Make a Wish (Revisando)
4 Chapter - IV Save the cheerleader, save the World
Uma semana.
Era impressionante como sete dias podiam ser suficientes para transformar uma situação impossível em uma rotina quase convincente. Eu ainda acordava algumas manhãs esperando encontrar o teto rachado do lugar onde estava vivendo, ainda demorava alguns segundos para reconhecer meu antigo quarto e, em pelo menos duas ocasiões, tinha me assustado com o próprio reflexo no espelho. Mesmo assim, já conseguia atravessar a casa sem analisar cada objeto como uma peça de museu e tinha parado de verificar a data no calendário sempre que passava pela cozinha.
O que eu ainda não tinha conseguido era me acostumar a ser humana. Ser humana era inconveniente de maneiras que minha memória tinha sido gentil o bastante para apagar.
Eu sentia fome com uma frequência irritante, precisava dormir muito mais do que gostaria e descobrira, na terceira manhã, que passar horas pensando em como impedir uma tragédia sem beber água terminava com uma dor de cabeça miserável. Meu corpo também parecia determinado a me lembrar constantemente de suas limitações. Se levantasse rápido demais, minha visão escurecia por alguns segundos; se ficasse tempo demais sem comer, minhas mãos começavam a tremer; e uma pequena batida do joelho contra a quina da cômoda tinha deixado uma mancha roxa que acompanhei mudar de cor durante dias com uma fascinação quase mórbida.
Na primeira vez em que cortei o dedo abrindo uma embalagem na cozinha, fiquei olhando para a gota de sangue como uma idiota.
Minha mãe percebeu.
“Caroline, é um corte.”
“Eu sei.” Levei o dedo à boca por puro reflexo e me arrependi imediatamente do gosto metálico. “Estou avaliando a gravidade.”
Liz abaixou os olhos para meu dedo e depois tornou a olhar para mim.
“Você vai sobreviver.”
A frase quase me fez rir.
“Obrigada, xerife. Investigação impecável.”
Ela revirou os olhos, pegou um curativo no armário e o colocou diante de mim antes de voltar para o café. Eu fiquei observando aquela pequena tira bege por alguns segundos, sentindo uma ansiedade absurda diante de um ferimento que mal merecia o nome.
Como vampira, eu tinha me acostumado a considerar meu corpo quase indestrutível. Ossos quebravam e voltavam ao lugar, cortes desapareciam, balas eram inconvenientes e até uma estaca podia ser sobrevivida desde que errasse o coração. Agora uma queda ruim na escada poderia quebrar meu pescoço. Um carro poderia me atropelar. Uma doença podia começar silenciosamente dentro de mim e eu nem perceber.
Eu podia morrer de novo.
A descoberta não tinha vindo como uma revelação dramática. Ela havia se instalado aos poucos durante aquela semana, cada vez que atravessava uma rua e esperava um carro passar, cada vez que segurava o corrimão ao descer uma escada ou colocava o cinto de segurança antes mesmo de ligar o motor. Eu tinha passado anos praticamente incapaz de morrer e, depois de finalmente conseguir a proeza, havia voltado para um corpo que podia ser destruído com uma facilidade ofensiva.
Não ajudava saber que minha primeira grande ideia envolvia uma ponte. Naquela manhã, eu estava sentada no chão do quarto com um mapa rodoviário aberto diante de mim.
Um mapa de papel. Ainda não tinha superado aquilo.
Meu celular estava sobre a cama, praticamente inútil para qualquer coisa além de ligações, mensagens e algumas funções que em 2018 eu teria considerado primitivas. Durante os primeiros dias, procurei instintivamente por aplicativos que ainda não existiam, senti falta de serviços que levariam anos para se tornarem comuns e descobri que pesquisar qualquer coisa exigia muito mais paciência do que minha versão futura possuía. Por isso havia acabado com um mapa enorme de Mystic Falls aberto sobre o carpete, algumas anotações espalhadas ao redor e um notebook ligado sobre a escrivaninha.
Aquela visão teria feito Bonnie rir. Ou perguntar o que eu estava planejando.
Bonnie tinha ligado duas vezes desde nossa tarde na casa de Sheila. Na primeira, conversamos por quase uma hora sobre absolutamente nada importante, e eu descobri que ouvir sua voz durante tanto tempo podia ser simultaneamente reconfortante e exaustivo. Na segunda, inventei que estava ocupada.
Ainda não sabia o que fazer com ela.
Sentia falta de Bonnie quando não estávamos juntas e, quando estávamos, alguma parte antiga de mim começava a procurar sinais de coisas que ainda nem tinham acontecido. Era injusto. Eu sabia disso. Aquela Bonnie não tinha me deixado de lado por Elena, não tinha sido obrigada a escolher entre amigos e magia e sequer sabia o que carregava no próprio sangue. Mesmo assim, conhecimento não apagava sentimento, e morrer aparentemente não tinha me transformado numa criatura iluminada e livre de ressentimentos.
Que decepção. Peguei a caneta e voltei minha atenção para o mapa.
Wickery Bridge ficava destacada por um círculo que eu já tinha reforçado tantas vezes que começava a atravessar o papel.
Eu sabia o que aconteceria. Esse era o problema.
Eu não sabia exatamente como impedir sem destruir alguma outra coisa.
Durante uma semana inteira, formulei planos e descartei quase todos. Telefonar anonimamente dizendo que havia um problema na ponte poderia funcionar, mas alguém verificaria, descobriria que não existia problema algum e liberaria a passagem. Causar um acidente antes que os Gilbert chegassem era uma ideia tão estúpida que risquei antes mesmo de terminar de escrevê-la. Danificar o carro deles parecia simples até eu me lembrar de que Grayson Gilbert provavelmente conhecia mecânicos, táxis e pessoas dispostas a emprestar outro veículo.
Também considerei contar a Elena.
Essa possibilidade sobreviveu por aproximadamente vinte segundos.
O que eu diria?
“Oi, Elena. Nós não somos tão próximos quanto você acredita que somos, mas eu vim do futuro e seus pais vão morrer numa ponte. Ah, e você é adotada, sua mãe biológica é uma vampira e existe um homem de cento e tantos anos observando você porque seu rosto é idêntico ao da mulher que transformou ele e o irmão.”
Ela provavelmente chamaria minha mãe. Eu chamaria minha mãe. Soltei a caneta e esfreguei o rosto com as duas mãos. Precisava ser simples.
Esse foi meu erro durante toda a semana. Eu estava tentando controlar todas as consequências antes de fazer qualquer coisa, como se pudesse calcular nove anos de acontecimentos num quarto de adolescente usando papel, caneta e informações que nem sequer lembrava perfeitamente.
Não podia. Mas podia impedir um carro de atravessar uma ponte.
Meu telefone começou a vibrar sobre a cama. Estiquei o braço para pegá-lo e meu estômago apertou quando vi o nome na tela.
ELENA.
Fiquei olhando por tempo suficiente para a ligação quase cair antes de atender.
“Oi.”
“Finalmente.” A voz dela veio acompanhada de barulho ao fundo, alguma porta fechando e depois passos. “Você está me evitando?”
“Que maneira agradável de começar uma ligação.”
“É uma pergunta.”
Levantei-me do chão e caminhei até a janela, afastando a cortina enquanto procurava uma resposta que não soasse completamente falsa. A rua estava tranquila naquela manhã, aquecida pelo sol de verão, e a vizinha do outro lado lavava o carro enquanto uma criança tentava atravessar o jato da mangueira.
“Não estou evitando você.”
“Bonnie disse que você está estranha.”
Revirei os olhos. “Claro que disse.”
“Ela está preocupada.”
“Bonnie está sempre preocupada.”
Houve uma pausa curta.
“Você brigou com ela?”
A pergunta me incomodou mais do que deveria.
“Não.”
“Care.”
“Eu não briguei com Bonnie.” Afastei-me da janela e comecei a recolher distraidamente algumas roupas deixadas sobre a cadeira, precisando ocupar as mãos. “Estou só... tentando organizar algumas coisas.”
“Que coisas?”
Olhei para o mapa no chão.
“Coisas minhas.”
Elena ficou quieta por um instante, e imediatamente me arrependi do tom. Não porque tenha sido cruel, mas porque reconheci aquela dinâmica com facilidade demais. Elena perguntava, eu interpretava como intromissão, respondia atravessado e depois passava horas imaginando se teria feito a mesma pergunta se fosse Bonnie do outro lado.
Os velhos hábitos realmente eram resistentes e difíceis de matar.
“Desculpa”, acrescentei, deixando as roupas sobre a cama. “Não é você. Minha cabeça está meio bagunçada desde aquele pesadelo.”
“Por isso estou ligando.”
Meu corpo ficou atento.
“Por quê?”
“Porque você precisa sair de casa.”
“Essa conclusão veio de onde?”
“De Bonnie. E de mim. E provavelmente da sua mãe, se perguntarmos.”
Apesar de tudo, sorri.
“Vocês fizeram uma intervenção sem me avisar?”
“Seria uma intervenção péssima se avisássemos.”
Aquela era Elena. Não a mulher que eu lembrava depois de vampiros, perdas, escolhas impossíveis e despedidas. Era a garota que ainda tinha os pais no andar de baixo e achava que o maior problema de Caroline naquela semana era algum tipo de crise adolescente.
Olhei novamente para o mapa.
“Você está em casa?”
“Estou. Por quê?”
Minha boca ficou seca. Era tão simples perguntar.
“Seus pais também?”
“Meu pai está. Minha mãe saiu com Jeremy e volta daqui a pouco.” Elena fez uma pequena pausa antes de rir. “Por que você quer saber se meus pais estão em casa?”
“Curiosidade.”
“Isso foi estranho até para você.”
“Eu tenho direito a ser estranha. Bonnie já oficializou.”
Elena riu, mas eu mal ouvi.
Grayson estava em casa, Miranda voltaria. Vivos.
A palavra não aparece isolada na minha cabeça como uma revelação. Veio acompanhada de uma lembrança muito mais incômoda: o funeral, Elena tentando permanecer inteira, Jeremy incapaz de lidar com a própria dor e todos nós ao redor deles sem saber o que dizer. Durante anos, eu tinha pensado naquele acidente como um acontecimento consumado. Agora bastava dirigir alguns minutos para encontrar as duas pessoas que ainda não sabiam que morreriam.
“Caroline?”
“Estou aqui.”
“Então vem pra cá.”
Meu coração acelerou.
“Agora?”
“Sim, agora. Bonnie também vem. Podemos fazer alguma coisa mais tarde.”
Bonnie, Elena, os Gilbert.
Tudo parecia convergir para o mesmo lugar antes que eu estivesse pronta.
“Tá.” Peguei a bolsa sobre a cadeira e comecei a colocar minhas coisas dentro dela. “Eu vou.”
“Isso foi surpreendentemente fácil.”
“Não se acostuma.”
“Te vejo daqui a pouco.”
Ela desligou. Continuei com o telefone junto ao ouvido por alguns segundos antes de baixá-lo.
Meu olhar voltou para o mapa aberto no chão. Talvez eu estivesse complicando tudo porque ainda pensava como alguém tentando mudar o passado de longe. Como se precisasse montar um plano perfeito antes de tocar em qualquer peça.
Mas eu conhecia aquelas pessoas.
Podia entrar naquela casa e descobrir os planos deles.
Podia saber quando pretendiam sair, por onde passariam e encontrar uma maneira de impedir sem precisar prever todas as consequências do universo.
Dobrei o mapa e o enfiei dentro da gaveta da escrivaninha junto das anotações. Antes de fechá-la, porém, meus olhos caíram sobre uma das páginas.
STEFAN?
Eu tinha escrito o nome dois dias antes e circulado três vezes.
Ainda não fiz nada a respeito.
Se Stefan tivesse voltado comigo, procurar por ele poderia significar encontrar a única pessoa capaz de confirmar tudo que acontecera na floresta.
Também significava procurar o homem que tinha me matado. Fechei a gaveta. Um desastre por vez.
Desci as escadas quase correndo e encontrei minha mãe na cozinha, ainda uniformizada, terminando uma xícara de café enquanto lia alguma coisa sobre a bancada. Ela ergueu os olhos quando ouviu meus passos e me acompanhou até eu pegar as chaves.
“Vai sair?”
“Vou na casa da Elena.”
Liz pareceu genuinamente satisfeita com a informação, o que dizia coisas pouco lisonjeiras sobre o quanto eu tinha me isolado naquela semana.
“Bom.”
Parei perto da porta.
“Bom?”
“Você está há dias trancada nesse quarto.”
“Eu saí.”
“Para a casa da Bonnie.”
“Isso conta como sair.”
“Uma vez em uma semana.”
Fiz uma careta enquanto colocava a bolsa no ombro.
“Você está mantendo estatísticas?”
“Sou policial.”
“Isso não significa que pode montar um arquivo sobre minha vida social.”
“Tenho certeza de que já existe um.”
Sorri apesar de mim mesma e abri a porta, mas a voz dela me fez parar.
“Caroline.”
Virei-me.
Minha mãe estava me observando com aquela expressão que eu conhecia bem demais e que, naquela idade, costumava interpretar como julgamento. Agora conseguia reconhecer preocupação com muito mais facilidade.
“Dirige com cuidado.”
A frase atingiu meu peito. Meu sorriso desapareceu por um instante.
“Eu vou.”
Saí antes que ela percebesse qualquer coisa.
Dentro do carro, coloquei o cinto, ajustei o retrovisor e permaneci alguns segundos olhando para minhas próprias mãos sobre o volante. A lembrança da ponte tentou se formar outra vez, mas dessa vez não deixei que avançasse.
Liguei o motor. Eu ainda não tinha um plano.
Tinha apenas uma casa para onde dirigir, uma família que precisava continuar viva e a vantagem de saber que alguma coisa terrível estava chegando antes de todos os outros.
Por enquanto, teria que bastar. E segui em direção à casa dos Gilbert.
…
A casa dos Gilbert apareceu no fim da rua exatamente como eu me lembrava e, ainda assim, precisei diminuir a velocidade antes de estacionar. Havia um carro na entrada, bicicletas próximas à lateral da casa e uma mangueira esquecida sobre o gramado, serpenteando entre a grama ainda molhada. Uma das janelas do andar de cima estava aberta, deixando a cortina se projetar para fora sempre que o vento soprava. Nada naquela cena mereceria atenção especial de qualquer pessoa que passasse pela rua. Para mim, cada detalhe parecia carregar uma importância absurda porque eu conhecia aquela casa depois do silêncio, das ausências e das pessoas que aprenderiam a habitá-la sem os pais.
Desliguei o motor, mas permaneci dentro do carro.
A parte racional do meu cérebro tinha passado o trajeto inteiro repetindo que aquilo era simples. Eu entraria, conversaria com Elena, prestaria atenção ao que os pais dela diziam e descobriria quando pretendiam viajar. Não precisava anunciar que conhecia o futuro, impedir o acidente naquele instante ou solucionar nove anos de acontecimentos antes do almoço.
Meu corpo aparentemente não tinha recebido o memorando.
Apertei os dedos ao redor do volante e respirei fundo antes de sair. O calor do verão me envolveu imediatamente, acompanhado pelo cheiro de grama recém-cortada e pelo som de alguma música tocando em uma casa próxima. Eu já tinha atravessado metade do caminho até a varanda quando a porta se abriu.
Elena apareceu primeiro.
“Você veio.”
“Você me convidou”, respondi, ajustando a bolsa no ombro enquanto subia os degraus. “Normalmente é assim que funciona.”
“Considerando que você passou a semana inteira se comportando como uma eremita, achei que podia mudar de ideia.”
Ela abriu espaço para que eu entrasse e, ao passar por ela, precisei conter o impulso ridículo de abraçá-la. Não porque tivesse sentido a mesma coisa ao reencontrar Bonnie. Com Elena era diferente. Mais confuso. Eu a amava, tinha sentido sua falta e sabia que morreria por ela se fosse necessário, mas também carregava lembranças de anos me comparando a ela, sendo comparada a ela e me perguntando por que parecia tão fácil para o mundo reorganizar-se ao redor de Elena Gilbert.
Nenhuma dessas coisas desaparecera só porque eu tinha morrido.
“Bonnie ainda não chegou?”, perguntei enquanto Elena fechava a porta.
“Mandou uma mensagem dizendo que estava saindo.”
Elena me guiou para dentro da casa. Acompanhei-a até a sala e quase consegui relaxar até ouvir passos vindo do corredor.
Um homem apareceu carregando uma caixa de ferramentas.
Grayson Gilbert parecia exatamente como deveria parecer e muito mais jovem do que minhas lembranças permitiam. Usava uma camiseta simples e tinha os óculos ligeiramente escorregando pelo nariz enquanto examinava alguma coisa dentro da caixa. Levantou os olhos ao perceber minha presença e sorriu com a familiaridade tranquila de um adulto encontrando uma das amigas da filha.
“Caroline. Faz tempo que não aparece por aqui.”
Durante alguns segundos, não consegui responder.
Eu tinha visto fantasmas. Conhecer as pessoas que voltaram dos mortos, atravessaram dimensões, enfrentaram bruxas, vampiros, lobisomens e criaturas que em algum momento eu teria considerado invenções ruins de filmes de terror. Nada daquilo me preparara para a estranheza de ficar diante de um homem morto que não sabia que estava morto.
Ou que não estava. Ainda.
“Caroline?”, Elena chamou, tocando meu cotovelo.
Piscar foi suficiente para voltar ao ambiente.
“Desculpa.” Forcei um sorriso e indiquei a caixa com o queixo. “Estava tentando decidir se devo ficar preocupada. Ferramentas nas mãos dos pais durante as férias geralmente significam que alguém vai obrigar os filhos a ajudar.”
Grayson riu.
“Só uma torneira vazando.”
“Ótimo. Nesse caso, Elena pode ajudar.”
“Traíra”, ela reclamou, empurrando-me novamente.
O gesto me fez sorrir de verdade.
Grayson passou por nós, mas minha atenção permaneceu nele até desaparecer na direção da cozinha. Vivo. Eu precisava parar de fazer isso. Se continuasse olhando para todos como se fossem cadáveres ambulantes, não chegaria ao fim da semana sem alguém perceber.
“Você está fazendo aquela coisa outra vez”, Elena comentou.
Voltei para ela.
“Que coisa?”
“Ficando parada e olhando para as pessoas.”
“Eu não estava olhando.”
“Você estava encarando meu pai.”
“Não estava.”
“Caroline.”
“Seu pai é um homem casado, Elena. Por favor, tenha confiança no meu caráter.”
Ela fez uma careta.
“Isso conseguiu deixar tudo mais estranho.”
“Então meu trabalho aqui está feito.”
Elena segurou meu braço e me puxou em direção às escadas antes que eu pudesse olhar novamente para o corredor. Subimos enquanto ela começava a contar alguma coisa sobre Jeremy e uma discussão que tivera com ele naquela manhã, e tentei prestar atenção. Realmente tentei. Só que meu cérebro continuava preso à existência de Grayson alguns metros abaixo de nós.
Quando chegamos ao quarto, a sensação piorou.
Eu conhecia aquele espaço.
Conhecia versões dele depois do acidente, quando Elena tentava continuar vivendo enquanto tudo ao redor ainda pertencia à garota que tinha pais. Agora fotografias familiares ocupavam lugares que depois seriam difíceis de olhar, roupas estavam espalhadas sobre a cama e um pequeno aparelho de som tocava baixo perto da janela. Havia revistas sobre uma cadeira, um notebook aberto sobre a escrivaninha e um telefone celular carregando perto da cama. Nada parecia congelado no tempo para Elena. Era simplesmente seu quarto.
Sentei-me na beirada da cama enquanto ela começou a procurar alguma coisa dentro do armário.
“Então”, Elena disse, afastando alguns cabides, “vai me contar o que aconteceu?”
“Quando?”
“Durante a última semana.”
“Eu já disse. Nada.”
Ela apareceu por trás da porta do armário segurando duas blusas. “Essa resposta nunca funciona quando eu uso com você.”
“Talvez você seja uma péssima mentirosa.”
“E você é boa?”
“Excelente.”
Elena me encarou.
“Tudo bem, mediana.”
Ela largou as blusas sobre a cama e se sentou ao meu lado, virando o corpo na minha direção. “Bonnie acha que tem alguma coisa errada.”
O nome trouxe de volta a cozinha dos Bennett e os dedos de Sheila fechados ao redor da minha mão.
“Bonnie acha muitas coisas.”
“Você está irritada com ela.”
“Não estou.”
“Está sim.”
Respirei fundo e olhei para as roupas que Elena tinha jogado sobre a cama. Uma parte de mim queria simplesmente negar outra vez. Outra estava cansada de cada conversa se transformar em uma investigação sobre meu comportamento.
“Eu não estou irritada com Bonnie.” Passei os dedos pelo tecido de uma das blusas, ajeitando uma dobra que nem precisava ser ajeitada. “Só quero um pouco de espaço.”
“De nós?”
A pergunta veio tão depressa que levantei os olhos. Havia preocupação genuína no rosto dela.
E imediatamente senti culpa.
Era isso que tornava tudo tão difícil. Meus ressentimentos pertenciam a anos que Elena ainda não viveu. Eu podia lembrar de todas as vezes em que me senti segunda opção, de todas as situações em que o sofrimento dela parecia ocupar espaço suficiente para engolir o de qualquer outra pessoa, mas a garota sentada ao meu lado não sabia de nada disso.
Ainda assim, fingir que esses sentimentos não existiam não faria com que desaparecessem.
“Talvez um pouco”, admiti.
Elena franziu a testa. “Eu fiz alguma coisa?”
“Não.” Respondi depressa demais e suavizei a voz antes de continuar. “Não é isso. Eu só preciso descobrir algumas coisas sem todo mundo perguntando o tempo inteiro se estou bem.”
Ela ficou alguns segundos em silêncio, aparentemente decidindo se deveria insistir. Para minha surpresa, não insistiu
“Tudo bem.”
Olhei para ela.
“Tudo bem?”
“Você pediu espaço.” Elena deu de ombros e pegou uma das blusas. “Eu consigo dar.”
A simplicidade da resposta me atingiu de maneira desagradável.
Talvez porque parte de mim estivesse preparada para lutar contra uma reação que não veio.
“Obrigada.”
Ela sorriu discretamente e levantou a blusa diante do corpo. “Agora preciso que você responda uma pergunta realmente importante.”
“Qual?”
“Essa ou a azul?”
Observei as duas opções.
“Azul.”
“Você nem olhou.”
“Eu não precisava. Essa cor faz você parecer doente.”
Elena olhou para a peça em suas mãos.
“Você acabou de recuperar sua personalidade.”
“Ela nunca foi embora.”
“Estava preocupada.”
O som da campainha interrompeu nossa conversa e Elena se levantou imediatamente.
“Bonnie.”
“Ou um assassino.”
Ela parou na porta e olhou para mim.
“Que foi?”, perguntei.
“Você está muito mórbida ultimamente.”
“Tenho assistido televisão demais.”
Ela balançou a cabeça e saiu.
Esperei até ouvir seus passos descendo as escadas antes de me levantar. Eu não tinha vindo até ali para analisar o guarda-roupa de Elena.
Caminhei até a janela, mas não havia nada que pudesse me dizer quando os Gilbert planejavam sair. Voltei para o quarto e imediatamente me senti uma criminosa por sequer considerar procurar alguma coisa.
Não precisava vasculhar as coisas dela. Precisava perguntar.
Quando desci, Bonnie já estava na sala abraçando Elena. Ela se afastou ao me ver e sorriu, mas houve uma hesitação quase imperceptível antes de se aproximar.
Eu percebi.
“Oi.”
“Oi.”
“Eu voltei!”
Miranda.
O ar pareceu abandonar meus pulmões. Elena continuou andando normalmente.
“Estamos na cozinha!”
Miranda Gilbert entrou carregando duas sacolas de compras, com Jeremy vindo atrás dela e reclamando de alguma coisa enquanto segurava uma caixa de refrigerantes. Ela colocou as sacolas sobre o balcão e afastou o cabelo do rosto antes de perceber nossa presença.
“Bonnie, Caroline, oi.”
Bonnie respondeu primeiro. Eu precisei de mais tempo. Miranda abriu um sorriso para mim, completamente alheia ao fato de que eu estava olhando para uma mulher cuja lápide conseguia visualizar.
“Oi, senhora Gilbert.” Minha voz saiu surpreendentemente normal.
“Vocês vão ficar para o almoço?”
“Sim”, Elena respondeu por nós.
“Eu ainda não concordei”, protestei.
“Agora concordou.”
Miranda riu enquanto começava a guardar as compras. “Tem comida suficiente.”
Jeremy passou por nós sem demonstrar qualquer interesse e Bonnie fez algum comentário que o levou a responder com uma careta. A cozinha rapidamente se encheu de vozes, armários abrindo, embalagens sendo colocadas sobre a bancada e Elena discutindo com o irmão por ter bebido diretamente de uma garrafa.
Fiquei parada no meio de tudo aquilo. Era uma família, não uma tragédia.
Não a origem da história de Elena. Não o acidente que levaria Stefan até ela. Não há duas mortes necessárias para que uma sequência específica de acontecimentos começasse.
Uma família.
E de repente todas as minhas preocupações sobre o efeito borboleta pareceram muito mais cruéis. Miranda passou por mim carregando algumas coisas para a geladeira e eu me afastei para deixá-la passar.
“Obrigada, querida.”
“Senhora Gilbert?”
Ela se virou. Minha boca agiu antes que meu plano existisse.
“Vocês vão viajar?”
Elena parou de discutir com Jeremy. Bonnie olhou para mim.
Miranda franziu ligeiramente a testa
“Viajar?”
Excelente, Caroline. Muito sutil.
“Nas férias”, acrescentei rapidamente, encostando-me ao balcão e tentando parecer casual. “Minha mãe está tentando descobrir quando consegue folga e eu estava pensando que talvez a gente pudesse fazer alguma coisa. Aí fiquei curiosa para saber se todo mundo vai desaparecer de Mystic Falls antes.”
A explicação era ruim, mas plausível.
“Não temos nenhuma viagem grande planejada”, Miranda respondeu enquanto fechava a geladeira. “Por enquanto.”
Meu coração bateu mais forte.
“Por enquanto?”
Elena estreitou os olhos. Eu precisava parar.
“Caroline está planejando nossas férias agora?”, Bonnie perguntou, divertida.
“Alguém precisa.”
“Você nem sabe o que sua mãe vai fazer.”
“Detalhes.”
Miranda sorriu e voltou às compras.
“Temos um jantar fora da cidade daqui a alguns dias, mas nada emocionante. Depois veremos.”
Meu corpo ficou imóvel.
“Que jantar?”, Elena perguntou.
Miranda respondeu alguma coisa sobre amigos, mas eu mal escutei. Meu cérebro tinha agarrado aquelas quatro palavras e começado a organizar tudo ao redor delas.
Eu tinha encontrado o evento. Não precisava saber a data exata da morte porque agora podia descobrir de maneira muito mais simples.
“Que dia?”, perguntei.
O silêncio durou apenas um segundo. Foi suficiente.
Elena virou lentamente o rosto para mim. Bonnie também. Miranda parecia apenas confusa. Percebi que tinha ido longe demais.
“Porque”, acrescentei, pegando uma uva de uma das sacolas e levando-a à boca para fingir uma despreocupação que não sentia, “se for no mesmo dia em que minha mãe conseguir folga, Elena não pode usar vocês como desculpa para fugir de qualquer plano que eu inventar.”
Elena apoiou as mãos na cintura. “Desde quando eu preciso dos meus pais como desculpa?”
“Desde que suas desculpas próprias são péssimas.”
Bonnie riu. A tensão desapareceu o suficiente. Miranda pensou por um instante.
“Sábado.”
Mastiguei a uva devagar. Era quinta-feira. Eu tinha dois dias para impedir que Miranda e Grayson Gilbert chegassem a Wickery Bridge.
“Perfeito”, respondi, abrindo um sorriso enquanto pegava outra uva. “Então domingo é nosso.”
Elena começou a protestar que ninguém tinha concordado com plano algum, Bonnie entrou na discussão apenas para contrariá-la e Miranda voltou a organizar as compras.
Ninguém percebeu que minhas mãos tinham começado a suar.
Ou que, pela primeira vez desde que acordei naquele quarto uma semana antes, eu tinha uma data. Sábado. Não precisava salvar Mystic Falls inteira.
Não precisava decidir ainda o que faria com Damon, Klaus, Katherine, Kai ou qualquer outro desastre que eu sabia estar esperando no futuro. Não precisava sequer descobrir naquele momento se Stefan tinha voltado comigo.
Precisava impedir uma família de pegar uma estrada.
Observei Miranda reclamar com Jeremy porque ele tinha deixado alguma coisa fora do lugar, enquanto Grayson entrava na cozinha perguntando quem tinha visto uma chave de fenda. Elena imediatamente culpou o irmão, Jeremy protestou e Bonnie começou a rir.
Eu permaneci junto ao balcão, assistindo àquela confusão doméstica que ninguém ali considerava preciosa porque ainda acreditavam que teriam milhares de outras iguais.
Dois dias. Dessa vez, quando pensei em mudar o futuro, não enxerguei uma linha do tempo se desfazendo.
Enxerguei quatro pessoas dentro de uma cozinha. E decidi que aquilo era motivo suficiente.
Bonnie continuou me observando mesmo depois que a conversa sobre os planos dos Gilbert perdeu força. Eu percebi pelo canto do olho enquanto fingia prestar atenção em Elena, que comentava alguma coisa sobre o restante das férias. Tentei ignorá-la por alguns segundos, mas Bonnie nunca teve muito talento para ser discreta quando alguma coisa a incomodava.
“Tá, eu preciso perguntar”, disse ela finalmente, virando-se mais para mim no sofá. Seus olhos percorreram meu rosto com uma atenção que me fez endireitar as costas. “O que aconteceu com você?”
“Essa pergunta parece perigosamente ampla.” Cruzei as pernas e apoiei as mãos sobre o joelho, tentando manter a expressão despreocupada. “Você vai precisar ser mais específica.”
“Você está diferente.” Bonnie estreitou um pouco os olhos enquanto procurava uma maneira melhor de explicar. “Desde aquele dia no Grill. Na casa da minha avó também. Você fica distraída, fala umas coisas estranhas e às vezes olha para as pessoas como se não as visse há anos.”
Meu estômago apertou com a precisão involuntária da última observação, mas meu cérebro encontrou uma preocupação muito mais familiar para usar como escudo. Baixei os olhos para o próprio corpo e passei a mão pela lateral da blusa.
“Eu engordei?”
“O quê?” Bonnie soltou uma risada, e Elena imediatamente virou o rosto para mim. “Não, Caroline!”
“Então não diga ‘você está diferente’ enquanto me examina desse jeito.” Alisei a blusa sobre a barriga antes de perceber o que estava fazendo e obriguei minha mão a parar. “Existe toda uma etiqueta para esse tipo de conversa.”
“Eu não estava falando da sua aparência.” Bonnie ainda sorria quando tocou meu braço, mas a preocupação não desapareceu de seus olhos. “Estou falando de você.”
“Eu continuo sendo eu.”
“Então você vai à festa sábado?”
A mudança repentina de assunto me pegou desprevenida.
“Que festa?”
O silêncio que se seguiu foi curto, mas terrível. Bonnie virou o rosto para Elena, e Elena olhou para ela com a mesma expressão.
“Não façam isso.” Apontei para as duas, já irritada com aquela comunicação silenciosa. “Eu odeio quando vocês fazem isso.”
“A festa no lago”, Bonnie explicou, voltando a me encarar. “Você estava falando dela desde antes das férias. Inclusive já tinha decidido o que ia vestir.”
Procurei a lembrança e não encontrei absolutamente nada. Depois de tantos anos de funerais, rituais, vampiros, bruxas e cidades sendo destruídas, aparentemente meu cérebro não considerara importante preservar detalhes sobre uma festa adolescente.
“Ah, essa festa.” Dei de ombros e afastei uma mecha de cabelo do rosto, esperando que o gesto ajudasse a vender uma indiferença que eu não sentia. “Não estou muito a fim ultimamente.”
“Você não está a fim de uma festa?”, Elena perguntou, acomodando-se melhor ao meu lado. O espanto em seu rosto me fez arquear uma sobrancelha. “Mas você é a alma de toda festa.”
Fiz uma careta antes de perceber.
A alma da festa. Eu sabia que Elena pretendia aquilo como elogio, mas a expressão encontrou um lugar dentro de mim que já estava machucado muito antes daquela conversa. A velha Caroline teria adorado ser descrita daquela maneira. A garota bonita, loira, sempre impecável, que sabia onde seria a próxima festa, quem estaria lá e o que vestir antes mesmo de receber o convite. A Barbie de Mystic Falls, sempre sorrindo e se esforçando demais para garantir que ninguém percebesse o quanto precisava ser percebida.
Damon tinha outras palavras para isso.
Tão profunda quanto um prato.
Um arrepio desagradável percorreu meus braços. Ele gostava de reduzir-me àquela garota superficial porque era fácil fazer isso. Durante algum tempo, eu tinha sido apenas mais uma insegurança que Damon poderia explorar, alguém que ele usava e descartava enquanto atingia Elena ou encontrava alguma maneira de provocar Stefan. Eu era um nervo exposto que ele apertava quando queria provocar uma reação em outra pessoa.
E Stefan também escolheu Elena.
Eu sabia que aquilo era uma simplificação injusta. Sabia que não ser desejada por um homem não dizia absolutamente nada sobre meu valor e que passara anos aprendendo a não medir a mim mesma dessa maneira. Mesmo assim, alguma coisa naquele corpo de dezessete anos parecia ter devolvido voz a inseguranças que eu julgava enterradas. Elena era a garota que todos queriam conhecer melhor. Eu era a garota que todos achavam que já conheciam.
“Care?”
Bonnie apertou de leve meu braço, e pisquei ao perceber que tinha parado de prestar atenção novamente. Ela estava inclinada na minha direção, enquanto Elena me observava com a testa franzida.
“Desculpa.” Soltei o ar e esfreguei as mãos sobre as pernas, tentando afastar o desconforto. “Eu só não estou com vontade de ir a festas ultimamente. Não precisa significar nada.”
“Mas é isso que eu estou dizendo.” Bonnie deixou a mão cair do meu braço, embora continuasse próxima. “Você adorava essas coisas. Agora parece que nem lembra delas.”
“Talvez eu tenha cansado.”
“Em uma semana?”
“Foi uma semana muito transformadora.”
Bonnie quase sorriu, mas Elena permaneceu me olhando. A expressão dela mudou aos poucos, perdendo a curiosidade até dar lugar a algo mais cuidadoso.
“É por causa dos seus pais?”
Demorei alguns segundos para compreender a pergunta. “Meus pais?”
“Do divórcio.” Elena se aproximou um pouco, apoiando um braço no encosto do sofá enquanto falava. “Seu pai foi embora, sua mãe trabalha o tempo inteiro e você está passando quase todas as férias sozinha. Você sempre diz que está tudo bem, mas talvez não esteja.”
Fiquei olhando para ela como uma idiota.
Era uma explicação tão simples, tão normal, que por alguns segundos não soube o que fazer com ela. Nenhuma viagem no tempo, nenhuma pedra misteriosa, nenhum vampiro arrancando meu coração. Apenas uma adolescente cujos pais estavam se divorciando e que talvez estivesse finalmente começando a sentir o peso disso.
E o pior era que não estava completamente errada.
A Caroline que eu fora realmente tinha sofrido com aquilo. Lembrei-me de quanto me esforçara para fingir que o fim do casamento dos meus pais não importava, de como transformara a ausência do meu pai em irritação e a falta de tempo da minha mãe em reclamações porque admitir que me sentia abandonada teria sido muito mais difícil. Minha família estava desmoronando, e eu tinha respondido tentando parecer ainda mais perfeita para todo mundo do lado de fora.
Baixei os olhos e comecei a girar um dos anéis no dedo.
“É.” Assenti devagar, permitindo que um pouco da tensão abandonasse meus ombros. “Está sendo difícil.”
Bonnie trocou um olhar rápido com Elena, mas dessa vez não me irritei. Quando voltou a me encarar, ela apenas aproximou o joelho do meu e deixou que o pequeno contato permanecesse ali, sem tentar arrancar uma confissão maior de mim.
“Você podia ter falado com a gente”, disse ela, passando os dedos distraidamente pela costura da almofada que estava ao seu lado.
“Eu sei.” Forcei um pequeno sorriso e encostei meu ombro no dela por um instante. “Só não estava com vontade de falar.”
“Tudo bem.” Bonnie inclinou a cabeça até tocar brevemente a minha antes de se afastar. “Mas isso não significa que eu vou parar de perguntar se você está bem.”
“Eu não esperaria menos de você.”
Elena sorriu, aparentemente satisfeita por finalmente ter encontrado uma explicação para o meu comportamento, e alguma coisa apertou meu peito ao vê-las ali. Elas estavam preocupadas comigo por motivos completamente errados, mas eu não conseguiria contar a verdade nem se quisesse.
Não naquele momento. Então deixei que acreditassem que era o divórcio, porque aquela mentira continha verdade suficiente para não parecer inteiramente uma.
“Meninas, o almoço está pronto!”, Miranda anunciou da cozinha, e o chamado atravessou a sala antes que qualquer uma delas pudesse continuar o assunto.
“Finalmente.” Bonnie se levantou primeiro e estendeu a mão para mim. “Estou morrendo de fome.”
Segurei sua mão e deixei que ela me puxasse do sofá, enquanto Elena já seguia em direção à cozinha reclamando que, se Jeremy tivesse começado sem elas, ficaria sem sobremesa. Bonnie foi atrás dela ainda rindo, e eu permaneci apenas um instante onde estava antes de acompanhá-las.
Por enquanto, elas tinham uma explicação. E eu deixaria que ficassem com ela.
***
Depois do almoço, não permaneci muito tempo na casa dos Gilbert. Bonnie tentou me convencer a acompanhá-las até o centro e Elena chegou a sugerir algumas lojas, provavelmente ainda preocupada com minha recente falta de interesse por qualquer coisa que envolvesse uma festa, mas inventei que precisava voltar para casa antes que minha mãe saísse para trabalhar. Não queria continuar ali fazendo perguntas demais e acabar transformando curiosidade em suspeita.
Entrei no carro sabendo exatamente para onde deveria ir. Ainda assim, quando encontrei a placa indicando Wickery Bridge, meu pé hesitou sobre o acelerador.
A estrada não tinha nada de extraordinário. O sol atravessava as copas das árvores e deixava manchas claras sobre o asfalto, o mato crescia alto nas laterais e, conforme me aproximava da ponte, o brilho da água começou a aparecer entre a vegetação. Nenhum sinal anunciava que aquele lugar estava prestes a dividir a vida de Elena em antes e depois.
Atravessei devagar.
Olhei para a água apenas por alguns segundos antes de voltar a atenção para a pista. Era estranho conhecer tão bem uma tragédia que ainda não havia acontecido. Dentro de dois dias, Elena estaria ali com os pais. O carro atravessaria a barreira e cairia na água; Grayson ainda conseguiria indicar a Stefan que salvasse a filha primeiro, e quando ele voltasse para buscar os outros dois seria tarde demais.
Apertei o volante.
Se eu impedisse o acidente, Stefan nunca salvaria Elena naquela noite. Talvez nunca descobrisse quem ela era daquela maneira. A história que eu conhecia poderia começar a mudar imediatamente.
Mas aquela possibilidade já não parecia suficiente para me fazer aceitar a alternativa. Passei pela ponte e parei alguns metros adiante, onde havia espaço suficiente para tirar o carro da estrada. Desliguei o motor e fiquei observando a estrutura pelo retrovisor enquanto tentava pensar.
Eu não podia depender de alterar o carro dos Gilbert. Mexer nos freios ou no motor seria absurdo quando minha intenção era justamente impedir um acidente. Também não queria envolver minha mãe inventando algum perigo na estrada que a polícia pudesse facilmente descobrir que não existia.
Precisava de alguma coisa simples.
Então meus olhos voltaram para a ponte. E a resposta veio quase óbvia. Eu não precisava impedir os Gilbert de saírem. Precisava impedir que passassem por ali.
Se acontecesse alguma coisa com a própria ponte antes do jantar, alguma coisa inofensiva o suficiente para não machucar ninguém, mas séria o bastante para obrigar a polícia a interditá-la, Miranda e Grayson teriam de pegar outra estrada. Não importava se chegariam atrasados ao jantar ou reclamaram do desvio durante todo o caminho.
Eles não cairiam naquela água.
Um sorriso pequeno apareceu antes que eu pudesse impedir. Pela primeira vez desde que decidira interferir, eu tinha algo parecido com um plano.
Ainda precisava descobrir o que faria. Eu era humana outra vez, não tinha força ou velocidade sobrenaturais e certamente não pretendia provocar um acidente verdadeiro só para evitar outro. Mas minha mãe era a xerife. Eu crescera ouvindo reclamações sobre estradas, ocorrências, interdições e todas as pequenas coisas capazes de transformar o trânsito de Mystic Falls num inferno.
Talvez finalmente pudesse usar alguma coisa daquilo a meu favor. Liguei o carro novamente e olhei uma última vez para Wickery Bridge antes de voltar para a estrada.
Eu tinha dois dias. E agora sabia exatamente onde precisava agir.
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