Notas iniciais
Oieeee, pessoas queridas desse coração! :) Tudo bem com todos? Espero que sim. Nhaaa, então, caríssimos, esse feriado foi muito "escritivo" XD! Consegui, finalmente, terminar de escrever esse capítulo :) Ebaaa! Gostaria de agradecer muito muito MUITO o comentário maravilhoso do Koushirou e à recomendação lindíssima da Haru Yamasaki! Muito obrigada pelo carinho e prestígio tão generosos, pessoal! :) Fico muito feliz, lisonjeada e agradecida, de verdade :,) Espero que gostem, queridos! Ai, como fico feliz em postar! XD Ai vamos nós...

– Argh...! – gemi ao cair de cara na neve.

Havia corrido mais de cem quilômetros sem parar e minhas pernas tinham acabado de falir pelo cansaço e dor. Não aguentava mais me mover... E dessa vez não parecia ter mais cosmo que me levantasse dali.

“A-Aonde... Eu estou...?”

Eu tinha seguido sem rumo e sem manter linha reta desde aquela caverna até ali. Fiz o máximo que pude para cumprir com a missão e honra de Adisa, mas alcancei a exaustão total. Usei a última força que me restou para virar a cabeça para o lado e não sufocar com a neve.

“A-Atena... Milo...”

Eu ainda trajava a Armadura de Aquário, que mais me pesava do que ajudava naqueles momentos. Não conseguia sentir o cosmo agressivo dos Cavaleiros Negros ou o determinado da Amazona de Pavão... Sei lá se era pela distância e pelo meu estado debilitado ou porque talvez...

“Adisa... Você...?”

Essa mulher... Salvou minha vida e cumpriu seu dever para com o Bem. Tem meu eterno respeito, admiração... E gratidão. Teria ela se sacrificado para derrotar aqueles três inimigos e cumprido finalmente seu objetivo...? Nunca mais a vi depois disso, mas tenho certeza que seu crime foi perdoado pela Deusa. Que Atena guarde seu espírito e cosmo... Ela os manteve para a Senhorita até o fim.

“Garoto...”

“Humm...?”

Que voz era aquela?

“Vai acabar morrendo se não sairmos daqui. ”

“???????”

Como assim: NÓS sairmos daqui??! Eu... Estava sozinho. Não estava?!

“Quem é você?”

“A prioridade não são apresentações. Levante-se.”

“Não... Consigo.”

“O que?”

Aquela voz... Me era muito familiar. Parecia que a havia ouvido há pouco...

“Não tenho mais força...”

“É mesmo?”

Fechei os olhos de cansaço. Eu já não estava vendo nada... Consegui perceber que o nível da neve no chão aumentava aos poucos. Senti um vento ainda mais gélido bater com muita força em minhas costas e alguns flocos de neve tocarem meu rosto e mãos. Devia ser uma nevasca que se iniciava.

“É.” respondi com um suspiro.

“Então, não irei perder mais tempo.”

Nesse instante, percebi o quão frio era aquele lugar. Senti minha pele queimar um pouco pela neve, que agora tocava livremente o meu corpo. Mas... Por quê?!

“Hã?!”

Abri os olhos com dificuldade e olhei para cima. Mesmo que eu estivesse com a visão embaçada e fraca, seria possível enxergar o brilho vivo do elmo em minha testa...

“M-Mas... O que?!”

... Mas não o vi.

“Por que o espanto?”

A Armadura de Aquário havia me deixado por vontade própria. Por isso, eu sentia o frio daquele lugar começar a congelar minha pele.

“Por quê?!”

“Já que não tem forças para continuar, é melhor que morra rapidamente. ”

P-Por Atena! Não... não era possível! Aquela voz era da...?

“E-Ei! Você é...?”

“Hum...”

Então, era mesmo a voz dela. Eu a havia escutado durante a luta contra Chioh de Cães de Caça como um sussurro, me dizendo exatamente o que deveria fazer e como elevar meu cosmo para lançar o PÓ DE DIAMANTE que destruiu completamente meu inimigo. Eu estava muito bem: primeiro uma ESTÁTUA, agora uma...

“Armadura?”

“Possuo nome, Cavaleiro.”

O nível de neve aumentava mais depressa e o vento gelado soprava cada vez mais forte. Minha respiração entrecortou... A temperatura havia baixado ainda mais. Deviam estar uns -30 °C.

“O-Onde... Onde você e-está?”

“Não muito longe.”

Hoje, posso dizer que sou um homem que não é afetado pelo frio. Mas, naquela idade... Mais precisamente: naquele dia, eu ainda não havia me adaptado bem à uma temperatura tão baixa e que diminuía a cada minuto. O frio mais baixo que eu havia encarado no Santuário era o que eu mesmo produzia nos treinos com meu cosmo... E não... Antes que pensem, não é a mesma coisa. Eu já havia aprendido a controla-lo o suficiente para que não me afetasse.

“Que pena...”

Além de tudo isso, meu cosmo parecia ter sido totalmente consumido. Eu não conseguiria usá-lo para me proteger do frio crescente daquele lugar. Eu sequer tinha forças para raciocinar... Era como se tudo em mim... Meu corpo e alma... Implorassem para que eu não me movesse mais e os deixassem descansar. O efeito da droga que aqueles dois me aplicaram parecia voltar a surtir à toda junto à exaustão física e mental.

“O... Que disse?”

“Disse que é uma pena.”

A voz que emanava da Armadura de Aquário era masculina e jovem. Seu tom soava despreocupado, mas ao mesmo tempo, decepcionado.

“O que...?”

“Guarda um cosmo infinito e poderoso consigo... Pena que não tenha vontade usá-lo.”

“Não... M-Meu cosmo s-se esvaiu...”

“Acha isso?”

“S-Sim...”

“Não tenho voz física. Como acha que me escuta? ”

“...”

Como eu a escutava? Ué... Eu simplesmente o fazia.

“Exatamente. ” Ela interpretou meus pensamentos.

“??”

“Seu cosmo é. Sempre.”

“Não... Entendo...”

“É. Existe. Infinito. Já está mais do que na hora de ter essa verdade entremeada em sua alma. ”

Realmente, eu só poderia estar escutando-a com a presença do meu cosmo. Sim... Estava certa. O Mestre sempre nos disse e ensinou sobre a supremacia e infinidade do verdadeiro cosmo. Mas... Estava tão... Difícil...

“Se essa adversidade mínima é capaz de detê-lo, Cavaleiro, pare de se lamentar e entregue-se logo à morte. “

“Que...? ”

“Se já desistiu de seguir em frente, que seja. Uma vez que um homem decide fazer algo, não deve voltar atrás. ”

“Eu...”

Não sei se já passaram perto de sentir algo parecido: meu corpo todo latejava em dor e eu tinha muita dificuldade para respirar. O ar ali era rarefeito devido à altitude, que devia ser bem mais alta do que a do Santuário (que também não era baixa). O nível de neve já havia aumentado... Chegara ao meu nariz e boca e os havia obstruído. Eu já quase não tinha sangue direito, muito menos oxigênio circulando para me manter consciente por mais que poucos segundos. Maldição... Mas, mesmo com tudo isso... Eu...

“... Não desisti! ”

“Interessante... Prove. ”

Meu cosmo é infinito porque...

... MINHA VONTADE TAMBÉM O É! Posso ser predestinado a ser Cavaleiro, mas sou eu quem traçará minha história... Meu caminho... MEU DESTINO NESSA VIDA!

“Minha luta ainda está longe... De chegar ao fim! ”

Elevei o que parecia ser o mínimo de cosmo-energia que existia em mim, mas ela se tornou imensa em milésimos de segundo. Movi meus braços e pernas e ergui o tronco com dificuldade, me pondo de joelhos. Arfei e inspirei o máximo de ar que pudesse caber em meus pulmões.

– Arrrgh... – gemi de dor e cerrei os dentes quando me levantei.

Dei alguns passos à frente, totalmente desnorteado. Eu não sabia onde estava... Aquele lugar parecia um deserto de gelo sem fim. Mas, mesmo que não tivesse a menor ideia de qual caminho seguir, era melhor que eu tomasse uma só direção... Chegaria a algum lugar... Ao menos, assim esperava.

“Não está se esquecendo de nada? ”

“Me esquec...? ”

Olhei para a direita... De onde parecia ouvir aquela voz.

“Nossa!”

Lá estava, em meio à nevasca e com mais de três palmos de neve soterrando-a, a Pandora Box de Aquário.

“Uau...!”

Por mais que eu estivesse totalmente na me#@$ (desculpem o termo), foi muito legal e deslumbrante vê-la pela primeira vez. É como ganhar algo que esperou ansiosamente toda a sua vida para conseguir... No caso de vocês, pessoas normais, é como ganhar um carro, ou... Não, não... Por Atena. Ok. Não tem a menor comparação, mas é só para me fazer entender.

“Humpf! U.U ”

Carros também não tem essa personalidade... ¬¬

“Desculpe. Não vi que estava ai.”

“A tempestade está se agravando. Para mim, não faz diferença. ”

Mas... Que simpatia incomensurável! O.o

“Jura? Não tinha percebido! ” Fui sarcástico enquanto encaixava as alças da Pandora Box nos ombros “Obrigado pelo aviso. Estou salvo agora. ”

“Tisc... Quanto atrevimento. Você não dura nem mais uma hora sem mim. Mostre respeito e... Blá, blá, blá, blá... ”

Foi nesse momento em que percebi que era melhor ignorá-la em situações como essa. Parecia até um sermão do Estátua ¬¬. Deixei-a falando indignada enquanto caminhei com os olhos entreabertos para protege-los do vento congelante.

“Atena...”

Andei em linha reta (ou achei que o tivesse feito) por um tempo que não tenho noção até hoje. Parecia uma eternidade. Por mais que eu conseguisse caminhar com a força do cosmo, meu corpo ainda doía muito e gritava por descanso. A nevasca havia tornado seu sentido para contra a direção que eu seguia e agora me empurrava para trás... A Pandora Box, que normalmente seria leve para mim, pesava nas costas, me deixando mais lento e instável. Tudo era tão penoso, árduo... Mas eu não perderia a esperança... Jamais.

“Milo...”

Pensei em nossos últimos momentos juntos na Casa de Aquário... Seu sorriso, brincadeiras, abraços... No aeroporto... Nosso último toque... Seu rosto na janela... Como ele estaria?

“Minha Deusa... Por favor, proteja-o...”

Tudo foi tão rápido... Estive com ele há poucas horas... Agora... Tudo o que me restava eram lembranças.

“Não sei se te verei de novo... Mas lutarei até o fim por isso. ”

Forcei mais meu corpo contra o vento e respirei fundo. Eu tinha que encontrar algum lugar... Um abrigo... Ou qualquer outra coisa que me protegesse para que pudesse descansar o mínimo que fosse. Até que, em um momento, comecei a sentir a ventania diminuir um pouco. Levei o braço um pouco à frente dos olhos para conseguir enxergar alguma coisa.

“Acho que são... Árvores...”

Consegui ver alguma outra cor que não branco finalmente. Mais adiante, a um quilômetro talvez, estava uma floresta. Mesmo que eu não encontrasse um abrigo, ao menos poderia me proteger do vento atrás do tronco de uma das árvores... Ou melhor: pinheiros. Parecia só existir essa espécie ali. Segui o mais rápido que podia na direção do lugar, conseguindo me mover melhor agora, com menos ar me empurrando na direção contrária. Resolvi conter a tentação de me apoiar na primeira árvore que visse pela frente, pois eu deveria adentrar mais a floresta para me proteger melhor.

– Ahhh... – arfei de exaustão ao me escorar num tronco de uma delas depois de andar mais de duzentos metros ali dentro.

Tirei a Pandora Box das costas e a repousei ao meu lado no chão, quase ao mesmo tempo em que me sentei e apoiei as costas no pinheiro. Suspirei longamente várias vezes e abracei os joelhos, apoiando minha testa neles. Fechei os olhos, que ardiam bastante devido aos “arranhões” causados pelo vento congelante. Meus cílios estavam cobertos por gelo.

“Mantenha-se alerta. ”

– Pffff... – eu estava meio impaciente. Era difícil me manter firme e acordado naquele estado lastimável, mas eu sabia muito bem que não deveria dormir – Eu sei.

“Ótimo. Relaxe mais e o pouco de vida que te resta se esvairá. ”

– Dá um tempo... Tisc... – fiz um gesto de “cala a boca” com a mão.

“Tenho a eternidade pela frente, dou-te o tempo todo que quiser. Infelizmente, não posso dizer o mesmo do perigo. ”

Eu estava arrebentado e lutava com todas as forças que podia para seguir em frente, mas só queria um pouco de sossego. Meu corpo doía muito, meu coração estava dilacerado... Eu queria ficar na minha! Maldição... Ela não poderia ficar em silêncio só um pouco?!

“Cale-se.”

“O que?!”

“Isso mesmo que ouviu.”

“Ingrato. Vai se arrepender por essa atitude.”

“Me deixa em paz.”

Me encolhi mais, virei o corpo para o lado e apoiei meu ombro no tronco. Inspirei fundo mais algumas vezes e senti meu corpo tremer, mas eu estava tão exausto que ignorei essa reação. O vento frio soprou, me causou arrepios doloridos. Deixei pra lá de novo e ajeitei meu cabelo de modo que me servisse de proteção. Eu estava tão anêmico e com tão pouco sangue circulando que, mesmo estado exposto à uma temperatura tão baixa e com todos vasos comprimidos, minha pressão arterial deveria estar anormalmente baixa.

– Arrrhhh... – revirei os olhos e senti ânsia de vômito. O que veio à minha boca foi um líquido com gosto amargo que senti queimar até as narinas.

Ergui a cabeça e olhei para cima com os olhos perdidos. Ouvi... Acho que consegui ouvir... O farfalhar das mínimas e muitas folhas dos pinheiros. Era um momento em que eu só queria interagir com algo que não me fizesse pensar... Algo fácil, que ajudasse a lutar contra aquele sono doentio que me levaria à morte. Encontrei... Fiquei acompanhando com os olhos o balançar dos galhos e folhas. Alguns se desprendiam da árvore e eram levados para longe com a força da ventania.

“Liber... Dade...”

Acho que sorri. Aquelas pequenas folhas e galhos cobertos de neve ao vento começaram a voar em câmera lenta.

“Ar... Liberdade... Frio...”

Eu estava com o raciocínio bem debilitado. Acho que me identifiquei bastante com eles.

“Libertados... Ar... Frio... Sem destino...”

–------------------------------------------------------------------------------------------

– Sem... Destino? – uma voz... A voz que eu amava e não mais esperava ouvir sussurrou.

Rapidamente olhei para onde ela vinha. Não... Não acreditei. Com as mãos trêmulas, esfreguei os olhos para acordar. Mas... Não sumiram...

... Milo, trajando a roupa em que nos despedimos hoje, me sorria lindamente. Era trazido pela mão de uma jovem de cabelos castanhos, vestido branco, adornos de ouro e um...

...Báculo dourado... Ahh... Esse símbolo... Esse cosmo imenso e amoroso... O mesmo que senti em meu primeiro dia de treinamento.

– A-Atena... – eu estava rouco e minha voz quase não saiu.

Imediatamente, meus olhos se encheram de lágrimas de emoção e esperança ao vê-los. Mesmo tão fraco, tentei me levantar para me ajoelhar perante Ela. A Deusa me olhou preocupada e pediu com um gesto para que eu não o fizesse. Me sorriu gentilmente após.

– Minha... Deusa... – falei, fazendo-Lhe uma reverência e retribuindo-Lhe o sorriso.

Milo a olhou, parecendo pedir-Lhe permissão para algo. Atena assentiu, soltou sua mão e lhe afagou os cabelos. O futuro Cavaleiro de Escorpião se ajoelhou perante a Deusa, que lhe retribuiu com uma leve reverência e o apressou com gestos em seguida. Ele se virou na minha direção e correu, sorrindo. Mal tive forças para abrir os braços para recebe-lo.

– Milo... – falei fracamente.

– Shhhh... – fez e me deu um beijo na testa.

Ele havia me abraçado e deitado a cabeça no meu ombro... Estava tão quente... Eu o sentia perfeitamente... Não era possível que fosse uma ilusão, sonho ou delírio. Ele estava ali comigo, sem dúvida.

– C-Como...? Como... Você...?

– Pedi muito... Muito... E Ela me trouxe até você. – me olhou, sorrindo carinhoso, e beijou meu pescoço.

Meu corpo tremia demais e minha respiração entrecortava em rápidos intervalos. Com certeza, eu estava muito hipotérmico. Não sentia mais as extremidades do corpo. O olhei e sorri com dificuldade. Levei a mão trêmula até seu rosto e lhe fiz carinho como pude.

– Sem destino? – perguntou e me olhou preocupado.

– N-Não... – respondi, sem deixar de sorrir.

Ele se pôs de joelhos e me encarou profundamente. Me fez carinho nos cabelos e pôs as mãos em meu rosto. Se aproximou e encostou seus lábios nos meus. Fechei os olhos e engoli seco. Meu coração... Que batia fracamente deu um solavanco forte. Me senti... Vivo. Levantou o rosto e beijou meu nariz, sem tirar as mãos do meu rosto.

– Desculpe... Não resisti. – disse com o rosto corado – Ficou bravo?

Sorri e assenti negativamente, acariciando sua nuca. Ele fechou os olhos e sorriu, ainda com as maçãs do rosto rosadas. Suspirei, sentindo minhas costelas trincarem dolorosamente. Como eu poderia ficar bravo...? Minha racionalidade estava negativada naqueles momentos, mas mesmo que eu estivesse em meu estado normal, não negaria aquele gesto mesmo que tivesse sido um beijo mais... Mais... Ahmm... Todos já entenderam. Com o Milo... Eu passei a viver os momentos como se fossem os últimos, salvo em somente uma situação que contarei mais adiante.

O vento agora soprava levemente e não se ouvia mais o ruído das árvores.

– Atena... Desapareceu... – falei e olhei para ele, preocupado em não vê-La mais por ali nem sentir Seu cosmo.

Milo me abraçou forte e repousou a cabeça no meu peito.

– Queria tanto ficar aqui contigo. – suspirou e me olhou tristemente.

Dei-lhe um beijo na testa e retribuí o olhar. Sabia que não seria possível, mas eu lutaria com todas as forças para poder, no fim, estar com ele assim... Sem medo, ou despedidas...

Mas, de repente, ele se levantou e me pegou pela mão, me puxando com força para que me levantasse.

– Vem... Vem comigo! – disse, preocupado – Levanta... Vem!

O olhei sem entender o porquê daquela preocupação e temor.

– Camus, por favor, vem! – me puxava pela mão e blusa.

Naquele segundo, sua voz começou a se distorcer e a ficar distante, assim como minha visão.

– Levanta... Vem comigo! Vamos embora daqui!

Fechei os olhos e tonteei.

– CAMUS! CAAAAAAAAAAAMUUUUUUUS! – foram seus últimos dizeres entendíveis.

–---------------------------------------------------------------------------------------------

Abri os olhos e os esfreguei com as mãos. O vento batia com mais força em meu corpo e o farfalhar das árvores se mantinha alto.

“O que...?”

A dor ainda se fazia presente em todas as partes do meu corpo. Arfei, sentindo um vazio imenso quando não o senti mais perto de mim. Ainda sentia minha pele aquecida nas partes tocadas por Milo.

“Por Atena... Foi real...?”

Eu tinha certeza que tinha sido. Pode parecer insano e bizarro, mas ele esteve ali... E com Atena.

– Rrrrrrrrrrrrrrrrggggggghh...!

“Que foi isso?!”

Levantei a cabeça quando ouvi aquele som. Parecia um... Rosnado furioso.

– AAAAAUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUU!

– UUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUOOOUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUU!

“Uivos?!”

“Boa sorte com seu tempo.”

Era a voz sarcástica da Armadura de Aquário. Droga! O que ela queria dizer com...

– Arrrggggggggrrrrrrrr!

Ouvi mais um rosnado e o som de folhas sendo pisadas. Algo se aproximava de mim ferozmente, até que a criatura se pôs na minha frente.

“Maldição...”

Um lobo cinzento me encarava com seus olhos amarelos e dentes à mostra. Milo... Então era por isso que você...

– AAAAAAAAAAAUUUUUUUUUUUUUUU! – o animal uivou e voltou a me encarar.

Eu nunca tinha tido contato com animais selvagens e ferozes como ele, mas já tinha lido alguma coisa sobre e ouvido algumas histórias do Mestre. Eu deveria me levantar devagar e sem fazer movimentos rápidos que poderiam assustá-lo. O Milo... O pouco tempo que pude ao menos parar e descansar por uns minutos... E a presença de Atena aumentaram ainda mais a minha vontade de seguir em frente. Elevei meu cosmo o suficiente para que minhas pernas tivessem forças para me erguer.

– Rrrrrrrrrrrrrrgh... – o lobo rosnou e deu um passo à frente.

Não... Mesmo que eu não conhecesse o comportamento desses animais, percebi que ele não me temia nem um pouco. Sua energia era de pura agressividade. É, os bichos podem não possuir um cosmo tão complexo como o do ser humano, mas emanam energia como nós. Somente possuem formas diferentes de expressá-la.

Após me levantar, peguei a Pandora Box devagar por uma das alças e a coloquei no ombro. Ouvi mais rosnados e sons de pisadas se aproximarem.

“Ah, não...”

Mais uns dez deles surgiram e me encararam... Todos com as orelhas para trás e mostrando os dentes. Droga... Eu não tinha forças nem para usar golpes em meros lobos! Só não me senti um mer#@ porque tinha consciência de tudo que eu havia passado hoje. De qualquer jeito, não sou do tipo que ataca animais, mesmo que eles estejam me vendo como jantar. Era a hora de eu pôr à prova os treinos de corrida.

De repente, um deles avançou e me atacou. Me desviei e os outros vieram de várias direções. Corri em baixa velocidade em círculos e os deixei confusos. Até que me livrei do ataque do último e tomei um caminho livre.

“Por Atena!”

Eu estava muito ruim... Fraco. Por mais que elevasse meu cosmo, meu corpo começava a recusar a energia que o sobrecarregava. Só consegui alcançar 50-60 km/h, o que é ridículo para quem já havia chegado à velocidade da luz. O Mestre havia nos dito uma vez que, quando chegássemos ao ponto de o corpo recusar e parar de responder ao cosmo, corríamos grande risco de morte súbita. Sim... Cavaleiros são humanos. Nosso cosmo pode ser infinito e até imortal, mas não o corpo.

A matilha me perseguiu por poucos minutos, mas os despistei depois de um tempo. Mesmo assim, não parei de correr... Se parasse novamente, ia ser ainda mais difícil voltar a me mover. Continuei até perder a noção de onde estava indo... Sei lá qual direção que eu tinha tomado.

“Ahhh, maldição!”

Parecia até que eu tinha voltado ao mesmo lugar antes da floresta! Me vi novamente vagando pelo deserto de neve. Desacelerei um pouco para poupar energia.

“Confuso?”

“Nada! Minha casa é logo ali!” O.O ¬¬

“Está quase morto e ainda consegue ser estúpido?!”

É... Eu estava descarregando minha frustração nela. Confesso que fui um idiota.

“Tá. Desculpa.”

“Humpf...”

Mais do que qualquer parte do meu corpo, as que mais doíam eram os ombros e a coluna. Imaginem porquê?

“Você podia ser mais leve, né?!”

“Você podia ser mais forte, né?!”

Retirem o que eu disse. Ela merece minhas respostas legais.

“Espere só até eu me recuperar...”

“Ficoooouuu nervooooooso, ééééé?!”

“... Vou carregar essa sua maldita Caixa com a...”

“Hahahahahahaha!”

“... ponta do DEDO!”

“HAHAHAHAHAHAHA!”

Sem comentários. Estou sendo zoado, não pelo Aldebaran, Aiolia, Máscara da Morte, ou até pelo próprio Milo, não... Simplesmente: pela minha Armadura.

“Ahhhh! Que coisa... Você é UMA ARMADURA. Aja como tal.”

“Estou agindo. O que há de errado?”

“Você PENSA... E FALA!”

“E...?”

Cheguei a uma conclusão ainda mais bizarra.

“VOCÊS TODAS SÃO ASSIM?”

“Depende... Algumas de nós são mais quietas, tímidas...”

Aquilo era demais. Não que eu estivesse muito impressionado, já que minha Casa interagia comigo, mas... Incrível!

“Uau...”

“Por que “uau”?”

“Acredita que é normal?”

“Olha quem fala: o amigo das estátuas!”

Corei. Então, ela sabia?!

“Ei! Como...?”

“Conheço aquela Casa há MAIS TEMPO e MAIS que você, Cavaleiro.”

Realmente, há MUITO MAIS e MAIS mesmo.

“Eu tenho nome.”

“Eu também U.U”

Ela é difícil de lidar. Geniosa. Mas eu também não sou fácil.

“Chega.”

“Hum?”

“Você agora vai no chão.”

“????”

Tirei a Pandora Box das costas, a repousei sobre a neve e comecei a arrastá-la pela alça.

“Que absurdo ò.ó”

“Bem melhor.”

Ela continuou falando e protestando por bastante tempo na minha cabeça. Até que se calou. Até que me distraí bastante e esqueci da dor e dificuldade que estava passando naquelas horas. Sim... Se eu estivesse completamente só, ou ela não fosse de falar, como disse que acontece com outras Armaduras, teria sido pior.

Também... Por Atena... Ela estava sendo tão dura comigo também para me proteger e dar forças desde o início. Salvou minha vida umas três vezes... Isso só hoje. Olhei para a Caixa e sorri, agradecido... Posso dizer: arrependido por ter dito certas coisas.

“Desculpas aceitas.” Leu meus pensamentos.

Parei e me ajoelhei. Dei um sorriso agradecido e abracei a Caixa. Posso parecer um louco pronto para ser internado, mas... Se estátuas interagem... Armaduras interagem... Por que não posso dar um abraço na minha? Afinal: o que é um Cavaleiro de Atena sem sua Armadura Sagrada? Pode até lutar e utilizar seu cosmo normalmente, mas morrerá facilmente se atingido por um golpe fatal e até canalizar seu poder de maneira errada. Elas nos mantém ainda mais conectados com nossas Constelações, podendo ser consideradas a representação mais perfeita delas.

“Agora eu é quem mereço “um tempo”. ”

“Hehehe... Que rabugenta... Hahaha!”

Estava tudo tão penoso, e ela era a única coisa que eu tinha. Não tive mais força para pergunta-la como havia chegado até mim hoje durante a luta contra o Cães de Caça. Voltei a coloca-la nas costas e me esforcei para andar. Minhas pernas bambeavam e eu quase caía a cada passo. Até que avistei...

“Fumaça?”

Uma mancha branca de vapor ascendia até o Céu, que escurecia rapidamente. Aquilo só podia significar...

“Uma... Cidade...?”

Esperança... Me esforcei ao máximo para chegar até lá. Ainda não fazia ideia de como conseguiria abrigo. Não tinha dinheiro, estava todo sujo e só com a roupa do corpo. Pensaria nisso se conseguisse alcançar o lugar sem apagar e cair de cara na neve novamente.

“Atena... Por favor... Me mantenha... De pé.”

Andei devagar por mais uns minutos, até avistar o local: haviam casas de diversos tamanhos, algumas ruas, pouca iluminação... Era uma vila. Poderia dizer que com uma estrutura parecida com a de Rodorio, mas com arquitetura rústica e escura. Estranho... Era muito semelhante a algumas que o Mestre havia me mostrado em álbuns de fotos da...

“...Sibéria.”

Eu... Estava lá? O avião estava realmente destinado à Rússia? Sim... O voo era para Vladvostok, uma grande cidade portuária russa, mas havia caído justamente na Sibéria... Não sei. Mas, realmente aquela vila parecia uma daquelas das fotos.

“Vai mesmo aparecer ali com uma Caixa de Ouro nas costas?”

Tinha me esquecido de como chama atenção. Ela tinha razão. Mas...

“Onde eu vou te deixar?”

“A neve pode me esconder.”

“Mas... E se te acharem?!”

“Não se preocupe com isso.”

Apesar de me preocupar, fiz o que disse. Tirei a Pandora Box, a repousei no chão e chutei neve para cima dela até que a cobri. Não estava mais em condições de raciocinar direito há muito tempo... Nem gravei aonde a tinha escondido. Andei bem lentamente até a vila.

“Obrigado, Atena.” Agradeci e me escorei na parede de uma das casas em um local escuro para que não fosse visto.

Não consegui sequer pensar em como agiria para ter com as pessoas do lugar. Falar Russo? Aprendi, mas quem disse que meu cérebro tinha condições de processar outro idioma que não Grego? Nem isso mais eu estava entendendo.

– Aaaaaaaaahhh! (grito apavorado de uma mulher)

Bem, isso ainda dava.

– Pozhaluysta, ostav' menya odnogo! (Por favor, me deixe em paz!) – a ouvi pedir.

– Tol'ko yesli vy dadite mne rybu! (Só se me der o peixe!) – rosnou a voz de um homem.

Não entendi nada do que disseram, mas ela estava apavorada. Andei, ainda escorado na parede para ver o que acontecia. Estava escuro... Mas consegui avistar suas silhuetas devido à luz de um poste. Estavam em um beco. O homem a segurava pelo braço e ela parecia ter algo seguro no outro... Algo este envolto em um manto.

– Net! U menya yest' tol'ko eto , chtoby poyest'! (Não! Só tenho isso para comer!) – ela relutou e tentou correr.

O homem a lançou contra uma parede e pareceu segurá-la pela cintura.

– Buuuuuuuaaaaaaaaáááá! (choro assustado de um bebê)

– Tak dast mne chto-to luchshe! (Então, vai me dar algo melhor!) – riu o homem, tocando em seus seios.

– Net! Pomogite! Moy rebenok! (Não! Socorro! Meu bebê!) – gritou apavorada e chorando.

“Maldito!”

Não pensei duas vezes. Aquilo era terrível... Brutal! Ele ia estupra-la (não que eu tivesse noção do que era isso aos sete anos, mas era evidente o pavor da moça)... E ela tinha um bebê nos braços?! Isso nunca. Nem me importei se talvez, naquele estado, eu morresse pelas mãos de um escro&% daquele, mas o levaria junto comigo para o Meikai. Até consegui pensar no que dizer e como:

– Bros' eto. (Solte ela.) – falei, caminhando devagar na direção dos dois.

– Kakaya?! (O que?!) — rosnou o homem, e se virou para me olhar.

– Bros' eto. (Solte ela.) – repeti.

O homem era barbado e calvo, gordo e bem alto. Cheirava a álcool e esgoto misturados... Com uma expressão de desprezo e sádica, jogou-a no chão e veio em minha direção. A mulher gemeu de dor ao cair de costas no chão para proteger o filho, que chorou mais alto.

“Homens... Como esse... Não devem... Viver.”

– Tak tak! Stanovitsya luchshe! (Ora, ora! Está ficando melhor!) – o homem deu um riso doente, abaixou e estendeu a mão para me pegar pelo pescoço.

Elevei meu cosmo ainda mais. Segurei seu punho e o contive em velocidade sobrenatural, encarando-o com o mesmo olhar... O último que Chioh viu antes de morrer. Ele arregalou os olhos e se forçou contra mim. Não me fez mover um centímetro sequer de onde eu estava. Tentou me socar com a outra mão, a qual também detive.

– Chto eto?! Chto vy, demon?! (O que é isso! O que é você, demônio?!) – gritou o imbecil, enquanto seus braços se transformavam em gelo – AAAAAAHHHHH!

Não sei de onde surgiu tanta energia para congelá-lo completamente, mas o fiz enquanto agonizava... Até que seus gritos foram calados pela chegada da morte. Empurrei com a mão livre a estátua que se formou e a observei, totalmente inexpressivo e indiferente, rachar-se ao meio quando se chocou com o chão.

– Bozhe Moy...! (Meu Deus...!) – a ouvi espantar-se.

Arfei e caí de joelhos. Senti a dor chegar ao ápice... E o gosto metálico de sangue na boca...

– Bog neba! (Deus do Céu!) – gritou ela, mal ouvi seus passos correndo até mim –Ty v poryadke?! (Você está bem?!)

– A... Te... Na... – sussurrei com a voz rouca.

Sem mais firmeza, meu corpo desfaleceu. Ouvi o choro do bebê e me senti ser pego nos braços...

– Mal'chik! Ey! Bozhe Moy... Ty krovotecheniye! (Garoto! Ei! Meu Deus... Está sangrando!) – disse, desesperada – Ostan'sya so mnoy! (Fique comigo!)

...Não consegui sequer ver o rosto dela... Já não havia mais luz.

Notas finais
Que comecem as Crônicas da Sibéria! Espero, de coração, que tenham gostado! :) Até mais! ;) Que Atena esteja com todos!