Notas iniciais
Feliz Natal e boa leitura!

Mikaru revirou os olhos com descaso, mas não conseguiu evitar o suspiro pesado com o teor da conversa. Nos últimos anos Izumi sempre inventava algo para as festas de fim de ano, normalmente envolvendo um jantar na casa dele ou num restaurante e, quando ele o convidou para uma reunião para discutir os feriados, imaginou que o assunto seria aquele, mas não imaginou que o sócio estava planejando viajar com o namorado e deixar a cafeteria sob seus cuidados.

Será que aquele vocalista de merda não havia pensado que ele já tinha planos? Não, é claro que não. Ele nunca pensava em nada além do próprio umbigo. O fato de Shiroyama comentar de má vontade sobre visitar os sogros provava isso. O amigo gostava da data, de enfeitar a casa e trocar presentes, mas odiava a parte que dizia respeito a reuniões familiares e Mikaru não o culpava por isso, principalmente porque esse ano também ia comemorar com os sogros e a cunhada, mas os pais de Katsuya eram boas pessoas, o que não mudava o fato de se sentir desconfortável.

Os planos de Izumi simplesmente estragavam os seus pras festas de fim de ano. Havia entrado de recesso na empresa com o intuito de passar o Natal com os sogros e o Ano Novo somente com o namorado, mas pelo visto precisaria mudar isso.

— Certo, você quer viajar, entendi essa parte. Só me passe a escala e o período que vai ficar ausente e depois suma da minha frente.

Hayato segurou o ‘elogio’ na ponta da língua, mas só para evitar atrito, já que tinha interesse na situação, caso contrário teria apontado o quanto o sócio foi rude. Mikaru podia dizer que não gostou da ideia e que não podia ficar na cafeteria, mas ele precisava ser ácido. Felizmente, ou não, Izumi estava acostumado com aquilo.

Mexendo em uma pilha na mesa, Hayato pegou os papéis solicitados, a escala de funcionários e um relatório que provava que seu plano daria certo, estendendo para Mikaru e aguardando a análise. Organizou tudo na noite anterior, depois de comentar com Takeo sobre seus planos de visitar a mãe, onde recebeu o conselho de avisar Mikaru o quanto antes. Depois de tantos anos trabalhando juntos, havia aprendido que não podia deixar para última hora, principalmente se tratando de Kazunari. O sócio podia estragar seus planos sem remorso nenhum.

— Fiz duas equipes, uma pro Natal e outra pro Ano Novo. Já conversei com todos e estão de acordo com o revezamento. – Hayato começou a explicação com um resumo do relatório – Miura concordou em te ajudar na virada de ano e se dispôs a ficar o dia todo. Combinei uma folga pra ela no dia seguinte.

— Tem noção de quantas leis trabalhistas está quebrando só com sua supervisora? Reze pra ela nunca nos processar.

— Ela nunca faria isso! – Hayato rebateu horrorizado – Ela sempre nos ajuda muito e foi quem se ofereceu pra fazer essa troca. Não vejo motivos pra isso…

— Você a trata como uma amiga, quando ela é uma funcionária. Espere ela precisar de dinheiro algum dia e o processo vai chegar.

— Você é muito pessimista, Mikaru. – mas Hayato desejou que esse dia nunca chegasse. Sabia que em situações de desespero as pessoas tomavam decisões precipitadas.

Izumi continuou explicando sobre a escala, quem ficaria pela manhã e pela noite, como ficaria o horário de almoço, finalizando com a data de viagem. Mikaru soltou outro suspiro frustrado e Hayato pensou se ele havia achado algum furo nos seus projetos, mas nenhum comentário foi feito após verificar os papéis.

Mikaru guardou a papelada na mochila, resmungando antes de sair da sala que só voltaria ali para cobrir aquele feriado.

Beliscando o lábio, Hayato mandou uma mensagem para Takeo, avisando sobre a resposta positiva do sócio, a seguir ligou para Katsuya, na esperança de que ele o ajudasse a animar Mikaru.

— Consegui convencer Takeo a vir comigo, mas ele pediu pra ficar em um hotel. Nós sabemos que ficar na casa dos meus pais não seria boa ideia. – Izumi atualizou o amigo das novidades, animado em contar seus planos de viagem – Achei que o mais difícil seria convencer o Mikaru a cobrir a virada na cafeteria, mas ele aceitou bem, do jeito dele.

— Espera… Mikaru vai trabalhar no Ano Novo?

Hayato não tinha certeza, já que não ouviu direito o sussurro, mas parecia que Katsuya havia soltado um palavrão.

— Vocês tinham planejado alguma coisa? – Hayato ficou atento à ligação, mas o rapaz estava mudo do outro lado. É, ele tinha estragado os planos do sócio – Pra onde vocês iam?

— Ah, não… não planejamos nada. Não se preocupe. Você sabe que Mikaru não gosta de comemorar essas festividades. – mas a risada de Katsuya era claramente forçada.

— Por que ele não me avisou? Eu teria mudado a data ou a gente trocava os feriados… não tinha como eu saber!

— Mikaru deve ter desistido de te contar depois que você falou que comprou as passagens. É mais difícil trocar a data nessa época do ano e como nós íamos de carro… – o rapaz explicou, confirmando que o casal também tinha planos para aquele dia.

Hayato pensou em se desculpar, mas sabia que não seria o suficiente. Por isso o sócio estava tão frustrado. Mikaru comentou sobre entrar de recesso na empresa e aquela era a razão: ele tinha planos de sair com o namorado. Essa desculpa de não gostar de comemorar a data não colava mais. Desde que começou a namorar Katsuya, Mikaru havia mudado, pouco a pouco, mas de maneira perceptível.

Precisava compensar os amigos de alguma forma…

* * *

Quando Mikaru chegou em casa naquela noite, Katsuya já estava por lá, esperando-o para jantarem juntos. O veterinário estava pronto para tudo: resmungos, mau humor, reclamações, mas não estava pronto para receber um namorado tranquilo.

Alguma coisa estava errada.

— Izumi-san me ligou mais cedo… – Katsuya testou iniciar a conversa enquanto comiam, mas não notou nenhuma alteração – Ele me contou os planos pra virada do ano… – um resmungo e nada mais. Mikaru parecia muito entretido com a comida – Disse que você vai ficar na cafeteria nesse dia… – outro resmungo. Era raro, mas deixou Kurosaki irritado – Mikaru, por favor…

— Sim, ele contou da viagem. Sim, me pediu pra cobrir o feriado. E sim, concordei em ajudar, mas só porque não ia adiantar explicar para aquele idiota que nós já tínhamos planos. – Mikaru havia oprimido a raiva, mas agora que colocou pra fora, era mais fácil lidar com ele – Izumi não perguntou sobre minha agenda, simplesmente falou o que queria e ia fazer.

— Então nossa viagem… – Kurosaki perdeu as esperanças. Pediu com tanta antecedência para o namorado ir junto e agora não poderiam mais.

— A viagem está confirmada. Não mude nada nos planos.

— Mas as datas…

— Eu já resolvi isso, não se preocupe. Você me pediu para pegar uma folga e eu estou fazendo tudo que posso para terminar os projetos antes do fim da próxima semana. Nós vamos viajar, como combinado.

— Vai deixar a Miura cuidar de tudo sozinha?

— Claro que não! – Mikaru pareceu horrorizado pela primeira vez naquela noite – Eu não sou irresponsável como aquele vocalista de merda! Conversei com ela antes de sair da cafeteria e já combinei o que vamos fazer. Ela gostou da ideia e vai me ajudar.

— O que vocês vão fazer? Izumi-san aprovou também? – Katsuya não gostou daquele sorriso maldoso. Pelo visto o amigo não sabia dos planos do empresário – Pelo menos pro Takeo-san você vai contar?

— Sim, pro Shiro eu vou contar. O babaca do namorado dele não precisa saber. Pelo menos não por agora.

Mikaru havia dito que não era irresponsável, mas aquela resposta o fez parecer despreocupado demais para Katsuya. Bom, ele e Shiroyama eram amigos de infância, alguma parte de Mikaru não devia ser tão certinha, caso contrário eles não se entenderiam tão bem, não é?

Notas finais
Serão 3 capítulos e todos prontos. Vou tentar postar tudo até o ano novo, pra coincidir com as datas.

Até o próximo!