Mais Que Um Segredo...
19 Capítulo 19 - Tudo o que ela quis ouvir...
Rachel sentiu o puxão forte em seu braço e quase gritou. Quase... Como se fosse um padrão, e era, Quinn levou a mão à boca da morena e a impediu de chamar atenção. Como um excelente cúmplice, Puck colocou a placa de “Manutenção” em frente ao banheiro tão logo a porta se fechou, assim como Quinn havia determinado.
R: Que palhaçada é essa, Quinn? [desvencilhou-se irritada]
Q: Palhaçada? [perguntou confusa]
R: Achei que tivéssemos passado dessa fase... [afastou-se dela]
Q: E eu achei que estivesse tudo bem entre a gente.
R: Deveria estar?
A irritação de Rachel era nítida e não era em vão. Fazia quase uma semana que elas não se viam fora da escola. Desde que os pais de Quinn voltaram de viagem, a loira não apareceu na casa da morena. Ela até tentou, mas apareceram mil e um compromissos familiares, e Judy parecia sentir que a filha estava escondendo algo, pois não saía de perto dela. Ela não podia dar bandeira. Não podia! Até Frannie teve dificuldade em ficar sozinha com a irmã, já que Quinn fugia de uma conversa mais séria, sabendo que iria ouvir mais coisas sobre contar à Rachel seu outro segredo. Enquanto isso, a morena se corroía de saudade e de raiva em casa. Suas tardes já eram delas e se tornaram solitárias novamente...
Q: Eu achei que você tivesse entendido que...
R: Eu entendi! Por dois dias. Mas no terceiro eu já não consegui entender. Eu sou sua namorada. [disse firme] Mas há dias eu não te vejo fora da escola. E pra completar o problema, na escola eu não tenho a sua autorização para falar com você. Eu não posso te ligar porque seus pais podem ver seu celular. Nem posso mandar mensagem. Tenho que esperar você encontrar um momento que ache ser seguro para me mandar uma mensagem quando eu já estou dormindo. Então se não há interação, eu não sei como considerar que esse namoro está bem.
Q: Eu entendo. Eu só...
R: Você não entende! [interrompeu] Não entende! Não entende que é frustrante querer falar com você, perguntar como você está, como foi sua noite, mas não poder! E te ver o tempo todo cercada por Cheerios e pelo Sam babando em você não ajuda muito!
Q: Ele não baba em mim! [contestou]
R: Baba! Ele baba em você! [insistiu] A escola toda baba em você! Todo mundo tem um pouco da sua atenção ou da sua presença. E o que me sobra? Seus olhares nem sempre são o suficiente!
Rachel estava nervosa como nunca havia estado. Naquela fase do relacionamento ela precisava sempre estar mais perto. Ela precisava de contato. Mas, assim que se abriu sobre seus desejos, os encontros cessaram e dias pareceram anos de saudade e frustração... Encostou-se à pia, levando as mãos aos olhos. Respirou fundo e passou a segurar firme a porcelana atrás de si:
R: Como está seu ombro? [mudou o foco]
Q: Já estou bem... [tentou se aproximar]
R: Não! [pediu] Eu estou chateada, Quinn... [disse desanimada] Com saudade, mas chateada!
A loira se apressou e se aproximou, levando as mãos ao rosto da morena e fazendo-a encarar:
Q: Me desculpe! Eu quis estar com você o tempo todo. Eu quis... Eu quero! Não fica chateada comigo...
Seu tom era preocupado, sufocando um desejo desesperado de implorar para que ela não desistisse...
R: O que estou sentindo por você é maior do que eu gostaria que fosse... Eu não estou sabendo lidar com isso... [confessou com a voz embargada] Eu...
Quinn a beijou. Não havia argumento melhor do que um beijo. Não entre elas... Naquele beijo ela pedia pra mudar de assunto. Naquele beijo ela pedia para Rachel aguentar. Naquele beijo ela pedia permissão para cortejá-la. Naquele beijo ela pedia mais beijos como aquele...
Foi a própria Quinn quem parou o beijo. Rachel não se moveu para se afastar, nem nada. Manteve-se parada, sentindo a respiração da namorada batendo contra seu rosto, fazendo-a se arrepiar...
Q: Se meus pais descobrirem sobre mim... Sobre nós... Nada de bom vai acontecer. [afastou-se um pouco para olhá-la] Você tem pais diferentes, que enxergam o mundo de uma maneira melhor. Os meus pais não... Eu entendo que isso é cansativo para você, mas é o que eu posso dar agora... Eu preciso que você tenha paciência...
Rachel se moveu e afastou as mãos da namorada de si. Caminhou para se afastar um pouco:
R: Dê um jeito de fazer dar certo. De melhorar isso. Porque chega uma hora que esse charme do segredo, o prazer de ser escondido já não faz tanto efeito. Porque eu preciso de você mais do que tenho.
Q: Não é fácil estar no meu lugar! [demonstrou certa irritação]
R: Você me beijou primeiro! Você me beijou primeiro! [repetiu] Eu estava na minha, vivendo a minha vida. Sendo uma perdedora aos olhos da maioria dos alunos dessa escola. Eu não precisava que você bagunçasse tudo! Eu não precisava que você virasse tudo do avesso e entrasse na minha vida como um furacão. Eu não pedi por isso! Eu não busquei! [demonstrava irritação] Mas hoje eu preciso de você! [confessou com a voz trêmula] Você é tudo o que não busquei e que sempre precisei sem querer precisar...
Ela não conseguiu segurar. Chorar era inevitável. E ela chorou... Quinn estava pasma. Mais uma vez, Rachel cheia de palavras a deixava sem palavra nenhuma...
R: Eu tenho um namorado fake para encobrir um namoro do qual me orgulho. Eu me orgulho de você e de estar com você. [enxugava as lágrimas] Deus! Como eu posso não me orgulhar de estar com Quinn Fabray? Mas como eu posso me sentir satisfeita se quando quero te beijar eu não posso? Se não posso te ver quando quero? E eu tenho precisado disso de uma forma que eu nem quero explicar. Porque já me ofereci demais a você... [deu de ombros]
Q: Você está terminando comigo? [perguntou assustada]
R: Não! [respondeu rapidamente] Que absurdo! Claro que não! [garantiu] As mesmas coisas que eu te disse semana passada ainda estão vivas. Meu desejo por você, tudo... O que eu acabei de dizer...
Q: Você está me confundindo...
Rachel caminhou com calma até ela e foi sua vez de segurar o rosto da loira entre suas mãos, encarando-a com calma pela primeira vez naquele dia:
R: Eu não estou sabendo lidar com esse sentimento e todos esses obstáculos entre sentir e praticar. Você me atropelou... Você me atropelou... [sorriu triste] Eu não queria sentir isso agora. Eu não queria que fosse logo. Que fosse cedo... Eu não quero ser pegajosa, nem parecer a louca que não sabe esperar ou entender o que você diz. É só que existe uma batalha acontecendo entre o que eu ouço de você e o que eu sinto. Entre o que você me dá e entre o que eu preciso. Preciso de você... Não se trata de terminar, mas de não brigar mais. Não estou querendo acabar, mas estou querendo gritar com você, fazer greve de beijos, te dar um pouco da agonia que eu sinto quando te quero por perto e não tenho... Eu... [respirou fundo] Eu definitivamente, não queria sentir isso agora...
Q: Isso? [perguntou confusa e um tanto assustada] Defina isso...
Rachel sorriu suavemente e a beijou delicadamente, afastando-se em direção à porta antes que Quinn pudesse impedi-la de sair. A morena segurou a maçaneta e olhou para trás com um sorriso que só ela era capaz de dar:
R: A definição de “isso” é: Eu te amo, Quinn Fabray! O que mais poderia ser?
Ela tinha ouvido aquilo mesmo? Rachel Berry havia dito que a amava? Quinn estava paralisada no mesmo lugar. O som da voz da morena tinha se propagado naquele banheiro com as palavras que ela não esperava ouvir naquele momento. Mas era tudo o que ela quis ouvir saindo da boca de Rachel Berry. A sensação não era nada parecida com o que ela poderia imaginar. Era melhor. Era maior... “Eu te amo, Quinn Fabray” era a forma mais verdadeira de reconhecê-la como ela realmente era. Rachel Berry era a única pessoa no mundo a quem ela mostrava as fragilidades. E ela a amava, mesmo depois de conhecê-la por inteiro. Os beijos escondidos, o soco no armário, a queda da pirâmide, as noites mal dormidas, as tardes passadas na casa da morena... Tudo, absolutamente tudo tinha valido a pena...
Ela não percebeu quando começou a chorar e ela não se lembrava quando tinha se sentido tão feliz. Logo concluiu que nunca havia se sentido daquela forma... Rachel era a primeira em tantas coisas...
Enquanto isso a morena tremia. Não sabia que teria coragem de dizer o que estava sufocado já há algum tempo na garganta. Ela já quis dizer em outros momentos, mas não achou que fosse a hora certa. Os olhos verdes que a hipnotizavam também a deixavam sem coragem às vezes. E ela finalmente disse... As mãos trêmulas também estavam frias. A segurança que ela havia passado ao dizer tinha sido mesmo um milagre, porque ela estava se desfazendo em nervosismo. Deixar Quinn pra trás não foi resultado de sua chateação, mas foi a garantia de não se frustrar com a possibilidade de não ouvir de volta. “Covarde”... Ela murmurava para si mesma, até que foi interrompida por Kurt em direção à sala do coral. Só então se deu conta de que estava na hora do Glee Club e, inevitavelmente, ela encontraria Quinn novamente...
Quando a loira entrou na sala buscou-a imediatamente com o olhar, mas Rachel se manteve firme em não encará-la. Não confiava em si mesma naquele momento e tinha certeza de que daria bandeira. Quinn estava nervosa, ansiosa, louca para continuar aquela conversa, mas se segurava para que ninguém percebesse seu estado de espírito. Decidiu seguir o jogo da morena e deixar aquilo para depois. Caminhou até sua cadeira e se sentou calma, como sempre fazia. Mas ela não conseguiria ficar tão calma assim. Rachel estava à sua frente, com os cabelos sedosos tão lindos cujo cheiro ela adorava. Oh Deus! Ela precisava esquecer um pouco... Mas era impossível!
A morena estava louca para olhar para trás, mas não o fez. Ela não podia... Sabia que Quinn a olhava. Era como se pudesse sentir os olhos dela cravados em sua cabeça. Puxou um pouco os cabelos para o lado a fim de deixar o pescoço um pouco exposto. Ouviu os pés da cadeira de Quinn arrastando no chão. Seu coração palpitou ao perceber que a loira ficou inquieta por alguns segundos. Ela tinha mesmo mexido com ela...
Senhor Schue: Meninos, eu estive pensando na nossa preparação para as Regionais e já quero decidir logo quem será nossa voz principal. Mas, para não ser injusto, quero que vocês escolham. Por isso, faremos uma votação... Aberta!
Um clima de revolta se instalou na classe, com Mercedes e Kurt tomando a frente das reclamações, achando um absurdo deixar a decisão nas mãos dos colegas, sabendo que Santana estava ali para perturbar e não para ajudar. A latina se enfureceu e passou a disparar insultos em espanhol que Brittany jurava que eram lindos elogios aos colegas. O que ninguém estranhou foi a ausência de manifestação de Rachel. A morena, normalmente, seria a primeira a se levantar e a apresentar uma infinidade de argumentos que justificariam sua escolha por ser a mais qualificada. Mas ela estava calada. Ela queria ser a voz principal? Queria muito! Mas naquele momento ela estava mais preocupada em deixar o pescoço um pouco exposto ao olhar de Quinn Fabray. Afinal, a namorada merecia um pouco de tortura depois de deixá-la dias sozinha. Como se dizer que a ama e sair sem que ela tivesse a chance de dizer alguma coisa não fosse tortura suficiente...
Nenhum argumento foi capaz de fazer o professor mudar de ideia. Ele foi perguntando um a um quem indicariam para representá-los individualmente. Kurt e Rachel dispararam na frente até que chegou o momento do voto de desempate. Rachel pensou em olhar para trás mais uma vez, mas se segurou. Ficou para Quinn o voto de minerva e toda a sala estava com os olhos petrificados na capitã das Cheerios. Ela não pôde ver, mas a morena havia adquirido uma expressão conformada. Ela sabia que o voto seria em Kurt. Quinn não iria se expor...
A loira olhou ao redor e manteve a pose firme de sempre. Sabia o que todos estavam pensando e não poderia culpá-los. Mas nem tudo era tão óbvio assim...
Q: Rachel!
Uma gritaria se formou na sala e gritos de “Não acredito!” na voz de Santana explodiram no recinto. Rachel achou que tinha ouvido errado e precisou de alguns segundos para entender que Quinn havia votado nela. Era tão claro para todos que Quinn Fabray escolheria Kurt, por todas as diferenças que havia entre elas, mesmo que no passado.
S: Por quê? [perguntou indignada] Onde você está com a cabeça, Fabray?
A loira não respondeu nada. Não tinha que responder. A pose continuou intacta, embora estivesse apavorada por dentro. Será que alguém iria desconfiar de alguma coisa?
P: Relaxa...
O sussurro de Puck perto de seu ouvido foi um alerta de que nem todo mundo estava alheio ao que ela realmente sentia ali...
E como se fosse um verdadeiro jogo de gato e rato, Rachel fugiu assim que a aula terminou. Ela não queria encarar Quinn. A incerteza de se tinha feito a coisa certa ao falar que a amava começava a aparecer. Teria sido cedo demais?
L: Filha, não seja dramática!
R: Mas eu sou dramática!
Leroy preparava o jantar. Havia chegado mais cedo em casa e teve que ouvir uma extensa sessão de desabafo da filha.
L: Você a ama. Você disse. Ponto. Não tem que se lamentar por ter falado ou coisa assim.
R: Mas ela não me ligou. Não mandou mensagem. [dizia agoniada] Eu posso tê-la assustado!
L: Você fugiu feito uma franguinha. [debochou]
R: Pai! [repreendeu] É sério! Não ficamos juntas há dias, tivemos uma conversa tensa no banheiro, eu disse que a amo e fugi. Ok! Mas ela poderia ter me ligado e mandado alguma mensagem.
L: Ligue você. Mande você uma mensagem!
R: Mas, pai! Eu só...
O som da campainha interrompeu seu raciocínio...
L: Vá abrir a porta. Deve ser o vinho que encomendei.
R: Pai, temos uma adega cheia de vinhos e você ainda gasta dinheiro com mais?! Incluindo o gasto com a entrega...
L: Deixe de reclamar, estrelinha... A vida é uma só!
Rachel pegou o dinheiro sobre o aparador e bufou ao ver como era cara aquela garrafa de vinho branco que seu pai havia encomendado. Deparou-se com outro tom de branco ao abrir a porta. Quinn estava parada segurando uma nova rosa branca, trajando um vestido floral que a deixava tão mais linda que era impossível acreditar que era mesmo possível...
A loira deu um sorriso de canto de boca ao perceber que havia deixado a morena sem palavras. Ela estava realmente surpresa, pois não a esperava de forma alguma ali. Não naquele dia. Já não sabia mais o que esperar...
Sem pedir licença, Quinn deu um passo à frente fazendo Rachel despertar do transe momentâneo e dar-lhe espaço para entrar em sua casa.
R: Eu não... Eu não sabia que você viria hoje... [disse um pouco nervosa, quase a ponto de explodir de felicidade]
Q: Eu não posso demorar... [entregou-lhe a rosa] Mas eu precisava vir. Para dizer que você não devia ter dito aquilo e ter saído daquela forma.
R: Eu... Eu... Eu só...
Rachel gaguejava. Era impossível não gaguejar. A forma como Quinn a olhava era intensa. Muito intensa! A loira se aproximou ainda mais e levou a mão esquerda ao rosto da morena, sentindo-a se arrepiar ao toque:
Q: Como eu falei... Você não devia ter dito aquilo e ter saído daquela forma. Não é o correto a se fazer quando você diz tudo o que eu tanto quis ouvir... [sorriu suavemente] E, principalmente, porque você me roubou a chance de dizer primeiro.
Quinn não estava tranquila. Longe disso! Estava nervosa. Tentava não tremer e estava se saindo bem, mas o nervosismo estava lhe fazendo companhia sem pretensão de ir embora...
R: Hã? [ela não podia acreditar no que estava ouvindo]
Q: Eu te amo, Rachel Berry. E eu te amo antes...
[CONTINUA...]
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