Mais Que Um Segredo...
39 Capítulo 39 - Espaço e tempo...
Quinn comia o lanche que Rachel levou para ela. Depois de dias, ela finalmente comia de verdade.
Frannie as observava atentamente. Ela esteve ao lado da irmã naqueles dias difíceis. Ela sabia como a presença de Rachel mudava tudo. Mas ao mesmo tempo em que sabia que era o que Quinn precisava, sabia também que era o que podia afundá-la ainda mais. E aquilo a preocupava.
Quinn estava sob sua responsabilidade. Mais uma vez. Aquilo não era nenhuma novidade. Desde sempre a família Fabray foi disfuncional, apesar de tentar mostrar às pessoas uma imagem bem tradicional. Mas Frannie lembrava muito bem das inúmeras viagens de seus pais sem levá-las junto. Ela assumia a criação de Quinn, mesmo quando ainda nem era uma adulta. Russel e Judy estavam preocupados demais em construir um império financeiro. Depois veio a política... Ter um pai senador se mostrou ainda mais solitário para elas.
Russel era atencioso. Isso elas não poderiam negar. Ele ligava, mandava e-mails e se mostrava interessado em saber como elas estavam. Já Judy era uma máquina fria que movia a vida profissional do marido para o mais longe possível das filhas. Uma mulher que nunca confiou em empregados e que deixava as filhas sozinhas numa mansão vazia...
Quinn era produto da sorte e do amor da irmã. Não fosse Frannie, era difícil saber o que tinha sido da vida da loira em sua solidão... O tempo que passou na Europa fez Frannie entender que não poderia ficar longe da pessoa que mais amava na vida, a irmã que mais parecia parte de seu corpo, sua metade. Ela não poderia mais deixar Quinn à mercê dos pais estarem ou não na cidade. Ela exigiu um apartamento deles, porque sabia que um dia esse apartamento serviria como um refúgio para sua caçula. As lágrimas de Judy quando a ouviu dizer que não voltaria da Europa, com o tempo, pareciam uma espécie de lamento por ter que criar Quinn sem a ajuda dela. Não parecia mais saudade...
Agora Frannie olhava a irmã quase indefesa no sofá daquele apartamento que agora era delas e sentia cada vez menos falta da mansão fria e vazia na qual cresceram, o símbolo máximo da solidão de suas infâncias. Elas tiveram uma a outra. Agora mais do que nunca...
Ver Quinn apaixonada por Rachel não foi nenhuma novidade para Frannie. Ela sabia que aquele dia chegaria. Desde sempre ela soube que sua irmãzinha era gay. E ela esperou pacientemente o passar dos anos até que ela aflorasse seus sentimentos e tivesse coragem de assumir, ainda que não fosse para o mundo inteiro...
Vê-la com o coração despedaçado foi doloroso demais. Ir falar com Rachel foi apenas uma pequena prova do que Frannie é capaz de fazer por Quinn...
F: Rachel... Eu vou sair e deixar vocês à vontade. Posso confiar que vai ficar tudo bem?
Q: Frannie! [repreendeu]
F: Posso confiar, Rachel? [ignorou a irmã]
A morena se sentiu constrangida diante do tom da cunhada. Ela sabia que Frannie podia ser sua amiga, cúmplice e o que de melhor podia existir. Mas também sabia que se fosse para proteger Quinn, Frannie poderia se transformar em seu pior pesadelo. Então ela precisava impedir que as coisas perdessem o equilíbrio...
R: Pode confiar! [garantiu]
Frannie se aproximou de Quinn e deu um beijo em sua testa:
F: Vou fazer a nossa feira, mas não demorarei. Comporte-se!
Quando a loira mais velha saiu, um silêncio se instalou no apartamento. Quinn não sabia o que falar... É certo que a morena chegou ali atenciosa, mas o calor do momento foi se dissipando aos poucos...
R: A escola parece que não funciona bem sem você...
Um sorriso meigo nos lábios de Rachel fez Quinn se sentir quase que em paz novamente...
Q: Difícil de acreditar nisso... [sorriu sem humor]
R: Duvida? O coral não progrediu, nem as Cheerios... Tudo parece que desmorona um pouco se você não está...
Rachel já não se referia mais à escola. Não... Agora ela falava sobre si mesma, numa sinceridade camuflada... Mas Quinn entendeu...
Q: O que eu preciso fazer para tudo voltar ao normal?
R: Nada. [disse sincera] Tem coisas que só o tempo resolve...
Q: Eu não gosto de depender do tempo.
R: Não se trata de gostar ou não. É assim que é...
A morena se levantou e levou as mãos aos bolsos da calça que usava, tentando esconder o nervosismo que suas mãos deixavam transparecer...
R: Eu preciso de um tempo, Quinn. [disse quase hesitante] Isso não tem a ver com o que eu sinto por você. Tem a ver com o que eu sinto sobre isso tudo. Eu preciso de tempo e espaço para digerir essa história. Para não descontar em você a frustração que eu estou sentindo.
Quinn sentiu como se todo seu interior congelasse. Era frio dentro de si sem Rachel... Ela assentiu silenciosamente. O que mais ela poderia fazer?
R: Eu preciso que você respeite meu espaço e que me prometa que ficará bem...
A loira a olhou com os olhos vermelhos:
Q: Quanto tempo?
R: Eu não sei... Eu não sei, Quinn... [voltou a se sentar, passando as mãos nervosamente nos cabelos] Só preciso que você me dê espaço e tempo. E que não pense que eu te amo menos por isso. Eu preciso que você fique bem. Eu preciso que você me prometa isso. Que vai ficar bem...
Q: Meus pais viajaram a vida inteira e sempre me deixaram pra trás. Sozinha naquela mansão. Sozinha com Frannie... [disse apática]
R: O que isso tem a ver com a gente?
Q: Estou acostumada a ser deixada pra trás...
R: Não estou deixando você pra trás, Quinn! [protestou] Você não pode usar sua solidão de uma vida inteira como analogia para o nosso relacionamento. E eu não posso simplesmente anular o que sinto para não te chatear.
Q: Eu não estou te pedindo que faça isso!
R: Então aonde você quer chegar me dizendo isso?
Foi a vez da loira se levantar. Quinn caminhava de um lado para o outro, passando as mãos nos cabelos, tentando raciocinar sobre o que estava acontecendo ali, até que parou e a encarou séria:
Q: Lugar nenhum, Rachel... Lugar nenhum... Faça o que quiser! [disse irritada]
R: Quinn...
Q: Eu não vou te implorar pra ficar comigo. [interrompeu] Eu não vou te pedir que faça algo que você não quer!
R: Não deturpe as coisas! [disse nervosa]
Q: Deturpar o quê?
R: O que eu estou dizendo. Não estou dizendo que não quero ficar com você. Isso é tudo o que eu quero. Mas eu preciso de um tempo pra mim.
Q: Eu já te pedi desculpas. [gesticulava nervosa] Eu já me arrependi por não ter te contado sobre não ser mais virgem. Eu já demonstrei meu arrependimento e te falei o quanto tudo isso me dói. Do que mais você precisa? [erguia a voz] Por que ficar longe de mim vai ajudar? Você está com tanta raiva assim que não pode ficar perto? Se está com tanta raiva o que veio fazer aqui, então? Por que dizer que me ama se não quer ficar comigo?
R: Porque eu te amo! [gritou]
Q: Então fique comigo! [gritou de volta] Vamos conversar quantas vezes forem necessárias, mas fique comigo. Fique perto de mim!
R: Eu preciso, Quinn... [começava a chorar] Eu preciso de um tempo. Por favor, respeite isso!
Ver Rachel chorar, fez Quinn se sentir encolher. Ela não queria vê-la chorar. Não mesmo! Se ela surtia esse efeito na morena, havia algo muito errado ali e ela não ia querer perpetuar aquilo... Ela se sentiu mal, como há muito tempo não se sentia...
Q: Ok... Eu respeitarei. [disse séria] Você terá seu tempo e seu espaço... Eu não vou te procurar. Não vou falar com você. Não estranhe se parecer que estou te ignorando, pois farei o possível para não atravessar seu caminho além das vezes em que estaremos dividindo o mesmo espaço, como no coral. Eu não quero estar com você se for pra te fazer sofrer...
R: Quinn... Não é assim... Não exagera!
Q: Exagerar? [indignou-se] Como exagerar?! Você está chorando, Rachel! [exaltou-se] Como se estar comigo fosse doloroso. Que tipo de pessoa você acha que eu sou? Acha que eu quero ficar com você a qualquer custo, mesmo se você estiver sofrendo? Não! Eu não! Mas também não sei o que fazer diante do seu tempo e espaço... Como eu devo agir? Devo olhar você passar por mim o tempo todo e ficar me perguntando quanto tempo ainda falta para que eu possa estar com você novamente? Isso se você ainda me quiser depois de usar seu precioso tempo para pensar sei lá em quê... Vamos ter que regredir na nossa relação e eu terei que fingir que não te conheço? Que você não existe pra mim?
Quinn parecia cada vez mais nervosa e Rachel começava a se arrepender por aquela conversa...
Q: Você tem noção do que eu sinto por você? [aproximou-se dela] Do que você significa pra mim? Tem noção da transformação que a sua existência fez na minha vida? Tem? [parecia furiosa] Você acha que existe um botão onde eu te desligo em mim? Você acha que eu posso te apagar da minha memória? Das minhas vontades? Acha que do dia pra noite você se torna uma pessoa comum e não a minha namorada? Você acha que seu corpo não vai mais me interessar? Num piscar de olhos? Que eu vou ouvir sua voz por acaso e não vou me lembrar dela no meu ouvido? Acha que eu vou esquecer seu cheiro? Acha mesmo que posso apertar um simples botãozinho onde eu simplesmente me desfaço de você por um tempo e fica tudo bem?
Rachel levou as mãos ao rosto e chorou ainda mais...
R: Você não pode jogar essa responsabilidade em mim! Eu não tenho culpa se...
Q: Você tem sim! [gritou] Você tem culpa do que eu sinto sim! Porque você me deu de volta o amor que eu te dei. Porque você mergulhou de cabeça comigo nessa. Porque você me permitiu ver que não há nada de errado comigo. Em amar você. [começou a chorar também] Tem culpa sim! Porque você me mostrou que amar você é bom... E eu errei. Eu errei sim! E me arrependo por ter errado. Muito! Eu me arrependo de ter magoado você, mesmo sem querer. Mas eu não entendo por que não podemos resolver isso juntas! Eu não entendo como parece tão fácil pra você se desfazer de mim!
R: Quem disse que é fácil?! [irritou-se] Não menospreze o que eu sinto. Quem disse que eu não estou me despedaçando por dentro?
Q: Então por que você não fica? Por que não fica comigo e deixa de se despedaçar?
R: Porque eu tenho o direito de cuidar de mim. Eu tenho o direito de fazer as coisas à minha maneira.
Rachel viu surgir um sorriso triste no rosto de Quinn. A loira ergueu as mãos em rendição:
Q: Ok... Longe de mim tentar privá-la de seus direitos...
R: Quinn... Não faz isso...
Quinn se afastou dela o máximo que pôde, indo em direção à cozinha...
Q: Pode ir... Muito obrigada pelo lanche! Como não chegaremos num consenso... Vá! Use o espaço e o tempo que quiser. [disse cansada] Fique à vontade. Não vou te aborrecer...
A morena se levantou rápido e avançou sobre ela, beijando-a desesperadamente. Quinn não pôde fazer outra coisa além de retribuir o beijo. Porque ela a amava. Porque ela precisava daquilo...
R: Eu te amo! [cortou o beijo] Não importa como será daqui pra frente. Isso não muda o fato de que eu te amo...
Q: Mesmo assim você precisa ficar longe de mim?
R: Eu te amo! [insistia] Eu te amo, Quinn! Eu te amo! Eu te amo!
Quando Frannie chegou, tentando equilibrar as compras, deparou-se com Quinn sentada no sofá com os cotovelos apoiados nas coxas e as mãos na cabeça, chorando de forma convulsiva, como se não existisse ar circulando ao redor. Largou os pacotes no chão e correu em direção à irmã, puxando-a para seus braços. Parecia que Quinn entraria em colapso. Ela chorava de uma forma descontrolada que parecia que não acabaria nunca. Frannie a apertou o quanto pôde. Ela precisava fazer aquilo parar...
Foram necessários muitos minutos até que Quinn se acalmasse. Frannie não perguntou nada. Apenas ficou ali, à disposição. Sendo força, sendo presença... Quinn levou as mãos aos olhos, tentando enxugar as lágrimas, sabendo que não adiantaria muita coisa...
Q: Acabou! [disse rouca]
F: Como assim, “acabou”?
Q: Ela me pediu um tempo... Quer dizer, ela decidiu que precisa de um tempo...
F: Então não acabou...
Quinn a olhou apática:
Q: Tem alguma diferença?
F: Tem muita diferença, Quinn! Muita!
Q: O que me garante que depois desse tempo ela vai continuar me querendo? Como eu posso me encher de esperança se estou apavorada? [choramingou]
Frannie sorriu suavemente:
F: Tenha paciência e espere.
Q: Quanto tempo?
F: O quanto você conseguir. O quanto você achar suficiente...
Q: Ok... [respirou fundo] Vou tomar um banho e te ajudar a arrumar as compras...
Como num passe de mágica, a loira mais nova se levantou e não parecia mais desesperada. Ela não parecia mais ela mesma... Talvez Rachel não soubesse... Talvez ninguém soubesse a força que Quinn poderia ter diante das coisas. Mas Frannie sabia. Ela conhecia a força e as fraquezas da irmã. E ela sabia que, naquele minuto, Quinn estava de pé. E quando ela estava de pé, ela poderia ser a força mais intensa do universo. Mas quando ela caía... Quando ela caísse de novo... Frannie estaria lá. Como sempre esteve...
Enquanto isso, Rachel chorava no colo de Hiram. Leroy tentava entender o que houve:
R: Não quero falar sobre os motivos, pai... Só que estamos dando um tempo e eu não sei se essa foi a melhor decisão que eu poderia ter tomado... [falava entre soluços]
L: Então é você quem está dando um tempo. Você! Se foi uma decisão sua, então por que você não volta atrás?
R: Eu não posso brincar assim com os sentimentos dela. Nem com os meus. Eu sinto que preciso desse tempo. Só não sei como vou manejar isso se eu a amo tanto...
Leroy se abaixou diante dela:
L: Filha... Não esqueça que esse tempo pode fazer muito mais do que você imagina...
R: O que, por exemplo?
L: Ele pode afastar vocês de uma maneira que torne difícil se reaproximar. Ele pode dar a vocês uma perspectiva diferente dos seus sentimentos e acabar com tudo o que vocês construíram...
R: Mas, pai! Você sequer sabe o que houve. [choramingava]
L: Você está aqui chorando, sem ter certeza se tomou a decisão certa. Então suponho que Quinn não fez nada tão atroz assim...
R: Ela me magoou...
Leroy deu um beijo na testa da filha e se levantou novamente:
L: Só espero que vocês não fiquem tão distantes ao ponto de não terem mais sequer relevância na vida uma da outra. Não há nada mais triste num relacionamento do que se tornar irrelevante para a outra pessoa. Tão irrelevante que se torna incapaz até de causar algum tipo de mágoa...
Rachel sentiu seu coração quase parar de bater...
[CONTINUA...]
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