Malaxophobia
11 Determinado
Notas iniciais
Depois de atrapalhar a aula do novo professor, Cartman foi voluntariamente até a sala dos professores e pegou um pouco de café "emprestado". Cada gole o fazia se lembrar, por motivos óbvios, de Henrietta; bebia com muito gosto e ao mesmo tempo receio. “Por que caralhos ela agiu daquele jeito?", se perguntava. A complexidade dela seria maior do que o esperado?
Na sala dos professores, o diretor o viu, o levou para sua sala e gentilmente convidou sua mãe a comparecer à escola. Cartman ficaria sem direitos ao XBox por algum tempo se não a tivesse convencido, assim que saíram da diretoria, a não puni-lo. A frase “Mas mãããe... Eu só queria chamar a atenção de uma garota", aliada a uma convincente face de vítima, tocaram Liane e seu frágil coração de mãe. Seu filho, tentando algo com uma garota mesmo sabendo da probabilidade de Jenny Simons tentar atrapalhar, merecia seu apoio.
— Como eu imaginava, Cartman. Você gosta dela. — Mitch aproveitou a saída de Cartman da diretoria para conversar no corredor.
— Mais ou menos. — jogou fora o copo de café descartável.
— O que quer dizer?
— Mitch, você deve ter percebido que ando pensando muito em Henrietta ultimamente.
— Sim, percebi. Acho que aquele beijo te afetou.
— Eu... — mostrou-se levemente constrangido — Não posso negar isso. Tenho um... — mediu bem as palavras — estranho interesse na Henrietta.
— Isso é ótimo. Já sabe como ela é, então, vai fundo.
— Como também deve ter percebido, não é tão simples quanto parece. Henrietta é um caso especial. Me apresentei na maior cordialidade, tratei ela bem, levei ao cemitério na maior boa vontade e veja só o que recebi: ela está me ignorando. — adquiriu um ar de frieza. — Já cansei de ser bonzinho, Mitch. Vou fazer do meu jeito, e o plano é o seguinte:
— Ah, não. — a mão cortou sua fala, percebendo o olhar mal-intencionado do outro.
— Nem ouviu o que eu tenho a dizer.
— E nem preciso! Tá com a mesma cara de quando cismou que ia ficar com a Wendy. Não apareci na época, mas estive aqui, e garanto que é melhor esquecer seu plano e continuar sendo gentil.
— Como eu dizia — ignorou-o totalmente. — Vou continuar fazendo ela rir, porque gosto desse desafio. Vou deixá-la impressionada, pra que ela mesma queira se aproximar de mim. Não deve ser muito difícil porque, olha pra mim — mostrou um sorriso convencido. — Posso ser irresistível, se eu quiser.
Nesse momento, se possível, Mitch teria vomitado.
— Ela virá até mim por conta própria. Você vai ver.
— Quer conquistá-la desse jeito? Não quer mesmo se aproximar dela e perguntar diretamente o que aconteceu pra estar te ignorando? Facilitaria muita coisa, você sabe.
— Eu vou perguntar isso, mas no momento certo. Primeiro, quero ser o centro das atenções dela. Sabe que não sou fã do jeito fácil. Além do mais, se Henrietta tá me tratando assim depois de tudo, não é muito diferente de como Wendy, Patty e até Jenny já agiram comigo. Você sabe o fim que levam as garotas me trataram mal, Mitch. Não vou deixar essa atitude da Henrietta simplesmente passar. E quando isso acabar — teve um meio, e maldoso, sorriso. — Quem sabe possamos tentar alguma coisa. A vitória será mais proveitosa se a luta for árdua.
Mitch ficou sem palavras. Cartman admitiu seu interesse por Henrietta, o que era bom. Mas a motivação primária, antes mesmo de conquistá-la, era dar o troco, praticamente da mesma maneira que fez com as primeiras garotas com que esteve. Podia ser um fator positivo por aumentar sua persistência, consequentemente aumentando as chances dos dois ficarem juntos no fim. No entanto, Cartman parecia arquitetar um jogo pessoal, paralelo ao desafio de Kenny, Clyde e Craig. "A vitória será mais proveitosa se a luta for árdua"? Era uma determinação para a conquista ou uma tática de guerra?
— Não pode estar falando sério. — Mitch zombou.
— Claro que estou. Se não estivesse, por que eu estaria falando desse jeito?
— Que jeito?
— Sussurrando, mas de forma bem alta para dar efeito dramático.
— Não boto fé nesse plano, Cartman.
— Vai funcionar. — tirou um par de luvas amarelas grossas do bolso. — A não ser que Henrietta tenha um bom motivo pra manter distância de mim, o que eu duvido.
— E se ela tiver?
— Mitch. O que importa é que eu não vou desistir fácil. Henrietta me convenceu: ela vale meu esforço. Agora vaza daqui, antes que alguém me veja falando com você.
— E se eu não quiser ir embora?
— Vai morrer sufocado. — ameaçou vestir a luva sobre ele.
Com assunto encerrado, Mitch desapareceu e Cartman enfim pôs as luvas. Entrou no refeitório, na pretensão de escolher algum dos clubes. Quis evitar entrar no ginásio, outra parte das amostras dos clubes, por não estar com paciência para falar com Jenny. Estava ciente de que ela administrava dois clubes e que, se ele aparecesse por lá, seria perseguido por seus lacaios vampiros.
Poderia estar no poder de um clube caso o diretor não o tivesse proibido disso, quase expulsando-o da escola, há alguns anos. Cartman criou o Clube do Neonazismo só por diversão. Digamos que Kyle e sua mãe não gostaram muito da proposta.
— O que é? — perguntou num volume baixo ao sentir sua mão esquerda puxar sua roupa. Em resposta, a mão apontou na direção de uma das mesas do almoço, especificamente onde Patty Nelson conversava com Henrietta e seu “amigo emo”. A viu, inclusive, assinar a prancheta de Patty.
Henrietta acabara de preencher uma vaga no clube da música clássica. Durante o tempo em que namoraram, Cartman soube do interesse de Patty em várias formas de arte, principalmente a música. Descobriu também que ela tinha um ótimo beijo, o que justificava ele ter sonhado tanto em beijá-la quando mais novo, mas isso não tinha mais importância.
Embora não tenha mais interesse romântico algum por ela, não podia negar que achava Patty legal, além de muito bonita. Tampouco poderia esquecer a ótima namorada que foi. A primeira garota a quem Cartman concedeu seu perdão e desistiu de se vingar após um simples pedido de desculpas.
Patty caminhava mais ou menos na direção dele, sem dar muita atenção aonde ia. Olhava em sua prancheta, com sorriso no rosto, orgulhosa pela quantidade de pessoas que decidiram participar do grupo que criou. Cartman se pôs de encontro a ela, como quem não queria nada. Poderia iniciar uma conversa com Patty, saber como ela estava, talvez pedir algumas informações sobre Henrietta para tirar uma oportunidade e arquitetar algum plano...
— Bon jour!— Jenny Simons apareceu, absolutamente do nada, na frente dele. Cartman pôde ver o próprio reflexo nas presas de plástico de Jenny enquanto esta sorria. Misturou o visual de “vampira suave” com o uniforme das líderes de torcida, tendo a saia curta e um belo decote na blusa.
— Oi, Jenny — não olhou a vampira diretamente. Continuou olhando através dela, feito um vidro limpo, enquanto acompanhava os passos de Patty, que desta vez sabia exatamente que estava indo na direção deles. — Olha, Jenny, eu to meio ocupado, então...
— Eric — o interrompeu. — Toda vez que te chamo pro meu clube, você se recusa. Foi você quem me botou na liderança, até me ensinou como ocupar esse cargo e agora sequer participa comigo. Esqueceu do seu discurso sobre vampiros serem legais, inclusive mais legais que aqueles manés góticos, quando me ajudou a recrutar todo mundo? — fez beicinho, usando de um olhar manhoso.
— Não faça essa cara. Também te ensinei a manipular as emoções dos outros, não vai funcionar comigo. E, bem... — olhava para Patty, bem atrás de Jenny e sorrindo para ele, piscando um dos olhos como se dissesse "conte comigo". — Você sabe que essa coisa de vampiro não combina comigo. Sinto muito. — decidiu ser gentil, afinal. Jenny poderia ser inconveniente, mas Cartman prefere tratar bem quem o pertenceu.
— Com licença, Jenny — Patty entrou no contexto com algumas palavras. — Posso roubar Eric um instantinho? É um assunto importante.
Jenny voltou-se para ela, e as duas se encararam. Patty e a vampira pareciam digladiar-se sem dizer absolutamente nada, por olhares; um embate rápido, porque Jenny beijou Eric no rosto como despedida e se foi. Mais uma falha tentativa de passar algum tempo com o ex-namorado.
Por ser a garota que esteve com Cartman por mais tempo, Jenny acabou capturando algumas de suas manias para si. Heranças da história compartilhada por ambos. E, desta vez, a história envolve uma garota nova invadindo “seu território”, e logo uma gótica, sua inimiga declarada. Por isso citou os "manés góticos"; na noite do cemitério, percebeu coisas que podem, e vão, desencadear alguns problemas.
— Agradeço por me livrar dessa. — disse Cartman assim que ficaram a sós.
— Não tem de quê. — Patty bagunçou os cabelos dele, desajeitando um pouco a touca. — Desta vez, não o "pedi emprestado" da vampirinha só pra te ajudar. Tenho coisas a tratar com você.
Patty Nelson se tornou uma boa amiga para ele. Cartman conservou amizade com algumas das garotas que passaram por sua vida. Se Kenny manteve uma reputação de pegador, Cartman achou mais útil cultivar o oposto: uma reputação de rapaz agradável com as moças, indo contra ao que demonstrou no passado.
— Você pode participar do meu clube este ano? — Patty perguntou a ele, inclinando o rosto com expectativa.
— Algum motivo especial pra eu fazer isso? Ainda tenho bastante coisa pra ver antes de decidir.
— Sim, eu tenho um bom motivo. Meu clube precisa de um músico mais profissional. Acabei de te ajudar com a Jenny, então você me deve uma. Tem uma garota nova no meu clube que gosta de violinos e parece gente boa, quem vê o estilo dela em primeiro momento nem imagina. Faz tempo que não faço amigas mais maduras e de bom gosto, então pensei: ei, vou chamar o Eric para deixá-la mais envolvida no clube. Sabe que você é melhor em liderança do que eu.
Patty pode não ter resgatado o dom de liderança do ex-namorado da mesma forma que Jenny pôde fazer, mas captou o dom de usar praticamente qualquer situação em seu favor. Podia notar a esperteza até num planejamento simples para conseguir uma amiga.
— Depende. Posso saber quem é a garota? — Cartman procurou por uma confirmação.
— Henrietta Biggle. Ela é gótica. Gordinha igual a você. Está sentada bem ali — apontou para uma mesa vazia. — Corrigindo... “Estava" sentada ali.
O cérebro de Cartman começou a trabalhar em alta velocidade. Ideia elaborada atrás de ideia elaborada. Era esta a sua chance? Teria achado a oportunidade perfeita para impressioná-la e finalmente se reaproximar?
— Patty, eu vou ajudar. Só preciso de uma coisa — pensava em detalhes do plano ao mesmo tempo em que falava. Pegou a prancheta das mãos de Patty com a mesma delicadeza de uma tijolada na cara e assinou seu nome. — Pra quando você marcou o primeiro encontro do clube?
— Hoje mesmo, ao fim da última aula.
— Ótimo. Avise o pessoal que se inscreveu, exceto a Henrietta, de que agendou pra outra hora. Vou pro local do encontro depois da última aula, Henrietta fará o mesmo e ficaremos sozinhos. Sim... A oportunidade que eu queria. — já começava a pensar alto. Esfregou as mãos e teve um sorriso maquiavélico discreto.
— Oh, meu Deus. — Patty não sabia se ria ou se chorava.
— O quê?
— Você tá interessado na Henrietta! De um jeito muito do esquisito, mas interessado.
Cartman estreitou os olhos. — Como sabe disso?
— Ah, pára. — deu um tapinha no ombro dele. — Eu te conheço. Você deve ter algum tipo de fraco por garotas de cabelo preto. Eu, Jenny, Wendy... E agora ela. — não aguentou e riu. Riu com vontade. — Nem se importou sobre eu dizer que ela é gordinha igual a você.
— Vai mudar o horário ou não? — Cartman estava irritado, envergonhado, puto da vida... Tudo junto.
— Tá, eu mudo, seu tarado por morenas. — mostrou a língua. — Estou torcendo por vocês. Faça bom proveito da gótica, e não se esqueça da minha contribuição. Tá mesmo precisando de uma mulher de atitude pra espantar essa Jenny Simons, ninguém merece. Nem eu suporto o grude da vampirinha com você.
Patty o conhece bem, e Cartman a conhece ainda melhor. Se tem algo que pode se assegurar da parte dela, é a honestidade. Estava torcendo por ele, sem sombra de dúvidas.
* * *
Tammy Warner se recuperava do aparelho ortodôntico recém trocado. Escolheu a cor verde para as borrachinhas desta vez. Queria ter escolhido sua cor favorita, mas a clínica que frequentava não tinha muitas opções a oferecer.
“Perdoar ou não perdoar?”, tem se questionado. Um pedido de desculpas inesperado, vindo de quem odiou durante vários anos, a deixou com a mente focada neste único pensamento. Não, não poderia perdoá-lo. E se ele estivesse fingindo um arrependimento? Kenny podia ter quebrado a cara com a garota gótica, mas personalidades são difíceis de mudar, ainda mais do dia para a noite. Estava decidido: não haveria perdão.
— Posso ter o privilégio de falar com a senhorita? — Kenny apareceu para ela na saída da clínica.
— Está me seguindo? — Tammy tinha uma ira evidente.
— Não, só imaginei que passaria por aqui. Essa é a clínica odontológica mais barata da cidade, então pensei...
— Não tô nem aí. — deu meia volta para ir embora.
— Pode até não ligar pra como te encontrei — Kenny entrou à frente dela. Acompanhava-a aonde ia, andando de costas. Em mãos, tinha um ingresso. — Mas vai ligar para isto.
— E o que é isso?
— Um ingresso para o show dos Jonas Brothers. Imagino que ainda deva gostar deles e descobri que voltaram a fazer sucesso depois do fim do acordo com a Disney.
Os Jonas Brothers formavam um trio que fazia a cabeça de menininhas antigamente. Ofereciam anéis de pureza a elas e, impedidas de cometer qualquer ato sexual até o casamento, os cantores faziam obscenidades implícitas nos shows, como se vendessem sexo para as fãs. Como o trio se encontrava sem mais acordos com a Disney, o sucesso era digno, apenas conseguido apenas com sua música.
Verdade fosse dita: Tammy gosta mais deles agora que quando criança. Kenny havia acertado em cheio.
— Não quero ir ao show dos Jonas com você. Mesmo não tendo o mesmo efeito que antes nas garotas, mesmo eu sendo fã assumida deles. Não quero sequer ficar perto de você, McCormick. É um otário e sempre será.
— Posso não merecer ficar perto de você, Tammy — falava com maior seriedade desta vez. — Mas não sou uma garrafa para receber rótulos. As garotas com quem fiquei só precisaram de uma conversa mole pra cair no meu jogo e eu não desperdiçava meu tempo se achasse muito difícil. Em algum momento parou pra pensar que tô me dedicando só pra conseguir o seu perdão?
Os lábios de Tammy sumiram para dentro da boca. O aparelho ortodôntico quase a feriu.
— Divirta-se no show. — deixou o ingresso nas mãos de Tammy. — Comprei apenas um pra você ir sozinha e ficar segura de que não vou tentar nada. Pode ter certeza de que vou manter distância. — passou por Tammy, deixando o caminho livre para ela prosseguir. — A propósito, vendi várias das poucas coisas que tenho pra comprar o seu ingresso. E não me importo se não fizer diferença pra você.
— Ken — ao vê-lo ir embora, Tammy falou tão baixo que mal ela própria pôde ouvir.
Gostaria de chamá-lo. De se desculpar por ser grosseira. De agradecer. Kenny poderia mesmo ter levado um choque de realidade? Não era a primeira vez que via alguém acordar para a vida depois de um forte impacto.
Mas e quanto à sua autopreservação? E seu orgulho?
* * *
Fale com o autor