Mai Hime: Summer Vacation
5 5. Um dia que não acaba
Olhei para a piscina e o que vi foi Takeda-san se desequilibrando e caindo lá dentro.
- Nada bom. – disse Yuuichi.
- Natsuki está lá dentro! – gritei olhando para ele.
- Isso é péssimo! – ele exclamou.
- Onee-chan? O que está acontecendo? – perguntou Takumi confuso.
Em vez de fazer alguma coisa, ficamos ali parados enquanto os outros se aproximavam em silêncio.
De repente, Takeda-san emergiu, cuspindo água e uma mão nada gentil o empurrou para fora da piscina.
- Seu imbecil, estava tentando me afogar?! – berrou Natsuki, saindo da água também. Ela olhou para todos nós e bufou de raiva, virou as costas e saiu andando para a casa, cobrindo-se com uma toalha que ocultava seu biquíni verde.
- Nossa, quanto bom-humor! – comentou Akira-kun.
- Ela não está tendo um bom dia. – expliquei, enquanto Yuuichi e Reito-san socorriam o quase afogado Takeda.
Devidamente socorrido, levei-os até a casa e chamei Midori-chan, que os recebeu alegremente. Ela os acompanhou em uma rápida visita de reconhecimento e mostrou-lhes o quarto no fim do corredor.
- Sintam-se em casa, rapazes! – disse ela, enquanto eles se ajeitavam no quarto que parecia pequeno demais para todos eles. Ela avaliou Akira-kun. – Talvez você queira ficar em algo mais... feminino.
Antes que alguém respondesse, Akane-chan apareceu correndo e disse:
- Akira-san pode ficar conosco!
Olhamos interrogativamente para Akira...-san.
- Bom... eu aceito, obrigado... obrigada. – ele parecia confuso consigo mesmo. Era difícil vê-lo como uma garota.
Keisuke-kun apareceu. Ele estudou longamente Akira-san e disparou:
- Parece que você é uma garota com trejeitos masculinos, o que provavelmente significa que passou parte da vida acreditando ser um menino e deve ter um caso com seu melhor amigo... o que tornaria tudo um yaoi interessante, se você não fosse um menina.
Tenho absoluta certeza de que todos nós no corredor olhamos automaticamente para Takumi. Ele corou e Akira-san ficou sem ação. Keisuke-kun encarou meu irmão e sorriu.
- Entendo. – disse ele.
- E-espere! – gaguejou Takumi. – Isso não quer dizer... hã... – a voz dele foi sumindo.
- Que dia tão azul! – gritou alguém na escada. – Yukino, vamos para a piscina!
- Sim, Haruka-chan! – e as duas subiram as escadas, nos encontrando ali, naquele momento estranho. Quando Suzushiro-san começou a gritar ordens, o constrangimento foi quebrado. Keisuke-kun, entretanto, abordou Takumi e o empurrou para conversarem em particular. Ele me lançou um olhar que dizia “me salve!”, mas eu dei de ombros e sorri, encorajando-o.
Akira-san pigarreou.
- Então... onde fica o quarto? – Akane-chan encarregou-se de mostrar-lhe tudo.
Midori-chan agarrou-se ao braço de Reito-san e o levou para um passeio. Rinji-san simplesmente desaparecera. E ficamos Yuuichi e eu no corredor, extremamente sem graça.
- Eu... estava com saudades. – disse ele envergonhado. Limpei a garganta e virei-me para olhá-lo nos olhos.
- Eu também. – sussurrei, pegando sua mão. Começamos a nos aproximar, rosto com rosto, ouvindo a respiração alterada um do outro. Até agora, ainda não conseguíramos... você sabe.
Aí, a centímetros dele, ouvi aquele grito histérico.
- Mas O QUE FOI DESSA VEZ? – berrei irritada, me afastando. Yuuichi ficou ali aturdido, enquanto eu corria para o quarto de Natsuki. Ele veio atrás. Fujino-san estava na porta, confusa e Nao-san estava sentada no parapeito da janela, olhando por ela, apavorada.
- Esperem! – gritou Yuuichi. – ele entrou no quarto e fez “crac”. Vi que ele esmagara uma barata. Fujino-san entrou no quarto.
- O que houve, Nao-san? – indaguei, ajudando-a a descer. Ela estava trêmula.
- E-eu... quer dizer, ela e eu estávamos aqui. Aí essa coisa apareceu. Fiquei com um pouco de medo (ela estava apavorada) e... Ela estava sentada na janela. Eu me lancei para ela, pedindo que matasse a coisa... escorreguei, a coisa chegou perto... e eu a empurrei! – ela apontou para a janela e parecia prestes a vomitar.
- Ela quem...? – antes de completar a pergunta, eu já sabia de quem era o grito. E entrei em pânico.
Fujino-san arregalou os olhos e ficou branca como cera. Ela se lançou para a janela e olhou lá embaixo. Voltando-se para nós, sorriu aliviada e disse:
- Creio que Natsuki vá precisar de outro banho. – Nenhum de nós respondeu. Corremos para baixo e vimos todos os outros em volta da piscina. Abri caminho e vi a coisa mais esquisita do dia: Rinji-san, sem óculos e sem camisa, molhado e com Natsuki nos braços. Ela tossia muito e estava com a blusa encharcada. Respirei fundo.
- Nunca mais faça isso comigo! – gritamos Fujino-san e eu ao mesmo tempo. Todos nos olharam. Ela fingiu que não ouviu. Sem nem olhar para Rinji-san, saiu andando com a maior dignidade que podia. Dois passos depois, a perna cedeu e ela teria levado um tombo esplêndido, mas Rinji-san parecia a fim de ser reconhecido e a amparou.
Youko-sensei correu por entre nós e a levou para o quarto para examiná-la, com Fujino-san em seus calcanhares. As outras se dispersaram e Rinji-kun ficou com aquela cara de nada, mas com um olhar distante de “ela podia ao menos dizer obrigada”.
- Realmente, ela não está num bom dia. – murmurou Yuuichi para mim. Assenti e contei-lhe o acontecimento com Fujino-san mais cedo. Ele riu e respondeu:
- Típico dessas duas.
Mais tarde, Yuuichi e eu fomos visitar a enferma, que foi transferida para um quarto no térreo. Ela nos contou que estava aproveitando a brisa do fim da manhã e Nao-san procurava uma escova de cabelos. De repente, esta última começou a berrar histericamente e a empurrou. Ela perdeu o equilíbrio e caiu pela janela, direto na piscina. Sentiu um estalo na perna assim que tocou o fundo da piscina.
- Que história. – comentou Yuuichi, que se postara à janela.
Observei o aposento claro. Natsuki estava sentada na cama, com a perna esquerda enfaixada e imobilizada. Um par de muletas surgira do nada em sua mesa de cabeceira, mas, segundo Shiho-chan (que deu um escândalo quando viu Yuuichi: “Onii-chan! Onii-chan!”), Rinji-kun passou a tarde toda fora.
- Foi o tal do Rinji que trouxe. – disse Natsuki, quando me viu olhando as muletas.
- Você poderia agradecê-lo. – comentei.
Ela resmungou alguma coisa e se calou. Yuuichi abafou uma risada e nós saímos para que Youko-sensei pudesse examiná-la.
Correu tudo mais ou menos bem até o jantar. Midori-chan estava no banho quando servi o jantar e Akira-san fora levar comida para Natsuki e fazer companhia a ela. Incrivelmente, as duas passaram a maior parte da tarde juntas. Elas pareciam ter algumas coisas em comum.
Então, aconteceu. Suzushiro-san, Yukino-chan e Nao-san estavam ausentes também. Yukino-chan entrou correndo pela casa e disse, desesperada:
- Pessoal! Haruka-chan sumiu!
- Como? – indagou Youko-sensei se levantando.
- Explique-se melhor, Yukino-chan. – eu disse, puxando uma cadeira para que ela se sentasse. Muito nervosa, ela explicou:
- Certo... estávamos na piscina... então, Haruka-chan me pediu para vir aqui dentro buscar um suco. Eu... precisei preparar. Uns quinze minutos depois, levei o copo para fora, mas ela tinha sumido! E... faz umas duas horas que a estou procurando em volta da casa!
- Por que você não veio avisar antes? – perguntou Youko-sensei.
Antes que Yukino-chan respondesse, Midori-chan berrou da escada:
- O que é que está acontecendo? Vocês estão quietas demais!
- Cale-se Midori, Suzushiro desapareceu! – cortou Youko-sensei.
Midori-chan quase caiu da escada.
- Eu... não quis alarmar vocês. – respondeu Yukino-chan, prestes a chorar. – Mas agora, que eu não achei Haruka-chan... – a voz dela embargou e nós não perguntamos mais nada.
Imediatamente, Midori-chan acionou o que foi chamado de PTBH – Patrulha Terrestre de Busca à Haruka, o que significou que todos nós abandonamos o jantar para fazer uma ronda pela casa e bisbilhotar todos os cantos possíveis. Mikoto ficou com a parte de farejar próximo à piscina.
Ao fim da busca, nós tínhamos duas certezas: Suzushiro-san havia se perdido na floresta e alguém mais estava faltando. E foi quando Natsuki deu as caras de muletas, com Akira-san em sua cola, que eu percebi.
- O que está havendo? – perguntou ela, mancando pela grama.
- Ah! – exclamei. Todos me olharam.
- O que foi, Mai? – indagou Shiho-chan preocupada, agarrada ao braço de Yuuichi. Aquilo pouco me incomodava.
- Algum outro problema? – disse Midori-chan cansada. Com ênfase no “outro”.
- De certa forma. – respondi. – Já que estamos procurando pessoas desaparecidas, tenho certeza de que não vejo Nao-san desde... o acidente. – apontei com a cabeça para Natsuki.
- Talvez ela esteja se remoendo no quarto por ter provocado isso aí. – comentou Keisuke-kun.
Aquilo soou tão dramático quanto improvável.
- Não está, não. – rebateu Akira-san. – Fui buscar umas roupas para Natsuki-chan e nem sombra dela. A cama continua desarrumada, nada parece ter sido levado.
Fora a informação assustadora de que outra pessoa desaparecera, me ative a uma palavra: foi absolutamente estranho ouvir alguém dizer “Natsuki-chan”. Ainda mais Akira-san.
O que fizemos foi isso: simplesmente nada. Com Suzushiro-san e Nao-san sumidas, Midori-chan entrou em estado de pânico mal-controlado e impediu que nós passássemos da linha da piscina. Na verdade, não nos deixou sair da casa.
Recolhemo-nos cedo, mas estou certa de que nenhum de nós dormiu antes da meia-noite. Pude ouvir os meninos fazendo barulho no fim do corredor, Youko-sensei confortando Yukino-chan e Akira-san explicando para Akane-chan que dormiria lá embaixo para dar assistência a Natsuki.
E passou... Passou uma manhã, uma tarde, uma noite silenciosa. E mais um ciclo desses. Sem notícias. No terceiro dia, Midori-chan despertou e resolveu fazer alguma coisa.
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