Magic the Gathering: Tales of the Ætherbreaker

10 Quando um goblin de duas cabeças salvou minha vida (e a de toda Ravnica, provavelmente, mas isso é uma história que será contada mais para frente.)


Notas iniciais
ROLA AMIGOS, COMO ESTÃO, TRANQUILOS? Então, bem vindos à mais um episódio que vai ser cheeeeio de detalhezinhos técnicos e que vai iniciar uma nova fase na missão de Stilace. Desculpem pela demora atípica, dark souls tem me sugado violentamente, sem falar que eu precisei me concentrar em questões mais importantes e pessoais. Espero que aproveitem mesmo assim;

Às vezes é necessária uma aberração para nos lembrar de nossa própria falta de humanidade.

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As portas do elevador finalmente se abriram. Eu saí antes que Irov, que se mantinha emburrado e com a expressão fechada, fizesse algum comentário óbvio sobre a situação.

Não era meu problema, de qualquer forma.

O lugar que estávamos era opulento, de certa forma, mas sem perder o ar rústico e descivilizado. Uma riqueza que visava a robustez ao invés do detalhismo, durabilidade ao invés de arte. Um grande tapete de pele cobria quase todo chão do escritório, todas as paredes com exceção a do elevador eram uma só grande janela de vidro curvado, o que fazia com que a sala tivesse um aspecto de cockpit de nave espacial. Diretamente à nossa frente, uma mesa de escritório de madeira, bem grande e aparentemente bem pesada, conotava que aquela era a sala do chefe. Como se isso não atestasse o suficiente, uma cadeira de couro com três metros de altura em seu espaldar estava de costas para nós e virada para a visão panorâmica da mina.

O criador observava a criação, aparentemente.

Dei um passo para frente, pisando no tapete.

— Não se aproxime nem mais 5,86 centímetros! — Uma voz rouca e grave disse de trás da cadeira. — Eu já falo com vocês, rapazes, só preciso resolver isso aqui. — A voz dele se amplificou. — LYP! COLOQUE O BENDITO CAPACETE. — O som de uma explosão reverberou. — DE NADA! VOU DESCONTAR DO SEU SALÁRIO! HAHAHAHAHAHAHAHA, BRINCADEIRA! VOLTE AO TRABALHO, SEU IMBECIL! — A amplificação sumiu. — Ainda não se movam, preciso desativar as armadilhas e... Pronto, podem vir. — Dei um passo para frente. — CALMA, NÃO DESATIVEI TODAS, VOCÊ ACABOU DE PISAR NUMA MINA DE NIV-GLICERINA, VAI MANDAR METADE DA MINA PELOS ARES. — Estagnei o fôlego, congelando. — É brincadeira, seu comedor de raízes, deveria ter visto sua cara!

Vou admitir que deve ter sido engraçado. Um para ele.

— E tire mão do cabo dessa faca manteiga que você chama de adaga a menos que você se disponha a cair comigo numa faisqueira até a morte. — Faisqueira era uma gíria para briga de facas. — E eu aviso que esfaqueio pessoas desde antes de você saber de que cor é o mana azul. Porque a cara de thrul? Acha que eu não consigo reconhecer esse mentolado salgado e doce? Qualquer um com a metade de um neurônio reconheceria esse aroma depois do tanto que vocês, Azos, vieram aqui só para sair de mãos abanando. Vocês, engomadinhos, deveriam é ir atrás dos brotinhos, porque eles claramente estão tramando algo. — Ele fez uma pausa que deve ter durado meio segundo. — Vou dar só uma chance para você, azo, sair daqui agora porque que eu já estou cansado da sua merda elitista, do monte de papel que vocês chamam de justiça, sem falar que eu não aguento mais esse cheiro de sabão caro que vocês têm.

— Nós temos um mandato. — Irov retrucou.

— Então me vê esse mandato que limpo a bunda com ele. — Ele rebateu sem se afetar. — Melhor, eu assino ele para ganhar de vocês no seu próprio jogo, aí eu limpo a bunda com ele. Espero que a tinta não me cause alergia.

— Voc...

— Cale a boca. — Cortei Irov, aquela surra já estava me deixando desconfortável. — Acho que é melhor você descer.

— Escuta o pirilampo. — O patrão disse, ainda de costas. — Ele claramente é mais inteligente que você, azo.

Irov abriu a boca para responder, indignado, mas decidiu engolir as palavras e retornou para o elevador, pisando forte.

Quando as portas se fecharam, o patrão suspirou aliviado.

— Agora os adultos podem conversar. — A cadeira virou, finalmente. — Nós somos Niix.

Niix era um goblin, baixo e forte, com ombros relativamente largos. Ele vestia um paletó de couro branco com calças combinando juntamente com os mocassins. Com seu look sob medida, Niix era a coisa mais alien que eu já havia visto no plano de Ravnica justamente por ser um plano de caráter medieval.

Ironicamente, o mais estranho de Niix era sua roupa, apesar das duas cabeças.

Dois pescoços surgiam individualmente, o que explicava a forma como as cabeças se comportavam de formas distintas. A da direita conversava comigo, apontando o nariz comprido para mim e me observando com os grandes olhos, a da esquerda estava compenetrada em uma folha a qual usava para realizar cálculos com uma pena a uma velocidade fantástica, os olhos quicavam de um lado para outro atrás dos oclinhos de meia lua.

— Eu sou Ni. — Disse a cabeça da direita, fechando o punho sobre a mesa. — Esse é meu irmão, Ix.

A placa na entrada da mina fez sentido.

— Você não parece assustado, planeswalker. — Disse Ni, erguendo a sobrancelha, proferindo a última parte como se a esconjurasse.

— E você não parece assustado, goblin. — Retruquei sem desprezo, quase que com uma ironia amigável.

Sustentamos uma encarada breve.

— Você definitivamente não é um azo. — Ele disse por fim, se reclinando. — E você definitivamente não é um pirilampo qualquer.

— Por acaso existem pirilampos quaisquer? — Assumi que pirilampos fossem planeswalkers.

— Há! — Ni soltou uma gargalhada curta. — Já cruzei com alguns durante minha vida e todos nos olham como se aquela faisquinha que eles têm os fizessem melhor que todo mundo. — Ele sorriu para mim, revelando os dentes afiados e brancos. — Você é uma exceção. Claro que isso não faz com que você deixe de ser um bastardo arrogante, apenas um bastardo arrogante respeitoso.

Dei de ombros. — Justo.

Ele tamborilou a mesa e me olhou de cima a baixo, me medindo. Ele acertou e errou no meu julgamento, acertou quando disse que eu era um bastardo arrogante, mas errou quando disse que eu não me achava melhor que todo mundo.

— Indo direto ao assunto. — Dessa vez quem disse foi Ix. — Se você está aqui pelos metais dos brotinhos, lamento informar que não podemos ajudar muito. — Ele nem ao menos interrompeu os rabiscos frenéticos.

— Acredito que é exatamente por isso que eu estou aqui. — Respondi irônico, cruzando os braços.

— Já dissemos tudo o que sabíamos aos azos que vieram aqui da última vez. — Ni pigarreou. — Não temos nenhuma informação nova.

— Eu tenho. — Me aproximei da mesa. — Os “azos” envolvidos na investigação foram todos mortos — A expressão dos goblins se alterou. Ambos se aproximaram e Ix interrompeu os rabiscos. — E com isso, todas as informações coletadas aqui foram perdidas.

Os dois me fitaram com gravidade enquanto eu continuava.

— Eles aprenderam algo aqui que não deveriam ter aprendido. — Me certifiquei que o capuz estava bem baixo, ocultando-me tanto quanto possível. O que quer que tenha matado aqueles homens poderia estar me vigiando naquele instante. — Preciso saber exatamente o que vocês disseram a eles.

Ix suspirou. Eles levantaram de sua enorme e luxuosa cadeira e foram até um armário com gavetas quadradas. Puxaram uma e folhearam pelos documentos, procurando por um específico.

— Eles vieram até aqui depois de rastrearem uma carga ilícita de pó de aço negro. — Ix explicou. — O aço negro veio sim dessa mina, mas não existem registros de sua produção, pesagem ou catalogação. Nada.

— O que quer dizer — Ni continuou. — Que alguém de dentro da mina estava conspirando, alguém com acesso à toda contabilidade e logística da mina, além de ser um conhecedor da extração dos metais necessários para a obtenção do aço negro e de seu refino.

— E esse é um processo extremamente oneroso. — Ix retornou. — A extração do nérium na forma de minério consome dezenas de metros cúbicos de terra por grama, pois sua concentração é sempre muito baixa.

— Nérium? — Indaguei.

— O minério raro essencial para o aço negro. A proporção do nérium é a peça fundamental da para a fabricação do metal.

— Além disso, — Eles alternaram novamente. — As máquinas necessárias para a separação do minério e para a obtenção do metal cru são enormes, custosas e de difícil acesso.

— Sem falar que, quem quer que quisesse o aço, precisaria ser um especialista em metalurgia e siderurgia para a obtenção da liga necessária.

— Cerca de noventa e oito por cento ferro, um por cento carbono e um por cento de nérium. A precisão precisa ser de milésimos de milésimos de milésimos de grama, ou a liga está destruída.

— Nérium demais torna a liga dura demais para ser manuseada, e também, muito quebradiça para ter qualquer uso.

— Nérium de menos deixa a liga muito maleável e fácil de deformar, inutilizando-a.

— Isso faz com que balanças izzet de altíssima precisão sejam necessárias.

Processei tudo e constatei. — O que acharam na carga era pó de aço negro, não minério de nérium.

— De fato. — Ix concordou. — O que quer dizer que aquilo era aço negro rico em nérium, apenas, e não destinado para o uso prático.

— O nérium possui outros usos que não a fabricação de aço negro? — Perguntei.

— Nenhuma que saibamos. A-há! — Eles puxaram uma pasta do arquivo. Bambearam de volta até a mesa e empurram a pasta para mim. — Dê uma olhada nisso.

Aquilo era um registro de compras efetuadas num mês X. Vários nomes estavam circulados em diversas datas, todos possuíam o mesmo código ao lado e um deles se repetia. Lhamiz.

— O que esse código significa? — Indaguei.

— É um código referente à compra de um minério. — Ni explicou. — Nesse caso, o selêsnio.

— Não quer dizer selênio? — Corrigi, estranhando esse erro de um suposto profissional.

— Rapaz, — Ni começou com um tom paternal. Não paternal carinhoso, mais para pai geógrafo tentando ensinar algo para um filho idiota que cismou que a Terra é plana. — Nós trabalhamos há quarenta anos com mineração e você quer me dizer que existe um metal chamado selênio, mas não o selêsnio? — Ele sorriu descrente. — Okay.

Semicerrei os olhos, fitando-o com zanga. Eu já havia esquecido que Ravnica não era meu plano natal.

— Agora vai me dizer que nunca ouviu falar do satúrnio também? — Aparentemente, Niix nunca perdia uma zoeira com mineração.

Não sei se isso vai fazer sentido para você caso não seja do meu plano, mas no meu plano existe um metal chamado urânio, cujo nome vem de um planeta no nosso sistema solar chamado Urano. Dito isso, havia outro planeta no nosso sistema chamado Saturno.

Como existia um elemento em Ravnica que fora batizado com o nome de um planeta que nem sequer existia naquele plano?

— E de onde esse nome veio? — Creio que minha semelhança com um filho estúpido se agravou com essa pergunta.

— Esse metal foi descoberto por um goblin minerador chamado Jup Saturno, que era uma contração de seu apelido, Jup Seu-Turno, pois o mesmo era um prodígio em croqueló e jogava na velocidade da luz.

Eu não iria discutir essa lógica.

— De qualquer forma. — Cortei o assunto. — Por que as compras de selêsnio estão grifadas?

— Porque o selêsnio é um metal com propriedades fertilizantes quando utilizado em baixa concentração. — Ix disse, folheando seu bloquinho. — Não possui alto rendimento comparado aos fertilizantes artificiais dos simic, mas é popular entre os selesnya justamente por ser natural e por não alterar as propriedades das plantas caso usado na medida certa.

— Entretanto — Eles alternaram de novo, já estava me irritando. — Vários núcleos selesnya daqui do oeste estão comprando quantidades enormes desse metal, cerca de quatro vezes o que geralmente adquiriam.

— Hum. — Levei a mão ao queixo. — Talvez eles estejam estocando por... Sei lá, uma queda na produção rural levando à uma crise financeira e uma alta nos preços no futuro.

Eles trocaram um olhar. — Na verdade, é um palpite muito bom, ainda mais com essa entrada não planejada de planeswalkers. — Ix voltou a rabiscar freneticamente, fazendo cálculos relacionados à situação futura do mercado.

— Gostei de ver, pirilampo. — Ni sorriu para mim, apontando. — Dessa forma vamos acabar te...

— Ni, mina quarenta e dois, Ukuk dormiu na retrotrituradora. — Ix alertou com calma. — trinta e sete segundos.

— Tenho tempo, ainda. — O irmão respondeu. — Desse jeito vamos acabar te contratando, precisamos de um analista de mercado bom para evitar que esses mal-entendidos aconteçam. — Ele pigarreou. — Digo, nós ligamos o contrabando de aço negro aos selesnya pelo fato dessa estranheza na aquisição do selêsnio, mas talvez seja só isso. — Abanou a mão, afastando o assunto. — De qualquer forma, é importante saber qual é a do aço negro e como aquele tanto simplesmente passou debaixo de nossos narizes.

Ele se interrompeu e apertou um botão na mesa. — UKUK! — A voz dele voltou a soar amplificada. — ACORDE, SEU BASTARDO FEDORENTO DE UMA FIGA! — Ele soltou o botão. — Voltando ao assunto, isso foi tudo o que contamos para os azos. Imagino que não seremos muito mais úteis que isso.

— Eu entendo. — Disse, me afastando um pouco. — Só mais uma dúvida.

— Diga.

— Quem é esse Lhamiz? — Relembrando, Lhamiz era um nome que aparecia ao lado de várias das compras de selêsnio.

Essa. — Ele corrigiu. — Lhamiz é a elfa selesnya responsável pelas aquisições de metal do núcleo de Aguabrasa, um brotinho em vários sentidos, essa aí. — “Brotinho” era um apelido que outras guildas davam aos selesnya, similar aos azos. — Mas definitivamente, não é flor que se cheire.

Ergui a sobrancelha. — Por que diz isso?

— Ela matou cinco mineiros daqui sozinha depois que um deles a chamou de — Ele fez aspas no ar. — “orelhudinha da bunda gostosa”.

— Você não parece incomodado com isso. — Notei.

— Eles eram idiotas e esse é um comportamento nojento. — Ele suspirou. — Mas não é só isso, os azos que vieram aqui da última vez estavam indo atrás dela. — Uma pausa. — Imagino que foi no caminho para lá que eles foram pegos.

— Preciso confirmar isso, mas é provável que sim. — Eu disse, esquematizando um plano em minha mente. — Bem, eu não quero ter o mesmo destino que eles, então vou voltar para Nova Prahv e dizer que o aço negro não tem nada a ver com os selesnyas, já que eles não possuem a tecnologia metalúrgica para manipulá-lo. — Peguei um papel qualquer em cima da mesa e mandei um olhar sério para os irmãos. — Confiram os registros novamente, essa carga deve ter se extraviado de outra mina.

Eles entenderam o olhar, ainda bem. — Claro, faremos isso. — Dito isso, assinamos um contrato silencioso que me permitiria voltar vivo até Prahv.

— Obrigado pela ajuda, senhores Niix. — Os cumprimentei com uma reverência contida. — Prometo que os azorius não voltarão a importuná-los.

— Disponha... — Deram a deixa para eu falar meu nome.

— Stilace.

— Stilace. — Ni repetiu enquanto Ix voltava para os cálculos. — É sempre bom passar as coisas a limpo.

Sem mais nenhuma palavra ou olhar, eu rumei para o elevador.

Agora eu sabia que essa elfa, Lhamiz, tinha alguma coisa a ver com as mortes. Ela provavelmente ouviu tudo o que foi dito na sala e por isso, certificou-se que os azorius anteriores não divulgassem aquilo que descobriram. Talvez aquela farsa houvesse me comprado o tempo necessário para reportar isso à Lavinia.

Cheguei ao térreo e passei por todos os soldados lá, emitindo um curto e seco — Vamos. — O qual todos obedeceram.

No carrinho que nos levaria de volta ao portão, reinava o silêncio. Irov me olhava de forma furiosa e eu fazia o melhor para ignorá-lo, tentando me esconder mais ainda no meu manto.

Pela primeira vez desde que eu havia chego em Ravnica, eu sentia minha nuca formigando com olhares, ciente de que alguém me observava. Ciente de quão fino era o gelo em que eu pisava.

Levei a mão ao cabo de minha faca, tentando enganar a mim mesmo com a sensação de segurança, me perguntando se aquela faca seria o suficiente para impedir que uma lâmina abrisse minha garganta na viagem até Prahv.

A lâmina mais afiada, entretanto, já havia me atingido. A dúvida.

A dúvida se eu iria sobreviver até o final do dia.

A dúvida se eu veria Lavinia novamente.

Notas finais
E aí? O que vocês acharam do capítulo? Eu pessoalmente me diverti, a história estava precisando engatar!