Mais um Conto
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Jovem, sim você mesmo, não tenha medo algum minha criança,
Chegue mais perto para que eu possa lhe contar uma história,
Uma das tantas que aprendi durante minha tão longa andança.
Falarei a ti sobre o reino de Agartha e sua trajetória
Desde os tempos tristes, sombrios e impiedosos,
Até, por milagrosa infante, a linda paz, chegara como grande vitória.
Tal reinado perdido, governado em milênios por homens vaidosos,
Nas profundezas da Terra se é guardado,
Onde a chegada somente é alcançada por caminhos sinuosos.
O rei Niraṅkuśa, um dos inúmeros terríveis tiranos que poderia ter citado,
Fazia miserável a vida de seus súditos, como revelará esse versário,
A luta por um pedaço de pão e o medo era a sorte que lhes havia fardado.
Em seu castelo havia comida e ouro mais do que necessário,
Habitado por senhores e madames que de ambição tamanha esbanjava,
Paredes com preciosos e minaretes esplendidos, era um lindo cenário.
Enquanto isso, a cidadela em caos queimava,
Violência e ódio, a decadência em muito ali havia,
E qualquer revolta que a paz se almejava buscar, com crueldade não vingava.
A única coisa que ao velho mau o coração amolecia,
Śānti, sua linda pequena filha,
Que como o nome, a paz era quem lhe trazia.
De seu sangue não era, deixada foi por uma andarilha,
Mesmo assim ela produzia no monarca algo ímpar,
Sempre juntos estavam, como métrica e redondilha.
A princesa amava seu rei, mesmo que no rosto a tristeza estampar,
Quando mais nova se espantava com a tristeza dos servos,
Em um lugar tão rico, como poderiam assim estar¿
Quando crescera, entendeu todos os motivos,
E desde então, o pouco que os pobres conseguiam,
A essa jovem é que agradeciam, por lhes manterem vivos.
O rei conhecerá, em uns dos festejos feitos pelos que os seguiam,
Sua noiva, que de igual maldade, ou pior o coração padecia,
Aos gestos nobres da pequena donzela, seus olhos reprimiam.
Naquela mesma noite, quando Śānti ao quarto ia,
Nunca antes sentira tamanho sono,
Mesmo quando a muito tempo o dia inteiro nos campos corria.
Caíra vagarosamente na cama, como as folhas de outono,
Sentia como se o mundo houvesse apagado,
E num sonho lindo lhe tomara, algo recorrente, o dia que assumiria o trono.
No meio do deleite das maravilhas do próprio reinado,
Algo abrupto lhe acordou, como se o chão do mundo houvesse sumido,
Buscou entender a causa de tal fato, mas não conseguiu compreender o fato.
Estava em uma ambiente apertado, um baú havia presumido,
Escuro e úmido, o lugar fizera rapidamente o espanto virar medo,
Começou a gritar, torcendo para que alguém houvesse percebido.
O grito deu lugar a murros na madeira, lhe rendendo cortes no dedo,
Quando até que enfiam alguém pareceu ter percebido seu suplício,
“Que está acontecendo aqui¿”, era uma voz que lhe trazia hospedo.
”Quem é você e por que fariam contigo tal malefício¿”
A princesa não entende, Murkha não sabia quem ela era,
O bobo passara tardes alegrando-a, em seu papel de estrupício.
“Sou eu amigo, Śānti“, a jovem afirmava observando o lugar que se encontrara,
Sem dúvidas não estava no castelo, via o cais e toda podridão do porto,
“Nunca em sã consciência você se passaria pela donzela, dona de beleza rara.
Algo ali realmente estava muito errado, e nada que pensava lhe trazia reconforto,
Percebeu a presença de um espelho quebrado, ao lado de muito entulho,
Correu até lá e viu sua imagem horrenda, sem cabelos e um olhar semimorto.
“Que pesadelo, que pesadelo!” dizia a donzela junto ao marulho,
O mar de um dos poucos portos que naquela terra havia,
Estava agitado, fazendo como nunca visto estrondoso barulho.
Vendo ainda que desconfiado o palhaço ainda estaria,
E com medo de que sem motivos ele não a ajudasse,
Encontro algo em seu vestido que com certeza o jovem reconheceria.
Mesmo que o pai a proibido de portar mandasse,
Um pequeno colar dado pelo arlequim com ela sempre estava,
De forma que Murkha reconhecera o objeto, em um único relance.
“Como é possível criança¿”, com uma raiva que demonstrava,
No momento isso era menos importante para Śānti,
Retornar a casa e a seu pai, era sim, o que importava.
“No castelo dificilmente entrará com tal aparência, pequena infante,
Nenhum servo os portões consegue passar, triste fato,
Mas iremos achar uma forma”, dizia o bobo ainda ofegante.
Enquanto tentavam se recompor de tão assombroso desacato,
Um soldado imperial apareceu marchando naquela direção,
Rapidamente o problema seria desfeito, pensou a menina de imediato.
Porém agressivamente, o guerreiro ao palhaço deu um safanão,
E pelos braços agarrou a princesa sem nenhum respeito,
Tal violência ocorria enquanto era explicada a situação.
Mesmo assim nada o impediu, e pior, ele parecia satisfeito,
“Tentou fugir do seu destino, mas eu fui mais rápido, sem dúvidas”
Dizia o militar, algo que provocou um horripilante efeito.
Porém, quando tudo perdido parecia, suas súplicas foram supridas,
Recuperado do golpe, o palhaço com uma pedra o valentão acertou,
Aproveitando o vacilo do vilão, os dois correram por várias avenidas.
Muito metros foram percorridos e longe do perigo estavam, como se constatou,
Não demorou muito para entenderem o que ali ocorria,
Alguém da realeza queria a princesa por fim, porém seu plano falhou.
“Buscar um abrigo, precisamos”, mesmo não sabendo a quem recorria,
Disse a princesa, tomada por uma grande indignação e mais triste,
Seu pai estaria preocupado ou ele sabia, pensamento este que infelizmente lhe percorria.
O bobo longo afastou essa ideia, que a jovem chorando sugeriste,
“Por mais cruel que seja, a ti mal nunca lhe causaria”, disse Murkha,
“E além do mais, acabei de pensar que uma ajuda a nós existe”.
Sem dizer mais nada, o criado a levou pelas ruas e sua grande cumurca,
Com todo cuidado para que ninguém a reconhecesse, por mais difícil que agora era,
Vestira, com roupas roubadas, para melhor disfarce, uma estranha burca.
Em poucos minutos, pois a princesa correra o máximo que pudera,
Chegaram em uma casa caída e muito velha, porém o bobo logo advertiu,
“Não se engana, casa feia é, mas lar de pessoa muito gentil e sincera”.
Tal aviso fora desnecessário, pois a vaidade que no castelo desde o início existiu,
No coração da jovem nunca, em momento algum, reinou,
A única coisa que lhe viera, angústia da decadência que no povo caiu.
Três batidas ritmadas na porta e então “Quem bate¿”, estranha voz pronunciou,
“Amigo sou eu Murkha, o bobo” de prontidão ele afirmara,
Uma pequena abertura na porta se fez, de onde alguém os observou.
As portão então se abrem, e enfim pensaram, silenciosamente, ”odara”,
Quando sem pensar entrou, a princesa de relance tremeu com que viu,
Escuridão, nada mais ali que o véu negro do vazio, era oque avistara.
Porém com mais cautela, um clarão pequeno no fundo e logo se ouviu,
“Entrem logo, ou precisam de um guia¿”, com uma gargalhada sombria,
Adentraram então no manto sombrio, enquanto o arlequim advertiu.
“Conhecerás o sábio Vijārḍa, pequena guria,
Porém cuidado, por seu pai muito ódio o velho guardava,
Visto que odiosa fama ganhara, causada pelo rei e sua infame teoria”.
O ancião que por magias benéficas, a tempo Agartha cuidava,
Pelo medo e ganância que vem junto ao poderio de qualquer tirano,
Niraṅkuśa o perseguiu, a sombras então era o que lhe restava.
Chegando ao pequeno salão, que nada se assemelhava com o soberano,
Um homem junto a um gato se viu, com surradas roupas e olhar penetrante,
Apesar de irreconhecível, a princesa se dirigiu e pronunciou em tom arcano.
“Vejo que o mal realmente domina sobre este castelo exuberante,
Apesar de todas as injúrias que de lá me deixaram em ruínas,
A ti vejo o bem e a salvação do povo e sua sorte torturante”.
Com atenção prestada aos versos, percebeu as origens genuínas,
Daquele infame infortuno que o pesadelo parecia,
“E quem a mim o causaria, tais aflições indignas¿”
O senhor rapidamente, com uma agilidade que apesar de idoso não carecia,
Aproximou-se da jovem e com a mão enrugada na têmpora da menina tocou,
“Veja, a resposta esta na sua mente”; e a verdade então se esclarecia.
Como se num sonho, via se na festa do palácio do dia que passou,
Todos dançavam, brindavam e cantavam a eterna fartura,
Logo pensou que o sonho era a aquele horror e que enfim acordou.
Mas esse desencanto logo se desfez, quando seu corpo longe se viu, amargura
Estava lá ela ora em espírito, ora em carne e osso,
Viu conversando com o grupo que sempre debatia e partiam de mesma postura.
Viu também quando a futura rainha, Krūra, com um sorriso esboço,
Trazia nas mãos algo que a princesa reconheceu,
Uma comida estranha e que agora entendera sem esforço.
Grita então de espanto, enquanto despertava e logo contou o que aconteceu,
Indignado bobo aos pés do palácio queria logo ir,
Porém sabia que ninguém acreditaria e emudeceu.
A única maneira era se o próprio rei visse, para assim a vilã sucumbir,
Para isso o mago tinha que a eles acompanhar,
“Apesar de perigoso, sempre a verdade servi sendo o motivo do meu dom existir”.
Como se o gato entendendo a ação que se vinha após o dono falar,
Correndo para a porta foi, puxando o grupo com pressa,
Que com cautela pelas ruas transpassou, mesmo sem em um plano pensar.
Quando perto dos portões estavam, a correria logo cessa,
Uma tropa imperial a frente obstruindo o caminho,
E viram como líder, o mesmo soldado corrompido e agressor da princesa egressa.
Fácil notar que todos a história sabiam, nem precisava ser um adivinho,
Ou não todos, um deles perdido, não sabia a razão da ordem de ataque,
Por isso gritou, a menina, a ofensas e injúrias por dolo mesquinho.
Quando todos ia começar a investida e o eminente estava o baque,
O defensor perdido e que no relato confiara vendo o desespero,
Com sua artimanha, como um corsário durante o saque.
Conseguira com uma explosão, com fogo de invejar a Nero
Distrair a armada de malfeitores,
E assim fugiram todos, continuando ao castelo e seu caminho severo.
Passados a muito do último ponto de vista dos opositores,
Já nos pés dos portões principais mais um imprevisto,
Uma nova tropa na entrada, “Malditos traidores!”
Sem ter como entrar, sendo aquela a única passagem pelo visto,
A jornada era dada como vencida,
Quando num relance, o soldado disse “Uma passagem eu avisto”.
“Qual¿” puseram-se curiosos, a saber da ideia oferecida,
“As meretrizes estão ali a começar a trabalhar,
Uma me deve favores de outrora, nos ajudar será facilmente convencida”.
Como a notícia sobre a traição do soldado a patrulha não conseguiram avisar,
Chegara facilmente na entrada com as mulheres,
Que logo convenceram os homens a sair e não dardou aos camaradas poderem entrar.
Distraídos os soldados com seus possíveis prazeres,
A caminhada precipitou pelos infinitos corredores da morada,
“Era realmente necessário isso para poucos chanceleres¿”
Chegaram então no salão onde todos estavam e também a falsa armada,
A confusão logo se instalou, gritos ao ar jogados,
Até que o soberano interferiu na situação tramada.
Não reconheceu a filha quando os quatros foram perfilados,
Mas em um gesto abrupto o velho mago,
Antes que fosse denunciado, tocou-o e transmitiu os atos extrapolados.
Incrédulo de tais fatos, olhava a futura rainha de olhar vago,
As lagrimas lhe brotaram vendo o mal que mesmo cultivava,
Vendo os servos humilhados, demonstrando na filha afago.
Um palhaço, uma prostituta, um soldado e um velho, a sua filha salvava,
O retrato da simplicidade, da sabedoria e da lealdade de um povo,
Que tão mal feito e a quem a sua maior riqueza cuidava.
Os envolvidos na trama foram condenados, por um motivo novo,
Quaisquer infratores que mal fizeste ao povo e não mas só os de berço d’ouro,
A superfície mandando serie, para assim o reino renovo.
Foi assim então que Agharta se tornou o grande reino vindouro,
Marcado pela paz, justiça e sinceridade entre os intraterranos,
Que aos quatro cantos suas histórias são contadas sobre o reinado duradouro.
O fim.
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