Mais Uma Vez
3 Capítulo II
Ouvi um barulho ensurdecedor ao meu lado. O despertador. Acordei e o dia nem estava claro. Fiquei pensando na noite anterior e em como Clara insistiu para que vivesse de verdade ao invés de ficar presa naquela cidade, onde eu nem sequer tinha muitos pacientes. Fiquei na cama mais uma hora, pensando no que iria fazer.
Quando decidi o que ia fazer, me levantei e fui tomar um banho. Ao sair, me olhei no espelho. Meus cabelos começaram a me incomodar, eram longos demais, chegavam a minha cintura e por isso me imaginei com eles curtos. Seria uma ótima mudança. Um ótimo começo. Em seguida fui tomar café, ninguém estava acordado, todas as minhas manhãs eram assim, vazias. Sentava-me à mesa, colocava meu café, depois comia algumas frutas. Às vezes encontrava Clara e conversávamos um pouco, geralmente quando ela acordava cedo. Abri o armário para ver o que tinha para comer e vi, um pote de vidro cheio de cookies, pensei em como nosso esforço na noite anterior foi em vão. Depois que comi, saí de casa para fazer caminhada. Não conseguiria aguentar um dia inteiro trabalhando sem correr de manhã.
O dia estava um pouco nublado, mas ainda assim, perfeito para correr. Eu precisava de férias. Enquanto corria, planejava como iria viajar. Decidi que iria experimentar passar minhas férias em Nova York e depois escolheria se continuava a morar naquela cidade ou não. Eu adiei minhas férias no ano anterior, então tinha, exatamente, dois meses de férias. O suficiente para aproveitar uma cidade nova.
Ao chegar em casa, encontrei meu pai e minha mãe tomando café. Apesar de tudo, eles tinham essa mania estranha, meu pai sempre visita mamãe e todas as quintas tomam café juntos, principalmente depois do diagnóstico do câncer, há alguns anos. Mas nunca cuidou de nós como antes. Ainda sinto que ele gosta muito dela, mas meu pai não aguentou suas implicâncias, exigências e reclamações. Ao ver aquela cena, lembrei-me de quando era mais nova e que sempre acordávamos cedo, tomávamos café todos juntos e depois brincávamos até a hora da escola.
Estavam sentados, um de frente para o outro, cada um com sua xícara de café. Mamãe ainda estava de pijama, com os cabelos presos em um coque bagunçado. Sempre foi muito charmosa, meu pai tinha motivos para amá-la e não tratava-se apenas da beleza, mas também de seu lado bom que subitamente foi escondido. Meu pai estava com uma camisa cinza, completamente largado, como se tivesse acabado de acordar, colocado aquela camisa e vindo diretamente para casa. Ambos estavam sorridentes. Estavam conversando sobre o casamento. Desde que Clara e Jake anunciaram o casamento, o assunto mais comentado na casa era aquele.
— Bom dia, filha.
— Bom dia, pai. O que faz aqui tão cedo? — Dei-lhe um beijo em sua bochecha antes que pudesse responder.
— Tomar um café com essa fera na minha frente. Também precisava saber se ela não está sufocando alguém.
— Thomas...— Minha mãe o repreendeu.
— O quê? — Falou, fingindo-se de desentendido somente para irritá-la.
Mamãe voltou-se para mim e perguntou:
— Eleanor, o que você prefere: rosas amarelas ou jasmins no buquê?
— Bom dia, dona Alice. — Suspirei — Prefiro que Clara decida sozinha, mamãe. O casamento é dela.
Ela poderia ter pelo menos me cumprimentado com um "bom dia", mas ela só pensava no casamento, sabia somente conversar comigo sobre isso. Peguei meu celular que estava em cima do balcão da cozinha e subi para meu quarto sem esperar uma resposta. Ainda cheguei a ouvir meu pai comentando "Alice, por favor...".
Apesar de estar feliz por Clara e Jake, a notícia do casamento deles não estava ajudando na minha relação com mamãe. Nossa relação nunca foi boa e tudo começou um período antes da separação dos dois. Eram apaixonados, companheiros e davam atenção para Clara e eu. Repentinamente mamãe mudou, tornou-se incoerente, árdua, completamente distinta e absorta. Nós nunca entendemos o porquê daquela mudança, mas desde então, ela não nos tratou como antes, tornou-se insuportável a ponto de papai a deixar. Sei que ele sabe o motivo disso tudo, mas nunca nos contou, e ela também nunca tocou no assunto. Sempre que tentávamos, ela fugia, rodeava ou discutia. Desde aquela mudança e a separação, nunca mais nos entendemos, sempre achei que ela fosse a culpada por permitir que papai saísse de casa e mesmo depois de não sentir aquele rancor de mamãe, nunca conseguimos nos entender novamente, ela também nunca mais voltou a ser a mesma. Vez ou outra eu ouvia alguns cochichos vindo da cozinha, pareciam estar falando do passado, a forma como papai falava que ela havia mudado e como ela reagia friamente afirmando que ele poderia ter evitado tudo isso. Eles ainda se amavam, eu tinha certeza, a forma como agiam ou como trocavam olhares. Ainda desconfiava que tivessem reatado algum tipo de relacionamento, como um namoro às escuras ou que esperam todos saírem de casa para terem um tempo só deles para relembrar os velhos tempos. Mas já não estava na idade de me preocupar com isso. Eu tinha que esquecer o passado e seguir em frente, viver minha vida. Tudo poderia mudar inclusive minha relação com ela quando eu for embora. Poderia mudar para melhor.
Quando entrei no quarto, procurei o número dentro do antigo diário e percebi que estava na hora de ligar, não tinha nada a perder.
— Alô, Lucy Smith?
— Sim, é ela. Quem é? — Eu tinha me esquecido de como sua voz era aguda. Pelo jeito não havia mudado muito.
— É a Eleanor, irmã de Clara.
— Moore?
— Sim, ela mesma.
— Olá Eleanor, como você está? — Já não gostava do meu nome, e na voz dela, tudo piorava. Mas ela parecia ser simpática, apesar de tudo.
— Bem, obrigada. Eu soube que você está morando em Nova York... e bem, eu estou pretendendo passar minhas férias aí...
— Não se preocupe — Falou como se tivesse entendido — eu apresento tudo para você. Apenas uma pergunta: você vai ficar em um hotel?
— Sim, mas eu não sei qual seria o melhor pra mim.
— Olha, não é para todas as pessoas que dou esse privilégio, mas como você é irmã da Clara, ela já me falou algumas vezes sobre você e como brincamos juntas quando crianças, se quiser, pode ficar aqui no meu apartamento. Eu moro bem próximo ao Tompinks Square, você vai gostar, tenho certeza. É uma ótima localização.
Clara falava sobre mim? Aquilo era uma surpresa. Lucy parecia ser tão tagarela e simpática. Na infância, ela simplesmente era pequena e bobinha, não falava tanto. Sempre muito sisuda, meus pais sempre tiveram um pouco de dificuldade em fazer amizade com ela, quando mais nova.
— Ela falou?
— Não se preocupe, apenas suas virtudes. Ah, e acredite, sairá muito mais caro se hospedar em um hotel. — Soltou uma risada e prosseguiu — Aqui você só terá que ajudar com a comida, porque passo a maior parte do tempo fora, almoço em restaurantes e costumo sair de noite.
— Então, se não for incomodar realmente...
Ela soltou outra risada estridente.
— Mas é claro que não! Eu gosto de receber pessoas na minha casa. Geralmente são de confiança, assim como você. Mas quando você vem?
— Estou pretendendo ir daqui a dois dias.
— Uau! Tão rápido assim?
— É que eu estou precisando urgentemente de férias.
— Eu entendo... — Ela bocejou — Bem, você pode ficar à vontade para vir à hora que quiser. Apenas me avise para que eu possa buscar você.
— Obrigada, muito obrigada! Não se preocupe, eu avisarei quando estiver saindo daqui.
A decisão estava me deixando ansiosa, finalmente iria sair e experimentar algo diferente, completamente diferente do que eu estava acostumada. Ao desligar, fiquei encarando o celular, absorta em pensamentos. Mas eu ainda não tinha comprado as passagens, precisava fazer isso o quanto antes. Peguei o notebook que estava em cima do criado mudo, sentei em minha cama e comecei a busca por passagens de avião. Encontrei um voo de Nova Jersey para Nova York de uma hora da manhã, no sábado. Era esse que eu queria. Comprei a passagem na mesma hora, só faltava avisar a meus pais e minha irmã. Eu nunca tinha viajado sozinha, seria a primeira vez e aquilo me causava arrepios.
Fui tomar um banho e me preparar para trabalhar. Nunca foi minha paixão ser psiquiatra, mas esta era uma profissão que sempre me interessou. Contudo, nunca tive um grande número de pacientes, então tudo sempre foi muito monótono. Eu queria mais que aquilo, eu queria poder ter casos que me fizessem sentir orgulho do que fazia e ver que pude ajudar de verdade, ver a melhora de alguém, ver que ela saiu daquela situação. Sentia falta de algo que nunca tive. Quando saí novamente do banheiro, olhando-me no espelho, tive certeza que queria mudar. Conferi a hora no celular e vi que ainda estava cedo, dava tempo de passar na casa de Mary, uma amiga que conheci na faculdade e pedir pra ela cortar meu cabelo. Liguei antes, para perguntar se estava muito ocupada. "Claro que não, pode vir" disse ela, quando liguei. Escolhi um vestido preto de mangas curtas para ir trabalhar, foi o primeiro que avistei. Passaria na casa de Mary para cortar meu cabelo e seguiria para o consultório, não antes de avisar o que tinha decidido a meus pais. Aproveitaria que os dois estavam em casa e daria a notícia de uma só vez.
Desci as escadas e fui até a cozinha à procura de meus pais para contar-lhes as boas novas. Infelizmente os encontrei da pior forma possível, ou melhor, ainda não tinha certeza. Mamãe estava encostada no balcão da cozinha, apoiando-se nele com um dos braços. O outro braço estava em volta do pescoço de papai, que a segurava pela cintura. Ambos riam, fiquei parada na soleira da porta, gelada, sem saber se saía dali ou se atrapalhava o momento. Nenhum dos dois notou minha presença, não estava entendendo, não demorei muito tempo no quarto. Foi quando começaram os beijos, e pensei no quanto estavam rindo e que não devia atrapalhar. Aquilo foi uma surpresa, mas confirmava minha antiga suspeita. Não iria avisar que ia viajar, decidi que faria isso no outro dia. Passei no quarto de Clara, ela ainda estava dormindo, acordei-a e pedi para que não fosse à cozinha. Expliquei o que aconteceu naquela manhã e o que tinha acabado de ver. Antes de terminar a explicação, ouvimos um barulho de coisas caindo no chão. Pensamos que estavam discutindo, mas ignoramos e eu continuei a falar. Já era comum as brigas de nossos pais serem dessa forma mais violenta, geralmente era mamãe jogando alguma coisa no chão para não dar um tapa no rosto de papai. Ao terminar a explicação, percebemos que não houve gritos, nenhum grito. Clara deu um pulo da cama, estava tão curiosa quanto eu para saber o que estava acontecendo com os dois. Quando estávamos passando pelo corredor, prontas para descer a escada, ouvimos um barulho confuso vindo do quarto de mamãe. Encostamos nossos rostos na porta para termos certeza que não nos enganamos com o que estávamos ouvindo. Não nos enganamos. Algumas coisas haviam caído no chão e em seguida risadas, sons de beijos e algumas sacanagens. Entreolhamo-nos e saímos correndo. Quando descemos a escada começamos a rir.
— Eu não acredito no que ouvi! Não sei se ridicularizo isso ou se fico feliz. — afirmou Clara.
— Prefiro não falar o que acho. Tudo bem, talvez os dois.
A princípio não acreditei, porque não esperava isso dos dois. Amavam-se e estava em seus olhos, no entanto a dureza de mamãe nunca nos permitiu achar que fariam isso de verdade. Quando chegamos à cozinha, vimos a bagunça que tinham deixado. Só não entendia por que não disfarçaram. Sabiam que Clara e eu estávamos em casa. Não comentaram nada comigo quando os encontrei mais cedo. Quiseram fazer uma surpresa ou será que não esperavam? Aquilo foi estranho, iriam realmente falar que estavam juntos ou acharam que dessa forma seria melhor? Será que aquela pergunta de mamãe mais cedo, foi para se livrar de mim? Ao menos poderiam ser discretos. Mas não importava. Importava que estivessem bem. Clara disse que não queria estar em casa quando os sons piorassem então me pediu para que a esperasse. Infelizmente iria me atrasar para o trabalho e por isso não a esperei. Decidimos também não arrumar a cozinha. Seria melhor que pensassem que não vimos ou ouvimos o que fizeram.
Dirigi até a casa de Mary, que ficava no caminho para o trabalho. Quando cheguei em sua casa, a loira já estava com tudo pronto para o corte.
— Então, o que vai querer?
— Corta. Corta na altura do ombro. Bem aqui. — Indiquei com a mão que queria acima do ombro.
— Tem certeza?
— Corta imediatamente, Mary. Sem piedade.
Ela deu de ombros e pegou todo o cabelo, juntou com uma só mão e cortou. Fechei meus olhos e senti uma pontada em meu peito. Meus olhos encheram-se de lágrimas e pensei que não deveria ter feito aquilo, mas já era tarde. Ele cresceria novamente. Não sentia mais o peso dele, nem seu comprimento. Não conseguia abrir os olhos, só ouvia o barulho da tesoura cortando-o ainda mais. Mary terminou cerca de quinze minutos antes do meu expediente começar. Em nenhum momento abri meus olhos, não tive coragem. Apenas quando ela falou que tinha terminado, abri os olhos. Minha cabeça estava baixa e a primeira coisa que vi foi mais da metade do meu cabelo no chão. Quando olhei no espelho, vi como estava diferente. Demoraria certo tempo para acostumar-me com o novo corte, mas estavam até bonitos, com cachos enormes nas pontas, volumosos. Havia ficado tão diferente, um diferente bom. Depois de tudo o que tinha acontecido naquela manhã, tinha certeza que estava pronta pra enfrentar o resto do dia.
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