Mais Que Um Segredo...

27 Capítulo 27 - Riscos válidos...


Rachel correu em direção a Hiram abraçando-o o mais forte que podia. Ela tinha em seus dois pais o porto mais seguro que alguém poderia ter. Era impensada a hipótese de perder um dos dois. Para eles, ela era a princesa do mundo inteiro, a estrela mais brilhante, a mente mais criativa que já habitou o planeta. Para ela, eles eram o conforto, a confiança, a fé...

R: Diga que vai ficar tudo bem! [pedia chorando]

H: Vai ficar tudo bem, meu amor... Vai ficar tudo bem! [beijava-lhe o topo da cabeça]

Quinn e Noah avistavam a cena a uma distância respeitável. Era um momento em família e eles não queriam atrapalhar. A loira estava preocupada com as consequências do que houve, pois sabia que a namorada não resistiria à perda do pai. Havia uma simbiose especial na família Berry e nada poderia substituir aquilo...

Hiram passou a caminhar em direção a eles segurando a mão de Rachel para que ela o acompanhasse:

H: Obrigado por virem! [sorriu cordialmente]

Q: Eu espero que fique tudo bem logo! [disse sincera]

N: Eu também!

H: Eu sei! Obrigado!

Q: Nós podemos ajudar?

A pergunta de Quinn seria instintiva se tivesse sido feita por qualquer pessoa. Seria apenas um ato de educação. Mas, sendo ela, não era apenas isso. A loira realmente queria fazer alguma coisa. Ela queria parecer útil e disponível para a família da namorada...

H: Apenas façam companhia à Rachel enquanto eu resolvo as questões burocráticas do hospital.

R: Mas papai! [olhou agoniada] Eu quero vê-lo!

H: Querida... Você não pode vê-lo ainda. Ele está fazendo exames.

R: Ele está consciente?

H: Ele está sedado. Sente-se... [indicou-lhe uma cadeira] Eu volto já...

Noah se afastou um pouco, pois sabia que Quinn gostaria de ficar a sós com Rachel. Elas se sentaram lado-a-lado, tentando evitar a vontade louca de se tocarem. Quinn sabia que não poderia arriscar ser vista tendo qualquer contato físico carinhoso com a morena, mas lhe doía negar isso a ela...

R: Você me abraçou na escola... [murmurou]

Q: Meu pai faz parte do Conselho do Hospital... Muitas pessoas aqui sabem quem eu sou...

R: Entendo... [disse triste]

Q: Rach... [chamou-a carinhosa] Olha pra mim... [a morena obedeceu] Estou aqui com você!

R: Eu sei...

Q: Eu estou aqui com você! [repetiu]

R: Eu sei... Eu só... Me desculpe! [levantou-se] Eu preciso caminhar...

Q: Não!

Quinn se levantou e a puxou pelo pulso. Tudo o que Rachel pôde sentir foi o abraço quente da loira. Aquilo a surpreendeu...

Q: Eu não vou deixar que você se sinta sozinha na minha presença... [disse em seu ouvido] Se estar presente não é suficiente...

Rachel sentiu certa amargura na voz de Quinn e percebeu que estava sendo infantil. A loira estava ali com ela, depois de ter se exposto diante dos alunos da escola. Ela estava com ela! Pareceu egoísta de sua parte só considerar presença o toque, o abraço, quando o que Quinn estava fazendo já era mais do que ela poderia esperar... Ela se soltou e a olhou constrangida:

R: Desculpe... Eu não quis dizer isso...

Q: Não se desculpe... [respirou fundo] Não se...

Quinn foi interrompida pela figura de Hiram voltando àquele corredor. Ele parecia nervoso...

H: Filha... Precisamos levar seu pai a outro hospital...

Ele tentava parecer calmo, mas seu nervosismo estava bastante evidente:

R: O que houve? [perguntou preocupada]

H: Um problema com o seguro saúde. Eles não vão cobrir os procedimentos pelos quais Leroy terá que passar. Não temos condições de cobrir os custos daqui. Vamos levá-lo a outro.

R: Mas isso é seguro? Ele pode sair?

H: Deve ser... [passou as mãos nos cabelos] Eu vou ligar para outros hospitais e...

A loira percebeu as mãos trêmulas de Hiram ao pegar o celular. Era óbvio que ele não tinha a menor certeza sobre a segurança de Leroy ao ser movido de um hospital para outro. Ele sequer sabia se conseguiria pagar os custos de outro lugar. Quinn pôs a mão sobre a dele e o impediu de fazer qualquer ligação:

Q: Não faça isso! [disse calma]

R: Por quê? [perguntou confusa]

Q: Hiram... [olhou-o diretamente nos olhos] Meu pai faz parte do conselho do hospital e é um dos maiores investidores e acionistas daqui. Eu posso falar com ele.

H: Não! [disse firme] Você não precisa fazer isso, Quinn! Isso não tem nada a ver com você e sua família. Nós daremos um jeito! [sorriu agradecido, porém bastante nervoso]

Q: Que jeito?

H: Eu não sei... Eu...

Q: Deixe que eu faça isso! [interrompeu-o]

H: O que você vai dizer? [perguntou preocupado] Como vai nos ligar a você?

Q: Eu darei um jeito!

Quinn estava apavorada. Falar com Russel sobre aquele assunto não lhe parecia a melhor das ideias, mas ela não poderia deixar que a família de Rachel passasse pelo que estavam passando sem que ela fizesse alguma coisa.

Q: Não tente transferi-lo antes de eu falar com meu pai...

A loira se moveu para sair quando Rachel a seguiu tentando entender se ela estava certa do que fazia.

R: Por que você está fazendo isso?

Q: Por quê? [olhou-a confusa] Como por quê? Seu pai está precisando.

R: Você não precisa se expor dessa forma! Eu não quero que você consiga um problema pra você tentando resolver um problema que não é seu.

Q: E eu devo fazer o quê? Deixar seu pai enlouquecer à procura de um hospital que ele possa pagar? Deixar seu outro pai correr risco ao ser transferido por causa de burocracia?

R: Eu não sei! [choramingou] Eu não sei! Eu não quero te prejudicar!

Quinn a olhou por alguns segundos e segurou as mãos da morena discretamente. Desviou os olhos para o chão...

Q: Me desculpe por não te abraçar o tempo inteiro em público! Me desculpe por não te dar esse tipo de carinho na frente das pessoas... Mas fizemos amor nesse fim de semana e eu espero que isso seja suficiente para deixar claro a você de que eu estou de verdade ao seu lado. [voltou a olhá-la] E se posso fazer com que seu pai seja tratado no melhor hospital da cidade, talvez do Estado, eu o farei. E espero que isso valha mais do que um abraço no meio de um corredor...

Rachel engoliu em seco. Quinn estava arriscando alto para fazê-la se sentir bem...

R: E se o preço disso for alto demais? [perguntou temerosa]

Q: Ao menos seu pai estará a salvo em casa...

Ao dizer aquilo a loira sorriu, mas não foi um sorriso feliz. Ela estava com medo e Rachel sabia disso. Quinn pediria um favor a Russel envolvendo a família da namorada que ele sequer poderia sonhar que ela tinha. Ela daria a ele conhecimento sobre um lado desconhecido de sua vida. Ela pedia a Deus que ele não fosse capaz de desconfiar de nada...

Rachel se perguntava se tinha entendido certo. Enquanto Quinn caminhava para sair dali, ela se preguntava se as palavras da loira quiseram dizer o que ela entendeu: que Quinn arriscaria a relação delas para garantir que Leroy ficasse bom. Ela torcia para ter entendido errado.

Sentiu a mão de Noah pousar em seu ombro, tirando-a do transe em que se encontrava:

N: Ela foi falar com o pai dela?

R: Sim... [murmurou] Noah... Você acha que ela é capaz de arriscar nosso relacionamento para garantir que meu pai fique aqui?

N: Ela é capaz de qualquer coisa para garantir que você não sofra...

R: O que isso significa?

N: Significa o que eu acabei de dizer...

O que ele disse parecia ter mais de um significado, mas ela não iria se preocupar em entender. Pelo menos por enquanto...

Quinn sentia o cheiro de costela assada pela casa. Era o prato preferido de seu pai e um dos que ele mesmo fazia questão de preparar. Caminhou em direção à cozinha e se deparou com Russel vestindo o avental de “melhor pai do mundo” dado por ela e Frannie há alguns anos.

Q: Oi, papai!

Russel: Hey! [virou-se sorridente] Sentiu o cheiro de costela pelas ruas da cidade?

A loira se aproximou e o beijou no rosto...

Q: Não... [sorriu]

Russel: Porque só isso explica eu te encontrar em casa a essa hora. Você só quer saber dos seus treinos e da sua irmã. [reclamou em tom de brincadeira]

Q: Não é assim, papai...

Russel: Filha... [pegou um pano para limpar as mãos enquanto a olhava carinhoso] Nós viajamos demais! Estar em Washington é importante para o meu cargo, mas eu sinto falta de vocês! Eu gostaria de te ver mais em casa quando estamos aqui. Eu não quero sentir que perdi seu crescimento...

Q: Desculpe... É que a escola me toma bastante tempo!

Russel: Eu sei... [beijou-a na testa] Só estou sendo um velho resmungão!

A loira caminhou para se sentar em um dos bancos do balcão de mármore, enquanto Russel descrevia os ingredientes que ainda faltava colocar nas panelas. Ele percebeu o silêncio da filha e se virou para olhá-la. Desligou o fogo que estava acesso:

Russel: Algum problema, filha?

Q: Mais ou menos...

Russel: Fale... [disse calmo]

Q: O pai... [limpou a garganta] O pai de uma amiga minha está internado no Saint Patrick. Mas a família dela teve um problema com o seguro saúde e eles terão que ir para outro hospital.

Russel: Isso é ruim! E você está preocupada com isso, certo?!

Q: Papai... Eu sei que é pedir demais, mas o senhor não poderia autorizar a permanência dele lá?

Russel: O que ele tem? [aproximou-se dela]

Q: Ele sofreu um infarto e estava fazendo exames no hospital quando soube que o seguro não cobriria.

Russel: Filha, eu não administro o hospital.

Q: Eu sei... Mas é uma das vozes mais ativas ali. E eu sei que o senhor investe.

Russel: Invisto...

Q: Por favor, papai! [pedia com a voz embargada]

Russel: Calma... Quem é sua amiga?

Q: Hã?

Russel: Quem é sua amiga? Você está com a voz embargada. Suponho que é uma grande amiga sua. Alguém importante.

Q: Sim... [respondeu um pouco nervosa] Rachel Berry...

Russel: Não a conheço ainda, não é mesmo?!

Q: Não... Não a conhece...

Russel se afastou do balcão e pôs a mão no bolso, retirando o celular. Quinn o observou por alguns segundos até entender que ele deveria estar atendendo ao seu pedido...

Russel: Berry... Qual o primeiro nome?

Q: Leroy...

Russel: Ok... Vou ligar para Peter e dizer que trate o pai da sua amiga por minha conta.

J: Você tem certeza de que quer fazer isso?

A voz de Judy se fez presente na cozinha. Quinn sentiu a frieza na voz da mãe penetrar em seus poros e arrepiar sua espinha dorsal...

Russel: Por que não teria? [perguntou confuso]

J: Leroy Berry é aquele homem casado com outro homem...

Russel olhou confuso para a esposa e depois olhou para Quinn. A filha entendeu seu olhar de questionamento e assentiu levemente com a cabeça, confirmando o que a mãe havia dito...

Russel: Certo... É um homem casado com outro homem, mas que ainda precisa de um bom tratamento médico para seu coração, correto?!

J: Você quer mesmo ajudá-lo, Russel? Deixe que outras pessoas façam isso.

Russel: Por que eu não o ajudaria se eu posso ajudar, Judy?

J: Eles representam um dos pecados que você tanto despreza...

Russel: Mas ele ainda é um homem que tem uma filha para cuidar. Uma filha que é amiga da nossa filha.

Quinn estava dividida entre o egoísmo da mãe e a generosidade do pai. Russel não aceitava a homossexualidade como algo normal e todos sabiam disso, mas ela não poderia negar que o pai era um bom homem. Mesmo diante de toda sua ignorância, ele tinha um bom coração que era capaz de não fazer distinção entre quem dele precisasse...

Russel lavou as mãos e retirou o avental. Fez sinal para Quinn se trocar e subiu as escadas. Desceu rapidamente com uma roupa diferente, chamando a filha para acompanhá-lo:

Russel: Desculpe... Eu precisava colocar uma roupa que não estivesse cheirando a carne e você precisava tirar aquele uniforme de líder de torcida. Não é a roupa adequada para ir a um hospital.

Q: Papai, o senhor não precisa ir...

Russel: Eu quero conhecer sua amiga. E preciso assinar uns papéis para liberar qualquer coisa...

Enquanto entravam no carro, Judy os olhava com os braços cruzados no vão da porta. Se tinha uma coisa que ela detestava, era quando seu marido agia sem levá-la em consideração.

No caminho, Russel ligou para Peter Monroe, diretor do hospital, pedindo que providenciasse a documentação necessária para que ele assinasse a liberação do tratamento de Leroy. Mandou Quinn pedir à Frannie para ir à casa deles e terminar o jantar.

Rachel estava deitada no ombro de Hiram quando Noah a cutucou apontando discretamente para o fim do corredor. Quinn caminhava ao lado de Russel Fabray. A expressão da loira era tímida, mas nada que desse qualquer bandeira:

Russel: Senhor Berry? [parou diante dele estendendo a mão]

H: Sim... [cumprimentou-o]

Russel: Sinto muito pelo ocorrido! Mas tenha certeza de que ele receberá o melhor tratamento possível aqui no Saint Patrick!

H: Senhor Fabray... Nós não podemos pagar pelos custos. Esse é um hospital de luxo, digamos assim...

Russel: Minha filha me pediu que permitisse que o outro senhor Berry pudesse ser tratado aqui. Eu não posso negar um pedido da minha Quinnie. Principalmente por se tratar de alguém importante para alguém que é importante para ela... [virou-se para a morena] Você deve ser Rachel. [sorriu-lhe cordialmente]

R: S-sim... [respondeu nervosa]

Russel Fabray já havia feito muitos discursos homofóbicos. Ele pregava uma ideia de que duas pessoas do mesmo sexo não poderiam constituir uma família. Sua presença ali, diante dos Berry era bastante contraditória. Mas seu amor por suas filhas nunca foi contraditório. Ele sentiu o tremor na voz quase chorosa de sua filha ao pedir aquele favor em nome de uma grande amiga. Então ele não via o preconceito, ele não via a homossexualidade dos pais da garota. Ele via uma jovem com medo de perder um de seus pais e via a própria filha com medo de ver a amiga sofrer. Por nenhum segundo passaria por sua cabeça que se tratava de sua filha pedindo para ajudar a família de sua namorada... Era um pensamento impossível de ter. Pelo menos, por enquanto...

Russel: Não se preocupe, querida! [sorriu para a morena] Seu pai ficará bem! [garantiu]

R: Obrigada! Eu nem sei como agradecer!

Russel: Não precisa, querida... [sorriu-lhe educado] Quinnie... Eu vou à administração assinar os papéis... Senhor Berry... [olhou-o calmo] Se qualquer coisa faltar, por favor, fale com a Quinn. Ela saberá o que fazer...

Russel se virou e caminhou em direção ao elevador, sumindo rapidamente do campo de visão de todos. Rachel não poderia acreditar naquilo...

H: Quinn, eu... Eu não sei como agradecer... [começou a chorar]

Q: Por favor... Não agradeça... Não foi nada demais!

R: Foi sim! Foi sim... [olhou-a agradecida] Você está tremendo... Isso quer dizer que não foi tão fácil como você faz parecer...

Q: Está tudo bem! [sorriu] Está tudo bem!

R: Como foi que você conseguiu? O que você disse a ele?

Antes que Quinn explicasse, a atenção de todos desviou para o barulho que vinha de vozes chegando. Finn, Kurt, Mercedes, Sam e Brittany chegavam para dar força à Rachel. Quinn se afastou rapidamente, antes que alguém pudesse perceber qualquer coisa. Finn envolveu Rachel em um abraço apertado enquanto os outros diziam palavras de incentivo a ela. A morena não conseguia tirar os olhos da loira e foi impossível não perceber o incômodo nos olhos verdes...

Russel voltou e cumprimentou a todos novamente, segurando o braço de Quinn para que ela o acompanhasse:

Russel: Está tudo resolvido, querida! [dirigiu-se à Rachel] Seu pai ficará bem! Agora temos que ir...

R: Obrigada! Eu nem sei como agradecer! Deus o abençoe!

Q: Até mais... [disse sem graça]

Rachel a viu se afastar na companhia de Russel. Ela viu o misto de admiração e medo que a loira sentia pelo pai. Ela a queria ali com ela, mas talvez fosse mesmo pedir demais! Quinn tinha pedido algo grandioso a Russel, correndo o risco de ser descoberta. Ela tinha se arriscado muito! É claro que não poder interagir com Rachel da forma que queria a deixava triste. E tudo ficava pior com a presença de Finn, dando a atenção que ela deveria dar. Ao menos Noah continuava lá e enquanto ele estivesse ela saberia que ninguém tomaria seu lugar...

Elas tiveram um fim de semana perfeito, mas ele tinha acabado. Naquele dia Quinn fez mais por Rachel do que a morena poderia sonhar. Naquele dia o amor de Quinn foi maior do que tudo. A morena entendeu que demonstrações de afeto em público não valiam tanto quanto impedir que ela sofresse. Ela seria capaz de fazer o mesmo?

[CONTINUA...]

Notas finais
Espero que gostem! Comentem! Beijos!