Made of Fire
29 XXVI - Eu, vento de júbilo
Notas iniciais
A sala que tanto frequentei no último semestre estava como sempre, cheirando a café e folhas impressas. Não muito detectável, para um olfato não tão apaixonado quanto o meu, era possível sentir o aroma de Turner. Ele estava detrás da mesa, o cenho franzido ao analisar as provas da outra turma com interesse. Os cabelos curtos estavam alinhados como sempre, a barba por fazer não mais estava lá e os olhos acinzentados focados nos papéis.
Revirei-me na cadeira, sentindo a súbita vontade de pular em seu pescoço e beijar-lhe o corpo inteiro. Mesma vontade que sentia quase sempre que o via fazer expressões tão adoráveis. Ou melhor, sempre que o via. Ponto. Eu tinha razão, afinal de contas. O homem era capaz de fazer qualquer um se apaixonar, tamanha beleza.
Como é que não percebi isso antes?
Era provável que a arrogância e os lábios franzidos o deixavam terrivelmente feio anteriormente, embora agora eu perceba que não existe um único centímetro feio em seu corpo. Ajeitei-me na cadeira novamente, desistindo de vez de tentar mexer em meu celular. Ou de tentar fingir que estava mexendo no celular.
As perguntas ainda pairavam por minha cabeça, ainda mais depois de ouvi-lo contar que tinha ficha criminal e que era basicamente maluco por adrenalina quando mais novo.
— Quanto ao seu nome completo? — perguntei ao quebrar o silêncio, vendo Turner fechar os olhos e suspirar. Ergueu o olhar para mim com um sorriso meio agoniado e balançou a cabeça negativamente, como se não pudesse acreditar que eu continuasse com as perguntas.
— Will, por favor — pediu ele, esfregando as têmporas.
— Por favor, você — resmunguei, sentando-me ereto. Suspirei também, sustentando seu olhar.
Estávamos em sua sala após o período das aulas. A matéria de Administração Financeira I havia oficialmente acabado, visto que as notas já haviam sido lançadas no sistema. Havia acabado e eu havia sido aprovado pela primeira vez com o Sr. Dragão. A não ser que estivéssemos discutindo o assunto da matéria seguinte, eu não tinha motivo algum para estar ali e disso a universidade inteira já sabia. Não era nenhum segredo que estávamos juntos e me irritava o fato de eu não saber muita coisa sobre o Turner. Nem ao menos sabia seu nome completo, havia me dado conta, e toda a universidade sabia que estávamos juntos. Era como se fôssemos um livro aberto para o mundo, mas fechado um para o outro.
Os olhares feios em minha direção haviam se tornado mais frequentes com o passar do tempo e eu já tivera dias o suficiente para haver me acostumado com eles. Não eram muitas as pessoas que se importavam com o nosso relacionamento, mas aqueles que se importavam faziam questão de demonstrar. Não só à mim ou à ele, mas ao Sr. Fitzgerald também. Eu podia aguentar o que fosse para ficar com Turner e sabia que ele também. A paciência do coordenador, no entanto, ainda estava fora da minha área de conhecimento e eu sabia que em algum momento ela poderia acabar. Turner poderia ser despedido da universidade a qualquer momento, ao meu ver, e estava com o rosto tão tranquilo quanto se estivesse debaixo de uma árvore tomando sol.
E tudo isso sem eu saber ao menos seu nome completo!
Turner ficou em silêncio por um momento antes de assentir. Sorriu antes de suspirar e inclinar-se sobre a mesa.
— Richard Allen Turner — disse ele, estendendo a mão para mim. — Muito prazer. — O sorriso cresceu em seu rosto ao passo que os olhos brilhavam com diversão. Com alívio e achando graça da situação, sorri também.
— Prazer. — Peguei sua mão e cumprimentei. — William Alexander Jones.
A diversão em seus olhos não deixou passar o fato de que ele já sabia meu nome. Claro que sabia, já que estava em sua lista de chamadas da turma. Revirei os olhos. Era oficialmente frustrante que ele tivesse mais informações à meu respeito do que eu tinha dele.
— Mas você já sabia disso, professor — deduzi, ouvindo-o rir antes de esconder os lábios.
— Infelizmente, eu não tive o prazer de descobrir por sua voz — atalhou ele, inclinando-se para trás na cadeira. — Soa bem melhor nela.
Sorri, sentindo-me um idiota. Um idiota apaixonado, para variar um pouco. Antes que eu pensasse em uma resposta, sua voz invadiu o cômodo novamente.
— Por que você não gosta do seu primeiro nome?
Pisquei algumas vezes, surpreso por ouvir isso dele. Desviei o olhar.
— Quem disse que não gosto? — perguntei, juntando o celular da mesa e mexendo na capinha dele.
— Todas as vezes em que você me corrigiu deixaram bastante claro para mim — falou ele, erguendo as sobrancelhas. Estreitei os olhos.
— Por que você não gosta de "Rich"? — atalhei. — Todas as vezes em que você fez uma careta ao ouvir Jay te chamar assim deixaram bem claro que não gosta.
Turner bufou, fazendo-me sorrir triunfante.
— De onde você conhece Gabriel e Louis? — perguntou ele com um sorriso.
Não demorou muito para eu dar-me conta de que ele estava seguindo com a sessão de perguntas de forma solidária. Ao invés de bufar, decidi suspirar e lhe responder. Era uma ótima maneira de eu conseguir as respostas que queria, mesmo sabendo que ele o fazia por rendição.
— Do colégio — respondi, vendo-o franzir o cenho. — De onde você é?
— Mallow Coast, a cidade que visitamos. Do colégio? — perguntou, interessado. Ergui as sobrancelhas.
— Sim, do colégio. Sempre morou lá? — perguntei, curioso ao extremo.
— Sim, sempre morei lá — respondeu, deixando-me satisfeito. Se ele sempre morou nessa cidade, então tudo o que fez no passado aconteceu lá, incluso as interessantes ex-namoradas. Reprimi uma careta. — E vocês escolheram o mesmo curso e entraram no mesmo ano?
Parecia incrédulo, um sorriso teimando em seus lábios.
— Sim — respondi, incapaz de segurar o riso. — Nenhum de nós sabia que curso escolher, então escolhemos o que seria mais útil. Se nos déssemos conta de que tínhamos vocação para outra coisa, era só entrar em outra faculdade depois. Melhores amigos para tudo, não? — perguntei, achando graça de sua expressão. Era comum perguntarem à respeito, já que era realmente peculiar que escolhêssemos cursar a mesma faculdade.
— Surpreendente — disse ele, rindo também.
Nos encaramos por um tempo, ambos pensativos.
— E quanto aos antigos romances? — Atrevi-me a perguntar, sabendo já a resposta. Turner balançou a cabeça negativamente.
— Nada importante. E os seus? — replicou, sorrindo. Bufei.
— Só tive uma namorada e você sabe — resmunguei, lembrando dos cabelos ondulados e o cinismo estampado em cada pedaço do rosto feminino.
— Me fale sobre ela — disse ele rapidamente, sem pestanejar. Parecia interessado. Cruzei os braços defensivamente.
— Não antes de você me contar sobre as suas — repliquei, sem dar o braço a torcer. Ficamos alguns segundos nos encarando firmemente antes do riso de Turner fazer-se ouvir.
— Não existe "as suas" — falou ele, achando graça. — Nenhuma é "minha" — afirmou, inclinando-se sobre a mesa, os olhos intensos. — Você é meu.
Senti minhas pernas bambearem mesmo estando sentado em uma cadeira. Não era possível que eu ficasse tão descomposto com tão pouco. Não era possível que Turner realmente houvesse conseguido virar o jogo, deixando a mim desconfortável. Droga. Eram apenas três palavras ditas de uma distância segura, com uma mesa nos separando, em uma situação levemente normal. Por que diabos então eu sentia todo o meu rosto esquentar violentamente?
Desviei o olhar depois de observar um sorriso enorme e satisfeito espalhar por seu rosto. Ele estava adorando a sensação da inversão de papéis e eu sabia disso porque a conhecia.
Suspirei, deixando os ombros caírem.
— Turner, isso não é jus... — comecei, mas a porta foi aberta de forma rápida, seguida de um arquejo surpreso.
Virei-me na cadeira rapidamente para ver o rosto corado de uma garota morena, os olhos verdes piscando sem parar ao passo que um riso nervoso saía de sua boca. Sentia que já havia cruzado com ela nos corredores, mas não a conhecia realmente. Com certeza devia ser de outra turma.
— Perdão, professor. Não sabia que estava ocupado, eu volto mais tarde — falou, nervosa ao puxar a porta com a menção de fechá-la novamente.
— Não, pode entrar — disse Turner, ajeitando-se em sua cadeira com o rosto amigável.
— Eu já estava de saída — acrescentei, juntando minha mochila e o celular. Relanceei Turner e pisquei um dos olhos antes de arrastar a cadeira e dirigir-me em direção à porta, de onde a garota vinha com um sorriso culpado.
Eu devia me acostumar com a ideia de que todo mundo sabia sobre nós agora.
— Do que você precisa? — perguntou ele, assim que a garota tomou meu lugar na cadeira. Ergueu os olhos rapidamente em minha direção ao acenar, com um sorriso. Sorri de volta antes de sair porta afora, fechando-a atrás de mim e dirigindo-me às escadas.
Não era justo que ele houvesse virado o jogo completamente. Não fazia muito tempo em que eu era a garota que entrava na sala, sentava e o fazia arrumar a própria gravata no pescoço vinte vezes durante menos de uma hora. Parei de caminhar subitamente antes de girar o pescoço em direção à sua sala fechada.
Eu era o único a fazer isso, não?
Lembrei do rosto envergonhado da garota que entrara em sua sala e dos olhos igualmente verdes como os meus. Talvez ela não estivesse envergonhada por me flagrar ali, talvez estivesse envergonhada pela presença de Turner. Depois que ele se tornara mais flexível nas aulas, era bem possível que virasse a paixonite de outros alunos.
Franzi os lábios, desgostoso. Esse não era um bom momento para eu criar teorias extremas em minha mente. Teorias nada atraentes, a propósito.
A garota, mesmo que gostasse dele, obviamente não teria a cara de pau de dar em cima do professor como eu o fiz, mesmo que quisesse. É preciso estar vinte anos negando ser gay por dentro para ser capaz de algo assim, pensei com ironia, para se deixar levar por impulsos hormonais. Ainda assim, eu também não pensava ter coragem de avançar com ele, até o momento em que tive. Até o momento em que flertei com ele, em que o toquei, em que o beijei de surpresa. Mordi os lábios, a cena se reproduzindo em minha mente, desta vez, com uma versão feminina em meu lugar. Afinal, Turner só havia estado com mulheres a vida toda.
Suspirei, ainda mais irritado, antes de voltar a caminhar.
Droga!
*
— Então ele disse que eu parecia ser mais velha do que sou — falou Laurel, revirando os olhos. — Que tipo de cara imbecil diz uma coisa dessas? Eu pareço velha? Pareço? — perguntou, indignada ao desviar os olhos castanhos de Cenoura para o resto do grupo.
— Claro que não — resmungou Gabe, irritado. Arrancou furiosamente um pedaço de grama do chão, o cenho franzido.
Parece que a irritação é contagiante por aqui, pensei.
Estávamos todos sentados no gramado de um dos locais da universidade, abaixo de uma árvore enorme. Acabávamos de fazer a penúltima prova do semestre, antecedida pela última aula da professora demônia. Gabe tinhas as pernas cruzadas e uma careta no rosto ao encarar Laurel com irritação. Cenoura estava inclinado para trás ao apoiar-se nos braços, os cabelos ruivos movimentando-se com o vento. Ao lado dele estava Johnny, que por um milagre resolveu juntar-se à nós, apesar de saber que eu estaria junto.
— Não, Laurel. Esse cara é um babaca, não se preocupa com as bobagens que ele diz — disse ele, arrumando os óculos no rosto.
— Eu acho que você devia parar de buscar caras em aplicativos e começar a olhar à sua volta — resmunguei, deitando para trás ao apoiar a cabeça em minha mochila.
Eu estava entre Laurel e Gabe e agradeci o fato de não estar colado em meu amigo, porque sabia que ele daria um jeito de me golpear de alguma forma. Fiquei aliviado ao perceber que, se ele o fizesse, ficaria bastante óbvio o sentido de minhas palavras. Sorri ao girar a cabeça em sua direção, observando a carranca em seu rosto, os olhos azuis furiosos.
— Isso é uma indireta, Will? — perguntou Laurel, divertida. — Porque até onde eu saiba, você não é mais solteiro.
Girei o rosto na direção dela. Os cabelos vermelhos estavam presos por uma presilha, fios caindo ao lado de seu rosto. O sol que nela batia, de onde eu me encontrava deitado, a fazia parecer um anjo. Um anjo de cabelos vermelhos. Sexy. Era fácil perceber o porquê de Gabe haver se apaixonado por ela.
Sorri ao prestar atenção em suas palavras.
— É, eu o recrutei e ele aceitou — falei com satisfação, lembrando dos olhos cinzas. Talvez tenha sido ao contrário, não estou certo, mas não importa.
A gargalhada de Cenoura encheu meus ouvidos, assim como a de Laurel.
— Você o quê? — perguntou o ruivo, achando graça.
— Recrutei ele — resmunguei, sabendo que ninguém entenderia o porquê de eu achar a palavra "namoro" e suas derivadas tão inapropriadas. Não encaixava com a gente.
— Nossa, Will — disse Laurel, rindo alto. — Você consegue ser tão romântico! Agora entendo o porquê de vocês terem se apaixonado um pelo outro — completou, escorando as costas no tronco da árvore atrás de si. Ergui a cabeça em um milésimo de segundo.
— O que você quer dizer com isso? — perguntei, estreitando os olhos.
— Will, deixa para lá — disse Gabe, rindo ao desviar os olhos de mim para o grupo, balançando a cabeça.
— Como deixa para lá? Ela quis dizer que nenhum de nós é romântico, não é? — perguntei à Gabe e à Cenoura, vendo-os balançar a cabeça. Percebi que Johnny limitou-se a mexer em seu celular. — Você quis dizer que ainda não gosta muito do Turner, não é? — perguntei, fixando os olhos em Laurel. Ela riu, revirando os olhos delineados.
— É muito estranho te ouvir chamando ele de Turner — falou ela com uma careta. — Não é? — perguntou a Gabe, que assentiu prontamente. — E eu não o conheço muito bem para gostar dele. Por que não marcamos um jantar e descobrimos? — Piscou um dos olhos.
Ah, não. Conhecia muito bem aquele brilho em seu olhar e a animação. Também conhecia muito bem Laurel para saber que assim que metia alguma coisa na cabeça, era difícil tirar. Estava claro que a ideia de um jantar a agradava profundamente.
— Nem pensar! — Exclamei, ao mesmo tempo em que Gabe dizia:
— Ótima ideia! — Falou, com um sorriso maléfico. Queria se vingar pelo que eu havia dito pouco antes.
— Péssima ideia — resmunguei novamente. — Nem pense nisso, Laurel!
— Ué, não queria que eu gostasse de seu namorado? — Inexplicavelmente, senti todo o sangue de meu corpo subir para o rosto com a menção da palavra "namorado". — Pois então. É uma ideia perfeita. Não concorda, Cenoura?
Cenoura, com um sorriso sem graça, ergueu os ombros e me olhou com uma careta culpada. Os cabelos ruivos e curtos estavam rentes ao seu rosto e as sardas faziam-se extremamente visíveis de acordo com o sol. Era como se os olhos verdes pedissem desculpa adiantadamente.
— Seria bom se o conhecêssemos melhor — concordou com um sorriso. Revirei os olhos.
— Nem pensar — repeti, deitando novamente em minha mochila. — Podem esquecer.
— Eu adoraria conhecê-lo melhor também, Will — a voz seguinte fez-me cogitar se estava mesmo ouvindo direito.
Apoiei-me nos cotovelos ao erguer a cabeça novamente, os olhos fixos no rosto de Jonathan. Ele ergueu os ombros, como se não houvesse dito nada demais, antes de voltá-los ao seu celular. Sabia que não havia qualquer ironia em sua voz, por isso era notável que estava sendo sincero. Não demorou para eu perceber que o silêncio havia reinado ali. Eu não era o único que estava surpreso, afinal.
Voltei os olhos à Gabe que, após erguer as sobrancelhas, deixou um sorriso abrir-se em seu rosto antes de olhar para mim. Cenoura piscou algumas vezes ao desviar o olhar, sem saber muito bem o que dizer. Gabe pigarreou, chamando nossa atenção.
— Bom, seria interessante ver Turner da forma como você o vê — Laurel quebrou o silêncio, erguendo os ombros. Mordi os lábios, pensando que eles tinham razão.
— Não — murmurei baixinho antes de balançar a cabeça. — Quero dizer, sim. É só que vocês não podem conhecê-los antes que a minha... — Suspirei pesadamente, interrompendo minha fala.
Mãe.
Havia evitado o contato com ela durante semanas, percebendo que ela fazia o mesmo comigo. Eu ficava o tempo inteiro nas ruas ou na Kaori ou na casa de Turner. Voltava para a minha própria casa apenas quando escurecia, para dormir. Não queria que ela pensasse que eu dormia na casa de Turner. Não queria dar mais motivos para que ela me afastasse de si.
— Ah, sua mãe — murmurou Laurel, os olhos piedosos. — Ela ainda não disse nada?
Neguei com a cabeça. Absolutamente nada além de "Will, me alcança o tomate para eu cortar" ou "Will, hoje eu volto em tal horário" ou "Will, você pode ficar com seu irmão hoje?". Nenhuma palavra a respeito de Turner. Nenhuma palavra ao meu respeito. Suspirei.
— Nem todo mundo me aceita como sou — resmunguei, relanceando Johnny. Ele ergueu os olhos do celular novamente, os pousando em mim com a sobrancelha arqueada. Piscou algumas vezes ao desviar os olhos para o resto do pessoal, que também o encarava de forma tensa, antes de voltá-los à mim.
— Você está falando de mim? — perguntou ele, sem expressão. O clima ficou pesado em questão de segundos, ninguém ousando sequer se mexer. Dei de ombros antes de puxar uma grama para brincar.
— Vocês já estudaram para a última prova? — perguntou Cenoura, tentando desviar a atenção do assunto.
— Ainda não — murmurou Gabe, tenso ao perceber que Johnny ainda me encarava.
— Não sabia que minha opinião era tão importante para você, Will — Johnny pronunciou-se, ignorando o resto do pessoal. — Até porque, nunca fomos tão amigos assim. — Ergueu a sobrancelha. Senti raiva ao perceber que ele tinha razão. — Mas se você faz questão, então eu digo: eu não entendo esse tipo de relacionamento — disse ele, largando o celular de vez. — Não entendo por que homens se interessam por homens, sendo que há mulheres pelo mundo. Aprendi a vida inteira que isso é errado. Tenho uma família religiosa, Will, e nunca duvidei do que me ensinaram, nem por um segundo.
O silêncio reinou entre a gente ao passo que eu assentia com a cabeça, indicando que entendia seu ponto de vista. Sem falar que realmente nunca fomos tão amigos assim. E principalmente, sem falar que eu queria o assunto acabado de uma vez.
— Mas não é porque eu não entendo suas escolhas que vou ficar te julgando — continuou ele, falando de forma lenta como se fizesse questão que eu entendesse o que dizia. — Me afastei um pouco, admito, mas não é por não gostar de você. E eu gosto, aliás. É porque eu tenho crenças diferentes — disse, pegando o celular novamente. Suspirou. — Me desculpa se eu causei algum mal à você. Não foi proposital, Will — falou com um meio sorriso.
— Tudo bem — murmurei, engolindo em seco. — Eu não devia ter sido tão bobo à respeito — Forcei um sorriso também, sem saber o que fazer com as mãos. Era injusto que eu o maltratasse, já que havia feito um esforço por minha causa de passar o tempo com a gente e apoiar o jantar.
— Já que está tudo resolvido, vamos comer alguma coisa? — Laurel cortou o silêncio novamente e agradeci por sua existência. Cenoura riu junto à Gabe. A moça de cabelos vermelhos fez uma careta ao olhar para mim e para Johnny, que já juntava suas coisas. — E vamos logo, porque o clima aqui ficou bem esquisitinho.
— Laurel, sempre priorizando a sinceridade — Johnny falou, sorrindo. Ri junto de Cenoura, vendo que Laurel mostrou a língua para nós.
Gabe balançou a cabeça, erguendo-se ao rir alto. Aproximou-se de Laurel e passou o braço por seus ombros, começando a andar em direção aos prédios novamente. Cenoura, Johnny e eu fomos atrás, caminhando lado a lado.
*
— Will! — Ouvi a voz de minha mãe exclamar assim que pus os pés para dentro de casa, sobressaltando-me. Virei em direção à sua voz, sentindo dois braços enlaçarem-se em meu pescoço, puxando-me para um abraço sufocante. Arregalei os olhos. — Will, onde você estava? Por que demorou tanto? — perguntou com a voz alta, afastando-se para me olhar nos olhos.
— O quê? — murmurei, desnorteado. — Eu saí com o pessoal depois da prova de hoje — falei, lembrando que resolvemos comer alguma coisa no centro da cidade ao invés de nos bares dos prédios da universidade.
— E por que não atendeu o telefone? — gritou ela, o cenho franzido. Engoli em seco, piscando algumas vezes.
— Acabou a bateria — murmurei, confuso. — Aconteceu alguma coisa?
Mal havia terminado a pergunta e senti os braços ao meu redor novamente. Abracei-a também, sem entender, ao passo que sentia meu coração bater mais forte. Depois de tudo que havíamos passado, eu não ia sequer cogitar recusar um abraço de minha mãe. Havia sentido falta deles mais do que qualquer coisa nos últimos dias.
Não demorou para eu perceber que seu peito chacoalhava e as mãos me apertavam com força. Arregalei os olhos novamente ao ouvir o pranto sair de sua boca, com o volume alto.
— Mãe? — perguntei, assustado. — Mãe, o que houve? Por que está chorando?
Disparei os olhos pela cozinha, olhando para a porta que dava para a sala, procurando encontrar algum motivo para ela estar chorando. Teria acontecido algo com Caleb?
— Mãe? — chamei novamente, mais nervoso que antes.
Afastei-a de forma rápida, sentindo suas mãos em meu rosto, afagando-me. As lágrimas jorravam de seus olhos de forma contínua, lembrando-me da última conversa que envolvia lágrimas que tivemos na cozinha. Senti meu peito apertar.
— Meu filho — murmurou ela, passando os dedos por meu cabelo.
Senti as lágrimas acumularem em meus olhos, refletindo os seus. Não sabia o que estava acontecendo, mas ver tanto carinho em seus olhos estava deixando-me ansioso. Ela limpou as lágrimas, afastando-se de mim novamente, virando as costas.
Quase gritei: não, volta aqui e me abraça de novo!
— Eu pensei que algo tivesse acontecido — murmurou, apoiando as mãos na pia e respirando fundo, visivelmente tentando acalmar-se. Franzi o cenho, aproximando-me dela.
— Por quê? — perguntei, vendo-a erguer os olhos chorosos para mim. Apontou em direção à sala com a mão, suspirando.
— Estava vendo as notícias na televisão — disse ela, engolindo em seco. — Algum garoto foi... — Seu lábio inferior tremeu, os olhos enchendo-se de lágrimas novamente. — Foi espancado em algum lugar no norte do Estado e eu... — Um soluço saiu de sua garganta, sobressaltando-me novamente. Puxei-a para um abraço de novo. — Você não atendia o telefone e eu não pude dizer o quanto...
— Mãe — murmurei, afagando-lhe os cabelos. — Eu já disse para não assistir tanto os noticiários da televisão. Só acontece coisa trágica, você sabe.
— Me desculpa, Will — murmurou ela em meu pescoço, pesarosa. — Desculpa, meu filho! Eu não devia ter tratado você da forma que tratei, eu não devia tê-lo afastado!
Ela afastou-se para olhar em meus olhos, um sorriso culpado no rosto inchado. Mordi os lábios, tentando segurar choro. Já havia chorado nas últimas semanas o suficiente por uma vida inteira.
— Mãe... — murmurei, sentindo meus olhos arderem.
— Não, Will, me deixa falar — disse ela, chorando ao balançar a cabeça. — Eu te amo, meu filho, mais do que tudo nesse mundo! Você e Caleb são os únicos motivos que tenho para viver, são minha única alegria. Eu não seria nada, eu não seria ninguém se não tivesse esses dois anjinhos... — falou ela, a mão em meu rosto ao sorrir com carinho. — Esses dois anjinhos em minha vida. Eu nunca devia ter tratado você daquela forma. Eu devia ter escutado. Eu não tenho nada mais que orgulho de vocês. — Sorriu, as lágrimas descendo por seu rosto.
Desta vez, o soluço saíra de minha garganta, ao passo que eu levava a mão ao rosto para limpar. Segurei-me no balcão da cozinha para manter o equilíbrio, a sensação de calmaria após tempestade tomando conta de meu corpo e deixando-me zonzo. Mamãe aproximou-se o suficiente para tirar a mão de meu rosto e segurá-la com a sua, apertando de leve.
— Você, Will — falou, fungando. — Você foi tão forte durante todos aqueles anos — falou, e eu soube que ela se referia aos anos em que aquele homem morava aqui. — Você foi tão corajoso e cuidou tão bem de mim e de seu irmão. Nunca devia ter passado por aquilo, nunca devia ter que ver as coisas que viu. Nunca devia ter passado por nada disso, meu anjo — disse ela, fungando ao passo que os olhos tornavam-se culpados com as lembranças.
— Mãe, você não teve cul... — comecei, mas ela balançou a cabeça negativamente.
— Você também não — disse ela, firme. — Você também não, Will! — falou mais alto, chorando. Observando a profundidade nos olhos castanho-esverdeados, me dei conta que ela se referia à nossa discussão no mesmo lugar em nos encontrávamos agora. — Você não teve e não tem culpa de nada. Eu te amo do jeito que você é — falou e chorei um pouco mais alto com as palavras que tanto pensei em ouvir. — Eu não me importo se você está com um homem ou uma mulher ou um professor. Ou com o papa! — falou, fazendo-me rir entre as lágrimas. — Eu não estou nem aí, desde que você esteja feliz, desde que esteja saudável e bem. Desde que eu não te perca. — A voz embargou na última frase, provavelmente lembrando do noticiário.
Abracei-a com força, enfiando meu rosto entre os cabelos já compostos por alguns fios brancos, sentindo o cheiro do mesmo perfume que ela usava há anos. Sempre comprava o mesmo e eu o adorava, já que sabia ser o cheirinho de minha mãe, desde criança.
A sensação de felicidade inundou cada pedaço de meu corpo. Era só o que eu precisava para ficar bem novamente, o apoio e amor incondicional de minha mãe. O fato de estarmos abraçados chorando da mesma forma que a cena de algumas semanas atrás apenas trazia um sorriso maior ao meu rosto. Porque eu sabia que o motivo agora era outro. Eu sabia que nosso abraço, agora, envolvia compreensão, carinho e amor. Não tinha um pingo de desgosto ou confusão ou mágoa. Estávamos bem.
— Eu te amo, mãe — falei ao deixar um beijo em seu rosto e enfiar o rosto em seu pescoço de novo. — Eu te amo muito.
Abri os olhos ao ouvir um barulho a mais na cozinha. Caleb estava escorado na porta, um sorriso em seu rosto. Os cabelos bagunçados como os meus pareciam apontar para várias direções diferentes e os olhos verdes estavam levemente marejados. Sabia que ele não se deixaria chorar, mesmo assim, e que jamais o admitiria. Pigarreou levemente antes de piscar um dos olhos uma vez para mim, afastando-se ao voltar para a sala.
Fechei os olhos novamente, ouvindo mamãe murmurar mais palavras carinhosas e afagar-me as costas. Não deixei de sorrir nem por um segundo, sentindo que tudo estava finalmente em seu lugar. Mamãe, Caleb, meus amigos e Turner. Apesar do último ainda gerar mil incertezas em minhas vida, pensei que o amor se trata de incertezas e que isso não é necessariamente ruim. Estávamos juntos agora e era isso que importava.
Nos braços de minha mãe, envolvido por todo o seu amor maternal, pensei que tudo estava finalmente em paz.
Fale com o autor