Mago da Água e do Gelo
19 Crônicas da Sibéria Vol. I - Um novo começo
Notas iniciais
Piiiiii... Piiiiiii... Piiiiiii... Piiiiiii... Piiiiii... Piiiiiii... Piiiii... Piiiiiii... (som constante e agonizante ao longe)
– ... Deystvitel'no, eto udivitel'no! (... Realmente, é incrível!) (voz masculina desconhecida)
– Eta zhenshchina... Eto blondinka... yego mat'? (Aquela mulher... Aquela loira... É a mãe dele?) (outra voz masculina mais jovem, também não identificada)
Piiiiii... Piiiiiii... Piiiiiii... Piiiiiii... Piiiiii... Piiiiiii... Piiiii... Piiiiiii...
– Ya ne... (Não...)
– Byli mnogo yedinits krovi? (Foram quantas bolsas de sangue?)
– Nam prishlos' perelivat' tri seychas... Davayte posmotrim, kak on budet reagirovat'. (Tivemos que transfundir quatro, por enquanto... Vamos ver como ele irá reagir.)
– Etot paren', chto deystvitel'no mozhno nazvat' chudom. (Esse garoto é o que realmente pode se chamar de milagre.)
Piiiiii... Piiiiiii... Piiiiiii... Piiiiiii... Piiiiii... Piiiiiii... Piiiii... Piiiiiii...
– Prikhodite, chtoby pogovorit' s ney... Eto ochen' rasstroyena. (Vamos lá fora falar com ela... Está bastante aflita.)
(Ruído de porta abrindo – passos – porta se fechando)
Piiiiii... Piiiiiii... Piiiiiii... Piiiiiii... Piiiiii... Piiiiiii... Piiiii... Piiiiiii...
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Piiiiii... Piiiiiii... Piiiiiii... Piiiiiii... Piiiiii... Piiiiiii... Piiiii... Piiiiiii...
(Som de porta se abrindo – passos se aproximando)
– Ai está ele. (uma das vozes masculinas de antes)
– Ahhhh... Pobre menino... (voz feminina chorosa... Acho que já a ouvi antes...)
(Choro longo e muito emocionado de mulher)
– A-Acredita que ele v-vai se salvar? – perguntou ela.
– Não posso dizer ao certo, minha amiga. – disse ele, com voz duvidosa.
Ela chorou mais.
– P-Por f-favor, Ivo... Salve-o... – pediu a moça, com dificuldade.
– Esse menino chegou aqui morto... É inacreditável que esteja mantendo as funções vitais. Quero que entenda isso, querida.
– M-Mas...
– Seus valores sanguíneos e temperatura corporal eram incompatíveis com a vida... Ainda tem sete costelas quebradas e múltiplas fissuras nas vértebras, geladuras gravíssimas nas palmas das mãos e antebraços, hematomas em praticamente todo o corpo...
– P-Por Deus...!
– E o exame de sangue ainda acusou a presença de superdose de cetamina circulante.
– O-O que é... C-Cetamina?
– Um medicamento anestésico dissociativo... Mas é utilizado indiscriminadamente como droga.
– Oh...! M-Mas...
– Certamente não foi ele quem se drogou ou se molestou dessa maneira...! Passou por algo muito terrível... Não sei que monstros seriam capazes de fazer isso à uma criança inofensiva! – ponderou, indignado.
– Sim... V-Verdadeiros demônios...!
– A polícia já está investigando o caso... Que seja feita a justiça contra os desgraçados! – desejou Ivo – Mas dou minha palavra que farei de tudo para que aconteça o melhor para ele.
– O-Obrigada... D-Deus lhe a-abençoe... – agradeceu e suspirou.
– Ele não tinha nada quando o encontrou, certo?
– Nada... Só a roupa do corpo.
– Por Deus... Não tem um documento, nem nada que diga de onde veio, o nome dos pais... Estava com a roupa rasgada e muito fina para o frio da Sibéria.
– Sim... Nem o nome dele sabemos. Coitadinho... – emocionou-se ela.
– Por falar em desconhecido: o caso do avião vindo da Grécia que se despedaçou ao norte também é um mistério... Até agora não foi encontrado um corpo sequer das vítimas...
– Ah... Sim... O “avião fantasma” que foi encontrado em pedaços anteontem...?
– É... Estão chamando assim porque parece que não havia ninguém a bordo... Nem a caixa preta revelou qualquer som. Todos os passageiros embarcados pareciam ter identidade inexistente e...
– Hum... Posso me sentar...? – pediu ela, suspirando – Não me sinto muito bem...
– É claro! Por favor... – som de assento sendo arrastado – Precisa de algo?
– Não... Só preciso descansar um pouco. – suspirou, cansada – Hããã.. I-Ivo?
– Sim?
– Você já sentiu algo como... – tentou dizer – Bem... Um sonho... Que parece muito real?
– Hum... Como um déjà vu?
– Também... Mas... Muito mais que um simples déjà vu... Eu sinto... Sinto tudo perfeitamente... Real demais para ser falso, mas... Inacreditável demais para ser verdade.
– Explique melhor...
– B-Bem, I-Ivo... Você é um amigo muito querido. – declarou – Posso... Confiar em você?
– Claro, querida! – afirmou – Estou aqui para ouvi-la. Fale, por favor.
Ela deu um longo suspiro, parecendo hesitar. Mas, enfim, disse:
– Há duas noites... E-Eu voltava da casa de meu padrinho com algumas postas de peixe que ele havia me dado para passar o fim de semana... Ele mora em um local afastado do vilarejo onde resido... Eram quase sete horas... Estava muito escuro... Não pude deixar meu bebê sozinho em casa, então me vi forçada a leva-lo comigo... – sua voz estremeceu e ela voltou a chorar – M-Meu D-Deus... – não conseguiu mais falar e chorou.
– Calma... Calma... – Ivo tentou acalmá-la.
Uns minutos depois, ela continuou:
– E-Enquanto eu caminhava de volta para casa... U-Um homem... Um l-ladrão... T-Tentou me roubar o peixe... E eu reagi...
– Não dever...! – tentou dizer ele.
– Eu sei... M-Mas... Era somente o que eu teria para comer. Não pensei direito... – justificou-se – O inverno está rigoroso demais esse ano, e não consigo ir à cidade para comprar mantimentos com meu pequeno dependendo de mim. Meu padrinho tem pescado e me cedido alguns peixes como pôde...
– Entendo...
– E-Então... Depois de eu ter negado a comida, o m-maldito tentou me... – ela suspirou e hesitou.
– Oh! Mas...?!
– Não.
– Não?
– Não... Ouvi a voz baixa e segura de um garotinho, ordenando que me soltasse.
– ????
– E encontrou a morte mais terrível... Segundos depois.
– Como?!
Silêncio.
– ELE?! – espantou-se Ivo – Esse menino MATOU o ladrão e te salv...?!
– S-Sim... Por isso, te perguntei sobre sonhos que se parecem realidade...
– M-Mas... E-Ele já estava naquele estado deplorável quando... Quando te salvou?
– Acho que sim... Não houve luta... Ele encostou suas mãos no homem... Depois de uns gritos agonizantes, o maldito partiu ao meio, caiu e se espatifou no chão.
– Oi?
– Se espatifou... E-Em v-vários pedaços. – disse ela, com a voz trêmula.
– Em... PEDAÇOS?! – Ivo espantou-se ainda mais.
– Sim... Corri até o pequeno... Ele sussurrou algo que não entendi... E desmaiou em meus braços. – a moça confirmou com voz cansada – N-Não acha que seja verdade... Acha?
Ele suspirou. Fez-se silêncio por uns minutos... Até que Ivo se recompôs o suficiente para dizer algo.
– Amiga... Veja bem... Acho que deve estar passando por muitas situações difíceis em sua vida. – suspeitou, com voz paciente – Juntamente com o medo que estava de acontecer algo a ti e ao seu filho aquela noite, sozinha no escuro e longe de casa... Alucinações e delírios são descritos na literatura como sinais de estresse extremo.
– Entendo... – suspirou ela – Mas... Foi tão real, Ivo. Ainda consigo sentir as mãos imundas do homem... E um frio extremo, muito mais intenso do que o que enfrentamos no inverno mais rigoroso... Os cacos do meu agressor se perdendo ao chão...
– Você precisa descansar. Se quiser, posso te encaminhar para a Psiquiatria... Um especialista saberá te tratar melhor do que eu. – falou Ivo, com a voz calma – De qualquer forma, esse garoto já é um herói pelo fato de estar vivo... E de ter trazido você para esses lados para nos vermos depois de tanto tempo! – riu.
– Haha...! É verdade. Obrigada por tudo, meu amigo. – agradeceu, também rindo.
Piiiiii... Piiiiiii... Piiiiiii... Piiiiiii... Piiiiii... Piiiiiii... Piiiii... Piiiiiii...
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Piiiiii... Piiiiiii... Piiiiiii... Piiiiiii... Piiiiii... Piiiiiii... Piiiii... Piiiiiii...
“Que barulho chato...”
– E-Eu... Posso? – perguntou ela.
– Sim... É claro. – respondeu Ivo.
Já conseguia entender bem o que falavam. De um momento a outro, fui de analfabeto a fluente em Russo.
“Aonde... Estou?”
Senti alguém tocar minha testa e acaricia-la levemente com a mão trêmula.
– Oh, meu Deus... Ele está tão gelado, Ivo... – e chorou.
– Tem mantido essa temperatura desde ontem à noite... Mas considero como uma melhora enorme. Ele chegou aquela noite com menos de 30 °C... Ao menos, agora está com 34. – explicou Ivo.
– Ahh, sim...
Aquela voz... Ah... Era ela, eu acho. Se fosse, estavam a salvo... Mãe e bebê. A sensação de dever cumprido me trouxe um pouco de alívio momentâneo, mas... Por que eu estava tão sonolento? Nem para abrir os olhos eu parecia ter forças...
– Mmmm... – nem mexer a boca dava?!!
E meu... Corpo... Eu não... Conseguia me mover... Nada! Nem um dedo?! O que estava acontecendo...?!
– Mmmmm...!
– Ouviu isso? – espantou-se o homem.
– Por Deus...! – a senti aproximar seu rosto do meu e tocá-lo com ambas as mãos.
– Mmmmmmm...!
Piiiiii... Piiiiiii... Piiiiiii... Piiiiiii... Piiiiii... Piiiiiii... Piiiii... Piiiiiii... Pii... Pii... Pii.. Pi... Pi... Pi... Pi...
“Por que... Eu não... Consigo me mexer...? Que negócio é esse na minha garganta?!”
– Como é possível? Ele... Está anestesiado! – alterou-se Ivo.
“Meus... Braços... Tem algo... Minhas pernas...! Eu tinha ficado inválido?! Não! Ainda tenho muito pela frente... Atena... Milo... Isso não!”
Pi... Pi... Pi... Pi... Pi... Pi... Pi... Pi... Pi... Pi... Pi... Pi... Pi... Pi... Pi... Pi... Pi... Pi... Pi... Pi...
– A frequência cardíaca está aumentando muito rápido...!
– Pelo amor de Deus! O que isso significa, Ivo?
Inspirei com dificuldade... Havia algo me impedindo de respirar por conta própria. Entreabri os olhos e só consegui identificar algumas sombras e silhuetas.
– Ele acordou! – animou-se ela, ainda tocando minhas bochechas.
– Enfermeiras! – chamou Ivo – Me ajudem aqui! Amiga, afaste-se, por favor.
Ouvi passos apressados e muitas mãos me tocaram. Abriram minha boca e espirraram algo na garganta... Fui tomado por uma sensação horrível quando tiraram o que estava ali. Pensei que fosse vomitar... Mas não tinha força. Tossi e ergui o tronco de leve, mas me forçaram para trás.
– Vamos colocar o nasal... Ele está respirando bem sozinho! – animou-se Ivo – Isso... Isso é incrível... – sua voz acusava muito espanto.
– Está? Ai... Graças ao bom Deus! – suspirou aliviada.
Trocaram um tubo na garganta por algo nas narinas... Por sorte, incomodava menos e eu não tinha que lutar contra o respirador. Fechei os olhos... A luz do ambiente era insuportável.
– Meninas, apaguem as luzes, por favor. – disse Ivo – Ele deve estar com fotofobia. Foi tempo demais dormindo.
Ainda bem que ele me entendeu... Mas... Como assim: tempo demais?! Por Atena... Há quanto tempo eu estava desacordado ali?!
“Minha... Armadura...”
Ouvi o “click” do interruptor de luz. Minha mão foi pega por outras duas bem mais quentes.
– Pode abrir agora, querido. – disse ela, carinhosamente.
Os abri devagar. Novamente, só conseguir ver sombras de início. Até para mexer os olhos, eu estava lerdo. Ainda haviam luzes fracas emitidas pelos aparelhos no ambiente, mas, felizmente, não eram capazes de me cegar... Pelo contrário, me ajudaram a identificar quem estava ali. Direcionei minha visão para quem me tocava as mãos...
... Não dava para descreve-la muito bem nas condições em que eu me encontrava... Conseguia ver uma mulher de pele branca e cabelos lisos e longos. A encarei... Era jovem... Seus olhos claros brilhavam pela luz que refletia em suas lágrimas. Sorria timidamente e passou a acariciar minhas mãos.
Ao seu lado, estava um homem jovem e barbado que parecia me examinar atentamente. Ele pegou algo de seu pescoço, pôs nos ouvidos, retirou devagar os cobertores que cobriam meu peito e o tocou com algo circular... Um estetoscópio... Deveria ser médico... Desviou o olhar e cerrou os olhos para ouvir melhor meus batimentos. Auscultou mais algumas regiões e olhou para ela ao tirar o instrumento dos ouvidos, animado.
– Batimentos acelerados, mas sem alterações preocupantes. Pulmões ainda um pouco carregados, mas muito menos do que quando chegou aqui. – constatou e me olhou, piscando um olho – Impressionante...
– Que bom... Graças a Deus, meu amigo! – agradeceu ela, sorrindo para ele – Eu te agradeço muito!
Ele assentiu e lhe retribuiu o sorriso.
– Ainda temos tratamento pela frente. – falou, cruzando os braços – Mas o prognóstico dele é favorável. Tenho fé que irá sair dessa.
– Maravilha! – animou-se ela, e voltou a me encarar com um sorriso emocionado.
– Tente conversar com esse rapazinho, querida... Vou ver os outros pacientes. Qualquer coisa, saberemos pelo alarme. – o médico se levantou e seguiu para a porta do quarto seguido das enfermeiras, nos deixando à sós.
Meu raciocínio estava meio em “slow motion”... Entendi a animação deles com a minha aparente melhora, mas eu só conseguia pensar no que poderia estar por vir... E no que havia acontecido enquanto eu estive apagado! Eu não fazia ideia de onde estava (tudo bem... Só poderia ser um hospital... Mas em que lugar?), nem do paradeiro da Armadura de Aquário, muito menos se aqueles inimigos ainda me perseguiam... Adisa teria conseguido derrota-los?
– Ei...? Garoto?
Nem percebi que tinha desviado o olhar para cima... Eu devia estar com expressão pensativa e distante. O “garoto” ali só poderia ser eu. Olhei para quem me chamava.
– Oi... – sorriu e intensificou o carinho na minha mão – Você nos entende? – perguntou, aproximando seu rosto e falando pausadamente – Fala a nossa língua?
A encarei e assenti quase imperceptivelmente. Ela sorriu em resposta.
– Consegue falar?
Isso era uma pergunta que eu mesmo me fazia... Estava num estado tão debilitado que nem me lembrava que poderia tentar falar. Se bem que o meu Russo não era dos melhores... Entender eu estava conseguindo... Mas falar... O.o Já ouviram um diálogo nessa língua? Até um “eu te amo” parece um “vou te matar! ”. Mas fazer o que? Falando bem por baixo, “Milo stile”: o que é um peido para quem tá cagado? ¬¬
– ... – tentei dizer um “consigo”, mas não saiu nada.
Eu não sentia minha boca. Era como se não estivesse ali.
– ...! – não dava.
Devo ter feito cara de indignado e suspirei.
– Tudo bem... Não se esforce. – pediu ela, preocupada – Deve ser efeito da anestesia. Não precisa falar, tá?
Olhei para ela e assenti.
– Você é daqui? – perguntou sorrindo levemente.
Fiz que não com a cabeça. Ela concordou e pareceu preocupar-se, mas manteve o sorriso.
– Cadê seu papai e sua mamãe?
Repeti o gesto com uma expressão indiferente.
– Não sabe? – seu sorriso se desfez e ficou espantada. Qualquer criança ordinária se estimularia ao ouvir “papai” e “mamãe” – Mas... Você tem papai e mamãe?
Mantive o “não” sem expressar tristeza com o fato de ser órfão. Para nós, aquilo sempre foi mais que normal.
– Hum... – entristeceu-se, mas tentou disfarçar – E irmãos?
Assenti. Ela voltou a sorrir com uma resposta positiva.
– Ah é? Quantos?
Tentei mexer as mãos e um dos pés... Até que consegui espalmar as duas e estender o dedão do pé, mas não consegui tirá-lo de debaixo dos cobertores...
– Dez?! – arregalou os olhos e levou a mão à boca.
Agitei de leve o pé debaixo das cobertas e olhei para baixo. Ela percebeu que eu queria que fosse descoberto e o fez. Não posso deixar de contar o mais novo... E importante... Nunca... Esse jamais...
– Ah! Nossa... Ainda faltava um?! – mesmo espantada, ela riu com meu jeito diferente de contar – Então são onze?!
Assenti. Sim... Onze. Número bonito, não? ;) A maioria das pessoas contaria dez com todos os dedos da mão e estenderia um depois para representar um número maior... Mas assim é mais legal U.U Faz sentir os dedos do pé úteis. Mesma sensação que dá quando pegamos algo do chão com eles ao invés de abaixar para pegar com a mão: “Uau! Funcionam! ”.
– São muitos irmãozinhos, hien?! Hahaha! — ela riu mais.
Bem, moça... Nem todos eram “irmãozinhos”... Mas deixa pra lá. É... Éramos onze, mais um que não conhecíamos... Mestre Shion nos dizia que era seu companheiro da última Guerra Santa e que, um dia, lutaríamos lado a lado. Dei um sorriso tímido enquanto olhava para o meu dedão e pensava em quem ele representava.
– Legal. E onde eles estão?
Ahh... Essa eu não conseguiria responder com gestos. Ainda não aprendi a linguagem dos sinais, e acho que ela também não saberia... Pensei que eu AINDA estava ali deitado enquanto o perigo poderia surgir a qualquer momento... Deveria me esforçar para recuperar as forças. Eu tinha que insistir na tentativa de falar.
– ... E... – minha garganta arranhou, mas mantive toda a minha concentração – Eles...
– Não precisa forçar a fala, querido! – preocupou-se e se aproximou de mim para me cobrir e acomodar melhor na cama – Vou deixar você descansar...
– Es... Espera... – pedi.
A moça me olhou, ainda preocupada.
– Não... Eu vou partir. Volto para te ver mais tarde, ok?
– Por... Favor... Espera...
Ainda com a mesma expressão, sentou-se ao meu lado na cama.
– Tá bem. Mas só mais um pouquinho... Você deve voltar a dormir logo.
É o que pensa, mademoiselle. Já dormi MAIS que o suficiente U.U
– Há... Quanto tempo... Estou aqui? – perguntei finalmente, ignorando a pergunta que me fez antes.
Ela deu um sorriso contentado.
– Há quase três dias, mocinho.
TRÊS DIAS????! Devo ter arregalado os olhos e feito cara de pressa. Tentei me mexer instintivamente... Percebi que eu tinha os dois braços perfurados por cateteres ligados à equipos de soro fisiológico e outras coisas do tipo. Levei uma mão à um dos acessos venosos para arrancá-lo... Precisava ficar de pé! Ainda tinha algo imobilizando meu pescoço... Maldição!
– Nem pensar! – segurou minha mão e fez cara de bronca – Que coisa feia!
A encarei... Será que ela não tinha visto o que eu fiz com o sujeito aquela noite? Estava me tratando como uma criança qualquer... Era estranho demais... A grande maioria das pessoas normais me temeria se soubessem do que sou capaz (não que eu goste disso).
– Preciso... – tentei dizer.
– Não senhor! Vai ficar quietinho ai e...!
Toc! Toc! Toc!
Salvo da bronca pela batida na porta. Mas, antes de levantar para abri-la, ela ainda me olhou com ar de esporro:
– Não sai daí, hien?!
Abaixei os olhos sem assentir. Se fosse o Máscara da Morte no meu lugar, com certeza daria uma bela resposta atravessada... Tipo: “Perdeu a noção do perigo, mortal!?”... Hehehehe! Se bem que, daquele jeito que eu estava, não dava para impor respeito... Muito menos meter medo em ninguém mesmo... :(
“Maldição...” ¬¬’
Ela foi até a porta e a abriu.
– Oiiiiii, neném... – disse ela com voz estranhamente modificada/retardada de quem se direciona à uma criança – Obrigada por trazê-lo, Cátia. Tossiu muito? – pegou algo no colo – Teve febre?! Ah... Meu Deus... Tudo bem! Agradeço! Tchau! Depois passo lá! Beijo nas crianças!
Fechou a porta e olhou na minha direção. Percebi que estava com dificuldades de enxergar na escuridão que estava o quarto, já que olhava atentamente em todas as direções e emanava energia de receio. E muita preocupação direcionada a alguém muito próximo...
“Eu... Consigo senti-las...”
Sim... Eu já recobrava minha força e percepção cósmica... Conseguia sentir as energias de baixa frequência que as pessoas normais são capazes de produzir. Todos os seres vivos possuem cosmo, mas nem todos são capazes de entende-lo, manipulá-lo e expandi-lo como nós, Cavaleiros. Temos percepção de toda e qualquer energia que existe no mundo... Principalmente a emitida por nossos semelhantes: humanos.
Logo percebi a quem ela direcionava a preocupação... Havia outro ser ali... Ouvi o balbuciar de um bebê que ainda aprendia a falar.
– Mama...
Direcionei meus olhos no mesmo instante para o pequeno ao ouvir sua voz.
– Pêto... Tudo pêto...
Essa criança... O que...? Eu sentia algo... Um pequeno... Cosmo... Como o nosso... Dos Cavaleiros de Atena? Não... Não seria possível. Eu ainda não estava bem... Eram muitas “dorgas” em tão pouco tempo. Melhor não confiar.
– Filho, quero que conheça alguém... – disse ela ao bebê, enquanto andava com dificuldade pelo quarto escuro.
– Acende... A luz. – falei devagar.
– Mas... E os seus olhos? – preocupou-se ela.
– Acende... – insisti – Não quero... Que se machuquem.
Apesar da pouca luz e da minha fraqueza, eu enxergava cada vez melhor. Notei uma expressão de surpresa em seu rosto quando ouviu minha última fala. Ela andou até um canto da parede e acendeu as luzes. Pisquei um pouco os olhos para acostumar minhas pupilas... Mas estava tudo bem. Minha visão havia se reacostumado e adaptado normalmente.
– Ahhhh...? – fez o bebê.
Os olhei enquanto ela caminhava na minha direção com o filho nos braços. Agora, posso descreve-la melhor: loira, alta, olhos azuis. O pequeno tinha os cabelos e olhos dela... Era muito parecido com a mãe, de fato.
– Ahhhhhh! – o bebê riu e olhou para a mãe.
Ela se sentou ao meu lado em uma poltrona para as visitas, sorrindo com a animação do pequeno, mas preocupada se o barulho que ele fazia me incomodava.
– Xiiiiiii... Quietinho... – disse ela para o filho – Ele tá dodói... – repousou a mão no meu peito para mostrar a ele quem estava “dodói” ¬¬
O bebê acompanhou o gesto da mãe e me olhou, com uma carinha preocupada.
– Dodó? – fez cara de dúvida e me encarou.
“Não estou “dodói” coisa nenhuma... ¬¬” pensei em resposta a ela, indignado e retribuindo o olhar do pequeno.
Ele olhou para a mãe, fazendo a mesma cara de bravo que ela havia me direcionado há pouco.
– Nã, mama! Dodó nã! – pareceu ralhar com ela – Dodó nã!
A mulher olhou para o pequeno sem entender e me encarou em seguida. Desviei o olhar... A reação dele... Será que... Me ouviu...?! M-Mas.... Como?
“O que...?”
Ela ignorou a bronca que o pequeno lhe deu com uma risada leve e divertida.
– Mas... Você não falou: aonde estão seus irmãos? – lembrou-se, me piscando um olho.
Demorei um pouco para responder... Estava ainda pensativo com aquela do bebê, que se aconchegara no colo da mãe. Será que ele... Era estranho... Eu conseguia sentir algo nele... Um cosmo... A encarei em seguida.
– Longe... – não dava para explicar.
– Longe onde? – ergueu uma sobrancelha.
– Longe, ué... – a olhei com cara de desentendido. Às vezes, é melhor agir como uma criança de sete anos.
Ela me deu um sorriso compreensivo e deixou para lá esse assunto (ainda bem... O.o).
– Bem... E o seu nome? – perguntou enquanto tentava ninar o pequeno, sem deixar de me encarar.
– Camus. – respondi.
– Ahhhhhhhhh! – animou-se o pequeno com um grito estridente, me olhando atento.
– Como?
– Camus.
– Hummm... – fez o bebê, me encarando profundamente.
“Por Atena... Ele...”
– Ahhhhh... Entendi. – fez uma expressão pensativa, como se tentasse se lembrar de algo – Eu já vi esse nome em algum lugar. Acho que foi...
–... Na capa de um livro. – completei.
– Sim... – de novo, me olhou espantada.
– Ou melhor: de muitos livros. – seria mais correto dizer.
– Você é muito... Inteligente, Camus. – disse, impressionada – Faz jus ao seu nome. – sorriu.
“Que nada, moça... Só sei a origem do meu nome-sobrenome.” U.U
O bebê soltou uma risada gostosa do nada. Ela o olhou, desentendida, e seu sorriso se desfez.
– E... – disse, meio reticente, ainda olhando para o filho – Quantos anos você tem?
– Sete.
Ergueu as sobrancelhas, desacreditada.
“Por que? Pareço ter menos? Não vá dizer que me acha nanico... O.o”
– Ahhhhagahaha! – o bebê ria alto, sem motivo aparente.
Ela o olhou com os olhos arregalados... Eu a senti confusa e assustada com o comportamento (anormal?) do bebê.
– Ei, ei...! – ela ralhou com o pequeno – Já deu, né?
O bebê a olhou sem entender, mas meio que ignorou a mãe e voltou a me encarar.
– Aaaahhhnnn...! – estendeu os bracinhos na minha direção, sorrindo.
Eu vi. Finalmente... Ficou bem evidente. Um pequeno universo no fundo de seus olhos. Seria aquele pequeno um futuro Cavaleiro? Ou, sei lá... Algum ser parecido conosco? Mas... Como eu deveria reagir àquela situação? Não havia sido informado sobre isso no Santuário.
– Ah, gostou do amigo, é? – sorriu ela, me olhando – Mas ele não vai te dar colo não... Tá dodói, lembra? – olhou para o filho.
– Eli nã tá... Dodói. – disse o pequeno, fazendo que não com a cabeça.
Ela riu com a argumentação do filho. Fiquei olhando para ele, retribuindo seu olhar curioso e parecendo... Meio fixado em mim.
– Ah, é? Quem disse? – ela tentava chamar a atenção do pequeno, parecendo cismada e assustada com aquelas reações dele.
– Eli. Eli failo. – assentiu o bebê – Failo qui nã tá dodói.
Minha Deusa... Ele realmente me ouviu.
“Atena... Será possível...? O que eu faço...?!”
– Ahh, meu Deus... – sussurrou a moça, e fez o Sinal da Cruz.
Esse Sinal... Éééée... Hum... Ah! Catolicismo! Sim... O Mestre disse que é a religião da grande maioria dos russos. Católicos fazem tal gesto para pedir a bênção e presença de Deus. Não entendi qual o propósito, mas...
... Senti o pavor tomar conta dela, que arregalou os olhos, levantou-se e se afastou de mim com o pequeno nos braços.
– O que está tentando fazer?! – alterou-se, me olhando desesperada.
Compreendi a razão de seu medo... Eu deveria tentar explicar e acalmá-la. Por mais que eu não tenha tido mãe, sei que conhecem seus filhos até mais que eles mesmos. Estava assustada com o comportamento do bebê, que a olhava sem entender para a mãe e seus olhos se encheram de lágrimas.
– Nã... Nã, mama!
– O... O que você... É-É...?
O que eu sou? Assim... É meio difícil explicar isso para alguém que não é do nosso meio... Mas, agora que eu estava rodeado de pessoas comuns, era melhor começar a treinar a explicação, que se repetiria muitas e muitas vezes... Sou um Cavaleiro de Atena... Blá, blá blá... Luto pelo Amor e Justiça... Blá, blá, blá... Cosmo... Blá, blá, blá... Salvar o mundo... Blá, blá, blá... Não tema... Blá, blá...
Ergui o tronco devagar e respirei fundo para começar a falar, revirando os olhos com o esforço pelo movimento. Voltei a encará-la.
– AAAAAAAAAAAAAAAHHHHHHHHHHHHHHHHHHHAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAHHHHHH!!
Ela deu um grito histérico e apavorado. O bebê chorou, assustado. Saiu em disparada pela porta. Ainda a ouvi gritar pelo corredor afora... Foi se distanciando rapidamente.
“Hã?!”
Ué... O que eu fiz? Nada não... Só sou um garoto que surge do nada, sem identidade nem “papai e mamãe”, tem só a roupa do corpo (ou o que sobrou dela), onze “irmãozinhos” que estão “longe”, sete anos e te salva congelando um filho da pu#@ (desculpem...), sobrevive sem sangue e água no corpo, temperatura de 30°C corporais, tem um nome-sobrenome de escritor fodão/deprê, fala com seu filho mentalmente e lhe desperta interesse e risadas anormais...
– RONC! (meu estômago)
...Também jejua há dias...
– Crec! (ossos trincando)
– Argh! (respirar dói)
...Tem umas costelas e vértebras rachadas...
... E tá pronto pra outra. Só que não.
“Ai, meus olhos...”
Os esfreguei. Ardiam muito. Sem entender mais nada e me sentei de pernas cruzadas sobre a cama. Olhei os arredores do quarto: muitas chapas de raio X em negatoscópios que deviam ser meus... Monitores irritantes fazendo “piiii... Piiii... Piiii...”... Suportes de terapia intravenosa... Respirador... Duas poltronas para visitas... Uma janela grande...
... Eu disse...
... JANELA? O.O
– Garoto?
O médico que me examinara adentrou o quarto alguns minutos depois do escândalo, olhando atento para todos os cantos à procura de algo.
– O que aconteceu, garoto? – me perguntou, sem entender – O que você está fazendo sentado?! – espantou-se quando percebeu que eu me movera.
Veio na minha direção, me deitou e cobriu.
– Fique deitado, ok? Você ainda não está bem para se mover. – pediu, sentando-se numa das poltronas e passando a mão na nuca, preocupado e perturbado – A moça que estava aqui com você... Viu o que a assustou?
– Não.
– Já está falando?!
“Não... Miando... ¬¬”
– Você é... Muito forte. Isso é excelente. – levantou e bagunçou de leve meus cabelos – Vou deixa-lo dormir. Boa noite.
– Boa noite.
Ele saiu do quarto, apagando a luz no caminho. Olhei para a minha futura saída, me certifiquei com meu cosmo que ninguém vinha na direção do quarto e tentei me levantar. Hum... Mas... E o pequeno? Bom, me preocuparia com ele depois. Tinha que me certificar que eu teria chance de continuar sem pedir ajuda ao Santuário (pra falar a verdade: eu nem sabia como fazê-lo). Nem sabia onde estava minha Armadura ou se haviam inimigos à minha caça ainda.
Nunca foi tão difícil me erguer... Minhas pernas estavam com séria dificuldade de me obedecer. Mesmo assim, tentei me por de pé...
“Droga... Atena... Me dê... Forças...”
Ergui o tronco novamente, forçando e girando meu corpo o quanto podia na direção da lateral da cama...
... POFT! CLANG! CLAAAAASSHHH!!
– Ahhh! – me espatifei de cara no chão, levando comigo os suportes de soro e aparelhos que estavam ligados no meu corpo (esqueci desse fato...)
Minha coordenação motora mandou muitas lembranças... Ok, eu merecia, afinal não estava respeitando nem um pouco a recuperação que meu organismo precisava. Confesso que, às vezes... Não: 99% das vezes, esqueço que sou humano. Mas não pensem que ocorre só comigo... A grande maioria de meus companheiros, de qualquer patente que seja, costuma relatar que ignora e não teme seus limites físicos.
– Mmmmff...
Aquela queda fez um barulho muito alto. Rezei em silêncio para que a Deusa fizesse todos surdos no momento em que fiz o estardalhaço. Tive sorte que o alarme do monitor cardíaco não disparou.
– Nmghhh...
Agora, eu tinha um novo trabalho: levantar sem ruídos e com menos força para fazer o menor barulho possível. Fui me erguendo devagar, ignorando a dor e fraqueza... Até que eu estava me saindo bem. Consegui me por de pé, prestando atenção dobrada em todos os movimentos que executava. Pronto... Agora, era só colocar os aparelhos e suportes de soro de volta nos devidos lugares. Consegui...
... E tentei andar em direção à janela de novo...
– Putz!! – agarrei o monitor cardíaco antes que caísse no chão novamente.
... Então, Camus... Bom lembrar que ainda está preso à essas coisas, né?
Pelo jeito, minha inteligência e sagacidade tinham ido pro saco também... Ainda bem que era só por enquanto.
De repente, ouvi muitas vozes alteradas femininas vindas do corredor... Uma delas era familiar demais. A energia que emanava daquela pessoa era de pavor e ódio. Haviam outras que traziam essência de revolta e indignação.
– Me soltem... Não encostem em mim...!
– Pelo amor de Deus, mulher, calma!
– Não pode fazer barulho aqui! Respeito com os doentes!
– Me deixem... Ele vai se ver comigo!
O som das mulheres falando se mesclava com o de baques surdos na parede, assim como o de coisas de vidro se quebrando... E aumentava conforme se aproximava da porta do quarto, que se escancarou.
– Demônio! Suma daqui! – gritou a mesma mulher que acabara de sair dali berrando com o filho nos braços, enquanto empunhava um Crucifixo na minha direção – Suma, em nome do Senhor!
Duas enfermeiras adentraram o aposento, repreendendo-a por aquela atitude.
– Minha senhora, peço que se retire do quarto agora. – disse uma delas, segurando-a pelo braço.
– Venha conosco, por favor. – pediu a outra, colocando a mão em seu ombro.
– Me soltem! Vejam só! Ele já está de pé!! Isso não é uma criança! É um monstro! – gritou e se desvencilhou das duas.
“Ela... Tá falando... De mim?”
Correu na minha direção, ainda com o Crucifixo empunhado e fazendo inúmeros Sinais da Cruz seguidos.
– Nos deixe em paz, demônio!
Demônio... Demo... Já ouvi essa palavra em algum lugar... Devo ter feito cara de pensativo.
– Não ignore! Olhe para mim! – gritou, puxando um frasquinho do bolso e desenroscando-o.
Hum... Ahhh! Lembrei o que era um demon... Ué... Ela estava me chamando disso... Por que? Que mal eu a fi...??
– Saia!!! Em nome do Senhor! – gritou, enquanto lançava o conteúdo do frasco contra mim.
“Água?”
A olhei com uma sobrancelha erguida sem entender nada.
“O que ela está tentando fazer?”
– Mostra a tua face agora, monstro!
Só tenho essa que está vendo, moça. O.o
– Saia!! – tirou outro frasco do bolso e começou a me molhar mais – Suma daqui!
Era o que eu estava tentando fazer mesmo!
– BUUUUÁÁÁ!!
– O que está fazendo, amiga?!
Ivo adentrou o quarto correndo com o bebê nos braços. Olhava assustado para a mulher totalmente descompensada que me dava um verdadeiro banho, já me lançando agua de um terceiro frasquinho que não lembro de onde tirou. Acho que me lembro do Mestre me falando de uns rituais Cristãos tipo esse que ela fazia... Ri por dentro ao recordar da cara de repulsa impagável do Shaka durante essa explicação.
– Mamaaaaaaaaa! – o pequeno gritava assustado e estendia os braços para a mãe.
– Tire ele daqui, Ivo! – gritou, me olhando furiosa – Esse demoniozinho está tentando enfeitiça-lo!
HÃ?! Eu estava tentando fazer o QUE? Primeiro, me chama de demônio e tenta me exorcizar... Agora, de feiticeiro, encantador de bebês macabro... Sei lá o quê!
“O Mestre estava certo... Essas pessoas normais são muito diferentes de nós... Melhor relevar e deixar que ela se recomponha. ”
O neném me olhou de canto, com os olhinhos injetados. Agora que eu estava um pouco mais recuperado, conseguia ouvir sua respiração acelerada e, bem de leve, os batimentos de seu coração.
– Pelo amor de Deus! Pare com isso! – o médico se direcionou a ela e a pegou pelo braço, enquanto as enfermeiras se entreolharam irritadas, retirando-se do quarto em seguida.
O bebê ainda chorava alto. Ivo a forçou a se sentar em uma das poltronas e pôs o pequeno em seus braços. Ele se agarrou à mãe e afundou o rostinho em seu pescoço, soluçando.
– Você precisa se tratar urgente... – suspirou e se sentou ao seu lado, ainda segurando seu braço – Que confusão que causou, amiga. Veja o estado do seu filho.
– Ivo... Você não entende... E não viu o que eu vi agora pouco! – alterada, gritou impaciente com o médico, arrancando mais berros do bebê.
– O que você viu? – respondeu calmamente, olhando-a com ar de preocupação – Sente-se, garoto, por favor... Obedeça o tio, tá? – direcionou-me os olhos, cumplice.
Me sentei de pernas cruzadas na cama, olhando seriamente para os dois.
– O meu filho... Ficou muito estranho na presença desse... Desse garoto! – ela me olhava com pavor e ódio mesclados – E... Tem alguma coisa... Os olhos dele...!
“Meus... Olhos?”
Achei aquilo muito estranho. Nem elevei o cosmo... Não fiz nada para que meus olhos pudessem dar-lhe qualquer sinalização do quão anormal posso ser. Eu estava com as lentes que o Mestre me deu para não aterrorizar ninguém... Não estava?
“Estão aqui...” pensei, enquanto esfregava os olhos e as sentia se moverem sutilmente.
Ivo retirou uma cartela de remédios do bolso do jaleco e destacou um comprimido. Levantou-se, saiu e voltou ao quarto rapidamente com um copo d’água.
– Beba isso. – ordenou, entregando-lhe o remédio e a água – A fará sentir-se melhor logo.
A moça o obedeceu e ingeriu o comprimido, sem tirar os olhos de mim. Eu assistia aquela cena “nonsense” mudo, ainda olhando para a janela... Tão perto... E tão longe... ¬¬
– Você só vai para casa depois que eu deixar, ok? – falou, preocupado e olhando para a amiga.
A moça suspirou e olhou para o filho, que se aquietava e mexia numa mecha de cabelo longo e loiro da mãe, ainda me olhando.
– Ivo... Eu não estou louca. – disse – Eu realmente vi aquilo tudo que te contei mais cedo.
– Ninguém disse que está louca. – suspirou o médico, pondo a mão no ombro dela – Você só precisa se acalmar e descansar, querida.
– Ele não tira os olhos do garoto, Ivo. – inquietou-se ela, olhando para o filho e para mim.
– Está com ciúme? – brincou o médico.
– Ahhh! Pare com isso! – irritou-se – Estou falando sério, e você me vem com brincadeira!
– Desculpe, oras! – disse ele, pondo a mão no ombro da amiga.
“Essas pessoas normais são realmente estranhas...” pensei, enquanto me espreguiçava demoradamente e levava a mão à boca para esconder um bocejo. Meus ossos estalaram dolorosamente e fiz cara de dor.
– Hahgaahahaah! – o bebê riu e me olhou com um sorriso.
– Isso! Isso que aconteceu! – assustou-se ela.
O médico, que sorria ao olhar o bebê, disse:
– Seu pequeno não pode achar graça do menino?
– Ivo, eu conheço o Hyoga! – impacientou-se novamente – Ele não é de fazer essas coisas! Não faz o menor senti...
– Amiga, ele é um bebê. Está crescendo... Isso acontece sim. Pode esperar que ele te surpreenda cada vez mais. – disse Ivo, fazendo carinho no bracinho do pequeno.
“Hyoga...” que nome diferente.
– Oi! – respondeu o bebê, me olhando.
Ah, é. Esqueci por uns segundos que ele podia me escutar. Virei o rosto e o olhei de canto.
“Não te chamei... Sossega ai, que a sua mãe já tentou me expurgar à grito e água.”
– Ahhhh! – ele ria e me estendia os braços.
– Olha isso! Ele não vai com ninguém, Ivo. Só com a minha vizinha! – apavorou-se ela – É bizarro demais. Uma criança não muda assim tão rápido!
– Mas, Natássia, ele gostou do garoto ali, ué! – o médico riu – Bebês são assim mesmo...
– Ivo, me escuta, por favor... Essa criança não é... Não é humana.
– Claro que é... Você é que está cismad...
De repente, ouvi algo ao longe e me levantei rapidamente da cama. O bebê me olhou preocupado e atentamente.
– Doutor... – chamei.
Ele e Natássia me olhavam espantados.
– Tire essas coisas de mim e se afastem daqui, por favor. – pedi.
– Sente-se, menino. – respondeu Ivo, com ar de bronca – Não vou tirar essas “coisas” tão cedo.
– Tudo bem. – respondi, arrancando os acessos venosos e desconectando todos os fios por mim mesmo.
– Não faça iss...!
CLAAAAAASSSSSSSSSSSSSHH!
– AAAAAHHH! – a moça deu um grito e se levantou correndo do assento, seguida pelo médico.
A janela se quebrou e um vulto negro adentrou o quarto. O cheiro que trouxe consigo foi de sangue puro.
– Camus... De... Aquário... – disse com a voz arrastada e rouca – Finalmente o encontrei...
O olhei atentamente e me postei à frente dos três, que se encolheram num canto do quarto. O homem à minha frente trajava uma Armadura Negra aos pedaços e tinha muitas feridas abertas pelo corpo. Me parecia familiar... Sim... Reconheci seu cosmo sombrio e cheio de ódio: era o Cisne Negro... O mesmo que me assitiu matar Chioh de Cães de Caça e perseguiu a mim e Adisa três dias atrás.
“Adisa... Você...”
Então, ela havia sido derrotada... Cumpriu seu dever como Amazona de Atena até o fim. Me senti orgulhoso por ter lutado ao seu lado... Estava muito enfraquecida pela batalha contra Chioh, ainda me carregou nos braços até aquela caverna... E conseguiu derrotar dois dos Cavaleiros Negros que a atacaram, deixando esse à minha frente bem debilitado. Seria um erro fatal para qualquer guerreiro no nível deles subestimá-la por estar sozinha.
“Descanse em paz... Que a Deusa conduza tua alma.”
– Onde... Está... A Armadura? – sussurrou ele, arrastando-se na minha direção.
Desgraçado. Senti seu hálito fétido conforme se aproximava de mim. Um cheiro podre de carniça.
– Mais fácil encontrar a morte, Cisne Negro. – ameacei – O que pode me fazer nesse estado?
– Seu pirralho... Prepotente... – tossiu e cuspiu muito sangue – Levarei você comigo... Assim como fiz com aquela traidora de Prata!
– Maldito... – o amaldiçoei em voz baixa.
– NEVASCA DAS TREVAS*! – atacou de repente.
– PÓ DE DIAMANTE**! – fiz o mesmo instintivamente.
– Hahaha! Pensa que pode me vencer com essa brisa??! Me lembro muito bem desse golpe! – ridicularizou – Então, foi esse vento fraco que acabou com Chioh?! Os Cavaleiros de Atena são mesmo superestimados!
Tentei elevar meu cosmo ao máximo... Mas ainda estava fraco demais para tal... Maldição...
– Ahhh! – fui lançado contra a parede e caí no chão bruscamente.
O ar frio de ambos os golpes havia me atingido e congelado boa parte do meu corpo. Tentei me levantar, mas a dor era insuportável. Abri os olhos lentamente...
– O que tinha dito, moleque? – silvou o Cavaleiro Negro ao me erguer do chão pela gola da camisa – Quem é que vai morrer agora, hien?!
Encostou a testa na minha e me encarou com os olhos injetados de ódio.
– Convoque a Armadura... Agora! – ordenou.
– Não...
– Ah, é?! – me lançou contra o chão e chutou-me o estômago várias vezes – Ela deve se envergonhar de você! Aposto que já tentou e ela não atendeu o seu chamado!
Pois é... Não. Além de não querer, eu sequer detinha cosmo o suficiente para chama-la.
– Arrgh...!
– Como... O Mestre... Pode... Confiar... – a cada palavra, ele me dava um chute – A um... Pirralho... Como você... Uma Armadura... De Ouro?!!
Meu inimigo me espancou o quanto pode. Deve ter terminado de quebrar meus ossos e quase extinguiu meu sangue todo novamente.
– Maldição... Não posso mata-lo... – resmungou, enquanto me pegava pelo braço e me encarava, furioso.
Fechou o punho e o direcionou para o meu rosto.
– Ahhhhhhh!! Nã! Pálaa!
– Hyoga! – gritou Natássia.
Mas o bebê se desvencilhou dos braços da mãe e correu na nossa direção, me olhando preocupado.
“Não!”
Ele parou e me olhou virando a cabeça, confuso. Mas ainda deu uns passinhos à frente.
– Olha só... – disse o Cisne Negro, sarcasticamente – Que bonitinho...
Me soltou e foi na direção do pequeno, que ainda andava até mim.
“Atena...”
Não... Eu não... Poderia permitir... Que esse maldito fizesse algo ao...
... Hyoga.
– Vamos brincar, neném... – o maldito ria como um doente ao estender os braços para pegar o bebê.
“ATENA...!”
Meu cosmo fluía anormalmente pelo corpo e alma.
– O que?! – espantou-se ele – Q-Que cosmo congelante é esse?!
– AAAAAAHHH! – gritei ao me por de pé.
O encarei da forma mais fria e indiferente possível.
“Conhece o golpe, é? Morra com ele, desgraçado...”
– Não! M-Mas como?!! – mal conseguiu se virar para reagir.
– PÓ DE DIAMANTE!!!!!
– Nãaa...! – foi calado imediatamente.
– Hahaha... Moba dedaçado! – riu o pequeno ao encostar o dedinho na estátua de gelo recém-formada...
...Que caiu e partiu-se em um milhão de pedaços.
– Caiu... Hahaiga!
Nem senti quando meu corpo foi de encontro ao chão. Não conseguia... Nem sequer pensava em me mover. Estava tão enfraquecido que perdi a capacidade de fechar os olhos naquele momento.
– Deus... Do Céu! – gritou Ivo – Garoto! Ei!
Eu o senti me pegar no colo e me repousar na cama.
– Natássia!! Chame as enfermeiras!!
Escurecendo...
– Preciso de um cirurgião! Anestesista! Bolsas de sangue A ou O!!! Rápido!
Escurecendo...
– Meu Deus! Ele não está respirando!
Escurecendo...
– Sem pulso!
Escurecendo...
– Ei... Ei, Camus! – chamou o menino de cabelos loiros e olhos muito azuis – Eu tô aqui, tá?
– Milo...
– Que luta... Você acabou com ele! – disse, orgulhoso e me abraçando.
Dei-lhe um sorriso fraco.
– Você vai ficar bem... Estou sempre contigo. Atena também.
Escuridão.
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Piiiiii... Piiiiiii... Piiiiiii... Piiiiiii... Piiiiii... Piiiiiii... Piiiii... Piiiiiii...
– Ahhh... Maammm...
Abri os olhos com muita dificuldade... Para ser sincero, era a única coisa que eu era capaz de fazer no novo estado deplorável em que deveria me encontrar. Não dava para mexer um dedo sequer... Mas ao menos, não havia dor.
– Ahhhhhhhh! Mama, codô! Eli codô!
– É... Mas deixa ele descansar, filho.
– Acordou? Mas... Como?
Reconheci aquelas vozes... E também o lugar onde estava. Mesmas pessoas, mesmo quarto de hospital.
– Naaãa, mama!
– Sim. Ele vai descansar. Sossega, tá?
– Ahhhhhh... – voz de choro – BUAAAAAAAAAAAAAAAAAAA!
– Tisc! Que coisa feia! Ai, ai, ai! – impacientou-se ela – Vou lá fora com ele, Ivo.
– BUAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA!
Estranho... Esse choro... Me lembrava alguém... Só não lembro quem.
– Tudo bem... Ele está é com sono, amiga. – disse Ivo.
O bebê intensificou o choro desesperadamente e a mãe saiu o mais rápido possível com ele do quarto, embora seu lamento continuasse a ser muito audível ainda lá de fora.
– Camus?
Movi os olhos na direção do médico, que já sabia meu nome.
– Está confortável, garoto? – perguntou com um sorriso leve e preocupado – Sente dor?
– Hu... Hu-hum... – foi o som que consegui emitir – Hu-hum...
– Que bom... Hã... Bem... Vou esperar você se recuperar mais para conversarmos. – concluiu, e chegou mais perto, me olhando agradecido – Não vamos contar a ninguém, ok? Você é um herói. Obrigado por nos salvar. – deu uma bagunçada nos meus cabelos, levantou-se e saiu do quarto.
Piiiiii... Piiiiiii... Piiiiiii... Piiiiiii... Piiiiii... Piiiiiii... Piiiii... Piiiiiii...
Fechei os olhos e rezei bastante. Agradeci cada segundo de vida à Atena. A sensação de dever cumprido é uma das melhores que um Cavaleiro pode sentir... E a energia do bem que emanou ele era reconfortante.
“Milo... Era realmente você...?”
Será que havia mais inimigos me caçando? Que droga... Não tinha tido nem tempo de me recuperar das últimas batalhas. Mas deveria me acostumar com isso, afinal, dificilmente um Cavaleiro tem tempo de se reerguer fisicamente entre lutas... Rezei mais. Pedi para que a Deusa me desse ainda mais forças para que me levantasse logo dali. Estava preocupado com a Armadura de Aquário... Não conseguia me lembrar onde a tinha escondido. Talvez, se eu regressasse ao lugar...
– Tá... Tá bem... O Ivo falou que pode. – falou a voz de Natássia, vinda lá de fora.
A porta do quarto se abriu. Uma poltrona foi arrastada para perto da minha cama.
– Ahhhhnnn! Ahhh! – fez o bebê, animado.
– Calma... Você já vai abraça-lo, tá?
Apontei os olhos para a minha direita, e os vi de relance.
– O-Oi... – disse Natássia, com a voz timidamente trêmula – Camus...
Entendi perfeitamente o motivo dela estar um tanto sem jeito... Mas, sendo profundamente sincero: não me ofendi com o que fez, nem das palavras que proferiu a meu respeito. Tinha a total certeza de que só queria proteger o filho, que é seu bem mais precioso. Nunca fui de julgar nem ter dificuldades de perdoar ninguém.... Principalmente as pessoas normais. Acredito que cada um sempre tem seus motivos para agir de uma maneira, mesmo que discordemos de suas atitudes ou pensamentos e...
...De alguma modo, eu sentia o sofrimento e angústia contidos em uma barreira de força interior daquela mulher.
– Hum... – respondi como pude, mas com um sorriso leve de perdão que eu sabia que ela precisava.
Ela me encarou, e seus olhos se encheram de lágrimas.
– M-Me perdoe... – se curvou e me deu um beijo na testa – T-Tão gelado... Está com frio? – perguntou, preocupada.
– Hu-hum... – respondi que não.
Ela fez que não com a cabeça, impressionada. Depois olhou para o bebê em seus braços, que, por sua vez, me olhava preocupado.
– B-Bem... É que... O Hyoga quer muito um pouco do seu colo... – disse, me olhando como quem diz: “não tem jeito”.
O pequeno queria ficar comigo um pouco? Entenda, senhorita, não tenho o menor jeito com crianças... Digo: bebês... Acho que o Saga e o Aiolos tirariam de letra, mas eu?? O.O Não estou podendo nem me mexer!
– Ham... Posso colocá-lo ao seu lado? – perguntou, agora me encarando com olhar cúmplice. Seus olhos estavam muito injetados de cansaço.
Poder: pode... Só não vou conseguir interagir muito. Estava mais imóvel que uma estátua... Se bem que depende da “Estátua”, né? Hehehe... Saudades... Foram só três dias longe, mais de dois deles desacordado, e o coração apertava dolorosamente com a falta de tudo que eu amava...
“Milo... Meus amigos... Mestre... Santuário... Dona Tália... Minha Casa... O Estátua...”
– Hu-hum... – fiz que sim.
– Vai, filho... – disse ela, carinhosamente – Vai com seu ídolo... Hehehe...
Piiiiii... Piiiiiii... Piiiiiii... Piiiiiii... Piiiiii... Piiiiiii... Piiiii... Piiiiiii...
Senti o afundar do colchão da cama ao meu lado e duas mãozinhas quentes tocarem o meu peito. Sim... Mesmo fraco, eu conseguia sentir algo diferente vindo daquele projeto de gente... Uma pequena... E infantil cosmo-energia. Hehehe... Era uma sensação muito indescritível... Só posso dizer que eram totalmente perceptíveis todos os sentimentos do pequeno só pelo fato dele me tocar: preocupação, alegria, excitação... E... Amor...
Piiiiii... Piiii... Piii... Piiiiii... Piiii... Piii... Piiiiii... Piiii... Piii...
– Ahhhh... Dodó aola? – perguntou com a vozinha de choro.
Não conseguia vê-lo porque não dava para mexer o pescoço. Tentei alcança-lo com os olhos, mas não dava. Ahhh... É! Lembrei. Ele pode me...
“Agora sim... Bem dodói.”
O senti tomado por um turbilhão de emoções complexas demais para um bebê... Meu coração deu um solavanco de repente...
– Huuummm... Dodó passá, dá? – disse, me dando um abraço desajeitado, e chorando baixinho.
Piiiiii... Piiii... Piii... Piii... Piii... Piii... Piii... Piii... Piii... Piii...
“Mestre...”
Piii... Pii... Pii... Pii... Pi... Pi... Pii... Pii... Pii... Pi...
“O... O que...?”
Ele ergueu a cabeça... De alguma maneira, nossos olhos se encontraram. Me encarou profundamente.
“Mestre...”
Pi... Pi... Pi... Pi... Pi... Pi... Pi... Pi... Pi... Pi... Pi... Pi... Pi... Pi... Pi...
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