Made of Fire

57 XXII. Sortudo é aquele que esquece do azar


Notas iniciais
Minha gente preferida em todo o mundo, oilá ♥ Eu sei que demorei horrores - foi meu recorde, aliás, de demora e não vai se repetir, graças a todos os deuses -, mas era o último semestre do meu curso, era muita pressão, muita ansiedade, muita melacolia, e eu não tinha vontade nem de erguer um dedo pra escrever. E nem tempo. Pra vocês terem noção de como eu tava esperando tudo acabar, sexta-feira agora (dia 14) eu entreguei a versão final (depois de haver entregado uma vez, depois de ter defendido com a banca, e depois de rever as alterações deles) do meu trabalho, e hoje revivi das cinzas! Aliás, queria pedir desculpas de novo pela demora em responder os reviews :/ Aqui vai um capítulo pervertido para vocês. ~aquela carinha maliciosa que todos conhecem. BEIJÃO PARA TODOS! Boa leitura! ♥

Se havia algo que me entristecia nos últimos dias, ainda mais do que pensei que o faria, eram as aulas do Dragão.

Eu odiava o cara!

Eu queria que ele explodisse, eu queria sambar na cara dele, eu queria nunca mais ter que vê-lo na vida.

E agora...

Tudo o que eu consigo pensar é que estas são as últimas semanas do quinto semestre, metade do ano já, e depois disto eu não mais poderia provocá-lo durante as aulas porque não mais haveriam aulas com ele.

Tudo bem que eu tivera um semestre a mais, já que reprovei. Administração Financeira II pertence ao quarto semestre e não ao quinto, mas ainda assim não fora o suficiente, porque na primeira vez eu nem aproveitei. Na primeira vez, eu não sabia o que aquele cara era capaz de fazer com meu coração de virgem apaixonado.

— Cala a boca — reclamou Laurel, simpática do jeito que sempre foi, quando eu verbalizei sobre o fim do semestre. Inclinou-se na mesa em direção à minha. — É sério, Will, você está sendo muito Drama Queen até para sua escala.

Quase soltei um arquejo, tamanho o insulto.

— Minha escala? — perguntei, ultrajado.

Eu não tinha uma escala de drama!

— Você não tem do que reclamar, de verdade — acrescentou Gabe, embora mais atencioso, ao ignorar meu questionamento. Olhei para ele. — Se isto ocorresse da forma como deveria, você só o veria por dois semestres e depois nunca mais. Agora? — perguntou, mas pelo sorriso de canto, era retórica. — Agora não é o fim de uma disciplina que vai separar vocês.

Cenoura riu. — É, cara, ele é todinho seu — falou ainda, de um jeito engraçado. Então, alargou os olhos para dar mais ênfase: — Pra sempre!

Encarei o rosto sardento do Cenoura até começar a rir.

— Vocês são ridículos! — acusei, dando um empurrãozinho no Cenoura.

— Você é ridículo! — corrigiu Laurel, inclinando-se para dar um tabefe nos meus cabelos.

O devaneio sobre o fim desta era de aluno e professor entre eu e Turner veio assim que entramos na sala para a aula dele. Todos havíamos reprovado um ano atrás — e teríamos reprovado várias outras vezes se o Turner não tivesse mudado suas aulas, diga-se de passagem -, então seguimos juntos, atrasados, até a parte II da matéria.

Como o turno do quinto semestre era à tarde, e todas as aulas do Turner eram durante a manhã, tínhamos que levantar cedo terça e quinta apenas por causa delas.

A aula que estava tendo na nossa sala acabou cedo, então estávamos todos sentados lá dentro — os que chegaram adiantados — para esperar o horário do Turner.

— Ei, Will, você pode convidá-lo para a Ballare também, no fim do semestre — sugeriu Gabe, fazendo com que todos o encarassem.

Arqueei uma das sobrancelhas. — O Turner? Em uma balada?

Cenoura gargalhou. — Ué, tem uns professores mais festeiros que até confirmaram presença!

— É, só que esses professores festeiros não incluem o Turner — falei, achando graça na imagem dele em uma festa.

Ele provavelmente iria agir feito uma mãe, ajudando os rapazes a encontrarem o banheiro, tirando garrafas das mãos da galera já tonta, se intrometendo no meio dos universitários para separar brigas...

Gargalhei com a imagem que se formou na minha mente.

— Ah, tá certo — ri ainda mais. — Acho melhor irmos só nós desta vez. Ele não vai querer ir mesmo.

— Isto mesmo — concordou Laurel, orgulhosa. — Adoro quando meus amigos usam os neurônios para perceber que se pode ir em festa sem o grude, sim! — E nisto, lançou um olhar acusador para o Cenoura.

Até quis me esconder para não dar briga.

— Ah, nem vem! — já começou a reclamar ele, erguendo a voz em três volumes diferentes, desafinando-a. Relanceei Gabe e começamos a rir em sincronia, mas em silêncio. — Eu sempre levo a Jess porque, por um acaso, ela sempre pode ir também!

Laurel quase pôs as mãos na cintura. Aposto que as mãos coçaram na vontade de fazer a postura de sabe-tudo.

— Ah, é mesmo? — ironizou. — E aquela vez no mês passado, em que ela não pôde ir e você também não quis?

— Foi diferente! — alterou-se ele, ficando da cor dos cabelos. — Ela estava doente e eu não quis deixá-la sozinha!

— Claro, ela ia morrer sem você do lado para segurar a mão dela! — Abriu os braços, gesticulando feito louca.

Eu já ria tanto que cheguei a limpar a lágrima do olho, enquanto Gabe escondia o rosto no braço de Laurel, já que estavam sentados juntos.

— E vocês? — acusou Cenoura, fazendo um gesto empolgado entre Laurel e Gabe. — Quando foi a última vez que foram em festa sem estarem juntos?

Gabe ergueu o rosto, com cara de “não me metam nisto”. Laurel revirou os olhos.

— Quando estávamos brigados só. Porque antes disto sempre fomos juntos. Eu, o Gabe, você e o Will! — disse, revoltosa. — E agora, se a Jess estiver doente, iremos só eu, o Gabe e o Will.

— Foi só uma vez! — defendeu-se de novo, já se sentindo culpado.

— Ok, em defesa do meu amigo cenourinha — falei, usando o apelido que gerou o “Cenoura” em si —, se Turner estivesse doente, eu também não conseguiria aproveitar pensando que ele precisaria de uns beijos meus para sarar.

Gabriel começou a rir tanto que chegou a encurvar o corpo, ao passo que Cenoura assentia, agradecido pela minha intervenção.

— Sim, uns beijos — ironizou Laurel, maliciosa.

Fiz uma careta, quase ao mesmo tempo que Gabe e Cenoura o faziam.

Sexo era uma das coisas que não se fala dentro de um círculo de rapazes. Pelo menos, do nosso círculo. A não ser que fosse piada ou que fosse de sexo em si e não sexo específico de algum casal do grupo. Ao mesmo tempo, era o tipo de coisa que Laurel não via problema algum em falar à vontade, sem vergonha alguma.

Ainda bem que não tivemos tempo de processar uma saída pela tangente, porque ela subitamente mudou de assunto. Não inteiramente, mas sobre algo que a gente podia falar: sexo e piada.

— Falando nisto — acrescentou, relanceando Gabe. — Vocês não vão acreditar no que aconteceu nesse fim de semana!

Gabriel arregalou os olhos. — Laurel...

Foi o que bastou para que eu e Cenoura nos interessássemos.

A ruiva fez um sinal de “cala a boca e deixa eu terminar” e continuou falando, nos deixando curiosos: — Estávamos eu e o Gabe aqui — disse, colocando uma das mãos no ombro do namorado —, bem lindos lá em casa, no bem bom — disse, e ele quase se engasgou. Cenoura e eu nos entreolhamos, internamente nos questionando se queríamos mesmo ouvir. — De repente, minha mãe abre a porta de supetão no meio do ato — disse, e ela mesma começou a rir, relanceando um Gabriel que estava até com as orelhas vermelhas.

Oh, lord!

Cenoura e eu começamos a rir, chocados.

— Gabe se atrapalhou todo e praticamente pulou para trás do sofá, como veio ao mundo — continuou ela, ficando da cor dos cabelos avermelhados também, tentando controlar o riso e continuar o relato.

Gabriel estava escondido detrás das mãos, balançando a cabeça.

— Como assim “do sofá”? — perguntou Cenoura, quando tomou fôlego para perguntar.

Apenas quando ele perguntou que eu prestei atenção no detalhe, acalmando um pouco a risada.

— Vocês estavam transando na sala? — perguntei, incrédulo, e bastou um olhar envergonhado entre os dois para que a risada recomeçasse em maior escala.

Não que eu nunca tivesse feito isto, mas não na casa da minha mãe. Nunca na casa da minha mãe.

— E isto não é tudo — disse, fazendo Cenoura quase passar mal.

Gabe fez uma cara desolada ao finalizar por Laurel: — A sogra não estava sozinha.

Pronto. Nossas gargalhadas começaram a incomodar as demais pessoas na sala. Não que a gente se importasse...

— Ela estava com duas clientes, senhoras de idade, que tinham ido até lá para arrumar os cabelos — acrescentou Laurel, se curvando no próprio corpo. A mãe dela tinha um salão próprio acoplado à casa. — Vocês precisavam ver a cara delas!

Eu já tinha desistido de limpar as lágrimas, tentando parar de rir desta vez apenas porque a barriga doía.

Permanecemos desta forma por um tempo, até o assunto morrer e o próximo recomeçar, gerando risadas novamente.

Haviam vezes em que a gente cansava uns dos outros, ou se estressava — geralmente com a Laurel, diga-se de passagem -, mas nestes casos, ia cada um para um lado espairecer. Quando estávamos todos juntos, geralmente sempre envolvia piadinhas ou reclamações da vida, ou ambas juntas.

Johnny havia oficialmente saído do nosso círculo de amizade. Não era tão incomum isto acontecer, já tivemos outros colegas que passavam um tempo com a gente e logo se dispersavam. Mas no caso do Jonathan, creio eu que tenha sido por minha causa, porque o afastamento foi por parte deles também.

Não que fôssemos ignorá-lo quando esbarrasse com ele por aí, mas amigo ele não é e nunca foi.

Eu tive sorte neste quesito. Aliás, eu vivo de drama mas a verdade é que é difícil apontar o dedo para algo azarado em minha vida.

Eu passei por uns maus bocados, mas todo mundo passa. Talvez não pelos mesmos pepinos e as mesmas situações, mas a vida gira em torno disto, cair e levantar repetidamente.

Turner que o diga.

Depois de tanta gargalhada, foi impossível me sentir melancólico quando ele entrou na sala. A roupa social embrumadinha, um colete de cor mais escura, sapatos sociais e gravata colada no pescoço. Um sorriso contido no rosto ao saudar os alunos.

Eles tinham razão. Eu o veria sempre e estaria sempre com ele.

Aliás, o que seria mesmo horrível seria poder vê-lo em todos os semestres da minha vida, durante as aulas, e não poder estar com ele.

Turner também tinha razão com uma coisa, no entanto, e eu me recordei disto enquanto o observava dar aula.

O medo dele de que misturássemos a relação profissional com a pessoal não era infundado. Eu realmente não podia prestar atenção em nada de sua aula, e corria em casa para estudar tudo o que ele passou, porque só fico divagando durante ela feito um retardado.

Ora sobre nossa relação, ora sobre “como pode esta criatura maldita ser tão perfeita?”, ora sobre aquela manchinha no terno ter sido eu que fiz quando derramei café nele sem querer, ora sobre como era possível desnudá-lo mentalmente, e assim vai.

É claro que eu não contaria isto a ele. E também era saudável omitir que isto não fazia a menor das diferenças, porque eu nunca havia prestado atenção completa na aula dele. Nem quando estava me interessando por ele, nem quando havia me apaixonado, nem quando começamos a sair, nem quando eu o odiava, nem naquela primeira semana em que ele passou despercebido, porque eu achei a primeira aula dele um saco.

Ri baixinho, cruzando o olhar com os olhos cinzas.

Pisquei um dos olhos, jogando um beijo silencioso, mas ele frisou os lábios para não sorrir e desviou o olhar, seguindo o raciocínio.

Quem me dera ser focado desta forma!

*

O baque das minhas costas na parede foi o primeiro que senti quando adentramos no quarto, embolados em uma missão nível hardde tirarmos a roupa sem desgrudar a boca uma da outra.

Chutei minha mochila para longe, já que estava caída ao lado dos meus pés, atrapalhando nosso jogo molhado. Assim que o fiz, Turner conseguiu ajeitar-se ao grudar o corpo ainda mais em mim, com uma perna entre as minhas.

Inspirei fundo, fechando os braços em torno de seu corpo.

O deslizar de sua língua na minha era como um manjar de todos os deuses. Girei os olhos nas órbitas quando ele desceu a boca para meu pescoço, roçando a barba naquela área sensível próxima à minha orelha. E logo a mordeu, fazendo um gemido rouco nada inocente escapar da minha garganta.

Senti-o sorrir, maldoso, contra a minha pele, antes de subir os beijos até meu rosto, e então meu queixo, e então minha boca. Abri os olhos ao ver que o tempo de dois segundos sem beijos molhados já me incomodara.

— O que foi? — perguntei, vendo-o hesitar.

— O futebol do seu irmão não é aqui perto? — perguntou, relanceando a porta entreaberta do meu quarto.

Era uma tarde de sábado, e Turner ficara de jantar ali novamente. Como eu havia dormido no apartamento dele, novamente, nós dois chegamos juntos em casa. Mamãe estava no trampo, Caleb estava jogando futebol no bairro e Theodore só chegaria mais tarde para a janta.

Que horas Caleb volveria à casa, no entanto, era um mistério. Meu irmão é sempre bem aleatório, às vezes fica a tarde toda fora, às vezes fica quinze minutos e volta, às vezes nem sai. O senso de compromisso de Caleb sempre mandava um olá para ele.

Sorri, malicioso, ao passar a língua por sua boca em um movimento rápido. — Por quê, tem medo de sermos pegos? — sussurrei, deslizando as mãos por suas costas até encontrar as duas saliências que eu amava apertar.

Turner fechou os olhos, com um meio sorriso, quando o puxei ainda mais de encontro à mim.

— Will, acho que você tem uma tara por perigo — confessou ele, com a voz rouca, meio rindo meio incrédulo.

— E você não? — perguntei, com humor, levando a mão para a parte dianteira de sua calça jeans, de onde despontava o volume que eu sentia no meu. — Que careta, professor.

Espalmei as mãos em seu peito e o empurrei de leve, até que tivesse o corpo todo apartado do meu. Assim era bom, pensei, olhando-o dos pés à cabeça com malícia. Comi-o com os olhos, desde os sapatos caros — embora não sociais -, até a camiseta amassada de dia a dia, e os parei no rosto um tanto avermelhado pelo amasso que estávamos dando anteriormente.

Os olhos cinzas pareciam quase negros pela luz precária da lâmpada que já devia ser trocada do meu quarto. Ele também me analisava com as orbes acizentadas.

Com os olhos nos seus, tirei minha camiseta como um vulto, relanceando a porta ao meu lado com um sorriso, antes de abrir o botão e o fecho da minha calça jeans.

— Você está cada dia mais pecaminoso, anjo — acusou ele, soltando um riso pelo nariz, com os olhos ainda presos em mim.

Ri, encostando as costas nuas na parede gelada.

No instante seguinte, Turner fechou a distância entre nós, grudando os lábios nos meus com violência desmedida. Arrancou a camisa do próprio corpo de forma desajeitada, comendo-me os lábios com veemência. Mordeu-os assim que conseguiu se livrar dos sapatos, colando o peito nu e quente no meu.

Puxou minhas calças para baixo coincidentemente ao mesmo tempo em que eu desabotoava as suas. Sem que eu terminasse meu trabalho, Turner firmou uma das mãos quentes em minha perna para encaixá-la em sua cintura. Entendi o recado e arqueei o corpo para cima, logo tendo ambas envoltas em seus quadris, encaixando de tal forma magnífica que chocava nossas ereções sensualmente.

Ri quando, antes de jogar-me na cama, Turner ergueu a perna e chutou a porta para que fechasse completamente.

Covarde.

— Covarde — verbalizei, mostrando-lhe a língua.

— Sensato — corrigiu ele, se livrando da calça e da cueca ao mesmo tempo.

Esparramado na minha cama de solteiro, ainda de cueca, com as pernas abertas, desci os olhos para aquela obra divina. Lambi os lábios, erguendo o olhar para o rosto divertido de Turner, que arqueava uma das sobrancelhas pela minha ausência de ações.

— Você quer que eu seja sensato também? — perguntei, com a voz rouca, ao acertar em cheio no seu discurso politicamente correto.

Turner aumentou o sorriso, e fechou os olhos, rendido. Abriu-os e perdeu o sorriso aos poucos ao correr os olhos por mim. — Céus, não!

Sorri largamente, satisfeito, levantando-me até ficar de joelhos na cama e alcançar sua boca a meio caminho da minha. Desci os lábios por seu peitoral já recuperado das marcas de violência e já arruinado pelas minhas marcas de amor. Aproveitei para deixar mais rastros meus por ele, lambendo-o, mordendo-o, chupando-o entre meus lábios e minha língua.

Torturei-o um pouco antes de chegar ao volume entre suas pernas e, olhando-o de baixo, vi o peito inflar ao prender a respiração quando o envolvi com minha boca.

Turner suspirou uma, duas, três vezes até que relaxasse o suficiente para deixar escapar gemidos deliciosos de ouvir. Eu conseguira. Ele oficialmente se esquecera de que devia estar sendo “sensato” por nós dois.

Não demorou muito para que ele grudasse a boca na minha, brusco, e o que restasse de roupa já estivesse a mil anos luz de nós. Não demorou muito para que eu tivesse o corpo beijado com carinho e com desejo, ora de uma forma ou de outra. Não demorou para que encontrássemos uma, duas, cinco maneiras diferentes unirmo-nos completamente mais uma vez.

Haviam vezes, como esta, em que eu podia ver aquele vislumbre de aventura nos olhos dele, desta vez, com um sorriso depravado de canto. Eu gostava de imaginar esse vislumbre como faíscas de fogo, por motivos óbvios.

Eu amo o jeito reservado, sensato e regrado de Turner. Eu amo como ele consegue ser bruto durante o sexo, mas que isto nunca dura muito porque ele me olha com carinho ou deixa selinhos por meu pescoço ou minha nuca. Eu amo que ele seja tão pé no chão e amo tanto que podia morrer quando, de vez em quando, ele faz as mesmas caretas rabugentas que costumava fazer nas aulas.

Mas eu também comecei a amar o vislumbre do adolescente aventureiro que ele um dia foi, e que começou a reviver por vezes no homem adulto de agora.

Depois de tudo o que ele passou, acho que aprendeu a ser contido por segurança e não se deixar levar por relacionar diversão com desastre. Ele trocou uma vida completamente descontrolada por uma vida completamente regrada. E desde que começara a terapia, creio que andou aprendendo a correlacionar ambas as coisas. Então, aos poucos, eu começo a conhecer um pouco mais daquele cara jovem que tomou o apelido de Dragão pra si por conta de sua bravura.

E eu também tenho amado este cara.

— Will! Will! — chamou ele ao erguer o corpo para sentar-se, grudando o peito no meu. — Shh — chiou, tapando minha boca, que ainda deixava escapar gemidos, com a mão.

Pisquei, saindo do transe.

Do lado de fora do meu quarto, podia ouvir o barulho de chaves ao bater contra — provavelmente — a mesa da cozinha. Uma voz que logo se transformou em duas, três, quatro.

Caleb e os pestinhas.

Alarguei os olhos, desviando-os para o rosto alarmado de Turner.

Ora, eu estava concentrado rebolando com majestia em cima daquele corpo maravilhoso do Turner, não tinha capacidade de prestar atenção na porta da frente que abrira.

Desviei os olhos para os nossos corpos suados, sentindo Turner ainda rígido dentro de mim. Sorri malicioso, conhecendo aquela casa o suficiente para saber que as vozes vinham, agora, do quarto do Caleb e provavelmente permaneceriam por lá.

Tornei a mexer-me em cima dele, vendo Turner arregalar os olhos e cravar as mãos em meu traseiro para que eu parasse. Neguei, descendo um dedo pelo seu peito suado e vê-lo arrepiar ao passo que o fazia.

— Will, a porta tá destravada — lembrou ele, em um sussurro com tom de aviso.

Alarguei o sorriso, aumentando o ritmo e vendo a respiração dele também pesar. — Eu sei — sussurrei, colocando um dedo em seus lábios, e podia jurar que ouvi o coração dele bater nas costelas.

— Will... — tentou mais uma vez, com menos resistência.

— Covarde — sussurrei em seu ouvido, divertido, e deixei um beijo em seu nariz em seguida.

As mãos apertaram meu traseiro com mais força, enquanto ele deixava o rosto cair em meu pescoço. Não parei o movimento, sentindo a excitação aumentar ainda mais com a falta de relutância dele.

Turner estava ponderando.

Engoli um gemido quando ele prendeu os dentes em meu pescoço, feito um vampiro, e logo lambeu a área sensível. Deslizou o nariz até alcançar meu ouvido e sussurrou, com a voz rouca: — Não sou covarde.

Um arrepio subiu por minha coluna ao mesmo tempo em que a mão dele também o fazia. Apertando, arranhando, grudando ainda mais o corpo no meu. Desgrudou os lábios molhados da minha pele para beijar minha boca, de maneira tão lenta que me incomodaria se não estivesse com tanto tesão.

Meu olhar cruzou com o acinzentado dele apenas a tempo de eu ver que ali estava novamente. Ali estava. A faísca nos olhos, em junção do sorriso malicioso de canto e a intensidade dos movimentos que eu já nem conseguia acompanhar. Ali estava aquele Turner de novo, me fazendo apaixonar, de novo, por mais uma parte sua.

Acompanhei seu sorriso, espalmando uma mão em seu peito e empurrando-o para trás para que eu terminasse o trabalho. A malícia em seus olhos permaneceu, enquanto me observava descer e subir em seu colo em um ritmo já desconexo, a mão me masturbando em um ritmo semelhante.

Ora diminuíamos o ritmo, ora parávamos, quando as vozes diminuíam de volume ou quando aumentavam repentinamente, rindo e indagando sobre coisas bobas como jogos.

Eu achei que fosse demorar muito tempo para me acostumar a cavalgar no colo de um homem, mas a verdade é que minha mente pode ter mentido para mim a vida toda, mas o meu corpo não. Meu corpo nunca. Eles só precisavam entrar em sintonia. E com Turner, em sintonia com o coração também.

Laurel me perguntou se eu não estava chateado de começar a namorar justo depois de sair do armário, por não poder sair por aí experimentando outras bocas e outros corpos, outras histórias.

Mas eu olho para ele e tudo o que eu penso é que é inacreditável que eu tenha ficado tão sortudo assim. Eu conheço seu toque, seu olhar, seus beijos. Há vezes em que eu já sei o que ele vai dizer antes dele abrir a boca, e sei que vai me roubar um beijo antes que roube, e sei que vai me ligar antes que ligue.

Talvez eu sempre tenha sido um cara brega mesmo, que não sabe ser vadio e tudo que quer é estar na paz com benzinho. Nem gostar de zumbis comedores de gente no apocalipse fez isto mudar em mim. É o que Gabe diz, ao menos.

Turner, ao perceber que meu corpo começava a amolecer, ergueu-se até me envolver em um beijo erótico, aumentando a velocidade enquanto eu diminuía a minha, até parar. Enfiou a língua na minha boca quando um gemido saiu por ela ao desmanchar-me nele.

Só então, ele parou, ao passo que eu deixava minha testa escorregar até o ombro dele.

Quando eu fiz menção de que continuasse, ele me deitou e voltou a entrar em mim em movimentos mais frenéticos. Foi aí, pouco antes dele gozar dentro de mim, que a maldita da cama resolveu ranger.

Abri os olhos.

Turner nem teve condições de se apavorar, porque o peso morto de seu corpo afundou-se em cima do meu, cansado. Meus olhos dispararam para a porta fechada, percebendo que as vozes cessaram com o barulho.

— Turner? — sussurrei, cutucando-o sem sinal de vida. — Confesso que não pensei no que dizer a Caleb caso nos ouvisse.

— Não me diga — resmungou ele, com a voz rouca, contra meu ouvido.

Ri, empurrando-o. — Sai, levanta. — Turner sentou-se, observando o corpo — aquela obra de arte — sujo, enquanto eu levantava e juntava as nossas roupas.

As vozes recomeçaram, mas dessa vez tão baixo que a gente não podia ouvir do que se tratava.

Céus, daqui um pouco pensariam que somos ladrões e arrombariam a porta para nos encontrar deste jeito!

Meu irmãozinho não merecia ser traumatizado desta forma.

— Quem é o sensato agora? — perguntou ele, com humor, ao ver que eu me vestira na velocidade da luz.

Mostrei-lhe a língua.

Assim que ele vestiu as roupas também, de qualquer jeito, eu abri a porta devagar. Não adiantou, porque a filha da puta rangeu alto e as vozes cessaram uma segunda vez. Da porta do meu quarto, não dava pra ter uma visão do quarto do Caleb, então ele também não podia ter uma visão nossa.

— Will? — A voz de Caleb invadiu meus ouvidos, provindos da sala. — Você tá em casa? — Seus passos vinham na nossa direção.

— Vai, vai, vai! — ordenei, em um sussurro, ao empurrar Turner pro banheiro.

Turner tropeçou e bateu a cabeça no batente da porta, e eu quase me engasguei para não rir. Ignorei o gemido dele e o empurrei pra dentro do banheiro, fechando a porta em um baque logo após.

Virei a tempo de ver Caleb se materializar na minha frente, no corredor. Pigarreei, relanceando a porta do banheiro.

— Estou — respondi debilmente, encarando o rosto analítico que me encarava. Remexi-me, coçando os cabelos emaranhados e úmidos. — É que eu cheguei cansado e... Dormi. — Caleb franziu o cenho, desviando o olhar desde meus pés descalços até meu rosto provavelmente corado. — Tive um pesadelo, acordei suado e... — Ergui os ombros, vendo que ele relanceava a porta cerrada do banheiro. — Turner logo vai chegar, é melhor eu tomar um banho de uma vez!

Caleb demorou, provavelmente duvidando – eu o criei pra ser esperto mesmo! –, mas assentiu.

— Ok — murmurou, antes de fazer um gesto vago para a sala. — Os garotos estão aqui.

— É, eu ouvi. — Assenti, engolindo em seco. — Acho que eles podem ficar para a janta, se quiserem.

— Ok — repetiu ele, dando de ombros.

Entrei no banheiro assim que ele se sumiu casa adentro, dando de cara com um Turner nu novamente. Ele sorriu, estalando a língua ao balançar a cabeça em um gesto reprovador.

Respirei fundo, a adrenalina recém começando a ceder.

Turner se aproximou, puxando minha camisa para cima para passá-la pela minha cabeça e jogar no cesto. Fez o mesmo com a calça e a cueca, deixando um beijo casto na minha barriga magricela.

— Você vai me fazer sair pela janela e entrar pela porta, como se fôssemos um segredinho sujo? — murmurou ele, em meu ouvido, ao passo que me puxava para dentro do box.

Sorri, vendo que ele fazia o mesmo, e puxei-o para um beijo.

— Vou — confirmei, empurrando-o para debaixo da água corrente. Ele afastou o rosto para poder me encarar. — E depois eu vou deslizar minha mão — falei, fazendo-o pela coxa dele — pela sua coxa no meio do jantar e terminar... — Alcancei a região entre suas pernas, vendo-o sorrir. — Aqui. E você não vai poder fazer nada a não ser deixar — sussurrei, lambendo seus lábios em um movimento rápido antes de deixar um selinho ali mesmo — que eu faça o que eu quiser.

— Eu quero ver se você tem a audácia — riu ele, fazendo-me estreitar os olhos.

— Ora, é claro que eu...

Turner tapou minha boca, grudando-me no piso gelado. Inclinou o rosto, observando-me como um predador, com atenção e um tanto de diversão. — Shh — disse, libertando minha boca com um sorriso maldoso. — Não vamos arriscar que nos ouçam, não é?

E então, beijou-me outra vez.

*

Durante a janta, não me atrevi a fazer nada do que havia dito, é claro. Turner até riu com gosto disto, e eu me limitei a revirar os olhos.

No entanto, eu sabia que ele estava tenso também pelo mesmo motivo que eu: o olhar curioso que desviava de mim para ele e dele para mim seguidamente.

Aprendi a me acostumar com o amiguinho do Caleb lá em casa, mas ainda assim, o primo de Ian não me descia. E o fato de ficar me encarando e encarando Turner ao meu lado como se fôssemos um par de elefantes vestidos de hienas não o ajudava neste quesito.

Alex era o nome do dito cujo. Ironicamente, era o nome que eu sempre desejara assumir, junto de uma personalidade sagaz e perigosa, para que eu pudesse enfiar o William pela bunda do Hugh e ficar apenas com o Alexander presentado pela minha mãe.

E ao passo que ele tinha a atenção toda em nós, mesmo que não parecesse estar prestando atenção em nada das conversas rolando na mesa de jantar, Caleb tinha toda a atenção em Alex.

Torci o nariz.

— Alex — chamei sua atenção antes que me desse conta. Todos os olhares dos garotos pararam em mim, assim como o de Turner. — Algum problema?

O garoto piscou, arqueando as sobrancelhas, antes de relancear os outros e negar com a cabeça. Não parecia alarmado, mas eu tinha a impressão de que controlara muito bem o alarme.

— Não, não. Por quê?

E ainda me pergunta, o cínico!

— Parece incomodado. — Arqueei uma das sobrancelhas. — Não estaríamos nós a deixá-lo desconfortável, não é?

Relanceei mamãe, para que me apoiasse. Ela sempre era preocupada demais com esta questão de “sinta-se em casa”. Turner me olhou de canto de olho, mas não perguntou nada.

— Querido, você sabe que pode se sentir à vontade aqui, não é? — perguntou ela, preocupada. Bingo!

Alex recém pareceu perceber a atenção de todos, inclusive de Theodore, voltada à ele. — Claro, Sra. Jones, eu...

— Inclusive pode voltar sempre que quiser — interrompi, inocente, tomando um gole mais largo do suco de uva.

— Com certeza, Alex! — Minha mãe seguiu na onda, enquanto eu me divertia com o garoto que começara a alargar os olhos. — Todos os amigos de Caleb são sempre bem-vindos, até para os jantares de fim de semana, se quiserem!

Alex pareceu se dar conta do que eu fizera, devido ao meu jeito calmo demais de quem só vê o circo pegar fogo, porque fixou os olhos escuros em mim e logo relaxou os ombros. Sorriu para minha mãe, controlado, antes de responder:

— Obrigado — agradeceu, perfeitamente polido. — Esta janta foi maravillhosa, a senhora faz magia, assim como o Caleb — disse, piscando um dos olhos para o meu irmão, que até então me encarava com incredulidade. Logo, Alex focou os olhos em mim ao finalizar: — Voltarei sempre.

Evitei revirar os olhos, voltando a atenção para a minha comida.

Ele não tinha por que alfinetar de volta, afinal, o errado era ele. Nunca se deve encarar um casal LGBTQ+ por muito tempo, com cara de tacho, nem que você os conheça, quem dirá se tratar-se de desconhecidos. É uma questão de respeito.

Eu fui até muito educado, como minha mãe me ensinou.

Deparei-me com as orbes verdes de Caleb em mim novamente, como se questionasse “o que diabos você está fazendo, maluco?”, mas dei de ombros.

Eu sabia que ele não me perguntaria nada depois, porque Caleb é assim mesmo.

O jantar seguiu sem mais inconvenientes, exceto por Theodore, que sempre metia os pés pelas mãos na tentativa de aproximação comigo. No início, eu me irritava, mas agora que eu percebia não ser proposital, eu sentia pena, então eu fazia o máximo que podia por ele: não me irritar.

E era muito.

Mas pelo menos eu já estava me acostumando com ele em casa. E, francamente, dava gosto me acostumar com algo tão bonito quanto o brilho nos olhos da minha mãe.

Eu não podia dizer o mesmo sobre o Caleb.

Na verdade, eu nunca podia dizer nada sobre o Caleb porque aquela cara de pokerface que ele tem se tornou normal. Eu nunca podia saber o que se passava ali dentro, e acho burrice confiar apenas no que ele diz e não se interessar pelo que pensa e sente.

E isto passava a se tornar mais preocupante para mim depois de Alex aparecer. Não que eu achasse que o garoto fosse um mau exemplo ou algo do tipo — embora não doesse ponderar a respeito -, mas eu entendia além do que gostaria sobre a maneira como ele olha para o meu irmão. Combinado com a sagacidade óbvia do garoto e o fato de ser mais velho, pensava ser, no mínimo, competente da minha parte me preocupar.

Suspirei, perdendo a fome.

Antes que o jantar acabasse, minha mãe perguntou se eu iria para o apartamento do Turner ou se ficaria ali, e como eu sempre fazia depois de passar muito tempo com o Turner, disse que ficaria ali. Vi que ele sorriu ao meu lado, aquietado.

Quando o assunto se desviou, se inclinou na minha direção e perguntou em meu ouvido, com certo divertimento:

— Desta vez, eu saio pela porta da frente e entro pela janela?

Notas finais
Oi. Hihi. ~aparece inocente depois de vários devaneios sobre sexo e sobre como cavalgar no colo de alguém é cotidiano~ HAHAHAHAHHA. Queria dizer que eu voltei e voltei com tudo ahahahha, porque atualizei Made of Stone também, um capítulo que se passa em sincronia com este. Vai demonstrar, sob o POV de Caleb - como sempre -, o motivo pelo qual Alex ficou encarando nosso OTP aqui. HAHAHAHAHAH. Quero dizer que desta vez VAI! Sei que disse isso antes, mas agora eu tô bem bela, em termos de papelada tô formada, também desempregada, vivendo com os pais aos 22 anos (fiz 22 dia 9 agora e só quis chorar porque eu jurava que eu tinha 18 ainda), e sem perpectiva de futuro. ACREDITEM, o que eu mais tenho é tempo pra escrever. Hahahaaha. Temos poucos capítulos aqui em frente, e eu vou tentar postá-los todos até início de janeiro, no máximo. E daí, adiós. T.T #elenao Amem, odeiem, mas me digam o que acharam!