Mago da Água e do Gelo
11 Dia de treinamento
Notas iniciais
– C-Camus...
...
– Eeei... Caaaamus...
Tinha... Alguém me... Chamando...?
– S-Sou eu... Ei...
Ah, sim... É você... Só pode ser você com essa voz doce... Tá aqui comigo... (sorri e se espreguiça, tendo a mão pega e beijada).
– Caaamus... A-Acorda, v-vai... T-Tá meee ooouviiindo?...
Estou sim. Já estou acordado agora e sinto o ar frio tocar a pele das minhas costas. De olhos fechados e meio sonolento, porém a minha consciência é sempre o bastante para saber que está ai... Só não acordo por completo para você ficar mais um pouco aqui, ainda mais beijando a minha mão.
– Ahhh... É s-sério... – diz rindo e me dá uma mordida leve na mão – Cê... Tá... Acordado...?
Para ti, sempre. Só que eu não resisto a você tentando me acordar e falando assim. Adoro ter sua atenção ;) Mas por que essa voz trêmula?
– Poxa... Ahhh... – diz com a voz sem firmeza, repousa minha mão na cama e me faz carinho no rosto – Acoooorrdaaaaaaaaaa...
Seu último dizer soou como um gemido. Mas por quê? Nunca havia feito tanta manha... Eu estava deitado de bruços, e me virei devagar para ficar com a barriga para cima, sentindo o lençol se enrolar no meu corpo da cintura para baixo. Ele tirou a mão do meu rosto e não o senti mais encostar-se a mim.
Esperem um pouco... ??? Cama? Lençol? Mas eu tinha dormido na mão da estát...! Foi um sonho?!
Abri os olhos dessa vez. Mesmo com a visão meio embaçada, me espantei ao perceber que só não estava totalmente nu graças ao lençol que me envolvera! Ergui o tronco, me apoiando nos cotovelos e percebi que estava no meu quarto... Porém o guarda-roupa estava com todas as portas e gavetas abertas, cujas roupas se dependuravam para o lado de fora. Haviam peças jogadas pelo chão, além de cabides... Parecia que o armário havia sido revistado. Não me preocupei com isso... Havia coisas mais importantes como:
Por que eu estava pelado?!! Posso ser calorento, mas não tanto na minha Casa. Tenho hábito de dormir de cueca às vezes, mas sem roupa... Não com seis anos.
Milo... Ele estava ali... Tinha me acordado... Olhei rapidamente para o lado à sua procura. Devo ter corado quando o vi... Trajava vestes de treinamento como de costume, e estava sentado na minha cama com as pernas meio flexionadas a uns três palmos de distância de mim.
– O-Oi... – disse ele com a voz entrecortada.
Eu ainda era muito inocente naquela idade... Não sei se era só eu (o lerdo ¬¬), ah... Deixa ¬¬. Seu rosto estava muito corado... Não me esqueço do quanto achei meio que assustador o jeito que me olhava... Seus olhos lacrimejavam, brilhando estranhamente, sua boca estava entreaberta e seus lábios muito rubros, úmidos pela saliva. Seu corpo tremia e sua respiração, muito acelerada, ecoava pelo quarto. Desviei o olhar de seus olhos, e percebi que tinha uma das mãos dentro da calça desabotoada.
– Oi... – o olhei, sem saber o que se passava direito – O que você tem? Se sente mal? – perguntei preocupado.
Podem rir. Eu era muito bobão mesmo... Ou ele que é muito precoce e pervertido por natureza. E, sim, não me preocupei dele ter me visto nu, afinal, nunca nos foi ensinado a ter pudor em relação aos companheiros e amigos. Depois dos treinos da manhã, nós sempre tomávamos uma ducha ou íamos brincar no lago pelados. Isso é normal para a grande maioria dos homens, ainda mais para os que convivem diariamente e treinam juntos. Querem mais um motivo? Éramos crianças.
Ah! Enfim... Droga ¬¬...
– Nãããooo... – gemeu ele, estendendo a mão livre na minha direção e pegando meu braço. Senti sua pele úmida de suor — Me sinto muuuuito bem...
Agora, o ápice da inocência:
– Ah tá. Bom. – sorri de canto, despreocupado. Eu sentia seu cosmo brilhar e extravasar o bem. Não poderia estar com dor ou sentindo-se mal – Que horas são? – perguntei lembrando que o Mestre tinha ordenado que eu procurasse Saga e Aiolos antes do horário do treino, o que seria umas quatro e meia, mais ou menos. Olhei pela janela e vi que ainda estava escuro.
– N-Nãoo seiii... – puxou meu braço com certa força, fazendo com que eu me aproximasse.
– Por que você tá falando assim? – perguntei, ainda estranhando sua maneira muito manhosa de falar – E qual é o problema ai emba...?
– Taambém... Nãão... Seeeii... – me puxou mais e levou a mão a minha nuca, acariciando-a.
Eu o olhava sem entender, mas o carinho estava muito bom. Ele subitamente se deitou e virou para o meu lado, sem tirar a mão de dentro da calça. Me encarou, parecendo implorar para que eu fizesse algo. Mas eu...
– O que foi, hien? – perguntei mais uma vez, lhe fazendo carinho no rosto. Pensei sinceramente que era só manha.
Ele gemeu quando o toquei.
– Veeemm... Cáááá... – implorou, me puxando pela cintura e flexionando levemente a pelve.
– Mas, eu tô aqui... – não entendi mais nada.
– Camus!! – chamaram em uníssono duas vozes conhecidas vindas do saguão de entrada.
Eram Saga e Aiolos.
– Estamos entrando, hien?! – anunciou Saga. Senti seus cosmos começarem a se aproximar do quarto.
– Hoje é o dia! – disse Aiolos, animado.
Milo franziu a testa e se afastou de mim, sentando rapidamente na cama e abraçando os joelhos. Estava visível e cosmicamente irritado. Arregalei os olhos e me levantei o mais rápido que pude. Podia até não haver problema em nos vermos nus, mas não dois meninos sozinhos em um quarto... Vocês entenderam. Comecei a procurar desesperado nas gavetas do guarda-roupa revirado uma cueca, pelo menos. Achei uma e a vesti justamente quando a porta do quarto se abriu.
– Bom dia! – cumprimentou Aiolos ao entrar, olhando para ter cuidado ao atravessar a porta sem destruí-la com as asas douradas da Armadura de Sagitário.
– Viemos te buscar, mané! Opa!... – disse Saga, me olhando com cara marota – Tá mostrando o físico assim logo de madruga?! Hahaha!
Olhei para ele com um sorriso de canto, balancei a cabeça negativamente e comecei a vestir um traje de treinamento que finalmente encontrei no meio da bagunça.
– Ih, ó quem tá aqui! – disse Aiolos, andando na direção de Milo – É o grude. E ai, vizinho? – brincou ele, estendendo a mão para o futuro Cavaleiro de Escorpião.
Ele ainda estava corado com olhar fixo para frente, parecendo tentar se recuperar, mas sua respiração se mantinha alterada. Acho que nem notou que Aiolos o havia cumprimentado.
– Pôôô... Vacilão! – riu o Cavaleiro de Sagitário, lhe dando uns tapas nas costas – Tá bravo porque ficou mais velho ontem, cara? – e o pegou no colo.
– Não... Não! – pediu ele, se encolhendo ainda mais nos braços de Aiolos.
Terminei de me vestir e penteava o cabelo, mas me mantinha atento a ele e aos dois. O guardião da Nona Casa bagunçou seus cabelos e me piscou um olho. Dei-lhe um sorriso leve e assenti.
– O que você tem, rapá? – perguntou Aiolos olhando para Milo, que o olhou e fez que não com a cabeça, tentando parecer bem e normal.
Saga me encarou por uns segundos e pareceu finalmente perceber alguma coisa. Deu um sorriso triunfante e malicioso e se aproximou dos dois.
– O que ele tem?! Vejamos...! – disse o Cavaleiro de Gêmeos, rindo e estendendo as mãos na direção de Milo – Segura ele ai, cupido.
– Não! Nãããããoooo! Nããããooooooooooooo! – ele gritou enquanto Saga agarrava suas pernas e Aiolos ria e o prendia com os braços.
Corri até eles, desesperado ao ouvi-lo gritar... Nem sei como eu o defenderia de dois Cavaleiros de Ouro, mas morreria tentando! (perda de racionalidade total detected) Porém, antes que eu pudesse fazer ou dizer qualquer coisa, os dois já haviam conseguido o que queriam.
Saga tinha estendido as pernas de Milo, revelando o volume em seu baixo ventre. Aiolos o olhou surpreso e deu um sorriso malicioso e zuador, olhando para Saga e balançando a cabeça negativamente. O Cavaleiro de Gêmeos fez o mesmo e ambos o repousaram sobre a minha cama.
Milo tremia e estava ainda mais corado, agora de vergonha. O encarei, preocupado, mas ele desviou o olhar e cobriu os olhos com as mãos. Seu cosmo oscilava descontroladamente. Me lembro de ter olhado de relance para baixo, mais especificamente para o meu “o que vocês estão pensando” e não me lembrado se já tinha acontecido comigo sem ser logo depois de acordar (normal, para quem não sabe).
Devo ter ficado com cara de “?????”, mas estava irritado com o que tinham feito a ele. Não entendi o motivo de sua vergonha, mas se sentia muito mal... Isso me atinge como ninguém imagina.
Saga sentou na beira da cama e me puxou para seu colo.
– Hoje, a gente vai te arrancar o couro, hien?! – brincou ele, me fazendo cócegas como se nada tivesse acontecido.
Não ri... Não sinto muitas cócegas, ainda mais com pensamento focado no garoto loiro que permanecia sentado na cama com os olhos tampados de vergonha. Continuei sem entender sua razão e o porquê dos dois terem reagido daquela forma. Maldição...
Saga e Aiolos não tinham isso de “pena”, “coitadinho” ou “é só uma criança” e pegavam muito pesado nas “brincadeiras” e zuações às vezes. Eram os mais velhos, mais poderosos e haviam ajudado a nos criar, logo se achavam no direito de implicar e zuar os menores sem remorso ou limite. Por vezes, alguns de nós como Milo, Aiolia e Aldebaran (por incrível que pareça, os menores mais implicantes), tinham contestado quando vítimas de “brincadeiras” dos dois, porém sem sucesso, com acréscimo de piora no nível delas e do aumento do número de vezes.
Eles nunca tinham feito nada demais comigo, até porque eu sempre soube muito bem como evitar isso: apenas rir e entrar na deles (estou tão acostumado a ser alvo de implicância que acabei aprendendo). Mas o que tinham acabado de fazer... Foi constrangedor e até humilhante!
Mas, sendo racional: se eu dissesse algo para defendê-lo, estava ferrado com eles... De nada adiantaria tentar algo com os dois. Suspirei e olhei para ele, que se mantinha cabisbaixo e agora criara coragem de retribuir meu olhar. Eu tentaria fazê-lo sentir-se melhor do meu jeito.
“Ei, você tá...?”
Sua expressão era triste, mas me deu um sorriso tímido, enfim.
“Eu tô bem... Desculpa por aquilo.”
“Não... Quem te deve isso são esses dois.”
“Eu sei. Não faço questão da deles. Quero a sua.”
“Mas eu não tenho porque te desculpar...”.
“Sério? Não ficou bravo?”
Lhe dei um sorriso e pisquei-lhe um olho.
“Eu não poderia ter acordado melhor.”
Ele ergueu as sobrancelhas e me olhou com um sorriso iluminado. Lindo...
– Vamos pegar pesado! – disse Aiolos, se aproximando de nós e se juntando a Saga para me “atacar” – Decidimos vir te buscar pra ter certeza que não ia fugir! Hahaha!
Fugir de treino? Eu? Só na zuação dele mesmo. Aqui fala o mais assíduo dos seis futuros Cavaleiros de Ouro. Saga me pôs no chão e colocou a mão nos meus ombros.
– Sei que não vai nos decepcionar, mas só pra reforçar: dê exemplo, tá? – disse ele, agora sério e me encarando – Lembre-se que você é o mais velho dos futuros Cavaleiros de Ouro e seus futuros companheiros vão estar lá.
Assenti, pensando comigo que eles dois deviam ter bastante responsabilidade de dar exemplo a todos nós e em tempo quase integral. Lembrei-me de Shura, imaginando que com ele também deveria ter sido assim, já que era o mais velho entre os três que já haviam partido. Me senti horado, mas também curioso naquele momento: Aiolos e Saga iriam aplicar um treinamento específico só para mim?
– Vão bora, então! – animou-se Aiolos, batendo palmas e indo em direção à porta.
– Partiu Coliseu. – disse Saga, se levantando e fazendo um gesto de cabeça para que eu os seguisse.
Olhei para Milo, que sorriu animado e se levantou da cama. Andou até mim e fomos caminhando atrás dos dois.
“E ai? Animado pro treino misterioso?”
“Estou. Milo, você lembra-se de ter visto Shura, Dite ou Máscara em algum treinamento diferente?”
Ele levou a mão ao queixo, pensativo.
“Acho que lembro... Do Máscara no Cemitério dos Cavaleiros com mestre Altar. Shu e Dite não... Acho que eu era muito bebê.”
“Hum... É... Eu lembro bem do Máscara. Mas também acho que recordo um pouco do Shu no Coliseu e do Dite no bosque de Rodório.”
“Uau! Maneiro! Mas o que tem no Coliseu pra você congelar?”
“Hum...”
– Vocês parecem duas lesmas! Bora! – chamou Saga, pedindo para nos apressarmos.
Os dois começaram a correr, fazendo gestos para os seguirmos.
– Aquecimento, moleques! – zuou Aiolos, já lá na frente.
Corremos pelas escadarias atrás deles até a Casa de Virgem, onde paramos a mando dos dois em meio ao saguão de entrada.
– Shaka! – chamaram juntos.
– Acabou a meditação, pequeno Buda! – zuou Saga.
A grande flor de lótus do altar da Casa se abriu. Lá estava seu futuro guardião trajando túnica laranja e sentado de pernas cruzadas, com as mãos sobre os joelhos e os olhos fechados.
– Bom dia, Cavaleiros. Acabam de se interpor entre mim e o divino. – disse ele, com a voz calma e soberba – O que fazem aqui a essa hora? U.U
– OOoooohhh... – fizeram os dois, sarcasticamente e se entreolhando com brilho de malícia nos olhos.
Ora, Shaka. Parece que pede! Ainda não aprendeu que eles... É... Ai vem...
– Nos perdoe, sua divindade, — disse Saga, lhe fazendo uma reverência – não queríamos interromper o vosso caminho para a iluminação de maneira tão impura...
– Sim, nos desculpe... Nós, seres inferiores, não sabemos o que fazemos... – Aiolos fez o mesmo.
Ele assentiu, sorrindo satisfeito com o “respeito” e “adoração” que ambos o trataram. Esse tá pior na inocência do que eu! Subitamente, Aiolos voou na velocidade da luz, parando atrás de Shaka.
–... Mas temos pressa. – disse ele, levantando o futuro Cavaleiro de Virgem com os braços e o lançando para Saga – E eu avisei que o treino começaria mais cedo.
– Animais! Vocês não tem educação! – protestou Shaka, enquanto era lançado e pego no ar pelo Cavaleiro de Gêmeos.
Saga o pegou e o pôs debaixo do braço como um objeto.
– Ih! Essa boneca é falante! – zuou ele, já correndo em direção à saída.
– Hahahaha! Tira a pilha! – riu Aiolos, nos olhando e gesticulando para os seguirmos.
– Impuros! Macacos! Trogloditas! Ogros! #%$%%&&&*¨%$#%¨&*_*¨&%$ (palavras restantes abafadas pala mão de Saga).
– Dá não! Saporr@ tem que calar no manual! – zuou Saga, calando o garoto loiro indignado em seu braço com a mão livre.
Milo segurava o riso e tampava a boca com a mão, já se esquecendo totalmente que fora vítima dos dois minutos atrás. O olhei com um sorriso de canto, e ele me retribuiu com uma risada quase que não contida.
“KKKKKKKK! O Shaka tá pior do que eu! Essa foi demais!”
Descemos as escadas até Leão, desacelerando um pouco. Saga olhou para Aiolos, parecendo em dúvida.
– Aiolia já tá lá embaixo com Deba e Mu! – anunciou o Cavaleiro de Sagitário.
– Beleza! – animou-se Saga, fazendo um sinal de “ok” para o amigo.
Descemos na corrida até o Coliseu, passando pelo Pátio sob olhares curiosos de soldados, aspirantes e aprendizes. Quando chegamos, encontramos com Aiolia e Deba tentando atingir Mu, que se teleportava e ria fugindo dos dois.
– Parou, gente! – ordenou Saga, olhando para os três e pondo um Shaka extremamente indignado no chão – Sério agora.
Os três pararam com a brincadeira/treino e se aproximaram. Aiolos pôs a mão no meu ombro e ficou ao meu lado enquanto o Cavaleiro de Gêmeos se dirigia para uma pequena porta e a abria.
Aiolos nos agrupou, me deu a mão e pediu para que todos se unissem de mãos dadas. Fiquei quieto... Pareci pressentir o que iria acontecer em seguida. A maioria de nós ficou em silêncio, mas ainda havia cochichos baixos e audíveis devido ao silêncio que reinava no Coliseu naquela madrugada. O Cavaleiro de Sagitário franziu a testa e se virou para os faladores:
– SShhhh... – repreendeu-os ele, calando-os.
Saga voltou, caminhando devagar e quebrando o silêncio com seus passos. Trazia em suas mãos uma estatueta e mármore que representava Atena, na qual mantinha os olhos fixos e emocionados. Ao chegar perto de nós, fez um gesto para que eu me aproximasse, virou-A para que nós A víssemos, e se ajoelhou. Todos fizeram silêncio e também nos ajoelhamos em adoração à Deusa. O Cavaleiro de Gêmeos repousou minha mão direita na imagem de Atena, e segurou minha mão esquerda.
Fechamos os olhos e rezamos individual e mentalmente por uns minutos. Depois, Saga tomou a palavra:
– Atena, nossa Querida e Adorada Deusa, somos apenas humanos imperfeitos, seus leais e eternos servos. À Senhorita, que reside nas alturas do Olimpo, protege desde o Começo este planeta e os seres que o habitam com amor eterno e dá a nós, os vossos Cavaleiros, a força necessária para realizar o milagre do bem em sua mais pura essência, pedimos que abençoe esse treino individual de nosso querido futuro companheiro que Te foi ofertado pelos deuses, seu futuro Santo de Ouro, Camus de Aquário. Clamamos, ó Deusa, ouça a nossa prece em Teu nome.
– Que seja. – dissemos todos em coro.
Abri os olhos e os direcionei para a imagem. Dei-lhe um sorriso agradecido e Lhe beijei os pés. A reverenciei e me levantei, andando para o lado para dar vez aos meus companheiros de fazerem o mesmo. No fim, Saga levou-a para um pequeno altar próximo dali.
– Pessoal, com exceção do Camus, eu quero somente que prestem atenção, ok? – disse Aiolos ao se por ao meu lado e olhando para os cinco – Alguns aqui também passarão por isso. Aprendam com o companheiro de vocês. Fiquem na arquibancada.
Aff... Me toquei que eles iriam assistir sem participar. Ah... Serei o centro das atenções ¬¬. Eles se entreolharam e se viraram para andar em direção aos assentos. Milo virou a cabeça e me olhou de relance com um sorriso encorajador.
“Boa sorte. Vou sentar na primeira fila pra te ver. Que Atena esteja contigo.”
“Que seja. Obrigado, Milo.” Sorri timidamente.
Depois que os cinco saíram da arena, Aiolos se pôs na minha frente e se ajoelhou, me encarando sério.
– Camus, quem é você? – perguntou ele. Sua voz ecoou pelo Coliseu.
Hesitei um pouco, sem saber o que responder no início. Mas algo em seus olhos e cosmo parecia me contagiar com honra e glória, me fazendo sentir orgulho de quem eu realmente era desde que fui concebido. Lembrei-me da voz de Saga... Que eu seria exemplo... Teria que dá-lo aos meus futuros companheiros... De nossa prece para Ela... Sim, sei muito bem quem eu sou:
– Sou o futuro Cavaleiro de Ouro guardião da Décima Primeira Casa do Santuário de Atena, servo eterno da Deusa e do bem, Camus de Aquário. – minha voz também ecoou.
Ele sorriu, satisfeito e parecendo orgulhoso.
– Do que tudo no Universo é feito? – disse, ainda me encarando.
Essa era fácil.
– Átomos.
– O que é um átomo? – perguntou, se levantando e começando a andar a minha volta.
Pus as mãos para trás em respeito e respondi:
– É a unidade básica da matéria e do Universo...
– Você os destrói? – ele me cortou, devendo achar suficiente só aquela parte da resposta.
– Se preciso, sim.
– Você os controla?
– Sim.
– O que é o cosmo?
– É a fonte de energia de todo ser. O Universo existente em cada um de nós, do qual depende a magnitude de nossos poderes e nossa capacidade de realizar milagres.
– Você já sentiu o cosmo?
– Sim.
– Ele existe em você?!
– Sim!
– Pode nos provar?!
– Sim!
Exatamente depois que eu respondi, senti o cosmo de Saga se aproximar por trás de mim em ameaça. Instintivamente tudo ficou em câmera lenta e ouvi um ruído de água vindo em minha direção. Elevei o cosmo... Fechei os olhos e visualizei um turbilhão de moléculas H2O em estado líquido quase tocando meus cabelos. Elas não iriam me atingir... Não dessa vez. Eu ia provar o meu cosmo, pela minha honra... Pelo exemplo para os meus companheiros... Pela Deusa!
“Por Atena!”
Meu cosmo já elevado fez seu caminho pelas minhas células. Me concentrei em todas as moléculas da água que iria me atingir, e minha visão se amplificou em todos os seus átomos.
“Devagar.”
Eles diminuíram a velocidade de seus movimentos, mas ainda não o suficiente para mudança de forma física daquela água. Senti um calafrio percorrer a minha espinha e o frio que circundava aquele monte de água tocou minhas costas. A energia cósmica percorreu meu corpo com violência, e emiti um gemido quase inaudível.
“Devagarrr...”
Ficaram ainda mais lentos. Ouvi o bloco de gelo em formação que iria me atingir trincar... Estava quase completo, mas ainda não era suficiente. Abri meus olhos, que mudaram do vermelho para o azul brilhante retratando a energia cósmica que me tomara por inteiro.
“DEVAGAR!”
Meu cosmo explodiu, e eu me deixei cair para o lado para desviar do que ia me atingir. O ruído alto do bloco de gelo se espatifando em pedaços no chão ecoou pelo Coliseu.
– Oooohhh! – fizeram alguns dos cinco. Não consegui identificar quem foi.
– Isso! – a voz de Milo animada ecoou. Sorri sem força ao ouvi-lo – Você conseguiu, Camus!
– Vai, Camus! – torceu Mu.
– Picolé instantâneo! Uhhull! – zuou Aiolia – Muito bom, filhote de iceberg!
– Esse é o meu garoooto! – gritou Deba.
– Quase o bastante para me superar. – observou Shaka (isso, para ele, é um elogio. Hehehe!).
Me senti acarinhando e feliz pela torcida deles, mas estava enfraquecido... Felizmente não tanto quanto ontem, quando me sequei. Saga me olhou um sorriso orgulhoso, segurando uma bacia de cerâmica vazia com a qual tinha me jogado água subitamente.
– Precisa de ajuda, Camus? – perguntou ele, erguendo uma sobrancelha.
Fiz que não com a cabeça, me mantendo orgulhoso. Minhas pernas bambearam, mas me ergui mesmo com dificuldade... Balancei a cabeça, respirei fundo, cerrei os punhos e me mantive de pé.
Aiolos sorriu e assentiu, contente.
– Qual é a velocidade da luz?! – continuou ele, voltando a andar em minha volta.
– T-Trezentos mil quilômetros p-por hora. – respondi, com a voz meio trêmula de fraqueza.
– Você pode atingi-la agora?
– Não. – respondi, chateado por ainda não ter chegado perto nem da velocidade do som.
– Qual é o limite de um Cavaleiro?!
– Não existe limite. – respondi com toda a certeza, orgulhoso e honrado. Levei novamente as mãos para trás e voltei à postura de antes.
– Existe limite para nós?!
– Não! – reafirmei alto.
– Você pode provar isso, por Atena?!
– Sim. – por Ela... Sim.
– Atingirá a velocidade máxima do Universo por Atena?! Pela nossa Deusa?! – gritou Aiolos, apontando para a imagem Dela no altar.
– Sim! Por Atena! – levei a mão ao peito e franzi a testa, olhando-A.
– Vejamos! – desafiou ele, finalmente.
Saga retirou de dentro de outra porta, que na verdade era um armário de instrumentos de treino na qual eu nunca tinha visto ser aberto, alguns aparatos que não consegui identificar de imediato porque pareciam estar embolados. Fechou a porta e veio em nossa direção, estendendo-os para Aiolos, que os pegou e começou a desembolar as cordas que envolviam o instrumento.
Depois de um minuto separando uma coisa da outra naquele grande “bolo”, Saga veio em minha direção com o que parecia ser um colete em malha de metal ligado a algumas faixas envoltas por grandes molas e o vestiu em mim. Logo senti seu peso anormal. Devia pesar mais de 300 kg, mas era fino e se acomodava no meu corpo como uma roupa comum (com certeza, foi carregado cosmicamente ou qualquer coisa do tipo para pesar tanto). Aiolos também veio até mim com o que pareciam ser botas de metal. Percebi que ia ter que usá-las, me ajoelhei e retirei meu calçado. Saga os pegou e se direcionou para a arquibancada para guarda-los. O Cavaleiro de Sagitário calçou as botas nos meus pés. Deviam pesar mais de 100 kg cada uma.
Quando dei o primeiro passo com aquela indumentária pesada, senti a força que tinha que implantar nas pernas e tronco para me mover. Acredito que mesmo que eu não tivesse explodido meu cosmo a pouco e gasto muita energia, eu teria dificuldade de andar de imediato com aquele aparato. Apesar do peso, até que não era desconfortável.
Aiolos pegou um cinturão de algum material macio muito resistente e o vestiu por cima do da Armadura. Me senti ser puxado em sua direção e travei instintivamente os pés no chão. O motivo: tal cinturão era ligado pelas faixas elásticas ao colete que eu vestia.
Ouvi ou certo alvoroço e comentários vindos da arquibancada.
– Ei, manão, que instrumento de treino doido é esse ai?! – perguntou Aiolia de lá.
– Pra que serve?! – perguntou Milo.
– Não vai arranhar sua Armadura? – perguntou Mu.
Saga e Aiolos se entreolharam e riram da curiosidade deles.
– É de treino avançado e específico, por isso vocês não conhecem. Isto é o Cabo de Corrida por Tensão, mas carinhosamente conhecido com “Cabo”. – respondeu Aiolos, pegando o que parecia ser um relógio de pulso e colocando-o no punho direito – Não vai arranha-la, Mu, foi projetado pra isso. E vocês verão para que serve na prática do Camus aqui.
Eu também nunca tinha visto ou ouvido falar do “Cabo”, mas pelo seu nome um tanto descritivo já dava para ter uma ideia para o que servia. Aiolos andou na direção do centro da arena, arrastando o cabo elástico que nos ligava, ainda sem me puxar, já que não estava totalmente esticado. Saga veio até mim e pôs a mão no meu ombro.
– Vá andando na direção contrária a dele sem tensionar o cabo. – disse ele, e me piscou um olho – Boa sorte.
– Obrigado, Saga. – agradeci, e fiz o que ele havia dito. Senti cada músculo das minhas pernas e coxas trabalharem pesado devido ao peso do colete e das botas e do cabo espesso que se arrastava pela arena.
Quando Aiolos chegou ao meio da arena, eu já tinha quase estendido o cabo todo, que já estava esticado e bem acima do chão. Quando eu finalmente cheguei ao ponto que Saga havia dito, parei, olhei para trás e vi o Cavaleiro de Sagitário bem ao longe. Eu ainda não tinha atingido a mureta que separava a arquibancada da arena, que devia estar a uns 50 metros de mim. Nossa... Totalmente esticado e sem tensionar, o cabo devia ter quase uns 150 metros de comprimento... Quase o raio da arena. Imaginem sua extensão real se tensionado?
Vi Saga sentar-se na mureta, me olhar, assentir e fazer um sinal de “ok” para Aiolos.
– Camus! – chamou o Cavaleiro de Sagitário lá de longe – Comece a correr! – e fez um gesto circular no com o braço estendido para cima.
Ao receber a ordem, entendi que eu deveria correr em círculos. Me virei para o leste e comecei a fazê-lo em sentido horário. Já nos primeiros segundos, senti como se meus músculos da coluna, coxa e perna fossem se arrebentar ou se destacar dos meus ossos. Tudo bem que eu era uma criança anormal que aguentava 20 vezes o meu peso (sempre fui magro, e pesava 20 kg na época. Logo, eu conseguia elevar 400 kg), mas se forem somados os 300 kg do colete, os 200 das botas e os mais sei lá quantos do cabo (400/500 kg, suponho), o peso que eu carregava já se passava longe do meu limite infantil de força bruta.
Para que eu não me cansasse tão facilmente, tentei manter minha respiração somente pelas narinas e cerrei a mandíbula para me forçar a não abrir a boca. Meu corpo lutava contra isso, implorando por mais oxigênio. Minhas pernas quase faliam cada vez que eu contraía os músculos para dar o impulso necessário para continuar a corrida.
“Não desistir... Seguir em frente... Não há limite... Para... Um... Cavaleiro...”. Eu pensava, tentando me estimular a não me render às dificuldades.
Eu nem sequer atingi a velocidade de uma pessoa normal não habituada a se exercitar. Pesava demais, doía demais, era difícil respirar...
“Não... Posso... Falhar... Devo... Dar... Exemplo... Milo... E... Meus... Amigos... Companheiros... Por... Atena...”.
Eu precisava de força, muito mais força que o normal. Mas onde ela estava...? De onde ela ia surgir?! Meu raciocínio estava muito prejudicado pela dor e deficiência de oxigenação.
“Ai... Isso... Dói... Muito...”.
Devo ter diminuído a velocidade.
“Eu... Não... Consigo...”.
Me rendi ao clamor do meu corpo e ofeguei.
“M-Maldição... Camus... S-Seu... Fraco...”.
Minha visão começou a escurecer a intervalos de segundos.
“Não... Sou... Digno... Atena...”.
Cheguei ao limite da exaustão. A última sensação foi o baque do meu corpo contra o chão.
Tudo escureceu.
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