Make a Wish (Revisando)

1 Chapter - I Prologue



"Aqui está o orgulho antes da queda. Oh, os seus olhos mostram tudo. Eu posso vê-lo chegando, eu posso vê-lo chegando..."


No One Is Here to Sleep — Naughty Boy


2018


O vento zumbia em meus ouvidos enquanto eu corria pela floresta, desviando dos troncos caídos e dos galhos baixos que se prendiam às minhas roupas e puxavam meus cabelos. A fumaça que vinha da cidade havia alcançado até aquela parte da mata e se misturava à neblina entre as árvores, deixando o ar pesado, com um gosto amargo que grudava no fundo da garganta. Meus olhos ardiam e lacrimejavam, e precisei cobrir a boca com a manga quando outra crise de tosse ameaçou me fazer parar. Em condições normais, nada daquilo deveria importar. Eu era uma vampira e já havia atravessado distâncias muito maiores sem sentir sequer metade daquele cansaço, mas meu corpo não estava em condições normais havia muito tempo. Minhas pernas tremiam a cada passada, minha garganta queimava e uma tontura persistente fazia as árvores parecerem se mover sempre que eu tentava correr mais depressa.

Não sabia havia quanto tempo Stefan e Valerie estavam atrás de mim. Talvez algumas horas, embora a perseguição parecesse ter começado muito antes daquela noite. Nos últimos meses, minha vida havia se reduzido a fugir de um esconderijo para outro, dormir pouco e sempre com medo de acordar cercada, procurar alguma coisa que pudesse chamar de alimento e desaparecer antes que eles encontrassem meus rastros. Eu já não me lembrava da última vez que havia passado uma noite inteira no mesmo lugar sem despertar ao menor ruído. Algumas vezes acordava sem saber onde estava e levava alguns segundos para compreender por que não havia uma cama, um teto ou minhas filhas no quarto ao lado. Então a fome aparecia, a realidade voltava junto com ela e eu começava tudo outra vez.

Encontrar sangue humano havia se tornado quase impossível. Nos primeiros meses ainda existiam algumas bolsas no hospital, e nós as racionamos enquanto pudemos, escondendo o restante em lugares diferentes para impedir que uma única invasão acabasse com tudo. Não durou. O hospital foi saqueado, as bolsas acabaram e os poucos humanos que conseguiram escapar de Mystic Falls antes de Bonnie fechar a cidade tiveram a inteligência de nunca mais voltar. Restaram aqueles que tinham morrido e retornado por causa da pedra, andando pelas ruas com corpos que pareciam vivos o suficiente para enganar os olhos, mas não o organismo de um vampiro.

Eu descobrira isso da pior maneira.

O sangue deles tinha cheiro e gosto de sangue, despertava a fome e fazia minhas presas aparecerem como qualquer outro, mas não havia vida nele. Meu corpo conseguia engoli-lo, porém não extraía praticamente nada daquilo. Era como tentar saciar a sede bebendo água salgada. Não me matava, mas também não me alimentava e, nas poucas vezes em que o desespero venceu o bom senso, fiquei ainda mais fraca depois, com o estômago embrulhado e um gosto de decomposição que demorava horas para desaparecer da boca. Sangue morto continuava sendo sangue morto, independentemente de o coração dentro daquele corpo ter voltado a bater.

Por isso eu caçava.

No começo foram cervos. Depois coelhos, esquilos e qualquer animal grande o suficiente que eu conseguisse encontrar. Nunca gostei de sangue animal e, em outra vida, provavelmente teria reclamado durante horas se alguém dissesse que aquilo seria minha alimentação por meses. Agora eu agradecia sempre que encontrava alguma coisa. Até os animais estavam desaparecendo das regiões próximas da cidade, assustados pelos incêndios, pelo cheiro dos mortos e pelas criaturas que vagavam pelas matas durante a noite. Às vezes eu precisava caminhar quilômetros para encontrar uma presa e gastava quase tanta energia caçando quanto conseguia recuperar depois.

Meu corpo começava a mostrar o resultado. Ferimentos que antes desapareceriam em minutos demoravam horas para fechar completamente, minha força diminuíra e minha velocidade já não chegava perto do que costumava ser. Havia manhãs em que acordava com as mãos tremendo e precisava permanecer sentada até a tontura passar antes de conseguir ficar em pé. Eu continuava sendo mais forte e mais rápida do que um ser humano, mas isso significava muito pouco quando as duas pessoas que me perseguiam também eram vampiras e uma delas sabia exatamente do que eu era capaz.

Ainda assim, continuei correndo.

As árvores se abriram por alguns metros e, através delas, consegui enxergar o brilho alaranjado que tomava parte do horizonte. Alguma coisa estava pegando fogo novamente em Mystic Falls. Meses atrás eu teria parado para tentar descobrir onde era, preocupada com quem poderia estar lá dentro ou com a possibilidade de o incêndio alcançar outras casas. Agora apenas desviei os olhos e entrei novamente na parte fechada da floresta. Não havia bombeiros para atender chamados, policiais para isolar ruas ou vizinhos saindo de casa para ver o que estava acontecendo. Os incêndios começavam e continuavam até não restar mais nada que pudesse queimar.

A cidade onde eu crescera ainda existia, mas apenas geograficamente. As placas continuavam anunciando Mystic Falls nas estradas bloqueadas e os prédios permaneciam onde sempre estiveram, porém quase tudo que fazia daquele lugar uma cidade havia desaparecido. Carros abandonados ocupavam as ruas, alguns com portas abertas desde o dia em que seus donos fugiram. Vitrines tinham sido quebradas e lojas saqueadas. O Grill estava destruído, a prefeitura permanecia vazia e a escola onde eu passara boa parte da adolescência tinha janelas quebradas e folhas acumuladas nos corredores. A eletricidade havia desaparecido de bairros inteiros e, nos poucos lugares em que ainda funcionava, postes piscavam durante a noite sobre calçadas vazias.

No início eu ainda procurava rostos conhecidos. Depois aprendi a não fazer isso. Era pior reconhecer alguém.

Às vezes atravessava uma rua e encontrava uma pessoa que conhecera desde criança parada diante de uma casa, com o mesmo rosto e a mesma voz, mas sem aquilo que a tornava quem era. Outras vezes eram desconhecidos. Não importava. Os revividos podiam falar, andar e até conservar fragmentos suficientes de comportamento para parecer humanos durante alguns minutos, mas eu já havia visto o bastante para saber que aquilo era uma imitação. Mesmo assim, ainda existiam momentos em que algum deles sorria ou pronunciava um nome conhecido e meu cérebro demorava um segundo a lembrar que aquela pessoa estava morta.

Talvez fosse por isso que eu preferisse a floresta. Árvores queimadas não usavam o rosto de ninguém que eu amava.

Minha mão bateu contra o bolso da calça durante a corrida e senti a pequena protuberância rígida ali dentro. Cobri imediatamente o local com a palma, certificando-me de que a pedra continuava comigo, e uma mistura familiar de alívio e repulsa apertou meu estômago. Depois de tudo que ela havia provocado, parecia absurdo que um objeto tão pequeno ainda pudesse ser a coisa mais importante naquele inferno. Muitas vezes pensei em destruí-la, mas ninguém sabia se isso era possível ou o que aconteceria se tentássemos. Jogá-la fora era ainda pior. Enquanto estivesse comigo, pelo menos eu sabia onde estava.

E Bonnie havia confiado em mim.

Essa lembrança foi suficiente para me fazer aumentar o ritmo, embora minhas pernas protestassem imediatamente. Dei apenas algumas passadas antes de uma vertigem violenta me atingir e precisei agarrar o tronco de uma árvore para não cair. A casca áspera arranhou minha palma enquanto eu permanecia apoiada ali, respirando pela boca e esperando que os pontos escuros desaparecessem da periferia da minha visão. A fome apertou minha garganta com tanta força que senti as presas pressionarem involuntariamente meu lábio inferior, acompanhadas pela ardência familiar das veias sob meus olhos.

“Agora não”, murmurei, irritada com meu próprio corpo, e esperei apenas até conseguir distinguir o caminho novamente antes de me afastar do tronco.

Eu precisava encontrar alguma coisa para caçar assim que conseguisse despistá-los. Um cervo seria suficiente para me devolver parte da força, embora a ideia parecesse otimista demais considerando que não via um havia dias. Naquela manhã eu encontrara um coelho e bebera tão pouco que quase me arrependi de tê-lo matado. Antes disso, passara dois dias sem nada. Não era de admirar que minhas pernas estivessem ameaçando desistir antes de mim.

Um trovão ribombou acima das árvores e o clarão que o acompanhou iluminou a floresta por alguns segundos, revelando raízes retorcidas atravessando o caminho e folhas úmidas acumuladas sobre a terra. A chuva ameaçava cair havia horas e o cheiro de terra molhada já começava a se misturar ao de madeira queimada. Continuei avançando, tentando prestar atenção ao caminho apesar da tontura, até escutar o estalo seco de um galho atrás de mim.

Parei.

Dessa vez não era a fome brincando com meus sentidos.

Permaneci imóvel por alguns segundos, tentando separar os sons da floresta. O vento movimentava as copas das árvores, folhas secas raspavam umas contra as outras e alguma coisa pequena correu entre os arbustos à minha esquerda, mas o ruído que eu ouvira tinha sido pesado demais para pertencer a um animal daquele tamanho. Olhei por cima do ombro e forcei a visão através da névoa, procurando movimento entre os troncos, sem encontrar ninguém.

Isso não me tranquilizou.


Stefan sabia caçar. Pior, Stefan sabia me caçar.

Ele conhecia meus hábitos, sabia como eu pensava e provavelmente conseguia prever quais caminhos eu escolheria antes mesmo que eu decidisse tomá-los. Durante muito tempo, aquilo fora uma das coisas que me faziam sentir segura ao lado dele. Stefan prestava atenção. Guardava pequenos detalhes, percebia mudanças de humor e conhecia minhas manias até quando eu própria não as percebia. Nunca imaginei que um dia todo aquele conhecimento pudesse ser usado para me encontrar enquanto eu tentava desesperadamente fugir dele.


Virei novamente para a frente e obriguei minhas pernas a correr. Foi o medo que me fez acelerar e foi a fraqueza que transformou isso em erro.

Meu pé não subiu o suficiente para ultrapassar uma raiz escondida sob as folhas. A ponta da bota ficou presa e perdi o equilíbrio antes que pudesse corrigir o movimento. Estendi as mãos por instinto, mas meus braços já não tinham força para absorver completamente o impacto. Meu joelho atingiu primeiro o chão, seguido pelas palmas, e o impulso me lançou para a frente até minha testa bater contra a terra compactada.

Por alguns segundos, não enxerguei nada.

A dor veio antes que minha visão voltasse, pulsando acima da sobrancelha e espalhando-se pela cabeça enquanto eu tentava recuperar o ar. Permaneci apoiada sobre os antebraços, sentindo terra dentro da boca e pequenas pedras pressionando minhas mãos. Quando finalmente consegui erguer a cabeça, o mundo oscilou e precisei fechar os olhos novamente para conter a náusea.

“Droga...”, murmurei, passando os dedos pela testa.

Eles voltaram cobertos de sangue.

O cheiro atingiu meu nariz imediatamente e minha fome reagiu de maneira quase humilhante. Senti as presas descerem outra vez e fechei a boca com força, irritada comigo mesma por meu próprio sangue conseguir despertar uma necessidade que eu não podia satisfazer. Em condições normais, aquele corte já estaria começando a desaparecer. Agora, quando toquei novamente a pele, ele continuava aberto.

Apoiei as mãos na terra e tentei me levantar. Meu braço direito tremeu sob o peso e cedeu antes que eu conseguisse colocar os dois pés no chão. Caí sobre o joelho, respirei fundo e tentei novamente, dessa vez conseguindo me erguer pela metade antes que uma dor aguda atravessasse minha perna direita. Minha visão escureceu nas bordas e precisei voltar ao chão para não desmaiar.

Fiquei sentada entre as folhas, ofegante, enquanto apalpava cuidadosamente a perna. Não parecia quebrada. Se eu estivesse bem alimentada, provavelmente conseguiria correr mesmo que estivesse. Naquele estado, uma lesão que normalmente seria apenas inconveniente podia ser suficiente para acabar comigo.

O silêncio ao redor pareceu diferente depois disso.

Ergui os olhos para o caminho por onde tinha vindo e escutei novamente, mas não ouvi passos. Talvez tivesse conseguido alguma vantagem. Talvez Stefan tivesse seguido outra direção. Talvez eu ainda tivesse alguns minutos para me recuperar e tentar novamente.

Nenhuma dessas possibilidades parecia particularmente convincente.

Minha mão procurou o bolso e envolveu a pedra através do tecido. Bonnie confiara aquilo a mim porque sabia o que aconteceria se Stefan colocasse as mãos nela. Eu havia prometido protegê-la e, durante meses, essa promessa tinha sido suficiente para me fazer levantar todas as vezes em que meu corpo pedia para parar. Naquela noite, entretanto, sentei no chão frio da floresta e percebi que não sabia se conseguiria fazer isso outra vez.


Não era apenas fome. Não era a perna machucada, a tontura ou o sangue descendo lentamente pela lateral do meu rosto. Eu estava cansada de uma maneira que sangue nenhum conseguiria resolver.


Havia meses eu não dormia sem medo, não abraçava minhas filhas. E não entrava em uma casa sem pensar primeiro em todas as saídas possíveis. Meses que cada rosto conhecido significava a possibilidade de encontrar mais alguém que deveria estar morto.


E eu não conseguia me lembrar da última vez que alguém havia me tocado sem que eu precisasse me perguntar se pretendia me machucar.


Apoiei as costas contra o tronco mais próximo e deixei a cabeça descansar na casca áspera, respirando lentamente enquanto observava a fumaça passar entre as árvores. Pela primeira vez desde que começara a fugir, permiti que uma pergunta que eu vinha evitando se formasse por inteiro dentro da minha cabeça: se quase todos que eu amava estavam mortos, se minhas filhas estavam longe e seguras sem mim e se a única pessoa que um dia imaginei que permaneceria ao meu lado agora me caçava pela floresta, quanto tempo eu ainda conseguiria continuar vivendo apenas para impedir que outra coisa horrível acontecesse?


A resposta me assustou mais do que os passos que eu tinha ouvido. Porque eu já não tinha certeza.

Durante muito tempo, desistir sequer parecera uma possibilidade. Havia sempre alguém precisando de mim, alguma nova tragédia para impedir ou uma promessa que eu me recusava a quebrar, e eu me agarrara a essas obrigações porque eram mais fáceis de suportar do que pensar em tudo que havia perdido. Agora, sentada no chão úmido de uma floresta que conhecia desde adolescente e que mal reconhecia, comecei a me perguntar quando sobreviver havia deixado de significar estar viva.

Apertei os olhos e encostei a cabeça no tronco, tentando afastar aquela ideia antes que ela criasse raízes. Eu não podia pensar daquela maneira. Lizzie e Josie estavam vivas, e isso deveria bastar. Jo estava com elas. Alaric também. Eles tinham conseguido sair antes que Bonnie fosse obrigada a fechar Mystic Falls e, se todos tivessem cumprido a única promessa que eu exigira deles, minhas filhas estariam a centenas de quilômetros daquele lugar. Às vezes eu imaginava o que estariam fazendo e me permitia acreditar que ainda tinham uma rotina, que acordavam reclamando da escola, brigavam por roupas, deixavam pratos pela casa e faziam todas aquelas coisas banais que um dia me irritaram e que agora eu daria qualquer coisa para presenciar outra vez.

Eu não podia ir atrás delas. Essa tinha sido uma das primeiras coisas que aceitei quando Stefan começou a me perseguir pela pedra. Enquanto ele acreditasse que eu permanecia em Mystic Falls, minhas filhas continuariam fora daquela guerra. Procurá-las significaria deixar um rastro diretamente até elas, e eu preferia que Lizzie e Josie acreditassem que a mãe as abandonara a permitir que Stefan descobrisse onde estavam.

Talvez um dia elas me odiassem por isso. A possibilidade doía, mas não tanto quanto imaginar seus rostos entre os mortos que caminhavam pelas ruas.


Abri os olhos quando outro trovão atravessou o céu e passei a mão pelo rosto, limpando o sangue que continuava descendo da testa. Precisava levantar antes que a pouca vantagem que ainda tinha desaparecesse. Apoiei uma das mãos no tronco e comecei a me erguer devagar, tomando cuidado para não colocar todo o peso sobre a perna machucada. A tontura voltou quase imediatamente e meu estômago se contraiu de fome, mas dessa vez consegui ficar em pé. Permaneci encostada à árvore enquanto esperava o mundo parar de girar, respirando fundo e tentando decidir para onde seguir.

Foi então que ouvi passos.

Não um galho quebrando ou folhas movimentadas pelo vento, mas passos deliberadamente lentos sobre a terra.


Meu corpo inteiro ficou rígido. Eles não estavam correndo. Não precisavam mais.

Afastei-me do tronco e dei um passo para trás, procurando alguma abertura entre as árvores que pudesse usar para fugir. Minha perna quase cedeu e precisei recuperar o equilíbrio. O movimento pareceu ridiculamente alto no silêncio da floresta, e a certeza de que quem se aproximava também tinha ouvido fez meu coração acelerar.


Uma risada feminina surgiu entre as árvores. Eu a reconheceria em qualquer lugar.

“Eu disse que ela não iria muito longe.”

Valerie apareceu primeiro.

Saiu de trás de um dos troncos com a tranquilidade de quem havia chegado ao final de um passeio, e não de uma perseguição que durava horas. A roupa escura estava suja de lama e havia sangue seco próximo à gola, mas, ao contrário de mim, ela não parecia prestes a desabar. Os cabelos estavam desarrumados pela umidade e alguns fios grudavam em seu rosto, enquanto um sorriso satisfeito se formava lentamente quando seus olhos percorreram meu estado.

Aquela expressão despertou em mim uma raiva quase reconfortante. Valerie sempre tivera um talento impressionante para isso.


“Olha só para você”, comentou enquanto avançava alguns passos, desviando casualmente de uma raiz. Seus olhos demoraram-se no sangue em minha testa e depois desceram para a maneira como eu evitava apoiar completamente a perna direita. “Todo esse trabalho para acabar caída no meio da floresta. Eu esperava um pouco mais de Caroline Forbes.”


Segurei o tronco atrás de mim para não demonstrar o quanto precisava dele.


“E eu esperava que alguns séculos de existência fossem suficientes para você desenvolver uma personalidade”, respondi, conseguindo sorrir apesar da garganta seca. “Parece que nós duas estamos decepcionadas.”


O sorriso dela desapareceu por um instante. Aquilo quase valeu a dor na perna. Valerie inclinou a cabeça e voltou a sorrir, embora agora houvesse algo muito menos divertido em sua expressão.

“Ainda fazendo piadas. É impressionante como você consegue continuar irritante mesmo quando está a poucos minutos de morrer.”


“Anos de prática.”


Ela deu outro passo em minha direção, mas seu olhar se desviou por cima do meu ombro quando percebeu que eu procurava uma rota de fuga. “Nem pense nisso. Você mal consegue ficar em pé e nós duas sabemos que não tem sangue suficiente no corpo para chegar muito longe.”


O comentário atingiu exatamente onde ela pretendia. Minha mão apertou a casca da árvore e odiei que ela soubesse. Odiava ainda mais que provavelmente estivesse certa. Valerie observou minha reação e pareceu saboreá-la antes de estender a mão.

“Entregue a pedra e podemos acabar com isso.”

Soltei uma risada sem humor.

“Claro. Porque você ficou conhecida pela sua misericórdia.”

“Eu não disse que você sairia viva.”

Dessa vez não havia brincadeira em sua voz. Valerie avançou mais um pouco, e consegui ver com clareza a satisfação em seus olhos quando acrescentou:

“Na verdade, espero sinceramente que não.”

“Valerie.”

Uma única palavra atravessou a floresta e foi suficiente para fazê-la parar. Meu corpo reagiu antes da minha cabeça.

Por um segundo vergonhoso, todo o medo, a fome e a dor desapareceram sob uma sensação muito mais antiga e profundamente enraizada. Eu conhecia aquela voz. Conhecia cada alteração dela, desde a suavidade que surgia quando ele estava preocupado até o tom irritado que tentava esconder quando eu conseguia provocá-lo. Durante anos, aquela voz significara segurança para mim. Eu a ouvira ao telefone nas madrugadas em que não conseguia dormir, ao meu lado depois da morte da minha mãe, no quarto das meninas, em discussões, reconciliações e momentos tão comuns que nunca pensei que precisaria guardá-los.

Foi preciso lembrar a mim mesma de que aquela voz também pertencera ao homem do qual eu vinha fugindo havia meses.

Stefan surgiu entre as árvores alguns segundos depois.

Não havia pressa em seus movimentos. Ele caminhava devagar, observando-me com uma expressão que eu não consegui interpretar imediatamente, e isso era quase pior do que se tivesse chegado enfurecido. O cabelo estava úmido, a jaqueta tinha manchas de sangue e sujeira e seu rosto parecia mais magro do que eu lembrava, embora talvez fosse apenas porque fazia semanas que eu não o via tão de perto. Seus olhos encontraram os meus e permaneceram ali.

Não foram para meu bolso, nem procuraram a pedra. Ele olhou para mim. Meu peito apertou contra minha vontade.

Valerie percebeu.

Eu soube porque vi a mudança imediata em seu rosto. Ela acompanhou o olhar de Stefan até mim e sua satisfação deu lugar àquela irritação que eu conhecia bem demais. Mesmo depois de tudo que acontecera, mesmo depois de Stefan ter se transformado em alguém que eu já não reconhecia, Valerie ainda conseguia olhar para nós dois e enxergar uma disputa que precisava vencer.


“Ela está com a pedra”, disse rapidamente, aproximando-se dele. “Eu consigo sentir. Só precisamos pegá-la e ir embora.”


Stefan não respondeu. Continuou caminhando até parar alguns metros à minha frente, e precisei lutar contra o impulso absurdo de recuar. Não queria que ele percebesse que eu tinha medo dele, embora soubesse que aquilo já não importava.


“Você está péssima, Caroline.”

O comentário teria me feito rir se tivesse vindo de qualquer outra pessoa.

“Obrigada.” Passei a língua pelos lábios ressecados e forcei um sorriso. “Você também não está exatamente no seu melhor momento.”

Por um instante, alguma coisa mudou em seu rosto. Foi tão rápida que eu poderia ter imaginado, mas conhecia Stefan bem demais para não reconhecer o princípio de uma reação. Antigamente ele teria revirado os olhos. Talvez até sorrisse.

Valerie também percebeu.

“Meu Deus, vocês vão mesmo fazer isso agora?”, reclamou, cruzando os braços enquanto olhava de um para o outro. “Ela passou meses fugindo de você, mentiu sobre a pedra e provavelmente estava planejando desaparecer de Mystic Falls assim que tivesse oportunidade. Mas é claro que Caroline faz uma piada e de repente você esquece por que estamos aqui.”

Stefan finalmente desviou os olhos de mim e encarou Valerie.

“Eu não esqueci de nada.”

“Então pare de tratá-la como se ainda fosse sua namorada.”

A palavra pareceu permanecer entre nós por tempo demais.

Minha garganta se apertou, mas mantive a expressão neutra. Valerie não merecia a satisfação de perceber que ainda conseguia me atingir usando aquilo.

Stefan voltou a me olhar.

“Onde está a pedra?”

“Não sei.”

Valerie soltou uma gargalhada atrás dele. “Ela realmente acha que você ainda é idiota.”

“Eu disse que não sei onde está”, repeti, endireitando o corpo apesar da dor que percorreu minha perna. “Você pode me perseguir por mais seis meses se quiser. Minha resposta vai continuar sendo a mesma.”

Stefan observou meu rosto em silêncio, e a maneira como seus olhos se demoraram em mim deixou claro que não acreditava em uma única palavra. Ele sempre soubera quando eu mentia. Eu costumava achar isso irritantemente romântico. Agora era apenas perigoso.

“Caroline, eu não quero machucar você.”

A frase fez alguma coisa dentro de mim se romper.

Não foi tristeza. Eu já tinha chorado demais por Stefan para ainda possuir lágrimas suficientes para cada crueldade. Foi raiva, quente e imediata, subindo pelo peito antes que eu conseguisse contê-la.

“Então você tem uma maneira muito estranha de demonstrar isso.”

Ele contraiu a mandíbula, mas permaneceu onde estava.

“Eu só quero meu irmão de volta.”

“E Damon só queria Elena de volta.”

O silêncio que veio depois pareceu engolir até o vento. Stefan endureceu.

Valerie descruzou os braços.

Eu sabia que tinha encontrado a ferida e, mesmo assim, continuei.

“Foi assim que tudo começou, lembra? Damon não conseguiu aceitar que Elena tinha morrido, encontrou uma maneira de trazê-la de volta e decidiu que as consequências não importavam porque a dor dele era mais importante do que qualquer outra coisa. Agora metade de Mystic Falls está morta, a outra metade deveria estar e você quer pegar a mesma pedra para fazer exatamente o que ele fez.”


“Não é a mesma coisa.”

“É exatamente a mesma coisa.”

Stefan avançou tão depressa que meu corpo reagiu tarde demais. Num instante ele estava a alguns metros de distância; no seguinte, sua mão segurava meu braço e minhas costas atingiam o tronco da árvore. A pancada arrancou o ar dos meus pulmões e a dor na perna se espalhou até meu quadril, mas consegui conter o gemido.

“Não fale comigo como se soubesse o que eu perdi”, disse ele, mantendo o rosto próximo ao meu.

Olhei para sua mão fechada em torno do meu braço antes de encará-lo novamente.

“Eu estava lá, Stefan.”

Minha voz saiu mais baixa do que pretendia, não por medo, mas porque alguma coisa naquela acusação havia me atingido profundamente. “Eu estava lá quando Damon morreu. Estava lá quando Bonnie morreu. Quando Tyler morreu. Quando Matt morreu. Eu perdi minha mãe muito antes de tudo isso e mandei minhas filhas para longe porque era a única maneira de mantê-las vivas. Não ouse olhar para mim e agir como se você fosse a única pessoa nessa cidade que sabe o que é perder alguém.”

A pressão dos dedos dele diminuiu.

Foi mínima, mas senti.

Valerie também.


“Stefan, não escuta isso”, interferiu imediatamente, aproximando-se. “Ela está fazendo o que sempre faz. Transformando tudo em uma história sobre ela para conseguir o que quer.”

Virei o rosto para encará-la.

“Você ainda está aqui?”

Os olhos dela escureceram.

“Talvez eu devesse arrancar essa arrogância junto com sua língua.”

“Valerie.” Stefan pronunciou seu nome com irritação e soltou meu braço antes de se virar parcialmente para ela. “Eu já disse que não quero que você encoste nela.”

Valerie ficou imóvel. E naquele instante eu soube que tinha acabado de piorar tudo.

Não porque Stefan estivesse me protegendo. O homem diante de mim já havia ultrapassado havia muito tempo o ponto em que eu confundiria controle com proteção. Mas Valerie não enxergava diferença alguma. Para ela, bastava que Stefan tivesse estabelecido um limite quando se tratava de mim.

O olhar que lançou em minha direção prometia que me faria pagar por isso. Stefan voltou-se para mim e, dessa vez, seus olhos desceram lentamente até minha roupa. Não precisei acompanhar o movimento para saber o que procurava.

“Última vez, Caroline.” Sua voz tornou-se mais baixa enquanto ele se aproximava novamente. “Onde está a pedra?”

Minha mão permaneceu ao lado do corpo, embora cada instinto gritasse para proteger o bolso.

“Eu já respondi.”

Ele me observou durante alguns segundos. Então seu olhar caiu sobre minha mão.

Foi apenas um movimento involuntário dos meus dedos contra a lateral da calça. Pequeno demais para qualquer outra pessoa perceber. Mas não para Stefan, seu rosto mudou. E eu soube que tinha cometido um erro.

Valerie avançou novamente, mas dessa vez não foi em direção à pedra. Foi em direção a mim.

Stefan conseguiu interceptá-la antes que atravessasse metade da distância entre nós. Agarrou-a pelo braço e a puxou para trás com força suficiente para fazê-la perder o equilíbrio, mas Valerie recuperou a postura quase imediatamente e se virou contra ele. A expressão em seu rosto havia mudado por completo; o prazer que demonstrara ao me encontrar ferida desaparecera, substituído por uma fúria que parecia ter muito pouco a ver com o objeto apertado entre meus dedos.

“Me solta, Stefan.” Ela tentou arrancar o braço de sua mão, mas ele não cedeu. “Você está vendo o que ela está fazendo e ainda assim continua defendendo ela. Caroline mentiu para você durante meses, roubou a única possibilidade que você tem de recuperar Damon e fugiu, mas basta encontrá-la machucada para você esquecer tudo.”

“Eu não estou defendendo ninguém.” Stefan a soltou com um empurrão impaciente e se colocou entre nós. “Estou impedindo você de fazer alguma coisa estúpida antes que ela entregue a pedra.”

Valerie esfregou o braço onde ele a segurara, embora eu duvidasse que sentisse qualquer dor. “Você realmente acredita que ela vai entregar?”

“Não importa no que eu acredito.”

“Importa para mim.”

A resposta saiu tão depressa que Stefan finalmente pareceu compreender que aquela discussão já não era sobre a pedra. Valerie se aproximou dele e, por alguns segundos, a raiva em seu rosto cedeu lugar a algo quase desesperado. Eu conhecia aquela expressão. Conhecia bem demais o tipo de pessoa que transformava amor em uma necessidade de possuir alguém e chamava qualquer coisa que ameaçasse essa posse de traição.

“Eu fiquei do seu lado quando todo mundo abandonou você”, continuou ela, baixando a voz enquanto segurava a frente da jaqueta dele. “Eu procurei essa pedra com você, lutei com você e fiz tudo que você pediu. Ela passou esse tempo inteiro tentando impedir que você recuperasse sua família e, mesmo assim, quando olha para Caroline, você continua agindo como se ela fosse a pessoa que precisa ser protegida.”

Stefan afastou as mãos dela de sua roupa.

“Você sabia desde o começo o que existe entre mim e Caroline.”

A expressão de Valerie se contraiu.

“Existe?" Ela riu rouca “Você disse que tinha acabado.”

“E acabou.”

A resposta deveria ter me aliviado. Em vez disso, alguma coisa dolorosa se apertou sob minhas costelas, e odiei meu próprio corpo por ainda ser capaz de reagir àquilo. Desviei os olhos antes que qualquer um dos dois percebesse, concentrando-me na pedra entre meus dedos e na distância que me separava das árvores. Enquanto discutiam, eu ainda podia tentar alguma coisa. Não seria capaz de correr muito, mas talvez não precisasse. Se conseguisse lançar a pedra longe o bastante, a escuridão e a vegetação poderiam me dar alguns minutos.

Valerie, porém, não parecia disposta a aceitar a resposta de Stefan como vitória.

“Então prova.”

“O quê?” Ele franziu a testa.

“Se acabou, prova.”

“Eu não tenho que provar nada para você.”

“Claro que tem.” Ela lançou um olhar na minha direção antes de voltar a encará-lo. “Porque toda vez que se trata dela você muda as regras. Qualquer outra pessoa já estaria morta. Se Bonnie ainda estivesse viva e tivesse feito isso com você, você teria arrancado a pedra das mãos dela sem pensar duas vezes. Se fosse qualquer um dos seus inimigos, nem estaríamos tendo essa conversa. Mas é Caroline, então de repente você precisa pedir com educação.”

“Bonnie morreu por causa dessa pedra”, falei antes que conseguisse me conter. “Talvez você devesse tentar mencionar o nome dela com um pouco menos de desprezo.”

Valerie virou o rosto lentamente para mim. “Você realmente não sabe quando ficar calada.”

“E você não sabe quando não é desejada. Imagino que cada uma tenha seus defeitos.”

Stefan fechou os olhos por um instante, como se nós duas estivéssemos lhe causando uma dor de cabeça, mas Valerie não teve a mesma paciência. Ela tentou passar por ele outra vez e foi contida antes de chegar até mim.

“Chega!”, Stefan gritou, empurrando-a para trás. “Eu não vou repetir.”

Valerie o encarou, incrédula, e uma risada amarga escapou de seus lábios. “Você não consegue, não é?”

“Conseguir o quê?”

“Machucar ela.”

O silêncio que se instalou entre nós pareceu ainda mais pesado do que o ar carregado de fumaça. Stefan não respondeu imediatamente, e Valerie sorriu como se aquela hesitação tivesse confirmado tudo que precisava saber.

Eu deveria ter aproveitado aquele instante para fugir. Em vez disso, fiquei olhando para Stefan, esperando uma resposta que não queria ouvir.

Ele finalmente voltou o rosto para mim.

“Eu já machuquei Caroline.”

Não havia orgulho em sua voz, mas também não havia arrependimento suficiente para me confortar. Era apenas uma constatação, e talvez isso fosse ainda pior. Durante meses, eu me perguntara se alguma parte dele compreendia o que estava fazendo comigo, se o homem que conheci ainda existia em algum lugar sob toda aquela raiva. Descobrir que ele compreendia e continuava fazendo tornava mais difícil acreditar que tudo pudesse ser atribuído ao luto ou à humanidade desligada.

“Pelo menos nós concordamos em alguma coisa”, respondi, fechando os dedos com mais força ao redor da pedra.

Stefan me observou em silêncio antes de se aproximar. Dessa vez não houve movimento brusco, e talvez por isso meu medo tenha aumentado. Ele caminhou lentamente, dando-me tempo suficiente para acompanhar cada passo e compreender que não havia lugar para onde eu pudesse ir. Quando recuei, minha perna protestou e minhas costas encontraram novamente o tronco da árvore.

“Eu não queria que chegasse a esse ponto”, disse ele, parando diante de mim.

“Você já falou isso.”

“Porque é verdade.”

“Não muda nada.”

“Pode mudar.” Stefan ergueu uma das mãos e hesitou antes de tocar meu rosto. Eu deveria ter me afastado, mas estava cansada demais para continuar fingindo que cada gesto dele não me afetava. Seus dedos passaram com cuidado pela pele abaixo do corte em minha testa, evitando o sangue, e aquele toque gentil pareceu mais cruel do que se tivesse me acertado. “Me dê a pedra e você não precisa mais fugir.”

Olhei para ele, tentando encontrar alguma coisa familiar em seus olhos. Era isso que me confundia. Ainda existiam momentos em que Stefan parecia exatamente o homem que eu amara. A inclinação da cabeça quando estava preocupado, a maneira cuidadosa como tocava um ferimento, o tom mais baixo que usava quando tentava me acalmar; tudo permanecia ali, encaixado numa pessoa que ao mesmo tempo era capaz de me perseguir até eu não ter forças para ficar em pé.

“E o que você vai fazer com ela?”

“Trazer Damon de volta.”

“Então não.”

A mão dele permaneceu em meu rosto. “Caroline...”

“Não importa quantas vezes você pergunte ou quantas vezes Valerie tente me matar. Minha resposta não vai mudar.” Minha voz vacilou de cansaço, mas mantive os olhos nos dele. “Eu vi o que aconteceu da primeira vez. Você também viu. Não vou permitir que aconteça outra vez.”

A expressão dele endureceu. “Você não tem o direito de decidir isso por mim.”

“E você não tem o direito de decidir por todo mundo.”

“É meu irmão.”

“E Bonnie era minha melhor amiga.” gritei.

A mão de Stefan parou contra minha face.

Durante alguns segundos, nenhum de nós se moveu. Eu conseguia ouvir Valerie alguns passos atrás, mas não desviei os olhos. Aquilo já não tinha nada a ver com ela.

“Damon arrancou o coração dela na minha frente”, continuei, sentindo minha garganta se fechar ao dizer aquilo em voz alta. “Eu vi Bonnie morrer porque ele não conseguiu aceitar que Elena estava morta. Depois vi Tyler morrer, vi você perder Damon e assisti essa cidade se transformar nisso. Não me peça para fingir que nada aconteceu só porque agora é você quem está sofrendo.”

“Eu não estou pedindo para você fingir.”

“Está pedindo coisa pior. Está pedindo que eu ajude você a repetir.”

Stefan retirou lentamente a mão do meu rosto e desviou os olhos. Por um instante, pensei que talvez tivesse conseguido alcançá-lo. Não precisava fazê-lo desistir para sempre; se conseguisse apenas fazê-lo hesitar o suficiente para lembrar quem era, talvez ainda houvesse alguma chance.

Valerie percebeu a mesma hesitação.

“Ela matou Damon.”

Virei o rosto imediatamente.

Valerie estava parada alguns metros atrás de Stefan e me encarava com uma tranquilidade que não combinava com a acusação.

“Não faça isso”, falei.

“Por quê? Porque você prefere que ele esqueça?” Ela voltou-se para Stefan. “Bonnie pode ter matado Elena, mas Caroline sabia que ela tinha a pedra depois. Ela sabia que existia uma possibilidade de trazer Damon de volta e escolheu esconder isso de você.”

“Porque Bonnie me fez prometer.”

“Bonnie está morta.”

“Por causa de Damon!” acusei.

“E Damon está morto porque vocês decidiram que ele não merecia a mesma chance que deram a Elena.”

A raiva subiu tão depressa que por alguns segundos esqueci até da fome. “Você não estava lá.”

“Eu sei o suficiente.”

“Você não sabe nada.” Afastei-me do tronco apesar da fraqueza e encarei-a. “Você apareceu quando Stefan já estava destruído e fez exatamente o que faz melhor. Disse tudo que ele queria ouvir, alimentou cada pensamento ruim e chamou isso de ajudá-lo.”

O rosto de Valerie perdeu qualquer vestígio de sorriso.

“Cuidado.”

“Ou o quê? Vai me matar?” A risada que escapou de mim saiu cansada. “Você está querendo fazer isso desde antes de me encontrar.”

Ela se moveu, mas Stefan não precisou impedi-la dessa vez. Valerie parou sozinha, e o modo como seus olhos se estreitaram me disse que tinha decidido que me machucar fisicamente não seria suficiente.

“Você acha que ele ficou assim por minha causa?”

Não respondi.

“Stefan ficou assim porque você falhou com ele.”

“Valerie.”


O aviso dele não a interrompeu.

“Quando Damon morreu, ele precisava de você. E o que Caroline fez?” Ela olhou para Stefan enquanto falava, mas cada palavra era destinada a mim. “Escolheu Bonnie. Escolheu esconder a pedra. Escolheu todo mundo, menos ele.”

“Cala a boca.” Minha voz saiu baixa.

Valerie sorriu.

“Ela sempre faz isso, Stefan. Caroline ama você enquanto amar você não exige que ela escolha você.”

A pedra machucava minha palma de tanto que eu a apertava.

“Eu mandei você calar a boca.”

“Por quê? Porque sabe que é verdade?”

Avancei antes de pensar.

Meu corpo, porém, não acompanhou minha raiva. Dei apenas um passo antes de a tontura voltar com violência, e minhas pernas perderam força. Stefan me segurou antes que eu caísse, passando um braço ao redor da minha cintura enquanto minha mão se fechava instintivamente na frente de sua jaqueta.

Por alguns segundos, não consegui enxergar direito. Enterrei os dedos no tecido e esperei os pontos negros desaparecerem, odiando cada segundo em que precisava dele para continuar em pé.

“Caroline.” A voz de Stefan surgiu perto do meu ouvido. “Olha para mim.”

“Eu estou bem.”

“Não está.”

“Eu não preciso que você me diga isso.”

Tentei me afastar, mas minhas pernas ainda tremiam. Stefan manteve o braço ao redor da minha cintura e levou a outra mão à minha nuca, sustentando-me enquanto eu recuperava o equilíbrio.

Valerie soltou uma risada amarga.

“É patético.”

Stefan virou a cabeça. “Vai embora.”


Ela ficou imóvel.

“Você não está falando sério.”

“Estou.” Ele continuou me segurando enquanto a encarava. “Volta para a cidade.”

“E deixar vocês dois sozinhos?”

“Sim.”

A expressão de Valerie tornou-se quase irreconhecível.

“Depois de tudo que eu fiz por você, você vai me mandar embora por causa dela?”

“Eu estou mandando você embora porque não está ajudando.”

“Não. Você está me mandando embora porque quer ficar sozinho com Caroline.”

Stefan não respondeu, e eu senti a mão dele se contrair levemente em minha cintura.

Valerie percebeu.

Seu olhar encontrou o meu e, dessa vez, não havia provocação alguma nele. Apenas uma promessa silenciosa de que aquilo não terminaria ali.

“Tudo bem.” Ela recuou devagar, sem tirar os olhos de mim. “Fica com ela. Tenta convencer Caroline de que você ainda é aquele namorado perfeito que ela lembra. Deixa ela chorar no seu ombro e dizer que ainda ama você. Só não venha atrás de mim quando acordar e descobrir que a pedra desapareceu junto com ela.”

“Valerie.”

“Você sabe que eu estou certa.”


Ela lançou um último olhar para Stefan antes de desaparecer entre as árvores. Seus passos permaneceram audíveis por alguns segundos e depois foram engolidos pelo vento.


Eu não acreditava nem por um instante que tivesse ido muito longe. Stefan também não parecia acreditar, mas não a seguiu.

Quando finalmente olhou novamente para mim, percebi que continuávamos próximos demais. Meu corpo ainda estava parcialmente apoiado no dele, sua mão permanecia em minha nuca e o braço ao redor da minha cintura me prendia contra seu peito. Durante um segundo dolorosamente longo, nenhuma das coisas que aconteceram entre nós pareceu suficiente para impedir meu corpo de lembrar como era estar ali.

Afastei-me primeiro e dessa vez Stefan deixou.

Consegui permanecer em pé sozinha, embora precisasse apoiar uma mão no tronco. Ele observou minha dificuldade e passou a língua pelos lábios antes de desviar o olhar para a floresta.

“Ela tem razão sobre uma coisa.”

“Imagino que esse seja um evento histórico.”

Ele ignorou a provocação.

“Você não vai conseguir continuar assim.”

“Eu consigo.”

“Não, Caroline. Você está morrendo de fome.”

“Eu sou vampira. Tecnicamente já morri.”

Antigamente ele teria achado graça. Dessa vez, apenas me encarou.

“Quando foi a última vez que bebeu sangue humano?”

Não respondi.

“Quanto tempo?”

“Não sei.”

“Semanas?”

Desviei os olhos. Isso respondeu por mim. Stefan passou a mão pelo rosto e respirou fundo, visivelmente irritado, mas a irritação parecia dirigida menos a mim do que à situação.

“E você achou que conseguiria continuar fugindo desse jeito?”

“Eu não tinha exatamente muitas opções. Os humanos que sobraram foram embora, as bolsas acabaram e os revividos não servem para alimentação.”

“Eu sei.”

“Então por que perguntou?”

“Porque queria saber até onde você estava disposta a chegar para manter isso longe de mim.”

Meu olhar voltou para ele. Stefan apontou discretamente para minha mão fechada. Eu ainda segurava a pedra.

“Até onde for necessário.”

Ele assentiu devagar, como se finalmente aceitasse alguma coisa que vinha evitando desde que me encontrou.

“Foi o que imaginei.”

A mudança em sua expressão foi pequena, mas suficiente para fazer meu estômago se contrair.

“Stefan...”

Ele se aproximou.

Eu ergui a mão que segurava a pedra e recuei, mas minhas costas encontraram a árvore antes que pudesse ganhar distância.

“Não chegue perto!”

Stefan parou diante de mim.

“Eu não quero machucar você.”

“Então fica onde está.” avisei

Por um momento, achei que ele obedeceria. Seus olhos percorreram meu rosto e pararam no corte da minha testa antes de descerem para meus lábios. Havia uma tristeza estranha em sua expressão, e foi justamente isso que me impediu de prever o movimento seguinte.

Stefan segurou meu rosto entre as mãos.

Tentei afastá-lo, mas ele inclinou-se antes que eu conseguisse e pressionou os lábios contra os meus. O choque me deixou imóvel por um instante. Eu conhecia aquele beijo.

Meu corpo guardava lembranças demais para que eu pudesse fingir o contrário, desde os primeiros beijos hesitantes até aqueles que trocamos depois de aprender exatamente como o outro gostava de ser tocado. Durante uma fração de segundo, a familiaridade quase conseguiu atravessar tudo que acontecera entre nós.

Então senti o gosto de sangue em minha própria boca e voltei para aquela floresta. Empurrei o peito dele.

Stefan se afastou apenas o suficiente para me olhar.

“Não faça isso comigo”, sussurrei, passando a mão pelos lábios enquanto sentia uma mistura de raiva e humilhação subir pelo peito. “Você não pode fazer isso comigo depois de tudo.”

Algo se partiu na expressão dele.

“Eu amo você.”

As palavras doeram muito mais do que deveriam. Balancei a cabeça lentamente.

“Não desse jeito.”

Stefan fechou os olhos por um instante, e quando tornou a abri-los havia uma decisão neles que me fez apertar a pedra.

“Eu sinto muito.”

Demorei um segundo para entender. Foi tempo suficiente. A mão dele atravessou meu peito.

A dor não veio imediatamente. Durante um segundo absurdo, fiquei olhando para Stefan sem compreender por que seu rosto estava tão perto do meu ou por que o braço dele havia desaparecido entre nossos corpos. Então senti seus dedos se fecharem ao redor do meu coração e uma dor brutal atravessou meu peito, arrancando de mim um som sufocado. Minhas pernas cederam, mas Stefan me manteve contra a árvore com o próprio corpo, sustentando meu peso enquanto o sangue começava a encharcar minha blusa e escorrer quente pela minha pele.

Olhei para baixo e vi seu braço atravessando meu peito. Mesmo sabendo do que ele era capaz, alguma parte estúpida de mim não acreditara que faria aquilo.

“Stefan...”

O nome saiu quase sem voz. Quando ergui os olhos novamente, encontrei os dele fixos em mim, e procurei desesperadamente alguma coisa naquele rosto que explicasse o que estava acontecendo. Raiva teria sido mais fácil. A humanidade desligada teria sido mais fácil. Qualquer sinal de que ele não compreendia o que estava fazendo teria me permitido acreditar que ainda existia uma distância entre aquele homem e o Stefan que eu amara.

Mas ele sabia.

A mão livre de Stefan subiu até meu rosto e afastou cuidadosamente alguns fios de cabelo que haviam grudado no sangue da minha testa. O contraste entre a delicadeza daquele gesto e os dedos apertados ao redor do meu coração fez meu estômago se contrair.

“Você não me deixou outra escolha.”

Por um instante, a dor foi substituída por uma incredulidade tão grande que quase ri. Talvez tivesse rido se respirar não estivesse se tornando cada vez mais difícil.

“Eu... não deixei?”

Stefan apertou a mandíbula.

“Eu pedi a pedra. Tentei fazer você entender.”

“Então é culpa minha?”


Ele desviou os olhos por uma fração de segundo, e aquilo me respondeu melhor do que qualquer coisa que pudesse dizer. Durante meses eu havia assistido Stefan transformar o próprio sofrimento em justificativa para tudo que fazia. Primeiro foram ameaças. Depois pessoas machucadas porque tinham me ajudado. Cada novo limite ultrapassado vinha acompanhado da promessa de que seria o último, desde que eu parasse de resistir e entregasse o que ele queria. Agora seu braço estava dentro do meu peito e, de algum modo, ele ainda precisava acreditar que eu o havia obrigado a colocá-lo ali.

“Eu só quero meu irmão de volta”, murmurou, voltando a me encarar enquanto seu polegar limpava uma lágrima que eu nem percebera cair. “Quando Damon voltar, tudo isso acaba.”

Quis dizer que nada acabaria. Quis perguntar quantas pessoas precisariam morrer antes que ele entendesse que algumas perdas não podiam ser desfeitas, mas uma pontada mais intensa atravessou meu peito quando seus dedos se moveram e minha voz desapareceu. Minha mão livre agarrou instintivamente o pulso dele, embora eu não tivesse força suficiente nem para tentar afastá-lo.

Foi então que escutei folhas se movendo atrás dele. Valerie não tinha ido embora.bÉ claro que não.

Ela surgiu lentamente entre as árvores e parou a alguns metros de nós. Não havia surpresa em seu rosto ao encontrar Stefan com a mão dentro do meu peito. Havia satisfação. Seus olhos passaram pelo sangue em minha roupa antes de encontrarem os meus e, dessa vez, ela nem tentou esconder o sorriso.

“Finalmente”, disse, aproximando-se enquanto observava Stefan. “Eu estava começando a pensar que você nunca conseguiria.”

Ele não respondeu. Valerie parou ao seu lado e estendeu a mão.

"Agora pega a pedra.”

Stefan continuou olhando para mim.

“Stefan.”

“Eu ouvi.”

“Então termina.”

A impaciência dela fez alguma coisa mudar no rosto dele. Stefan virou a cabeça e lançou-lhe um olhar que teria sido suficiente para fazê-la recuar em qualquer outro momento, mas Valerie estava perto demais de conseguir aquilo que queria.

“Eu disse que vou resolver.”

“E eu estou dizendo que ela ainda está segurando a pedra.” Valerie apontou para minha mão fechada e depois olhou novamente para ele. “Você sabe que Caroline vai tentar alguma coisa até o último segundo. Para de dar oportunidade.”

Meus dedos apertaram o objeto por reflexo.

A pedra estava quente.

Franzi a testa e tentei mover a mão, pensando que talvez fosse apenas minha percepção falhando à medida que meu corpo enfraquecia, mas o calor aumentou. Não era desconfortável. Pelo contrário, espalhava-se pela minha palma de uma maneira estranhamente reconfortante, quase como se alguma coisa pulsasse dentro dela.


Stefan sentiu meu movimento. Seu olhar caiu para minha mão.


“Me dê.”

Balancei a cabeça.

“Caroline, acabou.”

A maneira tranquila como ele disse aquilo fez as lágrimas finalmente transbordarem. Não porque estivesse com medo de morrer. Depois de tudo que acontecera, a morte parecia quase simples. O que doía era olhar para ele e lembrar de todas as vezes em que aquele mesmo homem havia me convencido a continuar vivendo.

Quando acordei como vampira, apavorada e convencida de que havia me transformado em um monstro, Stefan esteve lá. Foi ele quem me ensinou a controlar a fome, quem me fez acreditar que minha vida não tinha acabado e que eu ainda podia escolher quem queria ser. Quando minha mãe morreu, foi sua presença que me ajudou a atravessar uma dor que eu achava impossível suportar. Antes de nos apaixonarmos, ele havia sido meu amigo, talvez o melhor que tive em uma época em que eu ainda estava aprendendo a gostar de mim mesma.

Agora era ele quem estava me matando.

Talvez essa fosse a parte que eu nunca conseguiria compreender.

“Você se lembra?”, perguntei, e minha voz saiu tão baixa que Stefan precisou inclinar-se para ouvi-la.

Ele franziu a testa.

“Do quê?”

“De mim.”

A pergunta pareceu atingi-lo de um jeito que eu não esperava. Seus olhos percorreram meu rosto e sua mão continuou apoiada em minha face, mas alguma coisa em sua expressão vacilou.

“Caroline...”

“Não isso.” Engoli com dificuldade, sentindo gosto de sangue na língua. “Você lembra de quem eu era para você antes de tudo isso?”

Valerie soltou o ar com irritação atrás dele.

“Não começa.”

Stefan nem olhou para ela.

Mantive os olhos nos dele, embora minha visão começasse a perder nitidez nas bordas.

“Porque eu lembro de você. É isso que torna tudo tão difícil. Eu continuo lembrando de quem você era antes de Damon morrer e continuo procurando essa pessoa toda vez que olho para você.”

A mão em meu rosto tremeu quase imperceptivelmente.

“Eu ainda sou eu.”

Balancei a cabeça, e novas lágrimas escorreram pelo meu rosto.

“Não. Você só parece com ele.”

A dor que atravessou sua expressão foi real. Por um momento, Stefan Salvatore voltou a estar diante de mim.

Não o Estripador que havia passado meses me caçando. Não o homem que justificava cada atrocidade com a morte do irmão. Vi meu melhor amigo olhando para mim, horrorizado com alguma coisa que talvez só naquele instante estivesse começando a enxergar.

Se tivesse mais tempo, talvez eu pudesse alcançá-lo.

Valerie também percebeu.

Ela segurou o ombro dele e o puxou ligeiramente para trás. “Não deixa ela entrar na sua cabeça. É exatamente isso que Caroline quer. Ela sabe que você ainda sente alguma coisa e está usando isso para fazer você hesitar.”

Stefan continuou olhando para mim.


“Stefan, olha para mim”, insistiu Valerie, passando a mão pelo braço dele. “Damon. Lembra do Damon. Lembra por que estamos fazendo isso.”

O nome do irmão produziu o efeito que ela queria. Vi a culpa retornar aos olhos dele e se transformar lentamente naquela determinação que eu aprendera a temer.

Minha oportunidade desapareceu. Stefan aproximou o rosto do meu e encostou a testa na minha por um instante. Quando falou, sua voz estava baixa e dolorosamente familiar.

“Eu amo você, Caroline.”

Fechei os olhos. Talvez meses atrás aquelas palavras ainda fossem suficientes para me destruir. Naquele momento, elas apenas me deixaram profundamente triste.

“Eu sei”, respondi, respirando com dificuldade enquanto a pedra continuava aquecendo minha mão. “Esse é o problema.”

Ele permaneceu imóvel por alguns segundos antes de afastar o rosto.

“Eu teria poupado você se tivesse me dado a pedra.”

Abri os olhos novamente.

“Não.” Observei-o e, pela primeira vez naquela noite, senti que enxergava tudo com uma clareza quase cruel. “Você teria me poupado se ainda fosse você.”

Stefan ficou completamente imóvel. Valerie abriu a boca para falar, mas não ouvi o que disse. A pedra queimou em minha palma.

Dessa vez não havia como atribuir aquilo à fraqueza. O calor subiu pelos meus dedos e atravessou meu pulso, espalhando-se pelo braço como uma corrente suave. Baixei os olhos e vi uma luminosidade azul escapar entre meus dedos fechados.

Stefan viu também.

“Caroline, o que você está fazendo?”

Eu não sabia. Mas, de repente, lembrei de Damon.

De um desejo.

De tudo que aquela pedra havia sido capaz de fazer quando alguém desesperado o suficiente a segurou e pediu pelo impossível.

Meu coração ainda batia contra a mão de Stefan, cada pulsação mais fraca do que a anterior, e compreendi que não sairia daquela floresta. Mesmo que ele retirasse o braço naquele instante, eu estava fraca demais para me curar antes que Valerie terminasse o que ele começara.

Então parei de pensar em sobreviver.

Pensei em Lizzie e Josie.

Imaginei minhas meninas correndo pela casa enquanto eu reclamava da bagunça que deixavam para trás. Pensei em Jo, em Alaric e na família impossível que construímos depois de tantas perdas. A ideia de nunca mais vê-las deveria ter sido a coisa mais dolorosa naquele momento, mas saber que estavam longe dali tornou-se meu único consolo.

Depois pensei na minha mãe. Lembrei de Liz Forbes sorrindo para mim, orgulhosa da mulher que eu finalmente havia me tornado, e senti uma saudade tão intensa que precisei fechar os olhos.

Matt surgiu em seguida. Tyler. Bonnie. Elena antes da pedra. Damon antes de perder Elena.

Todos nós antes de começarmos a enterrar uns aos outros. E, por último, pensei em Stefan.

Não naquele que estava diante de mim.

Pensei no garoto que um dia entrou na minha vida e me ensinou que ser vampira não precisava significar perder minha humanidade. No meu amigo. No homem por quem me apaixonei muito depois de imaginar que algum dia isso pudesse acontecer.

Talvez Valerie estivesse certa sobre uma única coisa. Eu nunca soube desistir dele. Meus dedos se fecharam completamente ao redor da pedra e, dessa vez, não tentei impedir as lágrimas.

Se aquele objeto realmente pudesse ouvir desejos, eu não pediria para sobreviver. Não queria apenas voltar algumas horas, escapar da floresta ou encontrar uma maneira de derrotar Valerie. Nada disso consertaria o que havíamos feito.

Eu queria voltar para antes.

Antes de Damon encontrar a pedra. Antes de Elena morrer. Antes de Klaus. Antes de Katherine voltar para Mystic Falls e antes de Stefan entrar na vida de Elena. Queria voltar para quando ainda éramos adolescentes preocupados com festas, provas, namorados e todas aquelas coisas que um dia pareceram enormes porque não sabíamos o que estava esperando por nós.

Queria uma oportunidade de fazer tudo diferente.

A luz azul começou a escapar com mais intensidade entre meus dedos. Stefan recuou ligeiramente, alarmado.

“Solta a pedra.”

Não obedeci. Se eu tivesse outra chance, salvaria minha mãe.

Salvar Bonnie, Matt, Tyler… impedir Damon de destruir a si mesmo tentando recuperar Elena e impediria Elena de se transformar na criatura que matou tantas pessoas.

Talvez conseguisse impedir que minhas filhas precisassem crescer naquele mundo. E, apesar de tudo, apesar do braço dentro do meu peito e de todos os meses em que ele me caçar, eu também salvaria Stefan.

Não aquele homem. O Stefan que existira antes dele.

A pedra queimava agora, mas mantive os dedos fechados enquanto formulava silenciosamente o único pedido que ainda importava. Pedi uma oportunidade de voltar ao momento em que tudo ainda podia ser mudado e de proteger as pessoas que amava antes que nossas escolhas as destruíssem. Não sabia se alguém estava ouvindo, se a magia ainda existia dentro daquele objeto ou se eu estava apenas morrendo agarrada à mesma esperança impossível que condenara Damon.

Mas desejei mesmo assim. Stefan pareceu compreender.

“Caroline, não.”

Havia medo verdadeiro em sua voz.

Pela primeira vez naquela noite, sorri.

Então seus dedos se fecharam ao redor do meu coração.

A dor foi tão intensa que meu corpo inteiro se contraiu, mas durou apenas um instante. Senti Stefan puxar e alguma coisa dentro de mim se romper; o mundo perdeu o som antes de perder a luz, e a última coisa que enxerguei foi seu rosto diante do meu enquanto meu corpo escorregava pela árvore.

Depois não senti mais nada.

A escuridão que veio não se parecia com dormir. Não havia sonhos, sons ou consciência do próprio corpo, e por algum tempo não soube sequer se ainda existia alguma parte de mim capaz de perceber aquilo. A dor havia desaparecido junto com a fome, o medo e o peso constante que carregara durante meses, deixando apenas uma sensação estranhamente tranquila de estar suspensa em algum lugar onde o tempo não significava nada.

Foi nesse vazio que uma luz azul começou a surgir.

No início era apenas um ponto distante, tão pequeno que poderia ter sido imaginação. Aos poucos, porém, cresceu e iluminou a escuridão ao redor até revelar a silhueta de uma mulher. Sua pele era morena, os cabelos negros caíam lisos sobre os ombros e uma faixa vermelha cobria seus olhos, mas, apesar disso, tive a sensação inexplicável de que ela me observava.

Eu deveria ter sentido medo, mas não senti.

Havia alguma coisa naquela presença que me parecia antiga e, ao mesmo tempo, estranhamente familiar, como uma lembrança que não pertencia a mim. A luz azul contornava seu corpo e pulsava no mesmo ritmo que a pedra pulsara em minha mão momentos antes de eu morrer.

A mulher estendeu uma das mãos em minha direção.

“Caroline.”

Não conhecia aquela voz, mas alguma parte de mim respondeu a ela antes que eu pudesse compreender por quê. Estendi a mão e toquei seus dedos.

A luz explodiu ao nosso redor.

Durante uma fração de segundo, a floresta reapareceu diante dos meus olhos como se eu a observava de algum lugar muito distante. Meu corpo estava caído junto à árvore e Stefan permanecia ajoelhado diante dele, coberto pelo meu sangue. Em sua mão havia um coração imóvel.

Valerie não olhava para mim. O olhar dela estava fixo na outra mão de Stefan.

Na pedra.

O azul havia desaparecido completamente. O objeto que destruíra nossas vidas agora era negro e opaco, semelhante a uma pedra comum. Stefan deixou meu coração cair.

“Não...”

Ele pegou a pedra e a virou entre os dedos, procurando alguma coisa que já não estava ali. Quando finalmente olhou para meu corpo, seu rosto mudou.

“Caroline?”

Valerie se aproximou.

“Stefan, a pedra.”

Ele não pareceu ouvi-la. Arrastou-se até mim e segurou meu rosto entre as mãos, deixando manchas vermelhas sobre minha pele enquanto dizia meu nome novamente. Havia desespero em sua voz agora, justamente aquilo que eu passara meses desejando enxergar e que chegara tarde demais para significar qualquer coisa.

A luz azul começou a cobrir minha visão outra vez. A última coisa que ouvi foi Stefan gritando meu nome.

Então a floresta desapareceu.


Notas finais
Então é isso. A quem leu, muito obrigado e espero que tenham gostado. Já faz alguns meses que comecei essa fic e não tinha coragem de postar. Então reli ela ontem à noite e resolvi postar. Porque gosto dela, então espero que gostem e me diga o que acharam dela. Si vale ou não prosseguir. Ao longo da fic explicarei sobre a pedra e tudo que aconteceu nesse prologo. XOXO ♥