Made of Fire

7 VI - Não desgosto de você


Notas iniciais
Desculpa pela demora, mas aqui está mais um! PS.: FELIZ DIA DOS PAIS! Rich's POV Boa leitura! *-*

Richard Allen Turner — disse a voz, claramente autoritária —, se você não aparecer aqui nesse fim de semana, eu vou fazer questão de te trazer pelas orelhas! — A voz afinou um pouco no final da frase mandona.

Ri alto, manobrando o carro para estacioná-lo ao lado de fora do prédio.

— Sim, senhora — respondi para o viva voz do celular. — Estarei aí neste fim de semana, sem falta. Gosto muito das minhas orelhas do jeito que são — completei, sorrindo.

Que bom, porque são orelhas lindas — disse ela, orgulhosa.

Revirei os olhos.

— Vou ter que desligar, já cheguei na universidade — avisei, tirando a chave da ignição.

Claro, queri... Isso são horas de chegar? — gritou ela, alto o suficiente para que eu me sobressaltasse e derrubasse a chave no carpete do carro.

Do outro lado da linha, o barulho de porta fechando sobressaiu-se, seguido do som de chaves ao chocarem-se contra alguma coisa sólida. A mesa, supus.

Ai mãe, não sou mais criança pra você estar controlando a hora que chego! — A voz distante de Becca fez-se ouvir, mas não pude discernir seu humor.

Enquanto viver sob o meu teto, vai viver sob as minhas regras, senhorita! — elucidou, irritadiça. — Onde foi que você dormiu, que não foi em casa? Volta aqui, Rebecca! — gritou mais alto, antes de suspirar pesadamente. — Querido, vou desligar. Sua irmã vem agindo como uma pré-adolescente nos últimos dias e eu quero descobrir o porquê!

Quase podia vê-la com as mãos na cintura agora volumosa, as sobrancelhas claras franzidas e a boca em uma linha fina. Provavelmente estaria usando um de seus vestidos da moda e sapatos barulhentos. O olhar determinado nos olhos azuis-claros podiam deixar qualquer um intimidado.

Ri alto, ignorando a pontada de saudade no peito.

— Claro, vai lá e depois me conta se conseguiu descobrir — respondi, rindo baixinho ao juntar a chave do carpete. Do outro lado da linha, foi quase como se eu pudesse vê-la tentar inutilmente reprimir o sorriso.

— Ah, mas credo se não vou descobrir. Ela vai ver só — respondeu, ainda fingindo a irritabilidade. — Eu te amo — concluiu ela, com a voz mais carinhosa. Suspirei.

— Também te amo, mãe — respondi. — Tentarei sair o mais cedo possível no sábado, tá bom?

Tá bom, querido — disse ela, mais animada. — Conversamos melhor à noite.

Desliguei o telefone e olhei ao redor. Alguns alunos conversavam em frente ao prédio dos cursos, alguns se encaminhavam à este. Ao meu lado, pude ver uma das professoras estacionar o carro e sair atrapalhada, cheia de pastas e folhas nas mãos. Era a Srta. Clark. Estava atrasada, como sempre.

Abri a porta, peguei minha pasta e saí, trancando as portas. Chequei meu relógio, estava quase no meu horário.

Ao entrar no prédio e subir as escadas, pude ver a cena habitual. Meus alunos conversavam abertamente em um segundo e no próximo baixavam a voz, ajeitavam suas posturas e caminhavam em direção à sala, como se fosse exatamente isso que estavam fazendo antes de eu aparecer. Algumas coisas nunca mudavam.

Virei à direita e caminhei até minha sala para pegar o pendrive das aulas que havia esquecido lá na semana passada.

Ao percorrer o corredor, pude ver que já haviam alunos por ali esperando que eu abrisse a porta da sala de aula, conversando. Dentre eles, a turma de Will. Até Jonathan estava junto, apesar de não estar em minha matéria, por ter sido aprovado. Eles riam e olhavam diretamente em direção à Will, que um pouco mais adiante, conversava com uma garota. Melhor dizendo, ela conversava com ele e este a encarava atônito.

Usava uma camiseta vermelha por baixo de uma jaqueta jeans e tinha os cabelos agora curtos levantados no lado direito, como se tivesse acabado de acordar. A garota tinha os cabelos claros e segurava no ombro uma bolsa com Jornalismo escrito em cor de rosa. Descia um dos dedos magros pelo peito de Will, enquanto este mudava seu olhar estupefato por um bastante irritado.

Abriu a boca para dizer alguma coisa, mas antes que o fizesse, entretanto, ergueu os olhos em minha direção. O rosto franzido relaxou em questão de segundos enquanto ele acompanhava, com os olhos verdes, eu passar por eles. Desviei o rosto rapidamente quando o vi enrubescer e percorri o resto do caminho até minha sala sem virar para trás.

Antes de entrar, ouvi a voz feminina dizer: — Eu sei que ainda está bravo comigo Will, mas eu só quero conversar — disse ela, a voz suave — Por que a gente não vai...

Fechei a porta e peguei meu pendrive na gaveta da minha mesa.

Fiquei parado por um instante, tentando processar por que subitamente eu não queria deixar o cômodo. Desisti antes de cavar mais fundo na minha mente e de fato, descobrir o motivo. Respirei fundo por um instante antes de sair novamente e dirigir-me até a sala de aula, sem olhar uma única vez em direção a Will.

Ironicamente, Will também evitou meu olhar mais do que o necessário durante a aula. Quando o fazia por mais de cinco segundos, seu rosto ficava mais vermelho que a blusa que usava e ele se encolhia de leve, olhando para as paredes, para a mesa ou para o teto.

Estava envergonhado por causa de sexta-feira, pensei.

Tentei o máximo que pude dar a aula normalmente, de forma que fluísse o conteúdo. Mas o tempo parecia passar tão devagar e na minha cabeça passavam tantos pensamentos diferentes que, mais de uma vez, percebi que eu estava perdido no que falava. Verificava então os rostos dos alunos, e como pareciam estar anotando e prestavam atenção de forma habitual, relaxei um pouco. Devia ainda estar explicando a matéria de forma correta.

Repreendi-me mentalmente por estar tão distraído, mas não podia evitá-lo. Eu não podia deixar de me sentir bastante irritado. Nunca havia passado por uma situação assim. Jamais. Não conseguia entender nem meu aluno nem a mim mesmo, e eu definitivamente não gosto da sensação de não ter controle sobre minha própria vida.

Relanceei William novamente, que brincava com um lápis. Quanto mais Will evitava meu olhar, mais a vontade de observá-lo aumentava.

Não sei exatamente o que aconteceu com ele na semana passada, mas pela forma como parecia tão confuso quanto eu, imagino que nem ele soubesse.

Havia aparecido em minha sala — o que agora já era costumeiro -, mas não ficou por muito tempo. Seu rosto relaxado havia sucumbido, substituído por olhos alargados e uma expressão de pânico que não compreendi. A princípio, me preocupei com sua reação súbita. Por um momento cheguei a pensar que ele havia deixado alguma coisa no fogão antes de sair de casa e só naquele momento percebia. Entretanto, não era o caso.

Não pude evitar rir, no entanto, não só da situação, como do próprio Will. Era certo que me escapava a compreensão o motivo de tamanho pavor em seu rosto. Rosto este que parecia pegar fogo e os olhos, geralmente engenhosos, pareciam saltar das órbitas. Seu rosto, sua postura, sua reação. Não fazia ideia do que havia passado por sua cabeça para assombrá-lo tanto, mas a cena toda era cômica.

O fato de eu estar a menos de um passo de distância do meu aluno e de sentir o calor que emanava de seu corpo, no entanto, não eram tão chistosos.

Afastei as lembranças, mudando de slides para explicar de que forma o conteúdo dado em aula influenciava no trabalho em uma empresa. Era incrível como eu ainda conseguia continuar dando aula, como se nada houvesse de errado. Perguntei-me se os alunos estariam, ao menos, prestando atenção. Eu, particularmente, não estava. Alguns pareciam estar dormindo de olhos abertos.

Meus olhos voltaram à Will, que desta vez me encarava de volta. Os cabelos castanho-claro ainda estavam amassados, deixando-me perplexo. Era incrível que, apesar de havê-los cortado, não podia evitar o confusão dos fios claros. Reprimi a vontade de sorrir. As sardas antes despercebidas, agora pareciam chamar mais atenção. E os olhos, por sua vez, tão verdes e tão claros, pareciam mais densos e profundos do que jamais foram.

É, eu preferia quando ele não sustentava meu olhar.

William é como um enigma.

Balancei a cabeça, subitamente trezentas vezes mais desconfortável do que antes. Eu precisava sair dali. — Bom — falei, a voz meramente falha —, é isto.

Will, onde meus olhos estavam estancados, piscou algumas vezes e franziu o cenho. Olhou ao redor em seguida, claramente confuso. Só percebi que não havia tirado os olhos dele quando ouvi os murmúrios ao redor da sala.

— Acabou a aula, professor? — A voz de Naomi invadiu meus ouvidos.

Pisquei algumas vezes ao olhar para os olhos castanhos de minha aluna. Só então percebi as sobrancelhas arqueadas de alguns alunos e os rostos confusos de outros. Olhei meu relógio.

— Sim, por hoje é só — falei, tentando parecer controlado. — Vocês têm meia hora de descanso. Merecem — completei, com o que espero que tenha sido um sorriso.

Enquanto a sala esvaziava, eu pegava minha pasta e guardava minhas coisas. Alguns alunos passaram sorrindo para mim, parecendo realmente agradecidos. Eu nunca os liberava mais cedo.

Seria eu um péssimo professor mesmo?

— Oi. — A voz familiar se fez presente ao meu lado. Will segurava a mochila no ombro, como de costume.

— Oi — respondi, tentando pensar em mais alguma coisa para dizer.

Percebi que, mais uma vez, eu não sabia como respondê-lo. Will sempre fazia isso: falava ou fazia alguma coisa à qual eu não sabia como reagir. E nem tinha como saber! Me dava oi quando devia estar dando tchau, já que a aula acabava de acabar.

Eu deveria responder o que além de "oi" também?

Will conseguia transformar a mais simples das comunicações em algo excêntrico. E nem ao menos percebia.

— Eu posso ir na sua sala durante o plantão? — perguntou, o rosto adquirindo a cor avermelhada novamente.

Arqueei as sobrancelhas.

— Por que não poderia? — perguntei, sentindo-me incrivelmente incômodo pelo fato de ele estar perguntando.

— Porque da última vez... — começou ele, com a voz falha, mas não continuou, mordendo os lábios.

À essa altura eu já não fingia mais arrumar minha pasta já arrumada. Observei o rosto ruborizado do meu aluno enquanto ele parecia escolher as palavras certas para dizer.

Seu embaraço estava me deixando embaraçado.

— Will... — comecei, com cuidado, mas fui interrompido.

— Eu juro que tenho dúvidas mesmo — ressaltou, sorrindo sem graça.

— Nunca duvidei que tivesse — respondi, incômodo com a conversa.

Nunca duvidei de nada que me dissesse, completei mentalmente.

Engoli em seco depois de um tempo e continuei quando percebi que ele não falaria nada: — É claro que pode — respondi finalmente, tentando acabar com o clima estranho.

O sorriso de Will começou em sua boca e terminou em seus olhos. Sorri para ele também, vendo-o assentir e virar as costas, saindo da sala.

*

Não sei como, mas acabei almoçando junto de quatro outros professores em um restaurante perto da universidade. Sr. Edwards e Sra. Peterson que tiveram a ideia. Eu particularmente não fiquei muito feliz, já que socializar com o pessoal do curso não é o meu forte nem de longe.

— Agradeço muito, Sr. Edwards — falei, sorrindo —, mas acho que irei comer apenas um lanche por aqui mesmo. Tenho um monte de matéria para...

— Ora, Richard, a matéria ainda vai estar aqui quando voltar — disse ele, a voz denunciando sua idade. — Vamos, rapaz. Precisa de um almoço completo para sobreviver o dia! E pare de me chamar de senhor. Sou Leonard! — completou, enquanto que a Sra. Anderson, professora de Teoria Geral da Administração, apenas sorria.

Era uma mulher incomum, com os cabelos castanhos levemente grisalhos e roupas maiores que seu tamanho. Não falava muito, mas os olhos azuis pareciam comunicar-se por si próprios.

No fim, fomos os três no meu carro e ao chegar ainda nos encontramos com outros dois professores. Conversaram abertamente sobre a universidade, os alunos e a vida pessoal. Edwards garantiu que não iria largar o emprego, apesar de sua família insistir que já era hora de aposentar-se. Os outros concordaram, dizendo que devia mesmo fazer o que gosta durante o tempo que achasse necessário.

Ele me cutucou com o braço e sorriu, afirmando que conhecendo-me da forma como me conhecia, eu provavelmente daria aula a vida inteira também. Sorri de volta, concordando, mas a verdade é que eu não havia pensado sobre isso ainda. Não pensava em largar meu emprego tão cedo, mas a ideia de seguir trabalhando até a idade de Edwards era, no mínimo, peculiar para mim.

Sr. Edwards era um senhor um pouco acima do peso, tinha os cabelos quase totalmente grisalhos e uma postura elegante, como se vivesse no século XIX. Era uma pessoa de bom coração, apesar dos modos brutos às vezes de interagir. Como dividíamos a sala, pude conhecê-lo melhor aos poucos. Gostava de conversar, mas muitas vezes ficava quieto trabalhando em suas coisas ou apenas perdido em pensamentos. Era um bom companheiro. Durante todo o tempo no restaurante, interagiu bastante com todos os professores, sempre colocando-me a par das conversas.

Após o almoço, trouxe-os de volta para a universidade e me dirigi à minha sala. Fiquei sozinho, já que o Sr. Edwards dava aula praticamente a tarde inteira.

Eu devia preparar minhas aulas, preparar o trabalho que ia passar para a turma do quarto semestre e arrumar alguns erros que encontrei nos slides. Não o fiz, no entanto.

Fiquei parado, sentado em minha cadeira ao encarar a porta.

O que diabos eu estava fazendo?

Sobressaltei-me quando a porta de madeira se abriu, mas a pessoa que passou por ela não era a que eu esperava. Censurei-me e com um suspiro, dirigi-me à aluna que havia entrado no cômodo para tirar suas dúvidas, mas meus pensamentos estavam longe.

A verdade é que no fundo, eu sabia o que estava acontecendo. Mas não entendia, e sequer admitia para mim mesmo.

Podia ser que não fosse nada fora do normal, só que, ao mesmo tempo, era completamente atípico. Will vinha aqui tirar suas dúvidas como qualquer outro aluno, prestava atenção na aula como qualquer outro aluno, conversava como qualquer outro aluno. E eu, prontamente, respondia suas dúvidas, como qualquer professor faz.

Estava tudo em ordem, mas ao mesmo tempo não estava. Porque eu não passava dois dias da semana esperando qualquer aluno. Eu esperava William.

Ele apareceu enquanto eu ainda explicava a matéria para a aluna que havia chegado alguns minutos antes. Naomi era uma das alunas novas que apareciam no plantão de vez em quando. Era muito inteligente e determinada.

Will abriu a porta devagar e entrou em silêncio, parecendo não querer atrapalhar a explicação.

— Então, basicamente, eu vou ter que pegar os livros anteriores para poder entender melhor essa parte — concluiu Naomi, apontando na apostila a parte circulada e pintada com marca-texto.

— Basicamente — disse a ela, assentindo.

Eu estava escorado em minha mesa e mantinha as mãos nesta. Naomi virou a cabeça para trás, os cabelos castanhos encaracolados balançando levemente, e encarou Will com um sorriso.

— O professor Turner está bastante disputado ultimamente então — comentou ela, rindo de leve.

Will, já com o mesmo semblante despreocupado de sempre, sorriu largamente para ambos eu e Naomi. Franzi a testa, desconcertado. Era como se o garoto tivesse mais de uma personalidade.

— Parece que sim — respondeu, os olhos risonhos.

Ela riu e virou-se para mim novamente, agradecendo pela ajuda, antes de pegar seus materiais e deixar a sala. Virei as costas, dirigindo-me à minha cadeira e sentei na mesma, esperando pela próxima ação de Will.

O garoto, como habitual, jogou sua mochila em uma das cadeiras à minha frente e sentou-se na outra, com suas apostilas em mãos. Agiu, para meu alívio, como se nada houvesse ocorrido. Fez-me perguntas inteligentes, tanto sobre o conteúdo do momento quanto sobre o conteúdo mais avançado. Havia feito resumos e esquemas ligando uma coisa na outra, deixando-me perplexo com seu empenho.

Na parte matemática da matéria, Will já nem fazia mais perguntas. A parte de cálculos fluía para ele tão naturalmente como a parte teórica fluía para mim. Sorri.

Por um momento, me senti como um imbecil por achar estranho o afeto que sentia por meu aluno. Era normal que eu me conectasse com os alunos, ainda mais quando se tratava de alguém como Will. Era inteligente, perspicaz e estava determinado a comprovar sua capacidade, indo além do que lhe era esperado.

Will é tudo que eu espero de qualquer aluno.

— O que pretende fazer quando terminar o curso? — perguntei depois de um tempo.

Parecendo surpreso pela pergunta inusitada, piscou algumas vezes ao pensar por um instante. Então sorriu, sem graça.

— Eu estava pensando em concluir os semestres primeiro — disse ele, com humor. — Mas acho que vou tentar passar em concursos. Algum em que eu ganhe bastante dinheiro, de preferência — completou, dando de ombros.

Assenti, observando-o.

— Suponho que dinheiro seja indispensável mesmo — comecei, pensativo —, mas não foi por isso que escolheu o curso, foi? — perguntei, sem disfarçar o ceticismo.

— Não — respondeu-me rapidamente, desviando o olhar. — Bom, a princípio sim. — Sorriu, dando de ombros. — Quero dar à minha mãe e meu irmão uma vida boa. Mas eu já lhe disse — continuou, olhando-me nos olhos —, eu adoro Administração. Não escolhi aleatoriamente.

É, ele já havia comentado isto, com um sorriso largo. Assenti devagar, lembrando da noite no Dan's.

Ao mesmo tempo, pude observar que o brilho arteiro nos olhos verdes havia voltado. E o sorriso que se alargava em seu rosto, gradualmente, o iluminava de forma uniforme. Era como se o garoto soubesse o que eu estava pensando.

Em um primeiro instante, pensei que ele podia ler meus pensamentos. Depois de raciocinar melhor, imaginei que ele houvesse dito aquilo com a intenção de que meus pensamentos se voltassem àquela noite.

Não, não poderia ser isso.

— Will — comecei devagar, cauteloso —, por que você...

Por que você não pára de me olhar assim, porra?

— Por que o quê, professor? — perguntou-me, sem desviar o olhar.

Perdi-me por uns instantes nas profundas piscinas verdes de Will, antes de suspirar. Encarei o material em cima da mesa.

— Por que você não dá mais uma olhada na apostila — perguntei lentamente ao escolher as palavras —, e me diz se tem mais alguma dúvida?

Meu aluno permaneceu na mesma postura, calculista, até os lábios se esticarem em um sorriso extremamente travesso. A covinha localizada em sua bochecha esquerda era única, percebi com surpresa. Engoli em seco. Aquela expressão não era nada boa.

Eu podia, literalmente, sentir o sangue pulsar mais rápido em minhas veias. Franzi o cenho, sustentando seu olhar.

— Ah, eu tenho mais uma dúvida — finalmente disse, inclinando-se para frente. — Já que eu cometi a besteira de perguntar se você tem namorada, fiquei curioso para saber o porquê da resposta ser não — completou, escondendo o lábio inferior, em uma tentativa frustrada de esconder o sorriso também.

Remexi-me desconfortável na cadeira.

— Não vejo como a resposta para isto pode lhe ajudar em Administração Financeira, William — respondi, desviando o olhar.

— Will — corrigiu, estreitando os olhos. — Tem razão — continuou, o sorriso arteiro voltando ao rosto. — Mas eu estou muito curioso.

Paralisei, pensando no que responder.

Como lidar com tais perguntas? Ou melhor, como lidar com tal aluno?

Levei a mão ao pescoço, tentando inutilmente relaxar a postura. Relanceei rapidamente a mesinha de café, frustrado por não encontrar aquela jarra de água gelada. Onde estava quando eu precisava?

Suspirei.

— Eu tive namoradas — disse, antes de pigarrear, achando melhor responder para me livrar logo. — Eu só... Eu não sou muito bom com pessoas — respondi, evitando olhá-lo.

Will assentiu, risonho. Enquanto eu não gostava nada daquela sensação, ele parecia divertir-se ao máximo comigo. Estava fazendo de propósito!

Inclinei a cabeça para observá-lo melhor.

— Ao contrário de você, verdade? — perguntei, lembrando da cena no corredor.

Teria Will uma namorada?

A ideia me perturbou por um segundo, fazendo-me novamente procurar uma posição mais confortável na cadeira. Qual diabos era o problema dessa cadeira hoje?

Sentindo-me subitamente irritado, observei os olhos estreitados de Will em mim. Tinha a boca levemente aberta ao me encarar com um ar desconfiado e concentrado ao mesmo tempo. Tentava me decifrar.

Enquanto o fazia, permiti-me o autodesprezo completo. Não havia motivo para eu ficar perturbado pela mera ideia de meu aluno ter namorada. Aliás, óbvio que ele teria uma namorada, afinal, era jovem. Quantos anos tinha? Dezoito? Dezenove?

— Não tenho namorada — respondeu simplesmente, com um brilho no olhar.

A voz invadiu meus ouvidos como um golpe.

Dei-me conta de que eu havia perguntado indiretamente se meu aluno tinha namorada. Seria anormal se eu não houvesse me sentido golpeado, devido a gravidade da situação. Senti meu estômago revirar, fazendo-me arrepender de ter tido um almoço completo, segundo o Sr. Edwards.

O que isto queria dizer? Ele sabia o que eu estava perguntando? E se sabia, havia respondido de tal forma para me desequilibrar? Ou simplesmente não sabia de que outra forma responder?

Não sei quanto tempo se passou enquanto nos encarávamos. Ergui as sobrancelhas subitamente, recém dando-me conta do significado de sua resposta.

— Não? — perguntei, incrédulo. — A tendência dos jovens de não terem nada sério entre si persiste, então?

Will deslizou os braços que estavam posicionados na mesa para o colo, enquanto arrumava sua postura para trás, apoiando-se na cadeira, mais relaxado. Os cantos de sua boca insistiam em subir, apesar de parecer que ele fazia muito esforço para que não o acontecesse.

— Era minha ex namorada — disse ele, e quando franzi o cenho, acrescentou: — A moça que você viu no corredor — explicou, divertido. — Ela não é nenhum rolo sem compromisso, se é o que você pensou — continuou, não conseguindo reprimir o sorriso.

— Não pensei que fosse — menti, sentindo-me inquieto.

Como se fosse possível, fiquei ainda mais perturbado do que antes.

A irritação parecia espalhar-se por meu corpo como um vírus. Não era William que me irritava, mas sim, a maneira como eu não conseguia lidar com ele. Era como se ele penetrasse em minha pele e eu não pudesse fazer nada a respeito. A não ser, talvez, aceitar que eu não podia fazer nada a respeito.

— Você devia sorrir mais, professor — disse ele, arqueando as sobrancelhas. Dei-me conta, então, de que eu tinha uma expressão nada bonita no rosto. — Com certeza arrumaria uma namorada se o fizesse — continuou, os olhos mansos desta vez, e sorriu de forma genuína. — Não iria nem precisar da parte comunicativa, tenho certeza.

Incrédulo, resmunguei alguma coisa antes de levantar e virar as costas para ele. Dirigi-me até a simples térmica que estava ao lado da estante, junto de algumas xícaras e servi-me um pouco de café, que havia sido feito anteriormente.

— Obrigado, Will. — Minha voz soava estranha até para mim mesmo. — Mas eu não estou procurando namorada alguma — explicitei, sentindo-me na defensiva. — Eu só estou concentrado no meu trabalho, no momento — completei, esperando que isto pusesse um fim no assunto desconfortável.

Olhei-o por cima do ombro para oferecer-lhe café também.

Sem olhá-lo na cara, entreguei-lhe a xícara, sentando-me novamente.

Era como se eu pudesse sentir o controle voltando às minhas mãos. Tudo o que eu precisava era de um momento para respirar e pensar no absurdo da situação. Não iria me deixar ser manipulado por um aluno. No entanto, a simples sugestão de Will estar me manipulando parecia falsa.

Se não estava me manipulando, que diabos estava fazendo? Flertando comigo?

Senti o sangue subir para o meu rosto, enquanto tentava decifrá-lo, não podendo acreditar em meus próprios pensamentos.

Will estava tomando um longo gole da xícara, com as sobrancelhas arqueadas e os olhos fixos no próprio café. Suspirei.

Ele podia estar apenas entediado, procurando um meio de se divertir às minhas custas. Talvez até, tentando punir-me por tê-lo reprovado em minha matéria ao acabar com minha sanidade.

Por que outro motivo ele faria isso? Seria por causa do desafio também?

Retomei minha postura reta, como se eu pertencesse à minha sala novamente, ao levar a xícara à boca. Estava quase sentindo-me como eu mesmo — antes de Will aparecer para foder com minha mente -, pensando que a cadeira voltara a parecer confortável.

A sensação de ter o controle da situação não durou muito tempo, entretanto.

A expressão no rosto de Will mudou de repente, parecendo dar-se conta de alguma coisa. A sutil mudança bastara para os meus músculos tensionarem mais uma vez. Olhou-me de forma acanhada, como se reunisse coragem para o que estava prestes a dizer.

— Procura namorado então? — perguntou, analisando-me como uma criança curiosa.

Engasguei com o café, tossindo um pouco. Não pude fazer nada além de encará-lo, pasmo. Qual a probabilidade do garoto me dar um ataque cardíaco antes do fim do ano?

— Não — respondi, atordoado demais para elaborar uma resposta melhor.

— Desculpa — disse ele, rapidamente, as bochechas tornando a ficar vermelhas. — Eu não quis dizer isso — continuou, atrapalhado, tentando remedar o que dissera. — Eu não quis dizer o que você acha que eu quis dizer!

Apesar de eu ficar ligeiramente aliviado que Will teve a decência de parecer envergonhado, não fez muita diferença. O garoto desviou o olhar para as mãos, que seguravam a xícara de café, e permaneceu.

— O que está acontecendo aqui, Will? — perguntei, direto.

Certo que era eu quem ficava esperando que ele aparecesse na minha sala pelo menos duas vezes na semana. Mas eu não o faria, se Will não houvesse agido de forma tão peculiar comigo. Não o faria, se ele continuasse a ser o aluno quieto das aulas.

— Como assim? — perguntou, tentando retomar a postura matreira de antes, e falhando miseravelmente.

— Por que você está aqui, Will? — perguntei, tentando de novo. — Tive a impressão que não gostasse de mim e agora...

Parei, pensando em como continuar. E agora, o quê?

Eu sequer sabia.

— Eu gosto de você — respondeu simplesmente, piscando algumas vezes. Tentava retomar a situação de antes, mas eu não permitiria.

Quando arqueei as sobrancelhas, visivelmente incômodo com a forma como pareceu que dizia as palavras, Will pareceu dar-se conta.

— Digo... — começou, ligeiro. — Eu não desgosto de você, Turner — embaralhou-se, rindo com nervosismo.

Turner?

— E eu quero mesmo passar na matéria, então... — continuou ele, tentando parecer convincente. — Por isso, eu venho. Mas se é tão ruim que eu apareça aqui... — disse, deixando as palavras no ar com um simples dar de ombros.

Fechei os olhos, momentaneamente insatisfeito com toda a situação. Eu não podia expulsar um aluno simplesmente por não gostar de suas perguntas. Ainda por cima, eu não queria expulsar Will, por motivo algum.

— Não é ruim — disse-lhe, com a voz baixa.

Will, então, me encarou com o semblante sério, os olhos um pouco mais esbugalhados que o normal. Mordia o lábio inferior, fazendo-me engolir em seco. E as fumacinhas que pareciam sair de sua cabeça deixavam-me frustrado, já que eu não fazia ideia do que se passava nela.

— Não é ruim — repeti mais uma vez, sustentando seu olhar.

Depois de alguns minutos de silêncio, o sorriso brincalhão voltou ao seu rosto. Ele juntou suas coisas e as guardou na mochila, jogando esta no ombro direito. Sorriu para mim de forma tranquila, mais uma vez.

— Acho melhor eu ir agora, está ficando tarde — disse, elevando as sobrancelhas. — Muito obrigado pelo café!

Incapaz de abrir a boca para dizer o que quer que fosse, limitei-me a observá-lo. Piscou um dos olhos antes de dar-me as costas e sair pela porta, deixando-me sozinho com o silêncio.

O cheiro de colônia de Will ainda pairava na sala, misturado ao cheiro de café. E o silêncio era tão ensurdecedor que me obriguei a sair dali antes que ficasse louco.

Notas finais
Sei que demorei, mas as férias me jogaram num abismo de sono e falta de inspiração! Praticamente hibernei ahahahha Mas vou recompensar! Já estou escrevendo o próximo capítulo (me empolguei), só que só vou postar depois de ver os comentários! Não é por ser má nem nada, mas é que eu quero saber se as coisas estão indo de forma certa pra vocês ^^ Então é isso, comentem pra me deixar feliz! Reescrevi tantas vezes esse capítulo que cheguei a ficar vesga! Ahahah Atualizada: 07/2017.