Mago da Água e do Gelo
4 A verdade peçonhenta
Notas iniciais
Quatro horas depois...
Shion abriu os olhos e ergueu o tronco rapidamente.
“Por Atena! Foi só um pesadelo...”.
Respirava ofegante. Sentiu seu cabelo e roupas colarem em seu corpo, onde o suor escorria e pingava sobre o lençol.
“Que sensação horrível.”
Havia tido um pesadelo onde seu corpo era queimado em brasas ardentes e ele não encontrava modo algum de livrar-se delas. O choro desesperado de um bebê ecoava pelo inferno em que estava aprisionado.
Preocupou-se com Camus, mas não ouviu nenhum ruído vindo do quarto ao lado.
“Está dormindo. Atena o guarde.”
Levou a mão à testa, sentindo sua cabeça pulsar de dor. Levantou-se devagar, foi até o banheiro e lavou o rosto. Seu coração ainda acelerado batia com força contra suas costelas. Suspirou, sentindo seus olhos arderem e lacrimejarem. Caminhou de volta ao quarto, puxou o lençol molhado para fora da cama e se sentou, prestando atenção em sua respiração.
“Fazia um bom tempo que eu não tinha um sonho tão real.” Pensou consigo. “Não... Não é possível que tenha sido somente fruto da minha mente...”.
De repente, seus pensamentos foram interrompidos por uma cosmo energia imensa e desconhecida que surgiu de um local bem próximo. Ao senti-la, ele se levantou rapidamente e elevou seu próprio cosmo.
“Quem está ai?” perguntou em tom ameaçador. Teriam invadido o Santuário tão facilmente?! Mas... Saga, mesmo que não conseguisse derrotar um inimigo deste nível, teria alarmado a todos e principalmente ao Mestre antes que fosse derrotado. Aiolos também.
Sem resposta, nem intimidação. O cosmo poderosíssimo ainda emanava pelos arredores da Sala do Mestre.
“Apareça!”
Sem nenhuma manifestação do detentor daquela energia esmagadora, Shion concentrou-se calmamente em encontrar sua origem. Fechou os olhos e deixou-se levar... Até que uma luz fina o guiou para o corredor. Ele a seguiu sem abaixar a guarda.
No fundo... Era estranho. Aquele cosmo... Talvez não fosse tão desconhecido assim. Lembrava o de alguém, que talvez por não estar mais nesse mundo há muito tempo, não conseguia associar de quem poderia ser.
A luz o levava ao quarto ao lado. Um calafrio violento percorreu seu corpo e seu coração voltou a bater em ritmo de galope. Seria quem enviou aquelas duas bestas para mata-lo na França?! Não... O pequenino não!
“Camus!”
Elevou ainda mais seu cosmo, escancarou a porta e entrou já pronto para matar o inimigo.
– REVOLUÇÃO ESTELAR!
As estrelas cadentes apareceram e foram neutralizadas com um só gesto do invasor. Shion manteve-se parado e quase boquiaberto quando o viu. Há muito mais de um século que não encontrava um oponente capaz de neutralizar seu golpe com tamanha rapidez. O espanto não o deixou se mover de imediato.
–Sshhh...
Um homem loiro de cabelos ondulados, pele levemente morena e túnica branca o encarava com seus olhos totalmente brancos e levava o dedo à frente da boca em um gesto de silêncio. Estava atrás do berço onde Camus parecia dormir tranquilo. A luz dourada de seu cosmo imenso o entornava. Tal força aparente só podia ser comparada como levemente inferior a de Atena, que Shion teve a oportunidade de ver e sentir quando lutou ao Seu lado na última Guerra Santa.
O Mestre ficou estático por uns segundos. Aquele homem... Aquela aparência... Parecia... Poderia ser o... ? Era fevereiro! Por Atena... Seria possível??! Não havia lido ou ouvido nenhum rumor de que algum Deles se mostrasse assim...
– O-o Senhor é... ? – tentou dizer Shion.
– Deveria instruir melhor seus criados, – disse o homem, interrompendo-o com uma voz grave e ecoante, abaixando a mão e repousando-a na grade do berço – Shion de Áries.
Shion não tinha mais dúvidas de Quem estava à sua frente. Tentou manter-se calmo e ajoelhou-se em respeito, como não fazia há 223 anos. Pensou sobre o que Ele queria dizer a respeito de seus criados...
Ele se curvou, pegou delicadamente o pequeno Camus adormecido em um dos braços e uma roupinha e um pequeno cachecol encharcados com a mão livre sem deixar de encarar o Mestre com aqueles olhos brancos e brilhantes como raios de luz. Sua expressão era serena... Mas Shion sentia um imenso pesar de um julgamento.
“Oh, não...” Cerrou os punhos de ódio de si mesmo e seus olhos ficaram mareados. “Malditas falhas humanas!” A culpa cruel e gigantesca tomou conta da consciência do Mestre. Preocupou-se com o bebê... Suar daquele jeito poderia desidrata-lo facilmente... Ou até... “P-Perdão, minha Deusa...”
Passos apressados com sons metálicos adentraram o quarto.
– Mestre, o que acontece aqui?! – disse a voz esbaforida de Aiolos.
– Quem ousa invadir o Santuário assim?!! – gritou Saga.
Os meninos pararam repentinamente, espantados e confusos ao ver o tão poderoso e admirado Mestre Shion ajoelhado em meio ao quarto.
– M-Mestre?... – os meninos olharam com os olhos arregalados para Shion, que lhes parecia um tanto transtornado. Ele, que sempre lhes passara tanta segurança, tinha hesitação e culpa em seu cosmo. Nunca o haviam visto daquele jeito. Que inimigo era aquele, que havia causado tal efeito em seu querido e admirado Mestre?
Os olhos dos dois se desviaram para Ele, que mantinha o bebê no colo e agora acarinhava seus cabelos lisinhos e ruivos e lhe dava um leve sorriso. Nem parecia se importar com a presença dos dois ali. Os garotos se entreolharam com raiva nos olhos e cosmo. Os estava subestimando?! Eles, os Cavaleiros de Ouro?! Como ousava?!
Shion mantinha o olhar distante e fixo no pequeno Camus, sentindo ainda seu coração bater pesadamente com a culpa.
– Deixe o Camus em paz! – gritou Aiolos, elevando seu cosmo e armando sua Flecha.
– Irá provar a ira dos Cavaleiros de Ouro! – ameaçou Saga, posicionando-se e também concentrando seu cosmo.
– Não. – disse Shion, abaixando os olhos e se levantando devagar.
Os dois mantiveram-se estáticos e o encararam sem entender. O Mestre não ia fazer nada? O invasor havia raptado o bebê e os humilhava! Tudo aquilo ia contra os princípios e valores que os havia ensinado desde sempre!
– M-Mas...
– Ele não é um inimigo. – disse o Mestre em tom baixo e sem olhar para eles.
Não era?!
Os meninos aquietaram seus cosmos e abaixaram a guarda, voltando a olhar para o Sujeito ainda com ódio nos olhos. Ele ainda segurava e acarinhava os cabelos do bebê e sorria, pegando sua mãozinha e acariciando-a com o dedo.
– Voltem para suas Casas. – disse Shion, ainda sem se mover.
Os dois jovens Cavaleiros de Ouro ainda não haviam desistido de tentar entender aquela situação bizarra e o olharam confusos e sem reação.
– E exercer melhor a autoridade que lhe foi dada. – disse Ele, tirando os olhos do pequeno e voltando-os para o Mestre, que o encarou sem mudar sua expressão séria.
Desapareceu e reapareceu na velocidade da luz a frente de Shion, ainda com Camus nos braços.
– Deveria tomar cuidado com aquele ali, – aconselhou Ele em tom baixo, olhando de relance para Saga – filho de Áries.
O jovem Cavaleiro de Gêmeos estremeceu ao ser encarado por aqueles olhos e sua expressão de espanto foi tomada pelo medo. “O M-Mestre... T-Tomar cuidado c-comigo? M-Mas e-eu...” Não entendendo o porquê de estar sendo acusado, desesperou-se e abandonou sua postura de Cavaleiro de Ouro. “Será que o Mestre vai me repudiar? Vai acreditar Nele, que o fez até se ajoelhar?” Seu cosmo oscilava... Andou tremendo e devagar até Shion e agarrou sua cintura, olhando-o com os olhos cheios de lágrimas: uma criança apavorada pedindo colo.
O Mestre suspirou e fechou os olhos por uns segundos. No fundo, sempre temera aquela verdade, mas nunca quis acreditar. O garoto que o abraçava forte não era... Não podia ser! O vira nascer! O criara como seu filho... Sentiu ódio pelo Desgraçado ter dito aquilo na frente dos garotos e causado mal a Saga. Franziu a testa e abriu os olhos para fita-Lo.
– Ele não me fará mal algum. – disse Shion firmemente, repousando a mão sobre a cabeça do garoto, que afundava o rosto em suas vestes enquanto chorava e soluçava.
– Oh, sim... – disse Ele olhando para Saga e virando a cabeça para o lado cinicamente – De fato, não ele... Mas aquilo. – concluiu e apontou para a sombra do menino.
Shion já havia percebido que o reflexo por obstrução de luz de Saga se projetava de maneira estranha desde que nasceu, mas ignorava esse fato. Não conseguia sentir nenhum receio em relação ao garoto.
– É mentira! – gritou Aiolos, se pondo entre Ele e Shion e encarando-O com raiva por ter feito o companheiro se sentir tão mal – O Saga é meu amigo e um Cavaleiro de Ouro honrado e fiel à Deusa!
Ele se agachou devagar e se pôs na altura do menino, que ofegou e hesitou ao ser fitado por aqueles olhos brilhantes tão de perto.
– Você também deve vigiar, criança de Sagitário. – disse Ele pondo a mão no ombro do menino, que se arrepiou todo com Seu toque – Vejamos até quando ele irá ser o seu amigo...
Ele se levantou e tirou a mão do garoto. Aiolos deu alguns passos para trás com os olhos já mareados pelo impacto daquelas palavras e encostou-se em Shion, cujo cosmo emanava revolta e rancor pelas palavras cruéis que haviam sido pronunciadas.
Deu um beijo no rostinho de Camus e aproximou-se do Mestre, entregando-lhe, mesmo que relutante, o pequenino.
– Ele está bem. – disse Ele calmamente sem tirar os olhos tenros do bebê que dormia com a boquinha entreaberta e ressonava, enquanto Shion o pegava em seus braços.
O Mestre estava cheio de culpa pelo que ocorrera com Camus devido à sua falha. Abraçou levemente o pequenino.
Ele deu as costas, foi em direção à janela do quarto e subiu em seu beiral.
– Cuide bem deles, Mestre do Santuário. – disse Ele, e virou a cabeça para encarar Shion pela última vez – A perda de um descendente divino que não por Atena ou pela Terra não será perdoada pelo Zodíaco ou pela Ordem da Elíptica.
E se lançou janela afora. A enorme cauda negra e espectral do Escorpião surgiu inesperadamente atravessada no lugar em que Ele havia sumido há um milésimo de segundo, chicoteando enquanto era retirada e, com um estrondo, transformou a janela em um enorme rombo. Desapareceu na noite.
– Desculpe, pequeno... – sussurrou Shion já chorando para o bebê em seus braços.
Aiolos olhava perdido para o Mestre e para o amigo, que ainda se agarrava a ele e lacrimejava, parecendo profundamente magoado e mantinha os olhos fixos no chão. Foi até Saga e pôs a mão em seu ombro, tentando consolá-lo:
– Saga...
O jovem Cavaleiro de Gêmeos encarou o amigo com os olhos confusos, revoltados e injetados pelo choro. Soltou a cintura do Mestre, deu uns passos para trás e saiu correndo. Seu cosmo emanava tristeza e desespero.
– Espera! É tudo mentira daquele Maldito! – tentou dizer Aiolos, estendendo a mão para que o amigo parasse. Sem sucesso.
Shion pôs a mão no ombro do jovem Cavaleiro de Sagitário, que se virou para ele.
– Segure-o, por favor, Aiolos. – disse com a voz estremecida pelo choro e entregando o pequeno Camus ao menino, que o segurou com cuidado.
O Mestre se teleportou e surgiu na frente de Saga, que já estava em meio ao caminho para a Casa de Peixes. O jovem Cavaleiro de Gêmeos freou os pés bruscamente, emitindo um barulho alto do metal da Armadura se atritando com o chão de pedra. Parou e deu um passo para trás, amedrontado. Seus olhos perdidos e cheios de lágrimas encontraram com os de Shion, que se agachou, abriu os braços para o menino e lhe deu um sorriso leve.
– Vem cá, vem... – disse ele com a voz suave, porém emocionada.
O garoto fechou os olhos e se jogou no colo do Mestre, que o envolveu em seus braços e se levantou. Saga chorava alto e o abraçava com ainda mais força.
– Calma... Shhh... – ele afagava os cabelos loiros do menino e caminhava com ele no colo de volta para a Sala do Mestre.
– M-Mestre... O-o s-senhor m-me od-deia?... – Saga perguntou com a voz alterada pelo choro.
– De maneira alguma, Saga. – disse Shion, tentando manter a voz calma. Encarou o menino, que o olhava profundamente – Nunca pense isso. – e beijou sua testa.
Saga deitou a cabeça no ombro do Mestre, ainda com a respiração descontrolada e o coração acelerado. Com o balançar do andar de Shion, foi se acalmando aos poucos e sentiu a noite mal dormida pesar. Bocejou e coçou os olhos úmidos com a mão.
– Ai! – gemeu de dor. Esqueceu-se de que sua mão estava revestida pela Armadura, que lhe causou uma ferida na altura da sobrancelha. O sangue vivo escorreu pelo rosto de Saga.
– Hum... Esqueceu, não é? – disse Shion, limpando o sangue e estancando-o com a manga de sua veste – As trajamos por tantas horas que é como se fizessem parte do nosso corpo... – olhou para o menino e sorriu. Ficou um pouco aliviado quando Saga o retribuiu, mesmo que somente para tentar fazê-lo sentir-se melhor.
Aiolos os esperava com Camus no colo na entrada da Sala do Mestre e sorriu quando os viu.
– Venha conosco até o meu quarto, Aiolos. – disse Shion ao passar pelo menino.
Foram até o quarto do Mestre, que repousou Saga na cama e lhe deu um lenço limpo.
– Continue pressionando, Saga. – disse ao garoto enquanto posicionava o lenço sobre a ferida e colocava a mão do menino sobre este – Aiolos, pode colocar o Camus aqui na cama também, por favor. E, meu jovem, pode trazer os pequenos para cá?
– Aham! – disse Aiolos animado enquanto repousava o pequeno – A gente vai dormir aqui com o senhor? – disse o menino com um sorrisão.
– É. E o que acham de uns bombons? – disse o Mestre, sentindo alguma felicidade ao ver a alegria do garoto – Trouxe uns bem gostosos da viagem.
– E histórias de combate do senhor! – disse Aiolos, animado.
– Tudo bem. – concordou Shion com um sorriso cansado.
– Ebaaaa!! – animou-se o menino – Vou lá buscar eles. – e saiu correndo pelo corredor.
Assim que o garoto os deixou, o Mestre sentou-se na cama e voltou a pegar o bebê nos braços. Olhou para Saga e fez um gesto para que o menino se aproximasse. Engatinhou pela cama segurando o lenço sobre a ferida em sua pálpebra e se sentou ao lado de Shion, que pôs a mão em seu ombro.
– Está tudo bem? – perguntou o Mestre encarando-o serenamente.
Saga o fitou com o olhar ainda triste, e seu cosmo ainda emanava mágoa e insegurança. Balançou a cabeça negativamente e desviou os olhos para baixo.
– Quer falar sobre isso? – perguntou Shion, levando a mão ao lenço que o menino segurava e retirando-o do lugar, que não mais sangrava.
O garoto o encarou novamente e hesitou de início, mas disse finalmente:
– Meu irmão me disse que o senhor não confia em mim e que sou um estorvo. – sua voz voltando a se estremecer pelo choro – E que o senhor devia ter nos matado quando nascemos...
Shion sentia-se um monstro cruel e sem sentimentos ao ouvir o que Kanon pensava dele. Mas o garoto não estava errado em mencioná-lo dessa forma para Saga, afinal, ele ordenava que o irmão gêmeo mais novo se mantivesse escondido na Casa de Gêmeos para que ninguém soubesse de sua existência. Não que o Mestre concordasse com tal conduta horrível, mas os escritos antigos e pergaminhos secretos que só ele tinha acesso dos Mandamentos do Santuário, nos Atos dos Dourados profetizavam que o gêmeo não escolhido pela Constelação devia viver nas sombras, substituindo o irmão em caso de sua morte sem que não fosse notada a diferença.
Manter uma pobre criança toda a vida trancafiada na escuridão e impedi-lo de ver o Sol, o mundo, interagir com outras crianças e pessoas que não seu próprio irmão, treinar como um Cavaleiro era... Terrível... Desumano...
Amaldiçoou-se por não ter ido vê-lo ontem, como fazia todos os dias. Afinal, passou e ficou um tempo na Casa de Gêmeos com os meninos. Kanon tinha a visão por através das paredes de ilusões que Saga mantinha para escondê-lo do mundo. Shion sentiu uma grande pontada no peito ao pensar na tristeza e revolta do menino ao ver todos felizes em volta do novo bebê de Ouro enquanto ele só podia observar escondido...
Chorou muito. O Mestre sentia-se impotente por não poder ir contra os Mandamentos... Nauseado e enojado do que era capaz de fazer... Desejava profundamente ser punido por ser forçado a fazer Kanon passar por todo aquele sofrimento de viver na sombra de Saga. Que ser humano não se tornaria revoltado... E até maligno vivendo nessas condições?!
– Isso não é verdade! – alterou-se o Mestre, sentindo-se mal demais – Eu adoro vocês todos como se fossem meus filhos! Eu nunca... Por Atena! – levou a mão ao peito e suspirou pela dor que sentia ali. Encarou o jovem Cavaleiro de Gêmeos – Eu confio a minha vida, o Santuário, o mundo... Atena... A você, ao Aiolos e aos futuros Cavaleiros de Ouro. – levou a mão ao queixo do menino e o encarou com os olhos mareados – Acredita em mim, criança?
– Sim, Mestre... Eu confio no senhor também. – sorriu com os olhos tristes, se ajoelhou sobre a cama e abraçou Shion, que chorava silenciosamente.
“Perdão, Kanon... Criança de Atena, como deve me odiar... Atena, Atena... Pegue-o em Seus braços, minha Deusa... Limpe seu coração tão jovem e já tão poluído pelo ódio negro... Salve-o... Traga-o para nós e para o bem.”
O bebê se mexeu nos braços do Mestre e gemeu baixinho. Shion e Saga desviaram seus olhares para o pequenino.
– Acordou. – disse o garoto, e pegou a mãozinha de Camus.
O Mestre enxugou os olhos, sentindo uma dor imensa por todo o corpo. Seu estômago se contraía, como se tivesse levado um golpe fatal ali. Poderia vomitar a qualquer momento.
– Talvez esteja com fome. – disse ao olhar o interior da fralda do pequeno, que estava limpa.
Saga sorriu e olhou para Shion cheio de expectativas. O Mestre retribuiu o sorriso, disfarçando seu estado fragilizado.
– Ahh... Quer alimentá-lo, né? – riu do rosto iluminado do garoto, que nunca havia passado por aquela experiência de dar mamadeira a um neném. Shion lembrou-se das tantas vezes que ele pedia para fazê-lo com os outros pequenos, mas naquela época o Mestre não se sentia seguro de deixar uma criança de quatro ou cinco anos sozinha segurar o bebê nos braços e alimentar.
– Posso?! – perguntou o menino animado.
– Pode. – disse o Mestre, ainda conseguindo divertir-se com o garoto que saltava da cama.
– Legal! – comemorou Saga.
– Fique aqui com ele que eu vou à cozinha preparar a mamadeira. – entregou Camus nos braços do menino. Virou as costas e caminhou na direção do corredor com passos largos.
Nem conseguia concentração para se teleportar. Encontrou com Aiolos, que trazia os três pequenos nos braços incrivelmente adormecidos.
– Voltei. – disse o menino, que mudou a expressão de animada para preocupada ao ver a tristeza e dor estampados no rosto e cosmo de Shion – O que o senhor tem?
– N-Nada, criança, nada... – disse o Mestre, cansado. Precisava ficar só por uns momentos. – Leve-os pro quarto, vai... O Saga está lá com Camus.
Aiolos abaixou os olhos e concordou em silêncio. Seguiu para o quarto e entrou de cabeça baixa.
Shion deu mais uns passos à frente e não mais se conteve. Tristeza... Ódio... Decepção... Falha...
– M-Maldição... – praguejou com um rosnado.
Curvou-se de dor, mas sentia tanta raiva de si mesmo e do mundo pelos acontecimentos tão ruins das últimas horas... Bateu as costas contra a parede e escorregou-as para baixo, sentindo-as serem arranhadas sem perdão pelas pedras sem se importar com a dor tão ínfima... Tão menor...
... Se comparada ao desespero do indefeso Camus com o inferno de calor que o abrigou por tantas horas...
... Em relação à dor de Saga ao ser apontado e acusado precocemente de traidor...
... Quando se pensava no sofrimento de Kanon, sozinho e aprisionado na escuridão da Casa de Gêmeos...
Sentou-se no chão com os joelhos dobrados, repousou os braços sobre eles e a testa sobre as coxas, deixando as lágrimas caírem sobre seu colo e rezou por uns minutos, mesmo não conseguindo se concentrar. Levantou-se rapidamente, ofegante.
Correu até o banheiro e vomitou muito. Sua cabeça latejava e sua visão ficou ligeiramente turva. Levantou, sentindo suas pernas fracas. Sua respiração ofegante ecoava pelo banheiro. Seus olhos mantinham-se vidrados em sua imagem no espelho.
Estava velho, cansado, sentia-se fraco e tinha coisas demais para pensar e se preocupar. Há oito anos, eram somente os assuntos do Santuário. Hoje, eram eles e os jovens Cavaleiros de Ouro que reencarnavam na Terra para a próxima Guerra Santa que se aproximava, que eram sua prioridade. Foram mais de dois séculos de vida dedicada à Deusa, mas nenhuma década tão difícil e triste como essa.
Por uns instantes, pensou em Dohko. Franziu a testa, enraivecido e desnorteado.
“Seu desgraçado... Deve ser muito fácil ficar parado ai vendo água cair!”
Nem sabia por que teve tanto ódio do antigo companheiro de batalha.
“Mas é mesmo! Maldição! Você ficou com uma missão ridícula! E eu?!”
Rosnou e olhou para o espelho, que rachou pelo efeito de seu cosmo carregado, cortando sua imagem ao meio. Naquele momento, sua vontade era de deixar este mundo.
Fechou os olhos e respirou fundo. Ouviu vozes ecoarem pelas paredes.
– É Saga... O Mestre está muito triste. – disse Aiolos, preocupado.
– Poxa. Será que a culpa é minha? – disse Saga.
– Não. Eu acho que ele precisa descansar mesmo. – concluiu Aiolos – O cosmo dele está ficando igual ao de antes de trazer o Camus.
– É... Eu também senti antes dele sair do quarto. – disse Saga com a voz triste.
O Mestre recordou-se do quão cruel havia se tornado há pouco mais de três dias.
“Me desculpe, meu querido Dohko. Minha Deusa, perdão. Estou tão cansado...”.
Pensou nos garotos e pequeninos, que mais uma vez lhe deram algum consolo e forças para seguir em frente. Respirou fundo. Andou devagar até a pia e lavou seu rosto. Suspirou e se olhou no espelho rachado, ajeitou suas vestes longas e secou o rosto com uma toalhinha. Deu um sorriso leve para si mesmo.
“Tudo bem.”
Foi até a cozinha, preparou a mamadeira e voltou para o quarto. Chegando lá, logo notou os olhares de preocupação dos meninos. Foi até eles sorrindo serenamente e bagunçou os cabelos dos dois, que riram aliviados ao sentir que o caos havia se esvaído do cosmo do Mestre. Sentou no meio deles.
– Aqui, Saga. – disse entregando a mamadeira para o garoto, que a pegou meio sem jeito.
– Ih, Mestre, acho que ele dormiu de novo. – disse Aiolos, e riu da falta de jeito de Saga.
O neném ressonava no colo do jovem Cavaleiro de Gêmeos.
– Dorminhoco, né? – disse Shion, pegando-o nos braços – Mas ele tem que acordar para mamar.
– Como é que ele consegue dormir com fome? – espantou-se Saga.
– Às vezes, ele não está com vontade... – supôs Aiolos.
Shion sorriu para a ingenuidade dos garotos.
– Crianças, ele é muito pequeno. – disse o Mestre, paciente – Não é tão frágil quanto um recém-nascido normal, mas deve se alimentar no mínimo a cada três horas.
– Ahh... – fizeram os dois, tentando entender.
Shion deitou o bebê adormecido sobre a cama e se deitou ao seu lado apoiando a cabeça com o braço. Olhou para Saga.
– E então? – disse ele – Como vai fazer? – ergueu as pintinhas na testa.
Saga o encarou perdido, coçou a cabeça e olhou para o bebê sem saber o que fazer. Aiolos ria da situação do amigo. Shion sempre se encarregara ou aos criados de banhar, alimentar e vestir os outros três. Vigiá-los e prepara-los para o treinamento eram as funções dadas aos dois jovens Cavaleiros de Ouro sob seu auxílio quando necessário. Como dito antes, os dois nunca tinham sequer alimentado um dos bebês sozinhos.
– Que tal você tirá-La antes e lavar as mãos? – disse Shion olhando-o dos pés à cabeça – Aiolos trouxe roupas para vocês, não?
Os meninos se olharam e riram de estar até agora vestidos para guardar o Santuário. Aiolos pegou os moletons dos dois, Saga entregou a mamadeira a Shion, despiram suas armaduras e correram para o banheiro. Como sempre, competindo por quem chegava primeiro.
Quando voltaram, Saga trajava um conjunto de moletom azul escuro e Aiolos, um vermelho. O jovem Cavaleiro de Gêmeos se aproximou da cama e olhou para o Mestre, esperando mais uma dica.
– Não falo mais nada. – disse Shion, balançando a cabeça negativamente – Responsabilidade sua. – entregou-lhe a mamadeira.
– M-Mas e...
– Ele não vai te atacar não, Saga. – riu Aiolos.
O garoto suspirou e olhou confuso para Camus, que ainda dormia profundamente.
– E se ele chorar? E se eu o afogar com leite? E se...
– Confio em você, meu caro. – Shion lhe piscou um olho, tendo um sorrisão do menino como resposta.
O garoto olhou para o amigo, que lhe fez um gesto de “sei lá!”, afinal, era tão inexperiente quanto ele, mas que logo fez que sim com a cabeça, encorajando-o, e depois se deitou ao lado do Mestre.
Saga respirou fundo e subiu na cama franzindo a testa, concentrado. Repousou a mamadeira sobre a cama, sentou-se de pernas cruzadas e pegou o bebê cuidadosamente nos braços e o olhou por uns segundos. Dormia tão tranquilamente que o menino sentia pena de acordá-lo daquele sono gostoso.
De repente, sorriu ao lembrar-se algo e seu rosto se iluminou.
Levantou um pouco o pequenino e encostou o nariz de leve em seu rostinho e lhe fez carinho com a face, dando-lhe uns beijos leves de vez em quando. Acariciou seus cabelos ruivos e mãozinhas, carinhoso.
Não demorou muito até que o pequeno se espreguiçou com um longo suspiro e abriu os olhos. Olhou para algumas direções meio perdido, até que seus olhinhos vermelhos se encontraram com os azuis de Saga, que encostava seu nariz no dele.
– Oi, Camus. – disse o garoto, animado pelo bebê ter acordado bem.
O neném lhe esboçou um sorriso.
– Ei, vamos comer? – disse o garoto, animado. Pegou a mamadeira sobre a cama e mostrou ao pequeno.
– Nnnfff... – o bebê franziu a testa, olhando apavorado para o objeto nas mãos de Saga.
– Ahn? Não está com fome? – o menino não entendeu.
O pequeno balançava a cabeça negativamente e mantinha o olhar fixo na mamadeira. Saga suspirou, fechou os olhos, tentou manter a calma e concentrou-se em Camus.
O pequeno cosmo do bebê emanava medo e repulsa.
“Por quê?” perguntou ele.
Inesperadamente, uma voz infantil lhe disse:
“Quente...”
Saga abriu os olhos, espantado com o que acabara de ouvir. Olhou para Shion, que sorria e erguia as pintinhas na testa, já entendendo o porquê da reação do menino.
“O que ele disse, Saga?”
“Quente.” Respondeu o garoto.
Saga olhou para Camus, que levara as mãozinhas ao rosto e se encolhia.
Arregalou os olhos por uns instantes ao lembrar-se do que Shion lhe havia dito sobre o pequeno mais cedo na Casa de Gêmeos. Sorriu e acariciou com o rosto os bracinhos do neném.
– Olha, não precisa ter medo. – disse ele com a voz suave.
Camus tirou uma das mãos do rosto e o encarou com o olho destampado.
–Aqui... – encostou de leve a mamadeira no pezinho do bebê – Tá fria, viu?
O pequeno tirou a outra mãozinha do rosto e deu um sorriso para Saga.
– É... – concordou o menino — Quer? – mostrou-lhe a mamadeira.
O neném estendeu a mãozinha e acariciou sem jeito o rosto do garoto, que corou ao ouvir as risadas leves de Shion e Aiolos. Depois, o pequeno fez levemente que sim com a cabeça.
– Ele está retribuindo o carinho, Saga. – disse o Mestre não resistindo e apertando de leve o pé gordinho de Camus.
Saga deu um sorrisão e deu a mamadeira ao neném, que a segurava ainda sem firmeza com as mãozinhas e fechou os olhos enquanto mamava.
– Ele é tão bonitinho, mesmo sendo do contra. – disse Aiolos ao sentar-se ao lado de Saga – Hehehehe... Na próxima sou eu, tá?
– Aham... – disse Saga, sem prestar muita atenção aos dizeres do amigo. Concentrava-se em fazer tudo certo. Suspirou contente ao olhar para o bebê, cujo Pingente Sagrado reluzia em seus olhos.
– Mestre? – chamou ele.
– Sim. – respondeu Shion.
– Obrigado... – disse o menino com um sorriso e voz emocionada – Obrigado por tudo.
Shion o abraçou e lhe deu um beijo na cabeça. Aiolos se uniu a eles e abraçou os dois.
Uma lágrima correu pelo rosto do menino, porém seu sorriso só aumentou quando sentiu duas mãozinhas tocarem seu peito, como se também tentassem abraça-lo. Olhou para baixo e aproximou o rosto de Camus, que enxugou sua lágrima solitária com o dedinho. Encarou o bebê, que retribuiu o olhar.
“Obrigado, Camus.”
“De... Nada.”
– E fraldas? – disse Shion com um sorriso maroto de canto – Querem aprender a trocar?
Na manhã seguinte...
... Papéis de bombom pelo chão do quarto...
... Uma cama cheia...
... ZZZZZZZZZZZZZ...
... Os pequenos não brincaram ou foram iniciados...
... Os Cavaleiros de Ouro não compareceram ao treinamento ou se postaram em suas Casas...
... E o trono do Mestre ficou vazio.
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