Mais Uma Vez
2 Capítulo I
Notas iniciais
Era mais um dia comum. Atendendo pacientes em todas as situações possíveis, que já vinham encaminhados de algum psicólogo. Faltavam apenas duas semanas para meu aniversário e tudo estava da mesma forma: sem novidades interessantes, minha irmã mais nova prestes a se casar, minha mãe me apressando para que tomasse o mesmo rumo que ela e um paciente em minha frente repetindo várias vezes a mesma coisa. Eu já sabia exatamente como acabaria aquele dia e aquilo estava me cansando. Era nova demais para me sentir daquela forma, mas toda a minha vida eu coloquei metas para cumprir e estava realizada. Mas havia algo inefável, que ainda me incomodava. Desejava que aquele dia terminasse o quanto antes.
Quando cheguei em casa, minha mãe estava com Clara no sofá, olhando os convites para o casamento.
— Querida, pode vir aqui? Precisamos da sua ajuda.
Eu não queria ajudar, estava exausta. Eram exatamente oito horas da noite e eu só estava querendo um banho e um jantar em família, sem compromissos. Fora que toda vez que se tratava do assunto "casamento da Clara" teria que ser forte para aguentar todas as indiretas da senhora Alice, mais conhecida como "mamãe". Segui em direção ao sofá e larguei minha bolsa no chão, senti o olhar crítico de minha mãe sobre mim mas não a peguei de volta, apenas sentei ao lado de Clara que me entregou alguns convites de sua mão. Eram bonitos, refletiam a personalidade dela, na verdade. Eram simples mas muito elegantes, de um branco envelhecido com alguns pequenos riscos dourados, quase imperceptíveis, nas laterais e uma letra que parecia ter sido escrita por uma caneta-tinteiro.
— Mas estão perfeitos! Por que precisam da minha ajuda? — Tentei falar para me livrar do futuro compromisso que me seria imposto.
— Para o cômputo, temos que ter certeza que estão todos aqui. — Clara respondeu.
— Tudo bem, quantos convidados foram?
— Juntando todos, cerca de duzentas e cinquenta pessoas.
— Então eu ajudo, acho que terminamos isso logo.
Eu realmente estava enganada. Mamãe parou no trigésimo convite que contava e foi dormir. Não antes de me insinuar que eu já estava na idade de casar.
— Ficaram muito lindos, não acha Eleonor? — Ela me falou enquanto segurava dois convites, um em cada mão, ambos estavam na altura de seus olhos.
— Sim, mamãe, Clara escolheu muito bem.
— Quem diria que a minha filha mais nova iria se casar primeiro que a mais velha? — Não quis responder. Não valia a pena e nem Clara se manifestou, então ela prosseguiu — Você já está com vinte e oito anos, acho já está mais que na hora de encontrar alguém para viver, quem sabe seguir sua irmã e casar, ter filhos um dia...
— Mãe...— Clara chamou sua atenção — Nem eu estou pensando em filhos, quanto mais Ele que tem coisas mais importantes para conquistar agora.
— Não é a hora dona Alice, e quando for, eu envio um convite para a senhora. — Tentei descontrair mas ela não gostou do tom da brincadeira.
— Eu criei minha família quando tinha apenas vinte anos e isso não me impediu de viver, nem teve hora certa. Tudo em minha vida foi bom. — Ela começou a ficar com o rosto corado.
— Não vou me casar para viver brigando com uma pessoa e depois...
— Está bem. Encerrado o assunto.— Clara não permitiu que eu terminasse de falar — Não vamos discutir por uma coisa tão boba como esta, não é Eleonor?
— Você está certa, Clara. Agora, se me deem licença, vou para o quarto. Está um pouco tarde. Boa noite.
— Boa noite — Respondemos em uníssono.
Eu tinha passado dos limites ao tentar falar da separação dos meus pais. Ela sempre ficava irritada quando tocávamos no assunto, mas eu também ficava irritada com aquela cobrança. O sonho de mamãe era me ver casada, primeiro que minha irmã. Mas eu queria realizar meus sonhos, então nunca tive um relacionamento sério de verdade. E com o tempo, depois de conseguir terminar a faculdade, priorizei meu trabalho e ela. O tempo passou e eu já estava com vinte e oito anos e minha irmã de vinte e cinco iria se casar primeiro que eu. Não era um futuro casamento que me deixava aflita ou a ausência dele. Sentia que alguma coisa me faltava mas não era a presença de alguém, eu ainda não sabia o que era aquele vazio, mas queria descobrir.
Clara e eu acabamos contando todo o resto. Comecei contando os convites enquanto ela olhava se o nome estava na lista, quando cheguei no centésimo convite, trocamos as funções: ela contava enquanto eu procurava.
— Trezentos e quarenta e seis... Katherine Mitchel Armstrong... achou?
— Achei.
— Trezentos e quarenta e sete... esse é para Lucy Alisson Smith.
Procurei por um momento aquele nome e percebi que havia passado a caneta por cima do mesmo algumas vezes. Isso aconteceu porque apenas o abajur ao meu lado estava ligado e a noite já havia caído a certo tempo.
— Achei, está aqui.— Aquele nome me era familiar — Essa Lucy... é aquela nossa antiga vizinha?
— É sim, mantive contato com ela.
— Onde ela está morando?
— Nova York. Está trabalhando em um museu. É restauradora, agora.
— Nossa, que sorte a dela, lembro-me que era louca para ir morar em Nova York.
Lucy foi uma vizinha que tivemos na infância, ela era mais amiga de Clara, talvez tenha sido por isso que mantiveram contato. Brincávamos por horas nos finais de semana e quando Lucy foi embora, nossas tardes nunca mais foram as mesmas. A notícia de Lucy estar morando em Nova York me deixou quieta, lembrou-me de sonhos que pretendia viver mas não pude.
Clara revirou os olhos ao me ouvir falar, e depois me olhou de esgueira ainda com o convite de Lucy na mão. Eu sabia que ela começaria a me questionar.
— E por quê você não vai?
— Porque tenho tudo aqui. Minha vida está aqui, meus amigos, minha família, meu trabalho. Foi apenas um sonho antigo, agora sei que não conseguiria viver em uma cidade como aquela.
— Nunca saberá se não tentar. Você pode passar só as férias, não será tão ruim. Uma parte de você está implorando isso. — Ela colocou a mão em meu ombro direito e me encarou — Ela não precisa mais de você, mamãe está bem e eu também cresci. Viva seu sonho.
Clara sempre foi minha grande amiga. Nunca fui muito comunicativa por isso Clara era a única que me entendia. Era com ela que conversava nos meus piores momentos e era quem eu brigava quando sentia que estava certa.
Era certo que tive que abri de mão daquele sonho para cuidar da minha mãe. Ela teve câncer e eu precisava ajuda-la e cuidar de Clara. Mas com o passar dos anos, percebi que era um sonho bobo, que estava acostumada a vida pacata daquela cidade e talvez fosse muito estressante viver em Nova York. Mas naquele momento percebi que estava tudo resolvido. Mamãe estava com uma saúde de ferro, Clara estava preste a casar e eu só estava deixando de viver.
— Eu vou pensar nisso — Ficamos em silencio por alguns segundos. — Toda essa conversa me deu fome.
Seus grandes olhos castanhos me encararam, como se tivessem entendido o que eu queria dizer.
[...]
— Me entregue esses cookies logo, Clara!
— Espera, não precisa gritar! Mamãe pode nos ouvir.
— Eu estou cansando, pegue rápido, você é pesada!
Resolvemos pegar os cookies que mamãe guardava na cozinha, mas estavam na parte mais alta do armário e não éramos altas o suficiente para alcançar. Então coloquei Clara em meus ombros, já que era mais leve que eu, para que tentasse pegá-los. Não que dona Alice escondesse, mas ela tem uma mania absurda de guardar as coisas mais saborosas, a nosso ver, nos lugares mais altos. Juntas ficávamos com três metros e dezenove centímetros. Mas Clara não conseguia equilibrar-se em cima dos meus ombros, então ficava sentada neles, o que diminuía drasticamente o nosso tamanho.
— Consegui! Coloque-me no chão.
— Eu não sei como!
—Espera...
Ela suspirou e tirou uma perna de cada vez dos meus ombros, pendurando-se em minhas costas. Soltou um dos braços que estava em volta do meu pescoço e quase caiu no chão, havia desequilibrado por causa da lata que estava em uma das mãos.
— Ela colocou atrás de todas as caixas de cereais! Estava difícil de tirá-la.
Começamos então a rir, ao ver como éramos desastradas. Costumávamos afirmar que era genética aquela nossa capacidade. Comemos os cookies ali na cozinha mesmo. Ela tomava um copo de leite e eu um café como acompanhamento. Não era o correto, mas estávamos nos divertindo, sentadas naquele chão frio avermelhado. Lembrando da nossa velha infância. Quando fazíamos lanches de madrugada juntas, conversando sobre algum garoto bonito ou a garota que implicava comigo por ser maior que eu. Estávamos lá, esquecendo um pouco da nossa idade, fingindo que não tínhamos problemas ou contas para pagar. Aquela noite foi nostálgica.
Decidimos terminar de contar os convites no dia seguinte. Estávamos cansadas e eu tinha que trabalhar no outro dia. Quando entrei no meu quarto, ela apareceu na porta me chamando. Quase levei um susto ao vê-la parada na soleira da porta.
— Eleanor, quer ser minha madrinha de casamento? Eu sei que isso não lhe convém, e que eu deveria ter perguntado antes, mas você quer?
— Por que só agora me pede isso?
— Porque só agora tive coragem. Achava que não iria querer, que iria ser grossa comigo. Mas eu tinha que perguntar.
Não entendia o por quê dela achar aquilo, mas eu não enxergava problemas em ser sua madrinha. Por que eu era mais velha? Uma bobagem.
— Tudo bem, contanto que não me coloque em um vestido ridículo, serei sua madrinha.
Ela deu alguns pulinhos com um sorriso enorme no rosto. Depois se sentou em minha cama enquanto eu procurava uma roupa para dormir, mas eu não estava achando. Procurei na última gaveta do guarda-roupa mesmo sabendo que não ia encontrar lá. Ali ficavam alguns papéis velhos, anotações sobre o que acontecia em minha vida, chamava-os de relíquias por serem antigos. Sabia que não encontraria o pijama, mas por algum motivo eu queria procurar ali. Desisti de procurar o pijama e comecei a olhar os papéis. Fiquei comovida com a cena na cozinha, Clara e eu não tínhamos tempo de conversar, ambas trabalhávamos, ela sempre saía com Jake e quase nunca nos encontrávamos em casa, a não ser pela manhã. O casamento foi um bom pretexto para nos aproximarmos novamente e a cada papel que pegava naquele momento, eu lembrava de alguma coisa. Quando apalpei o fundo daquela gaveta, senti algo diferente, achei que fosse um bloco de anotações, mas quando peguei, vi que era meu diário de quinze anos.
— O que está procurando?
— Eu estava procurando um pijama, mas então olhei para a gaveta e pensei que poderia encontrar alguma coisa interessante aqui. Faz um certo tempo que não abro essa gaveta.
— Mas você não guarda suas tralhas nessa gaveta?
— Não são tralhas, são relíquias.
— Que seja, mas o que é isso na sua mão?
— É um diário. — Ela correu em minha direção e ficou de joelhos ao meu lado. — Uma bobagem.
— Vamos, dê uma olhada. Eu quero saber o que você escrevia.
— Não tem nada de interessante aqui.
Ela tomou o diário de mim, e começou a folheá-lo e em seguida lendo-o.
— Mas aqui tem mais desenhos do que segredos. Não há nada de relevante. — Ela folheou mais uma vez e ficou observando-o — Espera, achei um desenho... é de Nova York.
Encaramo-nos por cerca de um minuto. Estávamos conversando, sobre aquele mesmo assunto sem pronunciar uma palavra.
— Você precisa de férias.
— Talvez. — Afirmei enquanto encarava o diário em suas mãos.
— Eu acho que você deve ir o quanto antes. Todos nós estamos com nossas vidas feitas, Eleanor, não vamos precisar de você. Não vai querer viver o resto da sua vida nessa casa, ou vai?
— Clara... — Peguei o diário de sua mão e olhei a página que observava — Talvez seja uma boa ideia, mas não tenho certeza.
Era um desenho de um arranha-céu. Lembrei-me do dia em que o desenhei e em como tive que esquecê-lo para ajudar minha mãe, ajudar a criar Clara, estudar e em seguida erguer minha profissão para ajudar minha família. Agora não havia motivos para continuar naquela casa, naquela cidade. Eu poderia mudar, sair e começar uma vida só minha. Estava carregada de preocupações desde que meus pais se separaram, medos e frustrações. Eu precisava me divertir. Eu precisava viver sem que houvesse alguém me cobrando algo ou tendo que ver o tempo passar de uma forma monótona e rotineira.
— Aqui está, anote esse número. — Quando olhei para ela, estava como celular na mão.
— De quem é esse número?
— Da Lucy. Espero que tome essa decisão certa o quanto antes. Ela é bem simpática, não precisa se preocupar onde você vai ficar. Ela mora sozinha, então eu acho que não terá problemas em hospedar você por algum tempo. Qualquer dúvida é só me chamar, boa noite.
Anotei o número que estava em seu celular e fiquei sentada no chão, olhando para o número e para o desenho. Em pleno os vinte e oito anos de idade estava tendo uma crise de existência. Eu precisava respirar. Estava na hora de viver.
— Boa noite...
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