Malaxophobia
33 Cinco estacas
Naquela noite, Henrietta não teve sonhos. Ou pesadelos.
Ao contrário: para sua surpresa, dormiu plena durante toda a noite e acordou sentindo um entusiasmo que, a princípio, não compreendeu de onde vinha. Definitivamente, não era seu costume acordar de bom-humor.
Até que a realidade a atingiu feito um tapa no rosto.
Ao abrir seu guarda-roupa, a gótica olhou-se no espelho interno. Obviamente, ela estava uma bagunça. Ao esfregar as mãos no rosto, mantinha um pensamento repetitivo: “isso está acontecendo”.
Ela. Ela e Eric Cartman.
Um casal. Um maldito casal.
Nem em pensamento conseguia pronunciar a palavra “namorado”. Parecia um termo estranho e desajeitado, que lhe causava vergonha. Não de Eric, é claro; da situação. Depois de tanto tempo lutando, nutrindo uma perspectiva negativa sobre se relacionar romanticamente... Lá estava ela. Se relacionando.
Continuou analisando o próprio reflexo. Movia-se para se ver de diferentes ângulos. Nada diferente do que via sempre: a mesma pele pálida e cabelos curtos, pretos e rebeldes, que nunca penteava. O mesmo rosto arredondado, com lábios volumosos, olhos sempre desanimados... E um acúmulo de pele entre o queixo e o pescoço. Braços grossos, cintura marcada, quadris largos, seios médios... E uma barriga proeminente dividida em dobras.
Posicionada de lado, levantou a lateral da camisola negra. Viu cada uma das estrias na bunda bastante grande, subindo pelo quadril, desenhando-a em padrões que lembravam relâmpagos. “Como uma maldita zebra”, concluía. Também tinha vários sinais de celulite nas coxas bastante grossas. As dobras da barriga estavam marcadas no traje de seda, assim como os seios que, devido ao acúmulo de gordura, não eram tão firmes quanto deveriam.
Tão decidida de que nunca teria seu corpo visto ou tocado por alguém além de si mesma, nunca se importou com nenhum desses detalhes. Durante toda a sua trajetória de puberdade, nunca viu sentido em dar atenção a tantos defeitos. Até agora.
De rosto limpo, viu-se com a face vermelha rapidamente. Não sabia do que mais se envergonhava: do seu desejo quente e genuíno de ser tocada e apreciada por Eric... Ou do seu receio de ele não gostar do corpo que ela tinha para oferecer.
...Mas não fazia sentido. Eric Cartman também era gordo. E ela... Se sentia tremendamente atraída por isso. Pela ideia do que poderia encontrar nele. Afundou o rosto fervente nas mãos, como se isso fosse ajudá-la a se esconder desses pensamentos.
Entretanto, as garotas com quem ele se relacionou pareciam verdadeiras modelos. Corpos perfeitos, com seios firmes e barrigas chapadas, exceto pela loira gordinha e com seios gigantescos que apareceu num de seus pesadelos. Henrietta estava certa de que nunca a tinha visto na vida, sequer sabia se os dois realmente estiveram juntos. Independente da resposta, a gótica não tinha, nem de longe, aquela característica tão marcante.
“Bem... Foda-se.” concluiu após recolher suas roupas do armário e o fechar. Manteria sua guarda alta; ao esperar pelo pior, não se permitiria decepcionar. Qualquer fracasso eventual nesta tentativa de relacionamento só serviria de munição para jamais se permitir novamente. Que ela, estúpida e imprudente, aprendesse a lição. De uma vez.
* * *
Maquiada com ares sombrios, em suas roupas habituais, Henrietta tinha um andar firme. Firme demais. Ao tentar aparentar segurança, demonstrava toda uma naturalidade que na verdade não tinha.
Por mais consciente que estivesse de tudo o que estava acontecendo, via-se dissociando da realidade a todo momento. Se sentia como uma estranha habitando o próprio corpo, tomando decisões que sua “eu de verdade”, seja lá o que isso significasse, não tomaria.
Ao longo do corredor, avistou quatro de seus amigos. Não sabia como se dirigir a eles, não sabia como dar a eles a notícia. Nunca se imaginou em situação semelhante. Agradecia internamente por Shelly não estudar mais ali: a amiguinha de longa data e apoiadora do Eric com toda a certeza seria um pé no saco quando recebesse a novidade. Henrietta não queria vê-la tão cedo.
Respirou fundo. Sem hesitar, começou a caminhar na direção deles. Seria como a remoção de um curativo: dolorosa, mas rápida.
Falar com seus amigos parecia o mais difícil nisso tudo. Talvez devido à experiência anterior, em que seu muitíssimo breve “namoro” de infância era para ser um segredo, tinha a impressão de que seu novo relacionamento não faria grande diferença em sua rotina, nem chamaria tanta atenção. Incrivelmente, parecia ser a parte fácil, agora.
Conforme se aproximava, os góticos em roda – Pete, Michael, Firkle e Karen – olharam em sua direção. Uma apatia natural em seus rostos. Apatia essa que, gradativamente, foi substituída por espanto, o que Henrietta não compreendeu. Talvez tarde demais, percebeu que não era para ela que olhavam. Olhavam para quem vinha logo atrás.
Virou-se – ou melhor, foi virada – na direção de um Eric Cartman bastante motivado. Colidiu contra ele como se fosse um muro. Recebeu nos lábios a pressão dos dele; nada além de um selo demorado, mas o suficiente para desestabilizá-la. Ele estava perfumado, quente como sempre. Suprimiu uma vontade de beijá-lo mais intensamente.
Tola, Henrietta estava prestes a retribuir o beijo. Porém, ao perceber as roupas que ele usava, interrompeu completamente o momento. Eric vestia os trajes negros e controversos de gótico militarista.
Ainda segura, olhando-o nos olhos com espanto, a gótica recebeu dele um sorriso maquiavélico e infernal. Apesar do coração acelerado, a expressão dela se converteu em raiva. E, ao mesmo tempo, tinha morcegos no estômago.
Se esquecera que o maldito gostava de chamar a atenção. Estava assumindo-a publicamente de uma maneira pouco ortodoxa.
Quando Cartman a soltou e começou a se afastar, Henrietta torceu para que ele não dissesse nada. Para que fosse embora em silêncio, satisfeito por ter causado a impressão que queria em seus amigos.
— Mais inconformista que todos vocês, seus viadinhos. — o rapaz disse serenamente ao passar por eles, cumprimentando-os sarcasticamente com um meneio do quepe sobre a cabeça. — Menos você, Karen. Você é legal. Quando vir seu irmão, avisa que mandei ele se foder.
Vendo-o se retirar, Karen ofereceu um risinho em resposta. Então, voltou-se novamente para Henrietta. Tal como os outros.
A gordinha inspirou. O coração ainda batia rapidamente, com força. O miserável realmente fez o que fez e lhe deu as costas.
— ...Não era bem assim que eu pensei que seria. — comentou, tentando não demonstrar sentimentos.
— Bom. — iniciou Firkle. — Agora sabemos o que esteve fazendo na sua ausência. “Nunca vou estar com alguém”, ela disse.
Surpreendendo-a, Michael deu um tapa doloroso na nuca do mais baixo. Foi perceptível o esforço de Karen para não rir.
— Acredito que nenhum de nós — o líder deu ao Firkle um olhar incisivo. — ...Tenha algo a ver com suas decisões. Vá em frente, Etta. Não nos deve satisfações.
— Ótimo. — respirou, aliviada. — Não estava mesmo a fim de falar sobre isso.
— Mas não posso dizer o mesmo da Shelly. — o líder prosseguiu. — Ela sempre quer saber sobre vocês. No seu lugar, explicaria tudo a ela assim que tivesse chance.
— Ah, admitam logo que vocês também querem saber. — Karen soava abobada. — Nos conte quando estivermos todos juntos, Hen. Tô muito curiosa. Agora entendi o que Grief quis dizer sobre “o novo gótico militarista”, achei maneiro o estilo.
— É. — disse Michael, frustrado. — O visual está decente. Mas se espera que ele ande com a gente algum dia, é bom que reveja algumas atitudes primeiro.
Henrietta nada respondeu. Não é como se discordasse do que Eric disse a eles – e ela própria já deixou claro aos amigos que concordava. Também não considerava que o rapaz quisesse andar com eles constantemente. Se o fizesse algum dia, seria para incomodá-los.
De todos, Henrietta notou que o único que não se pronunciara era seu melhor amigo. Olhava diretamente pra ele, embora a evitasse.
— Que cara de cu é essa, Pete? — perguntou quase que grosseiramente.
E, quase que subitamente, Pete esvaziou-se de emoções.
— Como Michael disse — jogou a franja para o ar. — Não temos nada a ver com suas decisões. Se me dão licença, vou dar uma volta antes da aula. Vejo vocês depois.
Observando-o se retirar sem mais nem menos, Henrietta arqueou uma sobrancelha.
Então, um pouco de remorso lhe ocorreu. Pete era seu melhor amigo há anos. A apoiava, ajudava e cumpria favores sem esperar nada em retribuição. Ela, por outro lado, não vinha sendo lá a melhor amiga do mundo.
Para começar, Henrietta têm estado mais na companhia das garotas, por convites delas mesmas. E, para dizer o mínimo, ela e Pete não têm estado tão próximos assim. Desde que... “Bem. Desde que comecei a me aproximar do Eric. Ou ele se aproximou, já não lembro mais.” Além disso, para um melhor amigo, Pete não esteve muito ciente das atualizações em sua vida.
Poderia falar com ele em particular depois. Pete sempre foi compreensivo, afinal.
Não tinham sido apenas os góticos a presenciar a exibição de Cartman. Outros alunos zanzando por aí também notaram, incluindo os três amigos de longa data do antissemita e um loiro com cara de bobalhão, conhecido por ser fofoqueiro. Embora isso pouco importasse para a gótica, as notícias correriam.
“...Que ótimo.” Henrietta enunciou em pensamento ao avistar uma expectadora mais que especial: Jenny Simons a olhou uma última vez com uma patética expressão chorosa e deu meia volta, afastando-se com passos duros.
Ali tinha coisa. A Simons parecia saber exatamente aonde ir. A gótica duvidava que a vampirinha sem amor próprio fosse aceitar as novidades madura e passivamente; certamente ia aprontar mais alguma.
Suspirou. Há algum tempo, tinha em mente uma ideia sobre como dar um fim em Simons. Uma ideia, na verdade, bastante simples. Bastava arquitetar os detalhes... E jogar no lixo sua própria dignidade.
Passava da hora de dar um basta na vampira. Fosse ela uma coitada ou não, sua paciência com Jenny tinha se esgotado há muito tempo.
* * *
Tamanha a calma com que abriu a porta da diretoria, não foi possível ao diretor identificar a ira de Jenny. A vampira cheerleader aparentava muita segurança e convicção. Se sentou à frente da mesa, dando uma pausa dramática antes de começar.
— Preciso fazer uma denúncia sobre Henrietta Biggle, que está no clube das torcedoras.
Com os cotovelos sobre a mesa, o homem entrelaçou os dedos.
— É mesmo? — debruçou-se para prestar toda a atenção. — O que tem a dizer sobre a Biggle?
— Bom. Além de não ser participativa no grupo e não respeitar nossa hierarquia, ela não cumpriu suas atribuições como mascote. Abandonou o último jogo dos Vacas, me envergonhou publicamente durante a dança e ainda induziu um dos jogadores a abandonar o campo antes do fim. Acredito que ela não sirva para esse clube e quero tratar da sua remoção. Aliás, não acho que ela se encaixe em clube algum. A Biggle claramente não dá importância às obrigações escolares.
Absorvendo as declarações, o diretor ajustou os óculos sobre o nariz. Desbloqueou seu smartphone.
— Pois bem, senhorita Simons. — empurrou o aparelho na direção da garota. — Que bom que veio até mim. Alguns materiais que recebi mais cedo contam uma versão bem diferente dos fatos.
A líder vampira sentiu o sangue congelar nas veias ao compreender o que via. Na tela do celular, passava um vídeo da Vaca dançando entusiasticamente durante a partida de baseball. Em seguida, a gravação cortava para o momento em que Henrietta removia o capacete da fantasia; o rosto manchado de maquiagem e suor. Tossiu e ofegou até que caísse, estática. O vídeo terminava com Cartman erguendo a garota e tirando-a dali.
O diretor tomou a liberdade de arrastar a tela para o lado e mostrar uma foto. Era um registro da primeira participação de Henrietta no grupo das torcedoras, logo depois da sua admissão. A garota vestia um uniforme extremamente apertado, escolhido a dedo pela vampira.
— Recebi denúncias, senhorita Simons. Com provas. Se entendi bem, suas atitudes expuseram uma colega ao ridículo e a hospitalizaram. Ao que tudo indica, você está perseguindo essa garota.
Jenny entreabriu e fechou a boca algumas vezes. Precisava se defender, precisava de alguma desculpa. Mas nada lhe ocorria.
— Disse que Henrietta Biggle não serve pra participar de clube algum. — o homem prosseguia. — Pois, pra mim, parece que você não serve para comandar nossas líderes de torcida. A escola precisa de alguém competente e imparcial pra nos representar nos esportes, espero que seus atos não me prejudiquem diante do Estado e da comunidade acadêmica.
Atônita, a vampira piscou. — O senhor está me removendo da liderança das torcedoras?
— Não. Estou te removendo da liderança e do grupo. Sei que houve uma concessão pra que administrasse dois clubes, você poderá continuar com os fãs de vampiros pra não prejudicar suas notas finais. Você é uma boa aluna, não pretendo interferir nisso.
— ...Está bem. — engolia o ódio e uma tristeza crescente.
Como boa aluna, reconhecia que, diante das provas, essa seria uma batalha perdida. Uma discussão só a prejudicaria. Além disso, o diretor dissera “denúncias”. No plural. Mais de uma pessoa testemunhou contra ela, reforçando as acusações.
— Pode me dizer quem ficará no meu lugar, diretor?
— Não acho que essa informação caiba a você.
Recebendo esse soco, Jenny respirou fundo.
— Então, terminamos? — perguntou a ele, mostrando-se disposta a se levantar.
— Não acha que foi pouco punida até agora, senhorita Simons?
— Não, senhor. Não acho. Pretendo cursar Comunicação depois do ensino médio, um histórico de administração de clubes conta pontos para a faculdade. E, nesse caso, as líderes de torcida seriam mais relevantes que os vampiros.
— Lamento, Jenny. Uma expulsão no seu histórico pode ser um problema, sendo assim. Também sinto dizer que vou precisar comunicar seus pais e os pais de Henrietta Biggle. Para dar satisfações aos responsáveis dela e finalizar o caso, preciso te aplicar uma suspensão.
A ex-torcedora, destronada, serrou os dentes.
— Por quanto tempo?
— Ficará suspensa por duas semanas, começando agora. É bastante tempo sem acompanhar as aulas, mas sei que conseguirá se recuperar.
Assistindo Jenny se levantar após assentir, o diretor sentia alívio. Sem a denúncia de outros para contrariar Simons, teria ouvido a aluna modelo e punido a garota Biggle, amiga do filho de seu interesse romântico. Henrietta acabou nas torcedoras a pedido de Pete, mas foi o diretor quem permitiu sua permanência. Agora, estava livre de qualquer responsabilidade.
* * *
No vestiário, de frente ao seu armário aberto, Jenny olhou uma última vez para o uniforme de capitã das cheerleaders, dobrado perfeitamente. Trancou-o lá, disposta a evitar olhá-lo dali por diante. Ao menos nisso, as duas semanas suspensa iriam servir.
Sem o uniforme, vestia roupas básicas de vampira contemporânea. Calça preta justa e rasgada, botas de couro, camiseta vermelho sangue com um decote profundo, uma gargantilha de veludo negro e uma jaqueta de couro curta com bottons dos livros da saga Crepúsculo. Sobre a cabeça, o arco roxo de sempre. Nada espetacular, apenas as roupas que usou para vir ao colégio antes de vestir o uniforme. Gostava de usá-lo no dia-a-dia: a maquiagem vampírica combinada ao traje de torcedora afirmava suas duas posições de liderança. Agora, tinha somente uma.
Quem? Quem poderia tê-la entregado, e por que motivações? Ninguém nunca se importava com ninguém nesse lugar. Entregar valentões ou outros estudantes fora das normas não era um costume, salvo as várias denúncias de Kyle Broflovski contra velhas travessuras de Cartman (por mais errado que Jenny o considerasse, o Clube do Neonazismo ainda a fazia rir ao se lembrar).
Pensou nos amiguinhos da emo gorda. Eles bem podiam ter feito isso. Henrietta lhe parecia uma pessoa orgulhosa, alguém que não gostava de ser ajudada. Mas nada os impedia de ajudá-la sem que ela soubesse.
Ou... Seu ex-namorado. Seu Eric. Poderia tê-la entregado junto de amigos, já que fora mais de uma denúncia. Quando queria verdadeiramente, Eric sabia como convencê-los. O estômago de Jenny embrulhou ao pensar nessa possibilidade. Seu Eric estar justamente com a emo gorda era doloroso o suficiente; tê-la denunciado para defender a namorada atual seria demais para suportar.
Mas não poderia ser. Já infernizou ex-namoradas dele antes, tanto as que vieram antes quanto depois dela. Eric nunca fizera nada a respeito. Talvez porque, no fundo, ainda sentisse algo por ela, como Jenny procurava acreditar. Respeito, empatia, pena... Para ela, pouco importava, desde que houvesse algo.
— Jenny.
Wendy.
Jenny virou-se na direção da voz inconfundível da garota de boina francesa. Vestia um novo uniforme de capitã.
É claro.
Claro que a puxa-saco da Biggle, que inclusive desejou incluí-la no Comitê das Garotas, estaria por trás disso. Claro que a aluna modelo maior, considerada mais exemplar que ela, tiraria proveito de tudo para tomar seu lugar como líder das torcedoras. Não bastava estar acima dela segundo as avaliações dos professores, nem acima dela no Comitê. Sempre há algo mais que a perfeita Testaburger pode arrancar.
Antes que Jenny iniciasse sua série de acusações contra a rival, viu outras garotas uniformizadas entrarem no vestiário. Bebe, Nichole, Red. Todas as poucas torcedoras estavam ali, exceto obviamente por Lola, que era sua amiga. Olhavam conjuntamente para Jenny com seriedade.
— Então, se uniram pra conspirar contra mim. — pronunciou a vampira. — Que gracinha... Porque não se juntam pra cheirar o rabo da Biggle, também?
— O diretor nos anunciou a sua expulsão. — dizia Wendy, ignorando completamente o comentário. — Então, depois de tudo, achamos que te devemos a verdade. Sim, Jenny: nós te entregamos. E, sim: estamos insatisfeitas com a forma como trata a Biggle. Mas também, e principalmente, estamos insatisfeitas com a sua liderança.
— Você sempre implica com a Wendy durante os treinos, não aceita sugestões pras coreografias e usou sua posição de poder pra constranger alguém. Mais de uma vez. — Bebe tomou partido. — Independente disso ter sido com a Henrietta ou com qualquer outra, é babaca pra caralho.
— Não estava interessada no seu cargo, se é o que está pensando. — Wendy se posicionou outra vez. — Representar a turma, o Comitê, as torcedoras... Honestamente, não há quem suporte tanta responsabilidade.
— Mas todas concordamos que ela é a melhor fazendo tudo isso. — expressou Red. — Wendy sabe liderar com maturidade e ouvir as pessoas. Diferente de você.
— Não nos unimos pra te sabotar, Jenny. — Nichole se colocou. — Nos unimos pra tirar o poder de quem não sabe usar. E não somos as únicas insatisfeitas.
Outras garotas entravam no vestiário. Garotas que não se incluíam entre as torcedoras. Garotas membros do Comitê. Incluindo Patty Nelson, outra ex-namorada de Cartman que Jenny detestava, e a novata Tammy Warner. Todas miravam a vampira com repúdio.
— Jennifer Simons. — à frente das meninas somadas, Wendy enunciava com voz altiva. — O Comitê concorda, majoritariamente, em bani-la até a segunda ordem por não cumprimento de um de nossos princípios básicos: esforçar-se pela sororidade. Não precisamos ser todas amigas, mas precisamos ser gentis umas com as outras. Seja a garota membro do comitê ou não.
— “Sororidade.” — Jenny cuspiu a palavra, achando muita graça. — Onde estava a sororidade da Biggle quando começou a dar em cima de quem eu gosto? Isso também é uma violação dos nossos princípios, até onde sei. Estive apenas me defendendo.
— Ah, Jenny. — Bebe mostrava impaciência. — Francamente. Você e Cartman terminaram há anos, todo mundo sabe que ele não dá a mínima pra você desde então. Assim não dá pra te defender.
— Mesmo sem fazer parte do Comitê, Henrietta fez mais por nós que você em anos como co-oradora. — Patty Nelson acrescentou. — Não estamos fazendo isso só por ela. Mas, se quer saber, poderia ser. Caso você não tivesse cometido seus próprios erros.
Ao silêncio que se seguiu, Wendy aguardou para ver se mais alguém desejava se manifestar. Considerando a discussão encerrada, se voltou novamente para a Simons.
— Recomendamos que recolha suas coisas do Comitê o quanto antes. Repense o que tem feito e podemos te receber novamente algum dia. Do contrário, não apareça mais.
* * *
Seu amado com uma garota detestável. Expulsa das líderes de torcida. Suspensa. Seu currículo estudantil, arruinado. E, para finalizar, banida do Comitê das Garotas por apoio praticamente unânime. Diante de sua perspectiva adolescente, Jenny Simons considerava que não podia viver dia pior em sua vida. Conseguia ser pior que quando tentou suicídio.
Dispensada das aulas deste dia e das próximas semanas, Jenny chegou em sua casa como se suportasse o peso do mundo nos ombros. Não sem antes ter passado horas solitárias numa cafeteria, trocando mensagens com colegas vampiras que ainda estavam na escola. Compartilhou sua dor e seu desgosto.
Abriu a porta da frente com lentidão. Passou a ouvir uma conversa que vinha da sala de estar; alguém parecia chorar copiosamente. Ao adentrar o cômodo, avistou sua mãe sentada no sofá, consolando uma jovem loura ao seu lado que se acabava em lágrimas, o rosto afundado nas mãos. A vampira arqueou uma sobrancelha quando a mãe tirou a atenção da garota ao lado para olhá-la com decepção.
— Acho que deve algumas palavras pra ela, Jennifer. — Sra. Simons exigiu, ao mesmo tempo em que acariciava as costas da jovem.
Quando a garota chorona ergueu o rosto para vê-la, o queixo de Jenny caiu. Ficou em choque ao vê-la chorar mais desesperadamente quando seus olhares se cruzaram. Uma garota loira, pálida, com maquiagem básica e natural, cabelos longos e lisos, camiseta rosa, calça e jaqueta jeans e botas de neve marrons, olhava para Jenny do sofá como se sentisse medo em sua presença. Uma garota gordinha, cujo verdadeiro estilo estava entregue nas unhas negras afiadas, mantidas intactas.
A vampira não podia acreditar. Uma versão distorcida de Henrietta Biggle, que parecia saída de um universo paralelo, estava em sua casa. Sendo amparada por sua mãe.
— Que porra...? — Jenny iniciou num sussurro, sentindo-se perdida. Então, lentamente, começava a entender. E começava a sentir a ira.
— Eu sabia, Jennifer. — a mãe prosseguiu. — Sabia que a influência daquele Cartman e daqueles seus amigos de preto malucos daria nisso. A minha filha... — balançava a cabeça negativamente. — Humilhando e excluindo uma garota tão doce, só pra se divertir.
Perplexa, os olhos de Jenny passavam de uma para outra.
— Eu só queria ser sua amiga, Jenny... — Henrietta falava como uma menininha inocente. Não se parecia nada com o tom gelado de sempre. — Não sei o que fiz, mas peço desculpas de novo. Eu só queria ser uma vampira legal como você.
Ok. Desta vez, Jenny estava ainda mais confusa. Pensava que a emo gorda estivesse se fazendo de pobre coitada apenas para passar credibilidade à sua mãe ao dedurar as duas tentativas de humilhação pública, mas Henrietta parecia ter tornado tudo muito pior. Queria que Sra. Simons acreditasse que a filha era um monstro em todos os sentidos, mais do que realmente era capaz de ser.
— Mãe. — tentando manter a calma, Jenny apoiava as mãos nas têmporas. — Essa é Henrietta Biggle. Ela é do grupo dos góticos, rivais dos vampiros há anos. Ela nunca tentaria fazer parte do meu grupo, nós nos odiamos.
— Gótica. Claro. — a mulher zombou. — Olhe só pra essa menina, Jenny. Devia se vestir mais como ela, às vezes olho pra você e nem enxergo um ser humano. Com essas lentes, essas presas e esse brilho todo.
— Ah, pelo amor de Deus. — pressionou a ponte do nariz.
— Henrietta, querida, não ligue pra esse grupo dos vampiros. Você não perde nada ao não estar nele. — depois de acariciar as costas da loira, sustentou um olhar firme na direção da filha. — Tampouco Jenny vai estar com esses esquisitos daqui por diante.
As fibras do coração da ex-líder de torcida, ex-oradora do Comitê, pareceram se romper.
— ...Não pode estar falando sério.
— Jennifer. Tive que correr do meu trabalho pra ouvir horrores a seu respeito do diretor. Precisei me desculpar com a mãe dessa menina. Descobri que você foi suspensa. E acabo de descobrir a razão de tudo isso. — endureceu a expressão. — Pode ter certeza que falo bem sério. E não é de hoje que penso em tomar essa decisão.
— Você viu as gravações — uma centelha de esperança se acendeu dentro de Jenny. Significa que a mãe viu a verdadeira Biggle. A Biggle gótica, na foto e vídeo nas mãos do diretor. Que, embora Jenny tivesse convocado seus asseclas para constranger Henrietta mais de uma vez, sua relação com os Vampiros nada pareceria ter a ver com tudo isso. — Você viu ela nos vídeos. Viu como ela é de verdade!
— Sim, Jenny. Eu vi. — a mãe soou ainda mais severa. — Vi o que fez com uma garota que só estava tentando se encaixar entre seus amigos.
Então, Jenny se lembrou. Em uma ocasião, Henrietta tinha trajes de cheerleader; em outra, o da Vaca. De seus traços góticos, havia apenas a maquiagem e o corte de cabelo. Dentro do pouco conhecimento de sua mãe, nada a diferenciaria de alguém tentando ser vampira. Nada provava qual corte de cabelo era o verdadeiro e qual não era.
— Se eu souber que está andando com os tais vampiros outra vez — a mulher seguia. — Pode estar certa de que eu e seu pai vamos tomar as medidas cabíveis. Nem que precisemos te colocar num colégio interno.
Sra. Simons se levantou. Ajudava Henrietta, que já não chorava, a fazer o mesmo. A envolveu no que parecia ser um longo abraço de despedida.
— Mãe... — Jenny tentava se manter calma. Não choraria na frente da Biggle. Ao contrário dela, manteria alguma dignidade. — Não comando mais as torcedoras. Sem os Vampiros, não sobra nenhum clube pra mim. Isso vai interferir nas minhas notas. No meu futuro.
— Então você tem muito o que fazer quando sua suspensão terminar, não? — dirigiu-se novamente à filha depois de soltar a garota loira. — E mais uma coisa, Jennifer. Seu ex-namorado não se importa com você, não é da sua ou da minha conta se está com ela agora. Cresça. — abria a porta para Henrietta sair. — Se fosse você, não ousaria me meter com ele ou seus coleguinhas vampiros de novo. O resultado será o mesmo.
* * *
Após entrar no quarto, Jenny bateu a porta e a trancou. Arrancou as presas falsas, atirou ao chão a jaqueta personalizada com sua saga favorita.
Henrietta Biggle venceu.
Caminhou até a janela aberta. Pretendia se isolar no quarto até que as duas malditas semanas se passassem. Nada do que amava restou para ela.
Segurando ambos os puxadores das janelas, teve uma visão infeliz do quintal abaixo. Henrietta caminhava pela neve até um carro popular azul bebê deixado na calçada, com assentos visivelmente cobertos por capas floridas – uma decoração cafona de carro de mãe. Depois de abrir a porta do motorista, a gótica arrancou a peruca loira da cabeça. As madeixas negras e arrepiadas praticamente saltaram. Sua expressão facial estava nula novamente.
Acidentalmente, a Biggle avistou Jenny, observando-a estática à janela. Não resistiu; enviou para a ex-vampira um beijo soprado. Se acomodou no carro, ligou-o e saiu cantando os pneus.
No caminho, Henrietta refletia. Pela lógica, devia estar se sentindo realizada pelo seu feito. Devia estar exultante de satisfação, absorta num prazer sádico. Entretanto, não sentia nada. Nada além de uma sensação de que fez o que precisava ser feito.
Jenny era uma pedra no sapato e precisava, merecia, ser colocada em seu lugar. Apesar disso, e embora jamais admitisse em voz alta, Henrietta sabia que não era Simons a vilã de sua história; aquela que verdadeiramente a atrapalharia a ficar com seu... “príncipe encantado”. O vilão tampouco era Howard, com sua parcela de responsabilidade sobre suas decisões e traumas desde o que aconteceu em WaKeeney.
A verdadeira responsável por todos os acontecimentos, desde então, era ela mesma. Ela e seus medos, que ela própria cultivou e deixou tomar proporções impensadas por tanto tempo.
Se perguntava quem tinha denunciado Simons à diretoria, e por quê. Não contava com esse detalhe, e no quanto iria ajudá-la. No início, sua intenção era tirar de Jenny a influência sobre os vampiros. Garantir que Simons manteria absoluta distância dela dali em diante. E nada mais.
* * *
No terceiro dia de suspensão, Sra. Simons exigiu que a filha saísse para ver o mundo. Não sair do quarto era um castigo válido, mas o isolamento e melancolia da filha remetiam à ideia que a mulher tinha sobre os vampiros. Jenny poderia ir aonde quisesse, encontrar a amiga que desejasse, desde que não se envolvesse com os esquisitos com purpurina na pele. Como resultado, Jenny caminhava sozinha.
A mãe não precisaria saber que o destino escolhido foi o cemitério da cidade. Jenny o visitou inúmeras vezes com os vampiros para passar o tempo. Numa delas, há meses, dividiu o espaço com os góticos. Viu a Biggle vestindo a parte superior do terno de Eric, que tão bem conhecia. Foi nesse dia que o pesadelo começou.
Simons botou para correr a Beth, uma garota que Cartman tentou namorar depois dela. “Uma vaca gorda com tetas enormes”, segundo a ex-vampira. Ameaçou pôr um fim em sua carreira de modelo plus size, que há época mal tinha começado. Bastaria uma ligação e algumas provas de que aqueles seios não eram naturais. Descobriu que Beth se submeteu ao procedimento estético enquanto ainda criança. Uma completa irresponsabilidade do pai, seu único responsável. Bastaria se encontrar com Eric mais uma vez e teria um pai presidiário e um sonho arruinado.
Afastou Lorrah, uma garota ruiva e sardenta que Cartman também tentou namorar. Era, talvez, três anos mais velha que ele. Gostava de cozinhar e estava prestes a ingressar na universidade. Queria ser gastrônoma; gerir um restaurante de sucesso, com renome e credibilidade. Sendo alguém igualmente preocupada com o futuro e a carreira, Jenny tentou a mesma estratégia para atingi-la onde mais doía.
A ruiva mostrou-se mais resistente que a anterior. Não se acovardou em momento algum. Apenas não contava que o pai de Jenny fosse reitor na Universidade do Colorado. Até que Lorrah consiga uma vaga numa universidade de outro estado e tenha condições de se estabelecer por lá, está empregada num KFC. E, se quisesse estudar em outro lugar, seria melhor não cruzar o caminho de Eric de novo.
Mas Henrietta... Henrietta a derrubou. De todas as maneiras prováveis e improváveis. Talvez nem soubesse o quanto. Desde o início, Jenny não podia atingi-la da mesma maneira que fez com as outras duas. A esquisitona simplesmente não se importava com nada. Precisou investir em outras estratégias menores; todas ineficazes.
Caminhando pelo cemitério, em roupas de inverno coloridas e comuns, Jenny concluía: tendo seu pai como um reitor, seria aceita na universidade de qualquer maneira. Apenas não receberia os louros de sua família como uma jovem exemplar e bem-sucedida. No todo, as coisas poderiam não ser tão ruins.
Ao erguer o rosto, avistou uma figura conhecida. Não era alguém cuja presença chamasse sua atenção normalmente. No entanto, a franja vermelha caindo sobre a face era inconfundível. Pete, um dos amiguinhos da Biggle, sentava-se sobre um túmulo, fumando um cigarro. Um anjo melancólico esculpido em mármore estendia sua sombra sobre ele.
Um dos góticos, sozinho? Jenny considerou bastante estranho. Os góticos pareciam ter nascido colados um ao outro; era difícil não vê-los todos juntos, mais ainda vê-los isolados.
A conclusão veio até ela talvez muito rapidamente. Ao que tudo indicava, a Biggle parecia ter mais proximidade com Pete naquele grupo. Mais que com os outros. De vez em quando, entre as garotas, corriam boatos de que se pegavam. Jenny e poucas outras, na verdade, achavam que Henrietta era uma puta e se pegava com todos os amigos. Até o baixinho sextanista.
Jenny parecia não ser a única insatisfeita com o rumo das coisas. Pensou em arriscar uma aproximação. Começou a dar um passo atrás do outro, mesmo sem muita coragem.
Parada ao lado dele, Pete a notou antes que se pronunciasse. Olhava-a por debaixo da franja. Como esperava, não era alguém muito expressivo.
— Perdeu alguma coisa? — o gótico apagou o cigarro acabado na tampa de mármore do túmulo. — Por que não vira morcego e voa pra longe daqui?
— Não sou mais uma vampira. — cruzou os braços, empinando o nariz. — Graças à sua amiguinha.
Pete rolou com os olhos. Recolheu outro cigarro do bolso e o acendeu, apoiando-o à boca.
— Eu devia me importar com isso?
— Por acaso sabe por que infernizei sua amiga? — Jenny perguntou em resposta, ignorando-o.
O rapaz expeliu a fumaça do primeiro trago, soando entediado.
— Se me perguntasse isso antes, não saberia dizer. Agora, faz todo o sentido.
— Imagino que se lembre de quando eu e Eric Cartman namoramos.
— Mais ou menos. Perturbar a Henrietta não funcionou muito bem, pelo visto.
— Gosta dela, não é? — sorriu com maldade. — Ficou todo alegrinho quando ela voltou pra South Park. Até pareceu uma pessoa normal por algum tempo.
Pete fez menção de se levantar para ir embora. A garota podia jurar que, se fosse um homem, teria levado um soco.
— Espera. — ergueu a mão para segurá-lo, mas no último segundo decidiu não fazê-lo. Não conhecia o gótico, não se arriscaria desta forma. — Podíamos pensar em alguma coisa. Eu e você.
— ...O que quer dizer?
— Você quer a Biggle. Eu quero meu Eric de volta. Podemos planejar algo juntos, algo pra afastá-los um do outro. O caminho estaria livre pra você de novo, o mesmo pra mim. Nós dois ganharíamos com isso.
De pé, o rapaz a olhava atentamente. Jenny não pôde identificar se despertou ou não seu interesse. Esforçava-se para não sufocar na fumaça do cigarro.
— Simons... Você ama o tal do Cartman?
— É óbvio que eu amo.
— Pense de novo. — Pete deu outro trago. Longo demais. — Talvez você o queira, mas você não o ama. Amo Henrietta há muito, muito tempo. Por isso, por pior que eu esteja, posso garantir que não faria mal a ela. Nunca.
— Então, você não passa de um frouxo. Deixando outro levar o que é seu por direito, sem lutar. Você chegou primeiro na vida dela, se não estou enganada.
— É. Talvez eu seja. Mas, ao menos, não sou um conformista psicótico como você. — dava as costas para Jenny, sem saco para continuar ouvindo sua voz. — Espero que entenda um dia, Simons. Ou vai continuar sendo esmagada feito o inseto que você é.
A caminho dos portões de entrada, concentrado em seu cigarro, Pete balançava a cabeça em negação. A ex-vampira conseguiu a proeza de tornar uma visita ao cemitério desagradável.
Um frouxo. Talvez fosse. Ou talvez fosse um maldito romântico, que nunca superou a paixonite da infância. Alguém que, mesmo com a distância, não superou sua melhor amiga. A garota que o acolheu na cultura que ele tanto admirava quando ele precisou.
Ao contrário de Cartman, Pete esteve ciente há anos das razões para Henrietta não buscar envolvimento romântico. E, igualmente ao contrário dele, o gótico teve receio em tentar qualquer aproximação similar, sendo assim. Tinha esperanças de que faria a amiga correspondê-lo aos poucos, apenas ao mostrar sua disponibilidade e intenções sinceras. Respeitou tanto seu espaço que outro acabou disparando à sua frente.
Bem... Nada faria além de sentir a dor. Ser gótico pode não ser sobre cultivá-la, mas certamente é sobre saber lidar com ela quando necessário. Mentalmente, reforçava as mesmas ideias: ele e Henrietta eram amigos, isso não tinha mudado. Não seria capaz de fazer nada que a ferisse ou interferisse em seu caminho. Jamais.
Numa reunião do Comitê das Garotas, uma das membros declarava seu interesse em Pete Thelman. O gótico, considerado fofo por muitas, era um solteiro com estilo próprio, que ninguém tinha informações relevantes sobre além de... ser gótico, propriamente. Com a notícia do novo relacionamento circulando, a expectativa de que Pete e Henrietta Biggle pudessem estar juntos caíra por terra. Dali em diante, outras garotas não poderiam se intrometer em suas investidas.
Patty Nelson não conseguiu recrutá-lo para seu clube de música no início do ano letivo, nem se aproximar de sua melhor amiga para conseguir algumas dicas. Agora, estaria por sua conta. Estava feliz por Eric, é claro. Mas mais ainda pela oportunidade.
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