Mais um dia de Verão
1 O garoto com quem ando
Pouco tempo atrás conheci um garoto. Tínhamos uma relação bastante amigável; aliás, ele era muito simpático, diga-se de passagem. Conversávamos de forma tão escorregadia que nem percebíamos quanto tempo se passava; ríamos e falávamos sem que o diálogo ficasse entediante, indo de questões políticas e sociais à receita de preparo de arroz. Então, começamos a flertar; beijos aqui, beijos acolá, além de alguns olhares demorados acompanhados de disfarçados sorrisos.
Com isso, nossa relação foi se tornando mais estável. Ele ia à minha casa, sentava-se no sofá da sala e, enquanto a televisão transmitia pela milésima vez o filme “A Lagoa Azul”, ele ficava brincando com a Sagwa, que não era uma gatinha siamesa, mas que tinha olhos de angorá; ao mesmo tempo em que minha mãe falava aleatoriamente e contava piadas ruins.
Suas idas à minha residência tornaram-se frequentes, de modo que minha mãe até passou a chama-lo de “agregado”. Minha amiga Melissa por sua vez, sempre que me visitava e lá o encontrava, repetia: “você vive aqui, é café da manhã, almoço e jantar; não tem intervalo?!”. E quando estávamos na rua, a situação também não era muito diferente; aliás, certa vez uma mulher chegou a nos abordar e disse que éramos um casal muito fofo, além do fato de alguns rapazes desviarem o olhar de mim quando via o garoto ao meu lado.
Mas em um dia de surpresas, ele estava agindo de forma estranha; ficava sempre calado e por vezes parecia nervoso. Quando estávamos caminhando para chegarmos à sorveteria, ele simplesmente parou. Fiz o mesmo, e olhando-o, ouvi:
—É...e-estou nervoso e-e não sei c-como falar isso...- Gaguejou, tentando olhar em meus olhos, até que rapidamente disse:
—Não sei se é a hora certa, mas eu...quer namorar comigo?
Naquele segundo, em meio à tarde ensolarada enquanto do vento corria levemente entre nós, apenas me lembro que o único sentimento que tive foi de felicidade; pois agora tínhamos um motivo para andarmos juntos.
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