Magos Vs Bruxas interativa
5 Trabalho Sujo
Notas iniciais
Não era dia e nem noite na terra dos espelhos. Entretanto, o estranho passar do tempo fazia com que a busca pelas cartas ainda estivesse ocorrendo quando a serpente lembrou-se de uma velha e muito útil magia. Atraiu pequenas rochas para si formando um círculo mágico o qual envolvia suas quatro cartas e com elas desenhava uma cruz central. Levitava sobre o circulo enquanto meditava atrás de respostas, à procura de alguma lembrança que lhe servisse naquele instante.
Tentava-se desligar das lutas de seus irmãos ao longe. Tentava concentrar-se no passado. E conseguia ter algumas visões. Primeiramente viu um cômodo de uma antiga casa de madeira o qual se encontrava completamente revirado e desorganizado. O único espaço, onde não havia vidrarias e restos de poções pelo chão, era justamente aquele em que a jovem de cabelos negros desenhava um circulo mágico com sangue de cabra e terra escrevendo runas em seu interior. No interior havia pele de cabra e algumas velas negras. Ao terminar, a jovem levantou-se e pôs as mãos numa joia lilás em formato de meia esfera a qual brilhava enquanto ela profetizava algumas palavras:
— Aqui há a oferenda de uma vida mortal. Troco cabra por cabra e as velas pela chama da vida. Oh! Espírito das trevas de Capricórnio venha até mim!
Assim que se calou, o círculo liberou uma intensa fumaça negra cobrindo todo o cômodo. Ao desaparecer toda a fumaça, havia uma criança, com aparência de dez anos, dormindo sobre o local onde o círculo estava antes de sumir. O fruto da oferenda era uma humana de cabelos brancos e pele clara, porém seus braços e pernas eram feitos da pele da cabra, pois a energia do zodíaco ainda estava impregnada naquele corpo.
— Consegui... –falou a jovem ao agachar-se perto da criança. –Bem-vinda ao mundo, minha pequena Capricórnio. –erguia a menina colocando-a sobre sua enorme cama. –Agora descanse bem, pois seus irmãos estão para nascer. –beijou-lhe a testa.
Respirou fundo e pôs-se a fazer outro ritual como aquele, contudo agora desenhava metade com o sangue de um irmão bom e a outra metade com o sangue de um irmão mau. Acendeu as velas negras e uma vela branca colocando as cabeças dos irmãos no centro.
— Aqui há a oferenda de duas vidas mortais. Troco gêmeos por gêmeos e as velas pela chama da vida. Oh! Espírito das trevas de Gêmeos venha até mim!
Mesma fumaça, mesmo resultado, porém era uma criança com metade dos cabelos negros e a outra metade branca de forma a remeter ao símbolo do yin yang. A jovem pegou a menina no colo.
— Bem-vinda ao mundo Gemi. –disse beijando-lhe as madeixas negras. –E bem-vinda ao mundo Mini. –beijou as madeixas brancas.
A visão pulou para outra parte daquela sequência de rituais. Já haviam várias crianças dormindo espremidas sobre da cama quando a jovem terminava de desenhar um círculo com sangue de leão tendo a pele do animal no centro. Ela ateou fogo às runas antes de começar a falar.
— Aqui há a oferenda de uma vida mortal. Troco leão por leão e as velas pela chama da vida. Oh! Espírito das trevas de Leão venha até mim!
Desta vez era um garotinho com um bagunçado cabelo loiro, bigode de gato e garraras afiadas.
— Seja bem-vindo ao mundo Leonis, meu leãozinho. –colocou o menino junto dos outros onze. –Deverão acordar assim que escurecer... A partir de agora preciso treinar meus doze filhos. Quando estiverem prontos, abandonarão a forma infantil, mas algo ainda me preocupa...
Aos poucos os pequenos iam tomando uma forma mais humana, fazendo sumir as peculiaridades do zodíaco. Capricórnio, por exemplo, tinha seus braços e pernas com cada vez menos pele de cabra, afinal aquele sono servia para interiorizar a energia mística. E a mãe daquelas criaturas as vigiava temerosa com algo em sua mente. Talvez doze não fosse um número bom. Possivelmente precisaria de um guardião... Uma arma secreta... Começou a arrumar o quarto tentando ocupar as mãos enquanto pensava no que fazer. Foi quando olhou para sua mascote, a serpente sobre a cômoda que assistira toda aquela cena.
Outra imagem apareceu-lhe, era outra cena de suas memórias. Lembrava-se de um espelho com detalhes em prata, digno de uma princesa. Ao invés de agradar-se com aquela bela visão, incomodou-se profundamente, afinal tratava-se do objeto onde haviam sido selados. Tal relíquia era um dos pertences de sua mãe e ironicamente foi usada contra ela. Sua mãe... Será que sua alma vagava em torno deste espelho? Ou será que a relíquia estava perdida para sempre? Está era uma dúvida que começava a perturbar sua mente fazendo-a recordar nitidamente da face da criadora. Como se a visse encarar-lhe.
Repentinamente, um grito quase ensurdeceu a Serpentário tirando-a de suas visões. Tapou seus ouvidos, porém a voz vinha de dentro de sua própria cabeça.
— Chamou-me? –questionou a voz. E esta conversa era literalmente dolorosa para a cabeça da bruxa fazendo-a permanecer com as mãos nos ouvidos.
— Mãe, eu preciso de você. Diga-me o que fazer! Como sairei deste inferno?!
— Silêncio, serpente. Você tem apenas uma missão, lembra-se? É a hora de possuir a outra metade. Deixe o resto com os seus irmãos.
— Desculpe-me, mamãe, mas não posso seguir com minha missão se estiver presa aqui.
— Eu resolverei isso.
Com uma dor descomunal, a serpente lançou-se no chão deixando uma aura negra sair de si e ir atrás da donzela. Esta última caiu de joelhos a ser alcançada e a voz penetrou-lhe a cabeça causando-lhe o mesmo que causou a Serpentário.
— Minha pequena... Pequena Virgem... Não foi nada fácil pagar seu preço...
— Mãe? O... O que objetiva ao dizer-me isto?
— Quero dizer que gastei muito sangue para formar seu corpo e que, por isso, sei das suas capacidades.
— Diga-me tudo aquilo que deseja e me esmerarei em agrada-la.
— Use seu perfeccionismo para encontrar a única nuvem que não brilha. Ela está aqui por perto. É com ela que se poderá abrir o portal.
A aura negra dissipou-se e a donzela levantou-se apesar da intensa dor.
Os ares da Capital faziam com que qualquer pessoa se sentisse melhor e mais tranquila. Mesmo em uma simples pousada havia artes nas paredes criando aquela sensação de paz, algo que normalmente se vê em hotéis mais caros no mundo humano. Hiroshi estava num dos quartos desta simples pousada. Sua irmã dormia em uma cama à sua frente. O sol estava pra nascer e o rapaz preocupava-se em encontrar trabalho. Tudo nesta cidade maravilhosa era caro demais. Os irmãos Nômades não eram de família rica e também não possuíam patrocínio ainda, ou seja, sustentavam-se com os próprios trabalhos apenas. Mesmo com toda essa paz, ele estava preocupado com o dia de amanhã e talvez os trabalhos locais paguem melhor.
Havia vários anúncios distintos e a maioria era desinteressante. Porém um deles havia chamado a sua atenção:
“Precisa-se de magos com experiência em batalha. Há uma infestação de goblins da caverna na aldeia Britt (10 km a leste de Al-Inrá). Toda a área rural está tomada por estas criaturas hostis que assustam e roubam os pertences dos moradores. A recompensa é de A$ 70000,00 para cada mago bem sucedido nesta missão. O prazo para conclusão do serviço é de uma semana, pois do contrário prejudicará as atividades econômicas da região. Em caso de interesse, entrar em contato com May Gray no cais da Capital”.
Era bastante interessante. A recompensa era alta, porém justa, afinal goblins possuem armas encantadas e que fazem um bom estrago. O tempo era mais que suficiente, porém o que faria com que estas criaturas saíssem de suas cidades subterrâneas? Possivelmente alguma ação da natureza tenha tornado tais cidades impróprias... Saber o motivo da mudança de hábitos destas criaturas era crucial para resolver definitivamente o problema... O garoto já estava decidido. Com esse dinheiro conseguiria se bancar por quase um ano na Capital.
Com cuidado, acordou Mira.
— Mana. Acorde. –disse ele. –Precisamos partir.
A moça levantou-se esfregando os olhos.
— O que houve? Encontrou um trabalho? –perguntou ela pouco antes de bocejar.
— Sim, mas temos que ir logo para o cais. Normalmente as atividades lá começam bem cedo e não podemos perder esta chance.
Não demora muito para que ambos cheguem ao gigantesco cais. Há mais embarcações do que se possa contar, porém não havia tanta gente assim ali. O único som que se ouvia naquele lugar era o das ondas batendo contra as pedras. Mari tentou não distrair-se tanto com a beleza do local indo logo pela tal May. Aproximou-se de um pescador, que se preparava para trabalhar, para pedir-lhe informações:
— Com licença, senhor, mas você sabe onde posso encontrar uma pessoa chamada May Gray?
— Claro. –respondeu o homem apontando para um distante navio dourado com velas amarelas. –Ela é a dona daquele navio. Mas é melhor se apressar, pois logo ela levará seus passageiros para outra viagem até o Continente.
— Certo! Obrigada, senhor!
Mal agradeceu e já puxou seu irmão pelo pulso indo correndo.
— Ei! Mari! –Hiroshi não estava sentindo-se confortável com aquilo de ser arrastado.
— Fica quieto! Temos pouco tempo!
A taboa que dava acesso a tal embarcação estava sendo retirada quando os irmãos chegaram. Sem nem ao menos pensar, a maga lançou o garoto no convés e pôs-se a escalar a lateral até alcança-lo. Obviamente, ele não ficou nem um pouco contente com isso.
— Da próxima vez que for fazer algo assim, me avise antes! –reclamou levantando-se. –Poderia ter me machucado!
— Quase perdemos este trabalho. Devia me agradecer!
Uma garota de boné aproxima-se dos irmãos fazendo-os calarem-se.
— Posso saber o que pretendem invadindo o meu navio? –perguntou ela serenamente. –Se quiserem continuar aqui, terão que pagar a passagem.
Ambos desembolsaram a quantia.
— Viemos aqui saber sobre a aldeia Britt. –disse Mari.
— Venham comigo. –May conferia as moedas pra certificar-se de que lhe haviam pagado a quantia certa. –Levarei vocês até os outros.
Outros... Esta palavra fez os irmãos se entreolharem, porém seguiram-na mesmo assim. A Capitã os conduziu até uma pequena sala onde estavam Thamara e Marcos.
— Deixarei que conversem depois, ok? –avisava a capitã. –Sou eu quem os está contratando. Britt é minha aldeia natal e detesto ver como ela está. Como podem imaginar dinheiro não é problema pra quem possui um navio de luxo como este, então não há porque se preocupar com a recompensa. –respira fundo pegando e abrindo um mapa sobre a mesinha. –Antes de deixa-los na aldeia, preciso levar meus passageiros até o Continente, ou seja, na volta farei uma parada para vocês desembarcarem. Será logo após o almoço. –apontava para uma caverna sobre uma ilha no tal mapa. –Este é o lugar de onde os goblins saíram. Não sei muito sobre o que está acontecendo, pois vivo nestas viagens, mas sei que o caos está instalado por lá. A propósito, qual a idade de vocês?
Marcos pronunciou-se:
— Eu e Thamara temos dezoito.
— Nós dois também. –disse Hiroshi.
— Não são muito experientes... Mas estando em quatro, acho que já será o bastante. São jogadores, certo?
Todos fizeram que sim com a cabeça.
— Ótimo! Tudo o que precisam fazer é tirar todas aquelas criaturas da superfície e devolve-las para a caverna. Certifiquem-se de que os goblins não conseguirão sair dela de novo e a recompensa será de vocês. Também devolverei o valor das passagens quando retornar lá para busca-los em sete dias. Parece uma tarefa simples, mas não é. Aproveitem as próximas horas para prepararem-se. O mapa fica com vocês.
May sai deixando-os discutir sobre a melhor estratégia.
Deviam ser umas nove horas da manhã quando Zarina levantou-se. Normalmente acordava junto com o nascer do sol, então aquele era um dia bem atípico. Em poucos instantes encontrava-se pronta indo em direção à cozinha da torre de Jack. Ele era seu protetor na Capital, ou seja, alguém que se prontifica a hospeda-la sem custos. Ao chegar à cozinha, viu seu protetor orientando um empregado:
— (...) E só preciso de mais vinte porções deste doce para a sobremesa, ok? O restante é segue como antes. –falava de costas para a porta.
— Certo, meu chefe! –respondeu o empregado que preparava alguma comida no fogão.
— Bom dia! –disse ela sentando-se à mesa, que ainda estava luxuosamente posta para o café.
Jack voltou-se para ela sentando-se à sua frente.
— Bom dia. –sorriu. –Acordou mais tarde hoje, hein.
— Pois é... Não tenho um dia de folga há bastante tempo... –servia-se com café e bolo.
— Quando descansou pela última vez?
— No meu aniversário de dezoito anos. E mesmo assim foi a única folga daquele ano.
— Passou quase cinco anos sem um descanso? –espantou-se. –Incrível. Então aproveite bem esses dias.
— É o que farei. Mas fico preocupada... Estou deixando um povo em risco para ficar aqui.
— Compreendo... Era isso que tanto te ocupava. Mas que tipo de risco seria?
— Humanos. A África vive mergulhada em guerras civis e isso afeta diretamente as aldeias de magos. De vez em quando alguma aldeia é destruída. Eu trabalho muito em missões de resgate e defesa. Vi tudo bem de perto.
— Engraçado... Nunca ouvi falar sobre esses acontecimentos. Algo desse porte não deveria passar despercebido.
— Bem, se nem os humanos dão atenção aos problemas do meu continente, acha que o Conselho o faria? Eles ignoram completamente. E essas guerras não costumam ser noticiadas em nenhum dos dois mundos, muito menos no dos magos.
— Que absurdo! Mesmo sabendo da imparcialidade do Conselho, chega a ser difícil acreditar em tamanha indiferença.
— Por isso tenho que concordar com o meu mestre. Ele costuma dizer que os conselheiros existem apenas para pensar no poder das cartas e nada mais que isso. O resto do mundo pode estar destruído que eles não vão se preocupar.
Ela mantinha-se serena fazendo sua refeição, enquanto o rapaz pareceu lembrar-se de algo.
— Creio já ter visto seu sábio mestre uma vez. Acho que alguém como ele não devia ter sido deixado de fora dos registros.
— Andou pesquisando sobre ele? –ri irônica. –Tive a mesma decepção quando tentei. Nem eu mesma sei muito sobre meu mestre. E olha que Xoloni praticamente me criou.
— O que sabe sobre ele?
— Não tenho ideia de quantos anos ele tem ou de onde exatamente ele veio. Ficávamos muito concentrados em meu treinamento então não restava muito tempo para histórias. Sei apenas que ele foi um jogador quando jovem possuindo apenas uma simples carta de bronze. No caso, esta carta hoje pertence a mim. Tentei reunir informações sobre os seus donos anteriores, mas tem mais de duzentos anos que ela está fora de jogo.
— Isso é muito estranho. Nenhuma carta some por tanto tempo assim... Qual o número dela?
— É a carta número 1. A de Cleópatra.
— O cara mais famoso que já teve essa carta foi um cara conhecido como Caçador Voraz. Seu mestre pode ser no máximo um descendente dele.
— Acredito que seja, mas tem um problema. Todos os três filhos conhecidos desse sujeito foram mortos ainda na infância e ninguém nunca conseguiu provar a existência de outros.
— Entendo... Er... Desculpe-me pela curiosidade.
— Sem problemas. –sorri. –O meu mestre é um mistério bastante interessante, admito. Poderíamos conversar sobre ele durante horas.
Ela se levanta e uma empregada aparece para tirar a mesa.
— Temos o dia todo livre. Posso aproveitar e te mostrar toda a torre enquanto conversamos.
— Seria ótimo. Obrigada.
Ambos saem da cozinha e Jack começa mostrando algumas salas na base da torre.
— O que acho mais interessante é que ele se tele transporta. Essa técnica foi perdida há séculos e é bastante complicada.
Zarina admirava a absurda riqueza de detalhes em cada enfeite no teto e nas paredes.
— Mestre Xoloni sabe de muitas coisas esquecidas pelo mundo. Graças a ele, sobrevivi às armadilhas da pirâmide em que entrei. Ele me deu um treinamento muito intenso.
— O que foi fazer numa pirâmide? Pegar tesouros?
Agora o tapete vermelho no chão chamava a atenção dela... Aquilo era de veludo?
— Não. Havia uma carta lá. Aliás, aquela pirâmide inteira foi criação dela. Cartas costumam criar desafios para decidir seu futuro mestre e quanto mais difícil for, mais forte ela é. O dono anterior dela havia morrido há pouco tempo, então assim que a pirâmide surgiu, muitos foram até lá. Poucos sobreviveram e apenas eu consegui a carta.
— Aposto que era uma carta de ouro.
— Apostou certo. Eu precisei percorrer cada centímetro daquele lugar e em toda a parte tinham armadilhas fatais. Se não fosse de ouro, não sei o que mais seria.
— Como seu mestre conseguiu te preparar pra algo louco assim?
— Digamos que ele me ensinou a estar sempre alerta da forma mais traumática possível.
— Ele te atacava constantemente?
— Exato. Não sei o que era pior, ele usar tele transporte ou usar os ataques elementares. Na época eu ficava com raiva, mas hoje eu agradeço. Isso me ajudou até mesmo a criar uma resistência maior ao ar.
— Imagino. Isso faz muita diferença para uma maga da terra.
Começavam a passar por um enorme salão de jogos.
— Quando começou essa coisa de ser “A Domadora”?
— Meu mestre tinha me levado para uma aldeia maior que o normal para que eu aprendesse a ser uma maga da cidade seguindo o ideal da minha geração. A viagem o deixou cansado, então ficou dormindo até mais tarde e eu aproveitei para dar uma volta. Eu tinha uns catorze anos e do nada começou um alvoroço. Todos começaram a correr com medo de alguma coisa. Naquele momento fui tomada pela curiosidade e fui para a direção oposta a das pessoas. Acabei encontrando um leão enfurecido. Por uns instantes fiquei parada, mas logo em seguida fui me aproximando lentamente dele. Sei que poderia ter morrido só que eu também sei mostrar para uma fera que ela não precisa me atacar. Quando meu mestre acordou, eu estava montada no leão como se ele fosse o mais calmo dos cavalos. Depois de ver aquela cena, ele me incentivou a treinar com feras ao invés de ficar em aldeias. A minha fama foi uma consequência de tudo isso.
— Que incrível! As coisas que acontecem com você são sempre inacreditáveis assim? –fala em tom de descontração.
— Pelo visto sim, né? –ri. –Agora me fale sobre você... Foi treinado por algum mestre?
— Bem... –disse entrando com ela no elevador. –Não restaram muitos mestres no norte do Canadá. Uma região tão fria costuma afastar as pessoas. –apertou um botão e o elevador começou a subir. –Na minha vida inteira, eu tive que me virar sozinho. Tinham muitos livros úteis na casa do chefe da aldeia e ele emprestava pra mim. Enquanto as outras crianças brincavam, eu treinava nas montanhas de neve. Foi difícil aprender a controlar perfeitamente um elemento sozinho, mas depois que consegui todo o resto foi fácil.
— Meu protetor é um autodidata em magia! Isso sim que é legal!
— Mas eu nunca consegui pegar uma carta.
O elevador para.
— Não se diminua ok? Muitos jogadores não conseguem nem metade do que você conseguiu.
A porta se abre mostrando um maravilhoso jardim sob um teto de vidro. Havia vários tipos de plantas diferentes, inclusive algumas pequenas árvores.
— Verdade... Eu queria te mostrar isso aqui no topo da torre. Metade é um jardim e a outra metade é onde guardo o Ice.
— Essa sua torre não para de me surpreender! –disse observando cada uma das flores. –A propósito, o que é Ice?
— Creio que você vai gostar mais dele que do jardim. Venha comigo.
Zarina seguiu-o até uma porta de ferro. Antes que adentrassem, Jack aconselhou-a a colocar um pesado casaco de pele que ele lhe oferecia e a jovem não o contrariou. O rapaz abriu a pesada porta revelando um corredor não muito comprido. A cada passo a temperatura caía mais até que alcançaram a outra entrada.
Chegavam a uma espécie de sala cujo chão era pura neve e gelo. Havia um sistema especial para manter a baixíssima temperatura e algumas brisas gélidas.
— Não foi fácil fazer este recinto pra ele, mas até que o meu mascote se adaptou bem.
— E que tipo de animal seria o seu mascote? Pelo tamanho desta sala, ele só pode ser um de grande porte.
Ao longe, quase imperceptível por conta da neve, surgia um urso polar correndo na direção deles.
— E é. Mas acredite, ele é bem dócil comigo. Aposto que com a Domadora, não será diferente!
Assim que o urso adulto se aproxima, recebe um longo cafuné do dono.
— Ice, esta é a Zarina. –falou ele olhando nos olhos do animal. –Não que precisasse de apresentações, mas... –fez um sinal para que ela mexesse no urso.
— Ele é um bom garoto! –disse com um sorriso largo enquanto acariciava-o.
— Claro que é. Sabe até fazer alguns truques... Quer que eu te mostre?
— Com toda a certeza!
Não tinha como não gostar de Ice, ainda mais com os truques ele fazia. E assim, as horas se passavam rapidamente.
Melhor cheiro como aquele não havia. A cozinha de um dos melhores restaurantes da Capital estava a todo o vapor para dar conta de tanta demanda. Justamente naquele dia em que o local estava lotado, Ragnar havia sido chamado para um almoço de negócios. Normalmente poderia até ignorar aquele chamado, porém havia recebido um telegrama da casa Inrá, ou seja, da família fundadora da cidade. É comum que os Inrá fiquem isolados em sua fazenda, pois é um costume dos magos islâmicos. Devia ser algum problema de extrema importância para terem chegado ao ponto de irem atrás dele e, como se todo o resto não bastasse, aquela mensagem o tinha deixado bastante curioso. O Dragonborn já estava sentado à mesa quando o patriarca da família chegou. Era um típico homem árabe, da alta sociedade, com um turbante em sua cabeça.
— Agradeço por ter vindo, meu jovem. Preciso urgentemente dos seus serviços. –falou o homem que se sentava à frente do rapaz.
— De que tipo de serviço se trata? –disse pouco antes de dar um gole em sua bebida.
— Quero que recupere algo que me foi furtado e que prenda o responsável. Provavelmente não é bem o seu forte, mas soube que você é infalível e no momento não posso admitir erros.
— Entendo. Realmente costumo lidar com outro tipo de trabalhos, porém posso abrir uma exceção. O que exatamente roubaram do senhor?
O homem respirou fundo tentando lembrar-se de detalhes.
— Um artefato mágico que está sob a guarda da minha família há séculos. Eu o mantinha num cofre com segurança máxima em minha própria casa. Não consigo imaginar como o furtaram nesta madrugada, todavia preciso recuperá-lo antes que seja tarde. Aquilo não pode cair em mãos erradas, caso o contrário toda esta sociedade de magos estaria em risco de ser extinta. Sabe das histórias sobre o espelho negro?
Rag deu outro gole na bebida enquanto pensava.
— Se não me engano, trata-se de um artefato das trevas. Algum resquício da magia das bruxas neste mundo.
— E está correto. Chega a ser bem simples imaginar as consequências que podemos viver no caso de algum mal intencionado possuir tal espelho. Portanto, permitirei que procure pistas em cada canto de minha propriedade e que incomode qualquer um dos meus funcionários e familiares se preciso for.
— Tem alguma pessoa de quem o senhor suspeite? Isso poderia tornar as coisas mais fáceis pra mim.
— Não uma pessoa, mas toda uma família, aliás, só existem duas famílias que poderiam estar envolvidas, pois são meus vizinhos e nunca nos demos muito bem. Os Hakim sempre quiseram parte da minha propriedade enquanto os Crucis sempre desejaram possuir minhas riquezas.
— Já posso trabalhar com isso, mas e quanto eu ganho com isso?
O Homem se levanta com uma expressão bastante séria entregando-lhe um papel.
— De início, pagarei sua refeição aqui. Coma tudo o que quiser por minha conta. Apenas entregue este papel na hora em que for se retirar deste estabelecimento. Depois que concluir o serviço, negociaremos um valor justo para ambos. –disse olhando nos olhos do mago, pouco antes de retirar-se.
Ragnar conferiu o papel. Era um recado avisando ao dono do restaurante de que a conta deveria ser acertada depois com o senhor Sahib Inrá. Aproveitou a oportunidade para esbanjar-se com comidas e bebidas exóticas. Pouca horas depois estava atravessando a muralha da Capital rumo à fazenda do árabe. Contudo, mesmo do lado de fora das muralhas, os luxos mantinham-se expostos na fachada das três mansões. Uma estava a quilômetros da outra. A da esquerda era azul, cor da família Crucis, os poderosos militares cristãos. No meio via-se a mansão dourada, pertencente aos Inrá, os visionários islâmicos. À direita tinha-se a branca, dos Hakim, os grandes médicos judeus. Três famílias poderosíssimas na região, mas que não se suportavam.
Toda aquela variedade de tapeçarias e decorações exóticas era incapaz de tirar a concentração dele naqueles momentos. Ao entrar na mansão dourada, foi recepcionado por alguns guardas ouvindo depoimentos de cada um. Não demorou muito para que o próprio dono da casa lhe mostrasse a cena do crime. Era um enorme cofre em pedaços pelo chão do porão e ainda dava para sentir os resquícios da poderosa magia que o protegia. Não havia evidências muito úteis no local, já que o ladrão parecia saber bem o que estava fazendo. Entretanto, para conseguir passar despercebido por todo o sistema de segurança, o ladrão precisaria ser jovem, ágil, baixo e ainda possuir algum artefato mágico que lhe permitisse desfazer o feitiço do cofre. Ragnar já possuía algumas pistas que anotava em sua cabeça, mantendo-se praticamente calado o tempo todo.
— Além dos guardas e dos funcionários, quem mais frequenta a casa além do senhor? –perguntou ao Sahib.
— Somente minha esposa e minha filha.
— Certo. Preciso conversar com elas. Talvez tenham visto alguma coisa.
O homem levou-o até uma sala com alguns guardas. Minutos depois uma mulher e uma menina entram. Ambas usavam uma espécie de vestido negro, botas e luvas da mesma cor tendo apenas um pano dourado cobrindo os cabelos de forma a fazer uma trança. Somente os rostos delas estavam expostos. A mulher manteve-se de pé diante do mago enquanto a criança sentou-se em uma cadeira.
— Sou Hana, esposa de Sahib. Esta é Nair, nossa filha de nove anos. O que quer que eu lhe conte?
— O que fez nesta última noite?
— O mesmo de sempre. Após o jantar, cuidei de minha filha e coloquei-a para dormir. Depois disso fui me deitar com meu marido. Não percebi nada de anormal durante a noite além do barulho do cofre sendo violado, mas isso foi ouvido por todos nós desta casa.
Isso não ajudou muito. Entretanto, a criança parecia inquieta por dentro, como se tivesse algo a dizer.
— E a menina? Tem certeza de que ela não viu ou ouviu nada?
— Claro que sim. Ela já estava dormindo há horas e Nair tem sono profundo.
— Entendo. Posso falar com a criança em particular?
Aquilo tudo era muito estranho para os costumes daquela família, logo a pergunta do Rag soou um pouco desrespeitosa deixando a mulher incomodada.
— Desculpe, mas ela tem aula de magia agora.
Sem que sua mãe visse, a menina havia deixado um papel sob a cadeira. Obviamente, Ragnar não deixou aquele detalhe passar despercebido.
— Sem problemas. Posso trabalhar com as informações que já possuo. –blefou tentando (e conseguindo) desfazer a tensão entre eles.
Elas simplesmente saíram e, na primeira oportunidade, ele pegou o papel lendo uma mensagem em letras apressadas.
“Diga que precisa investigar na área externa. Darei um jeito de aparecer lá. Sei de algo que pode te ajudar muito!”.
Poderia ter ignorado o aviso de uma criança, porém ele estava com vontade de ouvi-la. Quando se deu conta, já estava no jardim, não muito longe de onde a pequena treinava o controle do ar com uma tutora. Elas produziam leves brisas e redemoinhos com o mover de suas mãos. Repentinamente, Nair perdeu o controle lançando a tutora na janela.
— Desculpe! –gritou para a senhora que possivelmente estava desmaiada.
— Tome mais cuidado, menina. –disse ele aproximando-se e tentando não rir. –Não seria legal se você matasse a velha.
— Tudo bem, moço. Eu tenho tudo sobre controle. –ri. –Fiz isso de propósito. Assim nenhum adulto vai me dedurar pra minha mãe.
— Que espertinha, hein! –sorri. –Bem, o que você queria me contar? Espero que não seja a responsável pelo sumiço do espelho.
— Claro que não, moço! Eu só desobedeci a minha mãe e...
— E?
— E saí do meu quarto. Só isso.
— Por quê?
— Queria impressionar todo mundo no meu aniversário mês que vem, então toda noite eu treino levitação. Naquela hora eu já ia voltar pra minha cama, mas eu ouvi passos e sabia que não eram de guardas ou dos serviçais. Fui levitando atrás do bandido. Ele não notou a minha presença... Como estava escuro, não pude ver muita coisa, mas sei que era um garoto tampinha de cabelos curtos. Parecia usar magia do fogo e a luva dele tinha uma pedra que brilhava bem pouquinho, tenho certeza que era mágica.
— Até que enfim alguém me diz algo realmente útil! Obrigado, pequenina.
— Só mais duas coisas, moço. Primeira: Não conta isso pra mamãe e nem para o papai.
— Pode deixar. E qual é a segunda coisa?
— Tem dois garotos por aqui que batem com a descrição. Um Crucis e um Hakim.
Assim que concluiu sua fala, alguém gritou pela menina e ela correu para atender a pessoa. E Rag continuava parado com os braços cruzados.
— Sinceramente... –pensava alto. –Que droga é essa que está acontecendo aqui?!
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