartman não estava necessariamente concentrado na conversa. Se sua suposição atual estivesse certa, e ele confiava que estava, Henrietta causou a morte de 12 colegas do ensino fundamental e isso nem sequer a abalava. Uma desilusão amorosa precoce a marcou duramente por mais de oito anos, mas homicídio em massa? Nah. Não significava muito para a sequestradora de vampiros e destruidora de Hot Topics.
Talvez os dois não terem passado por nenhuma interação direta um com o outro enquanto crianças fosse o universo tentando equilibrar os níveis do caos. Que dupla terrível os dois teriam sido. Ter Henrietta colaborando com suas ideias em vez de Butters, Kenny ou qualquer um dos outros garotos talvez tivesse diminuído drasticamente a sua contagem de fracassos. E que ideias ela própria sugeriria? Como estaria o mundo atualmente se tivessem assumido o reinado de Cthulhu juntos, bem antes do irmão dela descobrir que poderia interferir?
Sem a maturidade e noção que adquiriram com o passar dos anos, terem se unido na infância poderia ter sido a maior felicidade de ambos, embora uma catástrofe para o resto da humanidade. Mesmo que, à época, não passassem de amigos.
Toda essa busca pelo passado da Henrietta para descobrir A: Quem causou seus problemas, e B: Como causou, para então se chegar à atual possibilidade dela mesma já ter se livrado do causador. Uma probabilidade interessante, mas definitivamente não uma certeza.
Alguns ruídos se aproximando pelo corredor cortaram o raciocínio do antissemita. A completa cara de bunda que fez ao se tocar da situação só não foi pior que a cara que viu ao se virar para Kenny.
— Eu não te disse pra vigiar a porra da porta?! — Cartman sussurrou possesso de raiva.
— Acabei de ver as coordenadoras indo embora, achei que ninguém mais viria! — se reergueu junto dele, sussurrando com pânico.
— Caralho, Kenny! Caralho!
Os sons se tornavam mais altos.
— Isso ia dar merda de qualquer jeito, ok?! — Kenny defendeu. — Se alguém chegasse e eu enrolasse você ia fugir por onde? Pela janela, pra cair no pátio na frente de todo mundo?!
— Eu ia me esconder!
— Se esconder onde, porra?! Dentro do seu rabo?! Você nem cabe embaixo da mesa!
Os passos ficavam mais próximos. Eric fitou rapidamente cada uma das escrivaninhas, percebendo com ódio e desgosto que Kenny tinha razão, tanto por seu tipo físico quanto por sua altura.
— Então qual é a sua solução?! — vociferou para o imortal.
E a resposta estava justamente em sua imortalidade. Depois de pensar por menos de um segundo, Kenny tirou do quadril uma arma – mais especificamente uma pistola carregada – e a apontou com segurança para a lateral da própria cabeça.
Cartman o observava de sobrancelhas erguidas; apesar de não ter previsto a atitude, não estava surpreso por Kenny pretender um suicídio, nem por ele ter sacado uma arma. Como alguém que sempre voltaria após a morte, desde criança tem o suicídio como forma de escape – e uma arma que não se sabe de onde saiu, nem com que dinheiro conseguiu, guardada consigo.
Já sabia o que o loiro tinha em mente. Usar da própria morte para distrair quem estava chegando e assim evitar uma detenção, ou mesmo suspensão, por terem invadido o arquivo escolar. Porém, Cartman simplesmente não conseguia segurar o sorriso trêmulo crescendo no rosto. O riso crescia dentro de si ao assistir Kenny prestes a puxar o gatilho.
— Será que você — Kenny abaixou a arma, frustrado. — Poderia tentar não rir dessa vez?
— Kenny. — Eric eliminou o sorriso completamente, fazendo a cara mais séria possível. O humor tinha evaporado em seu ser. — Dessa vez, eu prometo que não vou rir de você morrendo. Eu prometo, cara.
Depositando alguma confiança nessa declaração, Kenny assentiu solenemente.
Foi tudo rápido demais. Apontou a arma para a têmpora e puxou o gatilho, causando um estouro alto e uma explosão sangrenta com fragmentos cerebrais nos móveis, chão e paredes.
Kenny caiu no assoalho com um som pesado e carnal, feito uma toalha molhada. De olhos bem abertos tanto pelo som repentino do disparo quanto pelo horror natural de se presenciar uma morte, Eric tinha o olhar paralisado no cadáver do que foi seu melhor amigo há segundos atrás. Uma poça de sangue crescendo ao seu redor e um túnel terrível atravessando seu crânio de lado a lado.
O zumbido em seus ouvidos devido ao estouro da arma era o que fazia o ambiente não estar em silêncio. Passaram-se um, dois segundos. E Cartman estava gargalhando insanamente, sem nenhum controle, com uma mão sobre o peito e outra tentando conter as lágrimas. Tinha certeza que o prédio inteiro podia ouvi-lo, mas nessa circunstância já não tinha mais domínio de si próprio. Jurava que ficava mais engraçado a cada vez.
— Oh, Dios mio! — junto com o impacto de um esfregão e de um balde contra o chão, uma voz feminina adulta carregada de horror veio da direção da porta antes que saísse correndo em desespero.
— Madre de Dios! — desta vez, um homem mexicano exclamou antes de também correr para buscar por alguma autoridade acadêmica. Esse tempo todo, quem se aproximava era o casal de imigrantes que foi contratado para a equipe de limpeza.
— Caralho, mataram o Kenny! — Stan também veio à porta junto de Kyle, atraídos pelo barulho.
— Não, porra. O Kenny se matou — recuperando o autocontrole aos poucos, Cartman saiu pela porta e passou pelos dois. Outros empregados mexicanos se espalhavam com faces assustadas ao longo do corredor, facilitando sua busca por outros agentes de limpeza. — Se suicidó aquí, Kinny se suicidó!
* * *
No banheiro feminino da South Park High, de frente a um espelho extenso sobre as pias, Jenny espalhava glitter suavemente no rosto com os dedos. As lentes de contato vermelhas se sobressaíam em seus olhos e combinavam muito bem com as presas falsas. Um vinco de frustração apareceu entre suas sobrancelhas; minutos antes, Henrietta Biggle tinha praticamente chamado-a de criança por sua maquiagem cintilante, inspirada em sua saga de vampiros favorita.
“Emo gorda nojenta”, assim pensava. E chegou a pensar que não conseguiria detestá-la mais.
Concentrada em espalhar bem o glitter, ouviu o clique, o abrir e o fechar da porta do banheiro. Porém, não deu muita atenção, afinal era um banheiro frequentado. Prestes a pegar seu batom vermelho para retoque, ouviu um som claro de disparo de arma de fogo a uma boa distância. Seu coração deu um pequeno pulo. Franzindo o cenho, voltou os olhos para baixo, se dando um segundo antes de ignorar o ocorrido. Então, ao olhar de volta para o espelho...
— Deixa eu ver — atrás de Jenny, encostada na parede, Henrietta falava com ela através do reflexo. A gótica pôde ver nitidamente o rápido olhar de susto que ela teve. — Vampiros de Crepúsculo têm reflexo, também?
— Se não é a emo outra vez. — a vampira abriu a tampa do batom tranquilamente e começou a espalhá-lo nos lábios, olhando para si mesma. — É um prazer te rever fora das reuniões das torcedoras e das aulas, que oportunidade incrível pra nos conhecermos melhor. Mas indo direto ao ponto, teve algo na minha explicação que você não entendeu?
— Sabe de uma coisa, Simons? — Henrietta cruzou os braços, ficando mais relaxada. — Você tenta me fazer sentir ódio de você, mas tudo o que eu consigo sentir é pena.
— Pena? — guardou o batom e se virou para a outra. — Sou eu quem devia sentir pena de você. Analisemos os fatos: sou magra. Capitã das líderes de torcida, algo relevante não só pro ensino médio como também pro meu futuro. Consigo me entrosar com qualquer um nessa escola se eu quiser. Meus colegas vampiros me adoram como uma deusa, pense nas facilidades que dá pra se conseguir com isso. Mas o mais importante: fui a namorada mais importante na vida do cara que você quer.
— Ah, deuses — a gótica fez força pra não estragar a própria maquiagem nos olhos ao esfregar o rosto. — É disso que tenho pena, Simons.
— “Rivalidade por causa de homem é tããão conformista” — Jenny imitou com deboche seu tom de voz desanimado. — “Ainda bem que sou rara, diferente e melhor que todo mundo. Agora, vou transar no cemitério enquanto ouço Evanescence e queimo plantas pro meu ritual satânico”.
Henrietta entreabriu a boca, perplexa.
Góticos ouvindo Evanescence...? Plantas num ritual satânico...?
Dissipando a indignação, Henrietta começou a refletir. Por que estava ali, para início de conversa?
Um passo por vez, foi relembrando os motivos para ter procurado por Jenny Simons. Um deles era sua pena. Outro era que, se estava inabilitada de levá-la a fazer o que queria por meio de palavras de ordem, ameaças ou ações agressivas, que tentasse um acordo. Uma trégua, ou outra merda qualquer. Não iria, nem fodendo, animar plateias de conformistas fãs de esporte e ser exposta dentro daquela fantasia.
— Simons, é o seguinte. Não sou de dar conselhos, principalmente pra quem estou pouco me fodendo. Mas o Cartman não quer saber de você.
— Eu sei.
Henrietta se calou, piscando os olhos. Jenny pronunciou aquelas palavras com muita naturalidade. A gótica sequer pôde continuar a sentença que pretendia, pois nem se lembrava mais do que queria dizer.
— Você... Sabe?
— Claro que sei. — a vampira deu de ombros. — Todo mundo sabe.
Henrietta fez uma pausa, franzindo as sobrancelhas.
— Então... — tentava concatenar as ideias. — Por que você...?
— Se tivesse vivido o que eu e ele vivemos, entenderia.
As duas garotas se encaravam fixamente. Henrietta sentiu um sabor amargo, uma dor no peito e no estômago. Certamente, havia um quê de presunção para humilhá-la naquela declaração, porém o desejo de compreender o que estava ouvindo se sobressaía.
— Veja, Biggle. — Jenny se recostou confortavelmente na pia. — Eric foi meu primeiro namorado. E foi incrível. Ele me proporcionou coisas que definitivamente ninguém mais poderia.
“...quando você deixa de ser uma garotinha e ganha uma aparência dentro dos padrões de uma adolescente média, parece que todos os garotos subitamente te acham interessante. Mas sabemos bem o que eles querem.
Mas, então, aparece aquele. Aquele que vê um pouco além do seu exterior. E que, no meu caso, já me causou um mal irreparável. Mas demonstrou um arrependimento genuíno.
Eric não se aproximou de mim oferecendo apenas suas desculpas.
Estávamos no segundo dia das férias de inverno quando Eric me segurou pela mão e me apresentou aos vampiros. No dia anterior, tínhamos assistido à Saga Crepúsculo inteira juntos. Eu estava apaixonada. Pela história dos filmes, pela companhia dele... Eu não sabia dizer.
Ele disse coisas incríveis ao meu respeito. Eu tinha sobrevivido à morte! Seria uma vampira de passado impactante, como Rosalie Hale. Destroçada, sobrevivente e, agora, imortal.
Passamos as férias juntos, ele e eu. Cada um dos dias. Nos conhecemos, aprendemos um com o outro... Eu, infinitamente mais que ele. Dividimos momentos preciosos e passeios inesquecíveis. Tínhamos uma conexão intensa. Todas as garotas desejavam viver um relacionamento como o nosso.
Eric foi extremamente incentivador quando busquei pelo meu visual vampírico. Seus elogios, sugestões, todos fazem parte do que me tornei. Os vampiros me achavam o máximo, eu me sentia incrível e poderosa como jamais imaginei.
Mas ainda havia mais.
— E então? — Eric me olhava com aquele sorriso debochado nos lábios, se divertindo com o quanto eu estava sem jeito. — Você vai aceitar ou não?
Olhei mais uma vez para a pequena aliança prateada, rodeada de pequenos entalhes, com uma minúscula pedra vermelha feito sangue no topo. Estávamos sentados juntos na praça principal, apreciando uma tarde pacífica de primavera. Meus dedos cobertos de glitter chamavam bastante atenção entre os dele.
— Eu... — senti um lacrimejar suave nos meus olhos. — Não imaginava que você faria o pedido. Parece tão claro que estamos juntos.
— Que cavalheiro eu seria se não te fizesse um pedido formal? — Eric encaixou lentamente a aliança em meu dedo anelar. Limpei com cuidado minhas lágrimas teimosas. — Você é Jennifer Simons. É apenas o mínimo do que você merece, não pode esperar menos que isso.”
— Antes do Eric, eu... — Jenny se recuperava de suas memórias. — Era boba demais. Fraca demais, sem presença alguma. Como uma coadjuvante. Ele me fez descobrir todo o meu potencial. Sei que não é ficando no pé dele que vou reconquistá-lo, só faço isso pra que em nenhuma hipótese ele esqueça que eu existo. Além do mais, ele sempre gostou de receber atenção e ser bajulado. Ele pode não reagir às minhas investidas, mas nunca o vi dizendo pra parar. Nem sendo grosseiro comigo.
A vampira guardava seus itens de maquiagem na bolsa. Henrietta a observava, sem saber ao certo como reagir; mas uma gótica, talvez mais do que ninguém, reconhece o sentimento de melancolia. E este sentimento estava presente em ambas, dentro de contextos diferentes.
— Eric me usou para algo do próprio interesse quando éramos crianças. — aproveitando a ausência de fala da gótica, Jenny prosseguiu. — Passei vergonha na frente da classe por culpa dele. Tentei suicídio por algo que depois de alguns meses ninguém mais se lembraria. Mas ele reverteu toda a situação para se beneficiar e me beneficiar também, não é impressionante? Agora que você o conhece, me diga: se ele tivesse te feito algo horrível ou que você achasse inaceitável quando criança, você não o perdoaria agora?
Henrietta sentiu um peso sobre os ombros, fechando os olhos. Ela já tinha perdoado. Mesmo que não tivesse sido algo horrível, ou consciente por parte dele. Já estava ficando farta de ouvir a vampira de araque e o quanto seu relacionamento foi maravilhoso. Mas dentre os mil defeitos humanos, está a curiosidade.
— Eric parece às vezes, mas ele não é um psicopata. — Jenny continuou. — Só é oportunista. Não vai usar ou fazer mal a alguém se não for por um propósito.
— Eu sei disso. — Henrietta a cortou.
— Eu sei há mais tempo. — Jenny rebateu rapidamente. Henrietta recebeu como um golpe no estômago. — Em vez de me doer pelo que Eric fez, eu decidi aprender com ele. Nunca estaremos no mesmo nível, ele é um caso especial quando se trata de manipular pessoas e situações. Mas procurei absorver tudo o que pude.
Ah... Essa frase. A gótica chegara em seu limite como ouvinte.
Com grande frieza, encarava Jenny nos olhos profundamente. Era difícil acreditar como um único ser humano podia ter tanto desprezo por si mesmo.
— É isso que me difere de você, Simons. Eu não preciso aprender nada. — dividida entre a raiva e a pena, ajeitava-se para ir embora. — Em vez de se mudar inteira pra ganhar a atenção de um cara, tenta ter alguma personalidade na próxima vez. Quem sabe assim você deixa de ser essa frustrada, patética, rejeitada líder de torcida conformista que rasteja feito um verme nos restos mortais do seu relacionamento fracassado.
— Você nunca vai conseguir o que eu consegui. — Jenny cortou. — Não do mesmo jeito. Você sabe... Eu fui a primeira dele pra muitas coisas. E primeiras experiências não costumam ser esquecidas.
Prestes a sair, Henrietta paralisou por um momento segurando a porta. Então, partiu, deixando a líder dos vampiros para trás.
Tudo aquilo que é significativo na história de alguém, cria marcas de alguma forma. Momentos, situações e pessoas, de alguma maneira, continuam sendo carregadas conosco, mesmo depois que se vão. Henrietta não podia negar a si mesma o sentimento terrível que pulsava dentro dela; sentia como se estivesse ficando doente, um desconforto acompanhado de uma vertigem. Ela própria não era tão profundamente influenciada por suas memórias? O quanto Jenny realmente fez parte da vida de Cartman?
...O quanto continua fazendo?
Ela e Eric seriam amigos. A própria gótica definiu. Não pretende estar com ele, deixou isso bem claro. Não existe nada que o assegure para si.
Talvez, no fundo, estivesse se sentindo segura demais de que ele continuaria tentando.
Jenny Simons pode não representar uma verdadeira ameaça, mas causou em sua rival exatamente aquilo que queria. É com o psicológico que ela trabalha.
Porém, também sabia que, desta vez, não estava lidando com um psicológico fraco.
* * *
— Até amanhã, Eric! — Patty Nelson exclamou, segurando seu oboé. — Obrigada mais uma vez.
— Até amanhã — guardando seu violino na bag, Cartman ia pela direção contrária. — Foi um prazer carregar o seu clube nas costas.
— Vá a merda.
Cartman riu consigo mesmo. Acenou para outros membros do Clube da Música Clássica conforme saíam do auditório e se despediam. Caminhou até seu armário e começou a destrancá-lo, satisfeito pelo dia produtivo. Conseguiu ser tão impressionante com a demonstração do violino que Patty sequer chamou sua atenção pelo atraso.
— E aí, rolha de poço? — ouviu de uma voz familiar acompanhada de um tapa forte em seu ombro direito, tirando-o de sua concentração. — Coturno legal, parece que alguém aprendeu uma coisa ou outra.
Eric ergueu os olhos para a figura de azul com botas plataforma enormes. Esqueceu rapidamente que o tapa repentino o deixou levemente puto.
— Shelly. — sorriu com simpatia. Então, franziu o cenho. — Como entrou aqui?
— Não importa. Vamos direto ao ponto, eu trago notícias quentes.
— Não, espera — interrompeu. Olhava Shelly como se ela fosse a grande solução dos seus problemas, enquanto ela o olhava impacientemente. — Acabei de ter uma ideia. Preciso de outro favor.
* * *
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