Uma sala isolada, submersa em sombras e iluminada por uma única chama a dançar, emanava do mais puro sopro de melancolia. Alimentava-se o dono de tal lugar de todas as divinas maldições que o mundo poderia lhe oferecer. Arfava, abafado e escuro. Chorava... Suas lágrimas de piche a manchar sua negra capa de grosso tecido. Quanto lhe doía? O que lhe doía? Seu coração vazio, preenchido de medo e ocultismo, como aquele local. Sem vida. Um mínimo sinal de algo vivo ali não havia. Mas queria que estivesse ali. Jamais estaria...

- A luz de velas permite encontrar seu verdadeiro Eu em meio à escuridão... – Queria acreditar em suas palavras, em cada uma delas. As letras pairavam no ar, ricocheteavam nas paredes como um eco profundo. Martelavam sua caixa craniana, a fazendo tilintar como metal em vidro. E doía, doía demais... Solidão tamanha que não suportaria... E assim, chorava mais.

Então, tomou em mãos um pedaço de papel rasgado e uma velha lapiseira. Podia manter-se isolado, mas possuía material escolar, estudava. Começou a prender as palavras que torturavam-no tanto entre as linhas, pensando que assim, talvez, não saltariam em seus tímpanos para estourá-los novamente.Suas letras finas e pequenas delineavam formas poéticas, para quem as visse. A ele, apenas desabafo. Após um suspiro arrastado, a folha preenchida, releu o que havia feito. Novamente as lágrimas brotaram em seus olhos azulados. Levantou-se e saiu da sala.

Demasiado tristes eram seus dias, que passavam de maneira vagarosa. Baixo a capa preta, uma peruca escura, um rosto desolado. Suas mãos trêmulas e frias, enroladas em um gato amaldiçoado. Lábios torcidos em uma linha fina, fantasmagórica. Levaria todos à sua volta ao repugno, mas não se importava. Passou frente ao quadro de avisos do colégio. “Junte-se ao Clube de Literatura e ajude-nos a escrever sua vida! Alegre os dias de todos aqui presentes, deposite aqui sua ajuda! Só não esqueça de assinar, com nome artístico ou pseudônimo. Agradeço-lhes desde já!”. Uma flecha vermelha indicava uma pequena caixa de doações, fechada por todos os lados, com um espaço para depositar a doação. Papéis eram o que ali havia. Hesitou. Retirou dali uma caneta – amarrada por uma corda à caixa – e pegou seu pedaço de caderno rasgado. O assinou e o passou pela pequena fresta no topo da caixa. Havia feito sua boa ação do dia, mesmo que, para ele, não contribuísse com nada. Assim, deu as costas, cabisbaixo, e voltou para sua sala em profunda depressão.

Na Terceira Sala de Música dar-se-ia o início a mais uma atração. Todos vestidos com trajes de garçons e maids, esperando por suas clientes. Meia hora e nada. Aonde teriam ido todas as garotas? Estariam atrasadas? Teriam se esquecido do Host-Bu? Talvez não. Kyoya girava a lapiseira entre os dedos, impaciente – era notável. Todos permaneciam nervosos, até que Haruhi se pronunciou.

- Melhor ir procurá-las...

- Não. Se um membro sair e elas estiverem aqui, podemos perder clientes. – Reclamou Kyoya, frio e calculista.

- Como?! Se não vieram até agora, não vão mais aparecer! – Bufou em resposta, enquanto abria os braços e os alçava no ar.

- Aquiete-se, Haruhi. Podemos ter um dia de folga...

- Mas estou com foooome... – Reclamou Honey, agarrando-se a Mori, que sequer o fitava.

- Já sei! – Tamaki bateu as mãos espalmadas sobre a mesa de chá, com um típico olhar determinado. – Vamos todos procura-las! Assim, se vierem, a sala estará vazia.

- Então irei me trocar. – Haruhi deu de ombros, indo ao vestiário. Após todos com seus típicos uniformes, saíram em bando à procura das garotas. Andaram todo o vasto colégio, chegando ao segundo andar, aonde ouviram gritos histéricos. Entreolharam-se e para lá correram. Um alvoroço, gente demais numa sala só. Não puderam sequer entrar. Uma delas – em especial, Renge – se desvencilhou da multidão e saiu, com um papel rasgado em mãos. De tão empolgadas, as outras mal notaram a saída da amiga, ficando a suspirar e se exaltar.

- O que houve, Renge-chan?

- Um poeta misterioso! Ahhh, linhas tão cheias de amor e tristeza; a necessidade do toque humano... Um romancista!

- Está falando mesmo japonês, Renge? – Disse Hikaru, em uníssono a Kaoru.

- Mas é claro! Hoje de manhã um anjo nos abençoou com sua filosofia, a nós, ao Clube de Literatura! Veja com seus próprios olhos uma palavra dos céus! – Assim a garota entregou o pedaço de folha a um dos gêmeos, que começou a rir descontroladamente.

- Haha, que melação!

- É mesmo, Hikaru!

- Oras! – Renge fez menção de tomar o papel da mão dos gêmeos, mas Kyoya o fez de imediato. Tamaki juntou-se a ele e o leu. Um sorriso esperançoso brotou em seus lábios ao ler aquelas linhas, logo em más intenções.

“ Salva-te, ó alma iludida

Perdida em urros e sussurros do mais puro amor

Platônico! De bom grado,

Que faz cômico minha dor!

Solidão esquecida

Abandonar-me-ia ao menos esta vez?

Em que não posso suportar mais teus encantos

Talvez.

Ó, escuridão desmedida

Amaldiçoa-me o quanto puder

Ama e suporta-me aquele que tiver coragem

Ajuda-me quem morte quiser...”

- Quem foi que escreveu isso? – Perguntou o moreno, ajeitando os óculos sobre a fronte.

- Apenas as paredes saberão! Em suma, não sei.

- E as outras...?

- Parecem apaixonadas pelo escritor misterioso. Bom para o Clube, hohohoho! – E emitiu mais uma de suas pegajosas risadas.

- Fui passado para trás por um indivíduo secreto?! Um nada?! – Tamaki rosnou para os outros.

- Todos fomos. A não ser que desmascaremos o cara, nada irá o impedir de roubar todas as nossas clientes sem ao menos dar as caras... – Completou Hikaru.

- Ou melhor... – Recuperou-se o louro de sua crise – Podemos fazê-lo se juntar ao Host-bu. Garanto que conseguiremos muitas clientes, muito mais lucros...

- Lucros? – Exclamou Kyoya – Ei, Rengue, pode nos dizer quando a carta foi deixada?

- Hoje mesmo, antes das aulas começarem... E a pessoa foi rápida, pois não havia ninguém no corredor naquela hora.

- O-kee. – Disse Tamaki. – Vamos inverstigar. Algum plano, mamãe?

- Podemos comparar caligrafias, olhar todas as pessoas que depositaram cartas pelas câmeras de vigilância da escola ou... fazer vigília em frente ao quadro de avisos, para descobrir quem postou.

- Obaa! Vamos ser detetives desuuu! – Rodopiou Honey, abraçado ao coelhinho.

- Está certo! – Tamaki virou-se para o grupo, com o papel em mãos. – Vamos montar guarda amanhã, para descobrir esse poeta!

- Por quê tenho um mal pressentimento...? – A garota morena suspirou, dando a todos as costas e voltando à sala de música.

Notas finais
Bem, pretendo terminar no próximo capítulo. Eu demoro em minhas fics, mas não fico ausente, apenas com preguiça de digitar... isso não significa que as histórias não estão continuando, sim?