Mais e Mais Estranho Que a Própria Ficção

4 O último dos profetas, o profeta dos analfabetos


—Eu quero saber que porra de papo esse João, você ta maluco, quer matar sua mãe? Para com essa merda de falar que vai se matar!

—Mas eu não pedi pra nascer caralho! Se quer tenho interesse em permancer vivo!

—Meu Deus, mas porque isso?

—A vida é minha e eu posso decidir quando terminar ou não.

—Seu merda, não vai me fuder não hein, se você fizer qualquer coisa, a casa vai cair pra mim, você sabe que a gente não

tem nem a porra de um lugar pra gente se enterrar, o Toinho seu tio ta disputando comigo um lugar na tumba lá no cemitério

Campo Grande, e outra sua mãe tem diabete! Ela não pode passar nervoso, se quiser se matar, não tem problema nenhum,

mas só se mata depois que ela morrer, se não quem se fode sou eu.

—A culpa é toda sua pai! você deveria ter usado camisinha!

—Mas eu usei!

—Ué e então, o que deu errado?

—Ah sei lá, deu errado, não sei, deve ter vazado porra!

—Até pra transar você é um incompetente deve ter engravidado na primeira vez que transou! — Disse joão, para ferir como um tiro de flecha.

Seria bem cômico se não fosse trágico, e efetivamente o seu Manoel sentiu seu orgulho se dissolver nas caracetristicas gerais da humilhação,

com a verilidade veril o que mais poderia fzer? Todo o pacto social daquela casa fora tecido em torno dele mesmo, se não pelos berros em jogos de poder

antes mesmo de joão nascer, ainda quando namorava a mãe dele, ela era uma adolescente quando o conheceu, e seria uma mulher feliz quando fosse a hora de ir

embora.

—Me deixa em paz! me deixa ir para meu quarto!

—Mais que quarto? — Para João a cama da sala era seu quarto.

—Me deixa dormir então porra!- disse se escondendo na sombra do seu pai entre as cobertas.

Há muito tempo seu pai já perdera a noção que era um ser humano, vivia na floresta do alheiamento, se amordaçando e ricocheteando.

E puxou com tudo a coberta do João! Não se deixaria levar por vencido, toda a opressão da vida adulta, e de sua vida mal vivida era depositada no relacionamento

no seu filho! Tipico de posturas autoritárias, oprimir o mais fraco para firmar sua autoridade, a violência certamente é um fenômeno social presente em todas as

sociedades sob várias formas, aliás a violência é uma categoria com amplos significados.

E João sabia mais das coisas que assolavam o inconsciente do pai que ele mesmo, João era um dos últimos profetas na terra!

Sentou-se no sofá e com sonolidade aceitav toda a violência direcionada a sua persona, era como um espelho, de tanto refletir o próximo as vezes se perdia

nos ecos dos reflexos que não cansam de voar nas canções do tempo.

Seu pai desparava uma metralhadora verborragica, por gozo da vaidade de sua juventude arruinada, tipico de um país que oferece pouco aos seus jovens

e João sábia disso também, só ricochetava com uma resposta apenas se tivesse certeza que seria no ponto mais fraco

só para atordoar o adversário, era versado na arte da guerra, e na arte da loucura, e algum dia sábia que a burguesia ia pagar bem caro pela ignorância

do seu povo.

Sereno, se levantou e disse:

—Pai com todo respeito, pega esse celular — disse tirando seu celuar do bolso — Olha que coisa mais linda.

O pai não entendendo nada, mas se calando para prestar atenção assistiu imbecializado com João arremossou com violência contra a parede, espatifando transoformando

em geleia todo o ódio da consciência humana.

Pegou sua trouxinha, e desceu as escadas do apartamente enquanto o pai gritava suas ordens, o mundo em que o pai construira só existia se não para sí, para o Deus que criou.

Sentou no chão da garagem vázia, no sábado a noite, a água da chuva escorria em lento pelas paredes, um som abafado persegue a todos os passantes no clima frio da capital.

Abriu sua trouxinha, retirou seu baralho e diante de sí descortinou todos os arquétipos, via toda a história da humanidade, se carcomendo pelos séculos.

Cada carta era um signo, cada signo representa algo, que penetra fundo nas águas escuras do incosciente, algumas disparam fagulhas de luz, outras evaporam diante dos olhos

se tornando nuvens, e outras apenas são cartas, cartas da mesma matéria que são composto os sonhos.

João inicia sua prece, escrevendo seus novos mandamentos, suas leis emergem dos sentimentos que florescem nos peitos virgens de tristeza, só seu sangue poderia alimentar

a terra, e a certeza que esse é um mundo alucinado,

Que

galopa

turvo

em

trova

e rimas

de

um

labirintico

eco

do

início ao fim

Entre dados e cartas do baralho João sabe, sua jornada se inícia, eis que nasce o último dos profetas.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.