Magic - Restarting
7 Capitulo 7
Notas iniciais
Eduardo
No inicio, antes dele encontrar Will, era apenas um. Aquela figura translucida, com algo parecido com um coração negro e carregado de trevas, batendo no meio do corpo transparente. O buraco, pelo qual ele havia saído, tinha cerca de meio metro de diâmetro com uma borda decorada, num perfeito circulo, com galhos secos, cuja superfície pingava uma espécie de liquido preto, parecido com piche. Uma luz esverdeada que saia de dentro dele, assim como o som de vários grunhidos parecidos com vozes irritadas. Aquela coisa saltou para fora, parando em frente ao garoto. Seu rosto parecido com um daqueles desenhos de demônios, de algum livro antigo.
Eduardo não sabia ao certo o que lhe provocou tanto horror. Talvez algo guardado na parte mais obscura de suas memórias. Talvez fosse o fato daquela coisa se parecer com o monstro que vivia dentro de seu armário. O mesmo monstro que havia matado seu irmão mais novo, enquanto todos dormiam. Deixando o corpo do menor completamente destroçado, e seus órgãos espalhados pela casa.
Ele segurou a mão de Will com tanta força, que parte de si ficou com pena e preocupado se estava machucando o garoto. Fazia tanto tempo deste que ele havia sentido tanto medo assim.
As luzes no teto piscavam como que no ritmo de seus passos. Seu coração batia forte e rápido. Varias daquelas criaturas começavam a aparecer. Algumas correndo como um humano, outras como um aracnídeo, sobre a superfície dos armários, ou presos ao teto e paredes.
Eduardo sentiu seu corpo sendo puxado para a direita, enquanto uma porta se abria. O banheiro parecia estar vazio. As paredes e as cabines pintadas de branco, nunca pareceram tão seguras. Will soltou sua mão e se abaixou, verificando o interior de cada cabine.
— Estão todos vazios. – disse ele, em meio à respiração pesada. – Você pode me dizer o que são aquelas coisas?
Eduardo nunca havia realmente reparado em seu colega. Ele ficou admirado ao perceber como Will era incrivelmente belo. Como seu cabelo encaracolado, agora colado a testa, era bonito. E a mesmo que repleto de medo, como seus olhos eram tão cheios de vida.
— Eu não sei. – respondeu ele após um longo minuto.
— Como assim você não sabe? – um leve tão de irritação passou pela voz de Will. – Você parecia conhecer aquela coisa muito bem.
— Ta, eu não sei exatamente o que é aqui... – Algo se chocou violentamente contra a porta, o que fez Eduardo se calar.
Will o agarrou pelo braço e o puxou para dentro de um das cabines. Seu indicado parou sobre os lábios, pedindo silencio. As luzes no teto explodiram, lançando vários cacos por todos os lados. Agora, a única luz provinha das pequenas janelas, sobre as pias. Um longo minuto se passou, enquanto o único barulho a se escutar era o da chuva, que caia violentamente do lado de fora. A luz se esvaiu lentamente, enquanto a temperatura caia gradativamente.
Eduardo deixou sua mão escorregar pelo braço de Will, até seus dedos se entrelaçarem e um aperto forte. Seu rosto corou de imediato, mas ele não sentiu remorso por tal ato.
As paredes das cabines começaram a ser invadidas por algo parecido com teias negras. Na verdade, aquilo eram galhos secos e enegrecidos com algo podre. O barulho do granizo das pias, explodindo fez com que os dois se abaixassem, cobrindo as cabeças, enquanto a agua começava a jorrar por todos os lados.
— Eu preciso que você confie em mim. – sussurrou Will.
— Como assim? – Eduardo sentiu algo afundar dentro do peito. Seus olhos encontraram com os de Will e ambos se encararam por longos segundos.
— Apenas confie em mim. – respondeu Will sorrindo. – Ou ambos vamos morrer aqui.
— O que... – Eduardo deixou a frase morrer no ar.
Will
Will se levantou lentamente, seus dedos escorregando pelos de Eduardo. Seu coração batia fortemente dentro do peito, enquanto o suor descia lentamente por sua face.
Depois de tanto tempo, de todas as vezes que ele havia tentado se aproximar de Eduardo, e ali estavam eles, em meio a algo que poderia simplesmente os matar a qualquer segundo.
Ele respirou fundo, seu braço alcançando a porta, mas tocando em algo grudento e pegajoso. Will estava preste a abrir a porta, quando algo o puxou por baixo dela. Aquela coisa se agarrou a seu calcanhar, o fazendo tombar para trás. Seu crânio se chocou contra a superfície dura e fria do vaso sanitário. Sua visão ficou turva, enquanto seu corpo era arrastado pelo chão, para logo em seguida ser atirado contra os espelhos, que ficavam acima daquilo que haviam sido pias.
Alguém gritou, talvez Eduardo, mas a voz estava longe demais. Will sentiu seu corpo sendo lançado de um lado para o outro. A dor se espalhando lentamente por dentro dele.
Eduardo
Eduardo sentiu o desespero crescer dentro de si, quando o crânio de Will se chocou contra a privada. Ele levantou em um salto, abrindo a porta com força, apenas para ver o outro sendo lançado de um lado para o outro, como um brinquedo. Ele precisava agir, e rápido. Antes que Will acabasse morrendo.
Ele tentou saltar contra a coisa que estava agarrada a Will, mas seu corpo apenas a atravessou, se chocando violentamente contra o chão e caindo sobre pedaços de granizos. A dor se alastrou por seu abdômen, enquanto a água lhe molhava. Ele também tentou atirar coisas, mas tudo apenas atravessava a criatura.
O desespero começava a tomar conta. O enorme corte na testa de Will sangrava demais. Deixando seu rosto coberto de sangue. Os cortes em seus braços pareciam fundos demais. Sua cabeça estava tombada para trás, enquanto seu corpo era lançado uma ultima vez contra a parede. Will caiu com um baque surdo, fazendo pingos de água voar por todos os lados. Sua camisa, antes branca, estava vermelha. Ele estava perdendo sangue demais.
Eduardo olhou para aquilo de deveria ser os olhos daquela coisa. O desespero se transformou em ódio, enquanto seus dedos começavam a formigar. Algo queimou dentro de seu peito. Ele correu, seu corpo saltando sobre o de Will, suas mãos se fechando, enquanto seu punho se chocava contra a criatura. O garoto não sabia como havia feito aquilo, mas decidiu não parar para pensar. Suas mãos emitiam um brilho roxo. A criatura emitiu um som bestial. Liquido preto escorria pelos lugares atingidos pelos punhos de Eduardo.
Eduardo ofegava, enquanto a criatura caia sem vida aos seus pés. O som de outras entrando no banheiro, apenas o fez ficar mais irritado. Ele sentiu a chama aumentar dentro de si. Ele gritou, enquanto tudo explodia em uma intensa chama roxa. Seus dentes batiam uns contra os outros. Sua respiração estava pesada. Seus joelhos fraquejaram, e ele caiu ao chão. O corpo se chocando contra os cacos de vidro. As chamas se extinguiram lentamente, deixando um rastro de liquido negro espalhado pelo chão e pelas paredes. Seu braço se estendeu na direção de Will. Lagrimas escorriam por seu rosto.
— Me perdoa. – sussurrou.
Um longo minuto se passou, enquanto ele apenas reunia forças e se levantava. Eduardo não sabia de onde vinha aquela força. Tão pouco se perguntou como foi capaz de pegar Will no colo, mancar até o carro e dirigir até o hospital.
— Me ajudem! Gritou, enquanto entrava pela porta. – Por favor!
O corpo de Will estava deixando um longo rastro de sangue, pelo piso branco. Enfermeiros apareceram trazendo uma maca. Na qual Eduardo deitou o corpo de Will com cuidado.
— Ele perdeu muito sangue. – disse ele, enquanto mancava ao lado da maca, agora empurrada por um jovem rapaz. – Vocês vão salvar ele?
— Você não poderá passar daqui. – disse uma das enfermeiras, o barranco antes da porta, aonde se lia UTI em letras vermelhas.
Eduardo ficou parado, enquanto a porta se fechava a sua frente. As lagrimas caiam novamente. Ele sentiu seus joelhos fraquejarem novamente, mas dessa vez teve seu corpo aparado por braços fortes.
— Ei. Você também precisa de cuidados. – disse um enfermeiro. Seu rosto jovial, o cabelo castanho, a pele morena. Ele carregou Eduardo até uma cadeira de rodas e o sentou com cuidado. – Vamos lá, temos que cuidar de todos esses cortes.
— Vocês vão ajuda-lo, não vão? – o garoto repetiu, enquanto olhava para o corredor pelo qual Will havia sido carregado.
— Vamos sim. Agora fique calmo. – disse o rapaz, de forma gentil.
Eduardo encarou o chão, enquanto era conduzido até uma das varias salas do primeiro andar do hospital. Ainda chovia lá fora, como daquela primeira vez que aquelas coisas apareceram.
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