Mais Que Um Professor
11 Capítulo 11 - À La Lolita
Saí da sala extasiada, com os músculos da barriga contraídos de felicidade. Quando eu iria imaginar que o maravilhoso Vitor me esperaria no mesmo lugar de ontem? A sensação de que se eu abrisse bem os olhos tudo iria desaparecer, era constante. Seu efeito era alucinógeno, me fazia flutuar.
Desci as escadas e avistei meu (é correto chamá-lo de meu?) querido Vitor, estava conversando com a professora Lena.
Lena é nossa professora de artes desde o primeiro ano. Todos gostam dela, inclusive eu. Sempre disposta a nos confortar e dar bons conselhos. Suas aulas são muito especiais. Tem idade para ser nossa mãe, ou avó. Sempre bem vestida e nunca nega um sorriso para ninguém.
Os dois estavam conversando próximo a cantina. Tentei passar despercebida, mas não consegui. Professora Lena sorriu amistosamente pra mim:
– Anna!
Vitor me olhava de forma impassível. Como consegue? Fui até ela para cumprimentá-la.
– Que vestido bonito – sorri.
– Obrigada, querida Anna!
Vitor, que agora estava atrás dela, finalmente sorriu pra mim. Mas não um sorriso educado, um sorriso descarado. Mal sabia eu que ele era capaz de ativar sentimentos que até então eu desconhecia. Não vejo a hora de me encontrar com ele...
Olhando para o responsável pelos meus devaneios, comecei a me despedir:
– Professora Lena, preciso ir agora. Desculpa atrapalhá-los. Foi bom vê-la, até amanhã.
Andei uns três passos quando me lembrei de que esqueci algo. Virei para trás e disse:
– Tchau, professor Vitor – ele sorriu.
Após uns cinco minutos esperando no mesmo lugar de ontem, ele chegou. Abaixou a janela e disse:
– Vim buscar a aluna particular do professor Vitor, é você?
Ri, e entrei no carro.
– Não via a hora de a professora Lena terminar a conversa comigo...
– Estava com pressa para algum compromisso?
– Sim – virou para mim e sorriu.
Um compromisso com a sua aluna. Se alguém viesse do futuro me contando que eu iria desfrutar bons momentos com meu charmoso professor de física, eu nunca iria acreditar.
Ele colocou sua mão em meu joelho e aquele toque avivou todas as borboletas do meu estômago.
Notei que havíamos passado o beco:
– Para onde estamos indo?
– Estou morrendo de fome, Anna. Vamos parar em algum lugar.
– Como assim vamos? Não podemos ser vistos juntos.
– Conheço um restaurante afastado. Sempre vou lá. Se alguém nos vir, nos encontramos por acaso.
– É, pode ser. Estou com fome também.
O lugar era afastado mesmo, e não conheço ninguém que podia frequentá-lo. O Vitor escolheu uma mesa no fundo, e segui o caminho atrás dele. Não podíamos dar as mãos, não éramos um casal normal indo comer casualmente em um restaurante. Éramos professor e aluna indo escondidos matar a fome em um restaurante afastado.
Sentamos um de frente para o outro:
– É um lugar bonito, não conhecia.
– Só conheço porque pego estrada quando preciso viajar. Vai querer o quê? Eu vou pedir batatas-fritas.
– Batatas-fritas?
– É. Tem algum problema? – ele riu.
– Nenhum. Também gosto de batatas-fritas – sorri.
– Então você é das minhas – ele olhou bem nos meus olhos e me dirigiu um sorriso extremamente confortador. – Você toma refrigerante?
Assenti com a cabeça. Ele chamou a garçonete e fez o pedido. Assim que ela saiu ele pegou minha mão e começou a acariciá-la. No início fiquei preocupada com o que os outros poderiam pensar, mas logo relaxei. Eu permiti essa aproximação. Eu estou consciente do que estou fazendo.
– Foi estranho me ver hoje? – ele me trouxe de volta.
– Pensei que iria ser, mas não foi. E quanto a mim, foi estranho me ver?
– Um pouco.
– Por que?
– Anna, você continua sendo minha aluna.
Rimos juntos, e ele apertou minha mão que segurava.
– Vitor, diante de tantas mulheres mais velhas, bonitas e interessantes, por que você escolheu a aluna adolescente de dezessete anos? – isso ainda me incomodava.
– A aluna adolescente de dezessete anos só não é mais velha, porque bonita e interessante ela é.
Ficamos nos olhando durante algum tempo. Não podia acreditar, ele me achava interessante! E bonita!
– Diante de tantos garotos mais novos, engraçados e bonitos, por que o professor de física? – ele sorria descaradamente.
– É sério que você está me perguntando isso? Pelo seu sorriso é óbvio que sabe a resposta.
– O brilho dos seus olhos entregam tudo, Anna. Você não me engana – piscou pra mim.
Terminamos de comer e fomos para o carro. Ficamos olhando para o nada durante alguns segundos. Eu havia acabado de comer batatas-fritas, em um restaurante afastado, com meu professor de física que estava interessado em mim. Sinto-me triunfante.
Uma onda de confiança tomou conta de mim, aproveitei o momento e atrevi-me a sentar em seu colo, de lado para ele, de costas para a porta. Ele meio que se assustou já que estava distraído, mas logo se alegrou com a ideia e abraçou minha cintura.
Aos pouquinhos ele foi chegando mais perto, me aconchegando mais. Seu cabelo alvoroçado, seu cheiro... Aproximei-me dele até onde pude, até meus lábios tocarem os seus. Parecia uma dança: nossas línguas bailavam livremente e suas mãos me conduziam; uma em minha cintura e a outra em minha perna.
Seus dedos encontraram minha pele amostra, e sua mão forçou um pouco mais minha camiseta para cima. Pensei em abaixá-la, mas como ele não faria nada do que eu não quisesse, deixei o momento prosseguir. Delicadamente, mordeu meu lábio inferior e parou em meu pescoço.
A eletricidade em volta de nós era grande, e há tempos não me sentia viva como agora me sinto. Tudo ocorria bem, até que meu celular tocou. Era a Duda.
– Você quer me matar de curiosidade? – olhei para ele e seu sorriso torto começava a despontar. Ele não tinha medo de que algo acontecesse?
– Não posso falar agora, Du. Posso passar na sua casa mais tarde?
– Por que não pode falar agora? – sua mão ainda continuava na minha perna, e a outra ainda acariciava minha cintura.
– Estou ocupada. Se não tiver problema, durmo na sua casa e conversamos a noite toda, prometo. Mas agora preciso desligar.
– Você está estranha. Mas tudo bem. Não é sempre que um professor de física beija uma aluna, e não é sempre que essa é aluna é você, não é mesmo? Te dou permissão para agir assim. Vou te esperar, não demore.
Tive que abaixar para guardar o celular na minha mochila e suas mãos desceram um pouco. Meu Deus!
– Ela é bem preocupada, não?
– Você não conhece a Isadora pra dizer isso – ele riu.
– Já está ficando tarde. Quer ir?
– É melhor. Não quero meus pais me amolando para saber onde eu estava.
Dei um beijo no seu rosto, ele tirou a mão que estava debaixo da minha camiseta e saí do seu colo. Me senti a própria Lolita na primeira vez que saiu de carro com o Humbert , na vez em que pulou em seu colo e deu-lhe um beijo demorado.
Me deixou um pouco mais longe do que da outra vez. Despedimos-nos com um sorriso e segui para a minha casa.
Assim que entrei em casa pedi para o meu pai me levar na casa da Duda, e avisei que iria dormir lá. Sei como é ficar curiosa, não queria enrolar mais.
Mal cheguei e a curiosa já me puxou para o seu quarto. Fechou a porta, e indagou:
– O que aconteceu?
Fiquei com vergonha em contar, mas eu devia uma resposta.
– Bom, decidimos tentar algo.
– Decidimos? Ah, Anna, isso é tão...
– É. Eu estava indo para a casa ontem e ele me parou no meio do caminho. Me convidou para entrar no seu carro. Fiquei meio receosa, mas não recusei. Resumindo, me pediu novamente desculpas por me deixar confusa, decidimos tentar algo, ele é maravilhoso – suspirei –, e nos beijamos – suspirei novamente.
Duda ruborizou-se toda. Boquiaberta, falou:
– É muita informação para eu processar. Calma. Vamos por partes: então ele te parou no meio caminho e pediu desculpas pessoalmente? – assenti. – E aí você decidiu tentar algo com nosso professor de física e o beijou? Ah Anna, eu te amo – ri.
– Para de ser tonta. Não foi nada demais – eu devia estar toda corada.
– Como assim não foi nada demais? Anna, você beijou nosso professor de física dentro do carro dele! Como foi? Me conta, por favor – ela se ajoelhou. Duda com d de dramática. – Eu não aguento, sou curiosa, preciso saber. Como nosso professor de física beija? – ela estava bastante empolgada.
– Muito bem! Ah, o que posso dizer? Foi perfeito, Duda. Aquela barba, o seu toque... Ele é tão cheiroso. Nunca me senti tão viva.
Seus olhos brilhavam e ela suspirava junto comigo. Não havia pessoa melhor para compartilhar o ocorrido.
– Você estava com ele hoje?
De repente, fiquei envergonhada. Balancei a cabeça afirmando.
– Bem que eu desconfiei do seu “estou ocupada”... Ainda não caiu a minha ficha. O que Newton estava fazendo com a senhorita?
– Fui comer batatas-fritas em um restaurante com ele.
– Você foi a um restaurante com ele? E ele come batatas-fritas?
– Também tive essa reação.
– Acho que acabamos extrapolando na associação batatas-fritas e adolescentes.
– Acho que sim – rimos juntas.
– Ele estava tão sorridente na sala hoje. Confiante como sempre, mas com certo brilho no olhar. Não tinha como não suspeitar de nada. Quem diria que a pessoa que ocasionou tudo isso é uma das minhas melhores amigas – sorri.
– Dudinha, isso não é estranho pra você?
– Anna, você está feliz, sendo assim, também estou. Isso é o mais importante.
Abracei-a. Que amiga maravilhosa!
– E estou achando o máximo saber o motivo de sua mais nova fragilidade.
– Fragilidade?
– Sim, ele agora é vulnerável. E você é o motivo. Anna, ele pode ser facilmente destruído. Não porque ele gosta de você, mas pelo cargo que ocupa, por quem você é.
Agora quem ficou boquiaberta fui eu.
– Essa não é a minha intenção. Mesmo que não passe de um momento, não quero prejudicá-lo.
– Eu sei. Eu também não quero que ninguém se prejudique. Só estou dizendo que é muito bom saber a vulnerabilidade do outro.
– É.
– Você acha que isso vai durar?
– Não sei. Pode ser que sim, pode ser que não. Nem ao menos sei se ele gosta de mim.
– Algum sentimento ele tem por você, Anna. Se ele não sentisse nada por você, as coisas não teriam tomado esse rumo. Consideração talvez? Mas não fuja. Aproveite o quanto puder esse momento – era o que eu tinha em mente.
Sem entrar muito nos detalhes, por vergonha e pela preservação da imagem dele, contei mais sobre ontem e hoje. Sempre procuro me colocar no lugar das outras pessoas, e se fosse ela no meu lugar, também gostaria de saber tudo.
Estava muito cansada. Esgotada, na verdade. A Duda me emprestou um pijama, e logo me ajeitei do lado direito da sua cama de casal. Tínhamos aula amanhã. Peguei meu celular para acionar o despertador e me deparei com uma mensagem:
“Amanhã não nos vemos. Vou sentir falta do seu sorriso.
Boa noite.”
Estava prestes a explodir de tanta alegria. É claro que eu teria uma boa noite, Vitor.
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