Malaxophobia
5 Convidando com jeitinho
Notas iniciais
— Fique perto de mim, minha irmã. Irei te proteger dos perigos deste supermercado com meus superpoderes de menta e frutas, combinados num incrível...
— Cala essa merda de boca, Bradley. — Henrietta levou a mão ao rosto. Ouvir seu irmão tagarelando bobagens a deixava muito próxima de se matar.
Numa tentativa frustrada de receber um pouco de atenção de seu pai, Henrietta recebeu outra quantia de dinheiro. O bastante para comprar um teclado novo, afinal, como retornou a South Park, pode continuar com sua banda composta por ela, Pete, Michael e Firkle. Com 9 anos de idade, Henrietta tocava teclado na banda e o grupo tinha o objetivo de criar músicas que iam contra o "conformismo social". As músicas nem mesmo precisariam ser boas.
Desde pequena, ela sabe dirigir. E, desde pequena, ela não pede permissão para pegar o carro de sua mãe emprestado quando bem entende. Desta vez, quando estava pronta para sair de casa, a mãe conseguiu abordá-la e só a deixou pegar o carro com a condição de que deveria levar junto o seu irmão, já que ele queria comprar um celular novo por baixo preço no Wall-Mart.
"Bradley, cuide da sua irmã." foi o que disse Sra. Biggle. "Como se não bastasse ter que comprar um teclado barato no Wall-Mart, um supermercado lotado de conformistas, e não na loja que eu frequentava, ainda preciso ser vigiada pelo meu irmão mais novo e aguentar todo esse falatório infantil" Henrietta reclamou em pensamento durante quase todo o caminho.
A gótica tem uma eterna implicância com seu irmão adotivo. A personalidade alegre demais dele a irrita profundamente. Mesmo que Henrietta tenha um jeito grosseiro de ser, o irmão compreende e respeita que todo esse mau humor faz parte do estilo de vida que ela segue. Henrietta possui um temperamento difícil e, ainda assim, Bradley tem um vínculo afetivo fortíssimo com ela.
O garoto tem um bom tipo físico agora que é um adolescente. Um físico que desencoraja Henrietta a encará-lo fisicamente, porém não verbalmente. Permanece com o mesmo estilo de cabelo e usa roupas ao estilo nerd estereotipado, como calças largas e suéter, e usa óculos. Não por ser míope, mas para preservar sua "identidade secreta".
Por se gabar de seus poderes o tempo inteiro, ele não tem muito jeito com as garotas. Todavia, existem casos isolados em que algumas mais intelectuais se rendem ao seu jeito sensível, o que o concedeu a uma namorada na antiga cidade em que viviam.
Diante dos irmãos estava um dos maiores centros comerciais de South Park. A primeira aparição do Wall-Mart na cidade causou problemas aos habitantes que não resistiam ao preço baixíssimo das mercadorias. Tempos depois, o supermercado foi destruído e outra loja tomou o seu lugar, acabou crescendo e também foi levada à baixo. Sucessivamente, andam sendo erguidos e depois destruídos vários Wall-Marts, como um ciclo interminável onde os moradores precisam fazer compras mesmo sabendo que mais tarde irão levar o mercado a baixo. Ao menos, o povo da cidade anda mais controlado para administrar dinheiro e não precisa mais adquirir tudo apenas neste lugar, deixando a economia em equilíbrio.
Os dois se assustaram ao ver que o Wall-Mart é maior ainda em seu interior. Os empregados do lugar eram principalmente mulheres, idosos e deficientes físicos. Quando viu uma gigantesca quantidade de gente fazendo compras, tudo que Henrietta desejou foi voltar logo para casa.
— Apenas escolha seu celular e vamos embora. — a gótica ordenou ao irmão.
— Que eu saiba, sou eu quem devo tomar conta de você. Eu sou o responsável aqui. — disse com autoridade.
— A mais velha sou eu, então sou eu que tomo conta de você. Quem sabe dirigir de volta pra casa sou eu, então eu sou a responsável.
— Não foi isso que a mãe falou, Henrietta.
— Bradley, você precisa parar de obedecer tanto assim o que a mãe diz. — voltou os olhos para cima enquanto falava, debochando de seu "irmão certinho". — Escolha o celular e me encontre no setor de música daqui a 5 minutos.
Essas foram as últimas palavras da gótica antes dela tomar rumo para o local desejado, sem permitir que ele protestasse. O local ficava próximo, então ela não precisaria pedir orientação a um funcionário.
Como todos os outros setores da loja, a seção é um extenso corredor cheio de prateleiras com todos os tipos de instrumentos, discos e outras coisas ligadas a música. Felizmente para ela, este corredor contava com a presença de apenas três pessoas. Não seria fácil comprar apenas o que ela pretendia, visto que as ofertas do Wall-Mart são irrecusáveis.
Enquanto procurava pelas estantes, Henrietta convenceu-se de que é quase impossível achar um teclado sozinha ali. Por sorte, viu um funcionário da loja ao fim do grande corredor. Não havia outra opção senão pedir ajuda, e assim foi decidido.
Ela ia na direção do idoso de uniforme, quando ele saiu de seu lugar e foi cuidar da limpeza no corredor ao lado. Foi nesse momento que Henrietta pôde ver alguém que estava sendo omitido pelo funcionário: Cartman, o mesmo rapaz que a obrigou a sumir da cidade, o mesma rapaz que ela prefere manter distância, estava logo atrás, escolhendo um violino numa das estantes. A gótica interrompeu sua caminhada no mesmo momento onde o viu, estando bem longe. Só poderia esperar que aquele garoto não a tivesse visto ali.
Pelo jeito, e por sorte, ele nem reparou na presença dela. Parecia falar sozinho. Henrietta arqueou uma sobrancelha quando leu os lábios do rapaz e viu que sussurrou um "some daqui" para sua própria mão.
Dois motivos fizeram Henrietta ter vontade de se esconder do rapaz. Um é que temia qualquer tipo de sentimento ressurgindo a respeito dele, logo agora que possui um tipo único de boa aparência. O outro é mais do que óbvio: alguém que fala com a própria mão não deve ser muito confiável de se ter como companhia.
A garota começou a andar para trás em passos silenciosos. Só precisava sair daquele lugar, se afastar daquele doente e voltar para casa. No caminho que fazia, sem olhar aonde estava indo, precisou abafar um grito de susto quando alguém se chocou contra ela.
— Bradley! — murmurou ao se virar para ele, baixo suficiente para Eric Cartman não ouvir.
— O que foi? Você que não estava olhando por onde ia.
— E o que você está fazendo aqui?
— Foi você que disse pra te encontrar em 5 minutos.
Com sua boca fechada, Henrietta mordeu o lábio inferior, frustrada com seu esquecimento.
— Já escolheu o celular? — mudou de assunto.
— Sim. — mostrou uma pequena caixa em suas mãos.
— Certo. Então resta eu escolher um teclado, só não os encontrei ainda.
— Servem aqueles ali? — Bradley apontou para uma enorme estante. Com uma variedade de teclados diferentes.
Henrietta se calou novamente. Saiu de seu lugar e pegou o primeiro teclado que viu. Preto, obviamente. Voltou ao lado de seu irmão e os dois foram, juntos, para o caixa do supermercado.
— Você tem problemas de falta de atenção. — Bradley riu. — Se aqueles teclados fossem cobras, você já teria sido mordida.
— Calado, frutinha nerd.
— Me obrigue, vadia gorda.
E mais uma discussão teve início entre os dois.
* * *
Estavam de volta ao corredor do colégio, bem ao fim do dia letivo. Firkle, o gótico mais novo, e Michael, o líder, já tinham ido embora outra vez. Toda a escola estava vazia e ecos poderiam ser ouvidos até com o cair de um alfinete. Mais um dia que pôde ser considerado monótono. O gótico de cabelo vermelho e preto devia ter reclamado de tédio umas cem vezes; Pete era um garoto que reclamava demais. Contudo, era ele quem trazia algum ânimo em longas conversas para que Henrietta não caísse no tédio junto a ele.
Firkle comentou no intervalo que Pete anda muito mais animado desde que a gordinha voltou para o grupo; era a mais pura verdade. O gótico de cabelo bicolor sentiu muita falta de sua melhor amiga e queria recuperar o tempo perdido.
— Ótimo — disse Pete com animação em sua voz. — Será esse sábado, às 10 da noite.
— Tudo bem por mim. — ela deu de ombros.
— Certo. Se estamos combinados, já vou indo. Até amanhã, Etta. — deu meia volta.
— Ah. — se lembrou de que deveria esclarecer outro assunto. — Será que posso levar meu "belo traseiro" também?
Pete parou no lugar. Mesmo de costas para ela, podia sentir seu olhar gelado.
— Eu... Estava brincando quando falei do seu traseiro. — olhou para o chão. Sua franja caída serviu para tapar seu rosto, que insistia em querer sorrir.
— Sei. — Henrietta rolou com os olhos. — Até amanhã.
— Até — e tomou rumo para fora da escola.
A gótica se virou para o armário e fez a combinação de números para destrancá-lo. Pegou, dentro dele, um de seus livros importados — escolhidos a dedo pelo simples prazer de ver seus pais perdendo dinheiro — que ainda estava por terminar de ler e depois fechou a porta. Arregalou os olhos pelo pequeno susto que levou quando olhou para o lado e viu que um rapaz desconhecido, usando um casaco vermelho do time de baseball da cidade, estava bem próximo a ela e com as mãos nos bolsos, mostrando um sorriso despreocupado.
— Desculpe por invadir seu espaço, mas... Você é a moça gótica que deu um fora no Kenny?
— Está falando do "Don Juan”?
— Ele mesmo. Eu não sabia que existiria o dia em que aquele cara acabaria sentindo a dor de uma rejeição. Você anda sendo muito comentada, e admirada, pelas garotas que já foram usadas por ele antes.
— Que inusitado. — a garota disse, mas não transpareceu comoção. — Não imaginei que algum dia ficaria “popular”.
— Está brincando? Você é a pessoa mais bem comentada do colégio. Fez o que várias garotas sonham em ter feito antes de se envolver com ele. Mas, enfim — estendeu a mão. — Olá. Meu nome é Clyde Donovan.
— Henrietta Biggle. — retribuiu o cumprimento com um aperto de mão firme.
"Isso sim é um aperto de mão" Clyde refletiu. Aquele aperto de mão simples, segundo suas próprias conclusões, indicava uma mulher de atitude.
— Sabe... — ele soltou sua mão. — Pensei que, da mesma forma como você fez com Kenny, você fosse me dar um fora quando falei com você.
— Só dei um basta nesse tal de Kenny porque ele não teve decência alguma. Trancou meu armário, saiu perguntando sobre a minha vida, sugeriu que preciso de mais amigos... A paciência se esvai bem rápido.
— Então, foi assim que ele agiu? Típico. Geralmente, isso de perguntar coisas e invadir o espaço funciona bem com as outras garotas. Você parece ser bem diferente.
— Não só diferente, mas... — Henrietta precisou calar suas próprias palavras. Ia comentar sobre sua resistência a flertes. A aproximação suave de Clyde a fez confiar demais. Péssimo. — Bem... — procurou outra coisa para falar. — Aquele cara tinha más intenções muito óbvias. Que tipo de idiota se deixaria levar por aquilo?
— Pois não se preocupe comigo. Minhas intenções com você são as melhores.
Ou, pelo menos, para ele mesmo. Clyde está apenas fazendo o seu papel na aposta que Kenny propôs. Agora, o jogador de baseball via que Henrietta é mais atraente do que parecia ao longe, de um jeito muito próprio.
— A propósito, Henrietta... Kenny te convidou para ir ao Casa Bonita?
— Convidou. Queria que eu fosse como acompanhante dele, mas não tenho nenhum interesse em ser par de alguém.
— Pelo jeito, ele não se expressou muito bem. Se você aceitasse o convite, não iriam só você e ele ao Casa Bonita. Irão também várias outras pessoas. Será mais como uma reunião de amigos.
— Por que está me dizendo isso? — questionou com desconfiança.
— Porque quero te convidar para ir junto comigo, e de outros colegas meus, ao Casa Bonita neste sábado. Você não precisa interagir com os caras, irão garotas também. O que me diz? — perguntou finalmente, um tanto inseguro.
Henrietta tentava encontrar alguma desculpa para não ir ao tal lugar. Clyde é um cara aparentemente ok e está convidando-a para comer e fazer amigos (mesmo ela não querendo mais nenhum). Ela é boa em ser rude, mas não há necessidade de ser assim com quem não fez por merecer.
Daí, lembrou-se de seu compromisso no mesmo dia, e celebrou internamente.
— Desculpe, não posso ir. Sábado tenho um compromisso com os góticos às 10.
— Sem problemas. O nosso evento começa às 7, então há tempo o bastante para aproveitar um pouco.
"Parabéns. Você tinha mesmo que mencionar o horário, não é, sua estúpida?" Henrietta trincou os dentes, irritada consigo mesma.
— Vamos... Vai ser legal. — Clyde uniu as mãos, quase implorando que a gótica aceitasse. — Casa Bonita é como um Disneyland mexicano. Nem precisa ir aos brinquedos se quiser, já que ficaremos o tempo todo no espaço de restaurante. Lá tem as melhores quesadillas do mundo e tenho certeza absoluta que você vai adorar. Aceita?
Henrietta suspirou pesadamente. Ele é insistente, mas respeitoso.
— Você dirige? — indagou.
— Dirijo.
— Vai me buscar em casa?
— Claro que sim.
— Pode me deixar no meu compromisso com os góticos quando der o horário?
— Com toda a certeza.
— Então, está bem. — tirou um papel e uma caneta da bolsa, usou a porta do armário como apoio e anotou o endereço de onde mora. — Não me deixe na mão, Clyde.
— Eu não faria isso. — pegou o pequeno papel. — Até sábado, Henrietta.
— É... Até lá.
Ela, que antes tinha um andar firme e seguro por onde passava, teve um andar vacilante ao ir embora. Não gosta de interagir com muitas pessoas e, agora que aceitou o convite, é justamente isso o que acontecerá. Se os amigos descobrirem que ela anda saindo com outros "não góticos", com certeza receberá uma advertência do líder. "Deus me ajude", pensou desesperadamente.
Já Clyde, por sua vez, não conseguia acreditar que conseguiu convencê-la. Ele, um rapaz metido e principalmente medíocre, conseguiu ser convincente. E o melhor de tudo é que ele pôde fazer algo que Kenny, o campeão em conquista, não conseguiu: chamar uma garota gótica, rude e difícil para sair.
* * *
Fale com o autor