Ma Chérie
40 Uma dose de café e um pouco de diálogo
Notas iniciais
POV VICTORIA
O resto da noite transcorreu bem na medida do possível. O clima oscilava entre o razoavelmente agradável para tenso em questão de segundos. Meu pai não se atrevia a olhar para mim, fingia que eu não existia. Minha mãe fazia tudo para se manter ocupada. Durante a ceia que foi servida perto da meia noite, com boa parte das crianças já adormecidas, o alvo dos questionamentos foi indiscutivelmente Liz e Anne.
João Paulo e William tentavam conversar com elas em duplo sentido, fazendo perguntas que eram obviamente feitas para me atingir. Mas, eles se complicavam infinitamente porque Anne era bem direta e não perdoava nas palavras, o inverso de Elizabeth que era uma dama, mas que respondia a altura com sua elegância fria. Pierre havia engatado em uma conversa com alguns de meus parentes sobre assuntos que sempre variavam. Apesar do jeito desleixado, era irrevogável a sua educação também européia, a sua facilidade em se engajar em grupos grandes e se manter empático a qualquer situação.
Eu me ocupei com minha sobrinha, a pequena Yasmin ficava ainda mais confusa quando eu e Veronica sentávamos uma do lado da outra, em determinado momento ela quase chorou com medo de não saber identificar quem era a mãe verdadeira dela. Murilo, implicante como sempre foi, aterrorizava a menina sempre que ela parecia confusa de quem chamar de mãe. Até que para aliviar o lado de minha pequena sobrinha, roubei o lenço que ela usava e amarrei em meu pulso, me diferenciando visualmente de Veronica.
Durante a noite, Elizabeth fez exatamente o que prometeu. Apesar de se recusar a tomar banho comigo, pois duvidava de sua própria força de vontade em respeitar a casa de meus familiares caso me visse nua, logo estávamos as duas abraçadinhas em minha cama. Tudo o que eu segurei durante àquelas horas ali, toda a saudade, angústia e frustração de não ser compreendida pela maioria, de ainda ser julgada por algo que eu simplesmente era e não poderia mudar... Eu desabei. Mas, não em um pranto sufocador, mas sim aliviado. Apenas porque ela estava com os braços ao redor de mim, me garantindo a segurança de algo que era fundamental para alguém em meu estado emocional: eu não estava sozinha, não mais.
Não sabia dizer exatamente quando dormir, depois que Liz começou a me embalar e a sussurrar coisas em francês em um tom carinhoso e ameno. Contudo, quando acordei a cama estava vazia ao meu lado. O primeiro pensamento foi o de que talvez fosse tarde e Liz tivesse levantado. Mas, quando peguei o meu celular, não passava das cinco da manhã! O céu ainda não havia começado a clarear e o frio da noite persistia no ambiente. Franzi o cenho e vi o copo de água vazio na cômoda ao lado. Talvez, ela tivesse apenas ido beber água, Liz tinha aquilo de sentir sede durante a noite.
Peguei o copo, joguei as cobertas para o lado e calcei os chinelos. Bocejava sem pudores, abrindo bem a boca enquanto descia as escadas preguiçosamente. Planejava apenas encontrá-la na cozinha, beber água e quem sabe ter meu beijo de bom dia? Já fazia muitas horas que minha boca não encontrava a dela e isso era quase um absurdo!
Mas, porém, entretanto, todavia, contudo...
Assim que alcancei o final da escada e andei um pouco em direção a cozinha vi algo que me fez quase derrubar o copo. No momento seguinte, meu peito subia e descia rapidamente e minhas costas se chocaram contra a parede, me escondendo por puro impulso.
Como poderiam estar minha mãe e Liz sozinhas na cozinha sem nem ao menos estarem gritando?!
O sono tinha se dissipado com o susto, minha mente confusa não conseguia processar corretamente a imagem de que Liz estava sentada perto do balcão, assoprando o café que Helena, provavelmente, serviu a ela. Esperei alguns segundos, aguardando alguma palavra venenosa de minha mãe ou alguma ultrajada de Liz. Mas, tudo o que eu ouvi: Um elogio pelo café. Mas que merda era essa?!
– Victoria sempre teve problemas de pressão – escutei minha mãe comentando depois de suspirar.
– Descobri isso de uma maneira desagradável, mas desde então venho cuidando desse detalhe, ainda mais agora que o estresse no trabalho vem se acentuando por causa das épocas festivas – Liz contou, ela não usava o seu tom polido ou educado demais, pelo contrário, estava serena – Ela tem o pequeno defeito de perfeccionismo no trabalho, faz as coisas minuciosamente e revisa até ter certeza de que está tudo perfeito para os seus parâmetros.
– Era o mesmo em seus trabalhos escolares. Ela nunca tirava nota baixa, mas chegava a adoecer quando não conseguia a quantidade de informações que queria – Helena comentou com tom saudoso.
– Mas, então madame Carvalho, disposta a aceitar minha proposta?
– Eu... Eu não sei...
– Veja bem madame, eu estou propondo uma conversa franca. Pelo que eu vi, escutei e sei sobre questões similares, o que aconteceu com Victoria é algo sempre tratado aos gritos ou como tabu, sem chances de debates e conversas sem gritos ou tensões – Liz dizia calmamente com o seu melhor tom persuasivo – Eu quero escutar a senhora, quero saber o que realmente pensa sem ter de falar o que os outros querem que a senhora diga. Também sei sobre sua criação, que passou a vida toda sendo ensinada que isso era errado, pecaminoso e de como isso molda suas crenças. Não vou julgá-las, mas certamente vou rebatê-las junto com meus próprios ideais e crenças. Da mesma forma que também terá direito a isso, de rebater o que eu disser. Estamos sozinhas e pela quantidade de vinho consumida ontem, as probabilidades de alguém nos interromper são mínimas.
Eu poderia ter um infarto ali mesmo. Uma conversa franca entre minha mãe preconceituosa e minha namorada?! Isso era possível? Era coerente?! Minha cabeça dava um verdadeiro nó e minhas pernas iam perdendo as forças, até que descobri que tinha sentado no chão com as costas apoiadas na parede.
– Victoria sofreu muito com essa mudança drástica de vida, ela ficou desamparada e isso eu nunca poderei perdoar em sua família. Mas... Também pondero o quanto a senhora pode ter sofrido, já que ainda vejo amor em seus olhos ao olhar para ela, quando pensa que ninguém mais está vendo. Você ainda se importa o suficiente para me perguntar coisas sobre sua filha de maneira evasiva, mas ainda assim o faz. Veja bem, eu a culpo por muitas coisas, sou clara quanto a este ponto, porém sei o quanto é difícil mudar pensamentos tão enraizados e cultivados por uma boa parte da família, principalmente pelos líderes e marido. Não justifica ou modifica a sua culpa, mas é algo a ser levado minimamente em consideração. Não acontece de uma hora para a outra uma mudança, mas também a senhora pode estar perdendo um tempo precioso sem conseguir ponderar e reajustar suas crenças e pensamentos. O quanto deve sentir falta de mademoiselle Victoria? Quanto tempo sem ter notícias de sua filha?
Alguns segundos de silêncio, o mundo parecia ter parado. Até que eu escutei soluços abafados e cada vez mais seqüenciados. Meus olhos se abriram e quando fiz menção de virar o corpo para espiar, finalmente vi um espelho colado à parede refletindo toda a imagem que eu queria bisbilhotar. Ali tinha dona Helena com os cotovelos apoiados sobre o balcão, à mão entre a cabeça enquanto chorava o mais silenciosamente que podia. Liz estava ao seu lado, alisando as costas com movimentos minúsculos, mas ainda assim ao lado dela e dando apoio enquanto minha mãe desabava.
– Essa não é a minha Victoria, a minha menina! Ela deveria se casar e ter os filhos mais lindos do mundo como Veronica fez! O que há de errado em almejar isso para ela? Ela sofreria bem menos se seguisse esse rumo! – minha mãe falava entre soluços.
– Você tem certeza de que ela seria feliz? – Liz indagou.
– Ela não sofreria esse preconceito! Ela estaria dentro do padrão e tudo seria normal!
– Certamente ela não sofreria o preconceito tão cultivado e debatido hoje em dia. Mas, isso não seria apenas mais conveniente para a senhora do que para ela?
–Como assim?!
– Victoria poderia aprender a agir da maneira que todos esperam. Poderia se forçar a gostar de um homem, talvez cursar até uma universidade que agrade o seu esposo. Teria relações com um homem e geraria filhos biológicos. Ela o faria para agradar uma parcela de pessoas que não aceitam padrões que ainda são diferentes e acreditam serem errados. Mas, aprender a agir não significa que ela esteja realmente vivendo o momento. Ter uma vida de mentiras força-se a ter sentimentos, a ter prazer com algo que não sente realmente prazer... Senhora, diga-me como alguém pode ser feliz fazendo isso?
– Ela voltaria a ser a minha menina pelo menos!
– Mas, ela nunca deixou de ser sua menina.
– Minha Victoria não me deixaria sem notícias por tanto tempo.
– Quem a deixou primeiro, madame Helena?
Aquilo foi como um verdadeiro, tapa sem mão no rosto de minha mãe, pois seus ombros abaixaram e seus olhos lacrimejaram. Elizabeth deu tempo para que a senhora processasse tudo o que tinha sido dito até ali, deu a volta no balcão para retornar a tomar o seu café. Ver minha mãe daquele jeito... Causou-me apenas mais raiva. Depois de tanto tempo, depois de tentar gritar essas coisas, apenas agora ela escutava?!
– Victoria é perfeccionista, criativa, festeira e dona de um sorriso contagiante. Ela consegue ter uma suavidade e um jeito cativante que te faz realizar coisas que nunca imaginou, apenas porque ela pediu – Liz dizia com um sorriso lindo – Ela tem a mania de puxar o cabelo quando está começando a perder a cabeça – isso fez minha mãe quase sorrir, eu realmente sempre fiz isso afinal de contas – E se está com os óculos, sempre faz um franzir no nariz quando ele escorrega antes de colocá-lo no lugar novamente.
– Ela odiava usar óculos – Helena lembrou.
– No que isso é diferente de sua filha antes para agora, Madame? – Liz continuou a jogar as cartas – A forma que ela tem de amar não a deixa diferente de sua forma de ser. É um conjunto completo, uma coisa não irá excluir a outra. Ela ainda é a mesma pessoa, persistente e perspicaz. Teimosa e orgulhosa em determinados pontos. Você acha que Victoria faz o perfil de quem desistiria de tudo para ser alguém que ela não é e viver no conforto... Ou defenderia a si mesmo com tudo que tem e lutaria contra o mundo? Não precisa ser apenas sobre esse ponto em específico, sobre a sexualidade dela, posso apostar que ela é assim em qualquer outro âmbito similar.
– Eu a ensinei isso – Helena fungou – Que o pai dela poderia esperar que ela fizesse coisas, mas que ela deveria seguir o coração e tentar ser feliz do jeito dela, não importando o quanto isso aparentemente fosse difícil ao início, no final valeria a pena...
Exatamente mamãe. Foi à senhora que me ensinou isso e fez a merda que fez! Saber disso apenas me fez morder o lábio com força para evitar um soluço alto. Escutar aquilo já estava me fazendo chorar.
– Mas, isso é pecado! – Helena se exaltou, erguendo toda a sua postura ao tocar no ponto religioso – Por mais argumentos que você tenha minha filha ainda está pecando aos olhos de Deus! Hoje em dia as pessoas perdem a noção e exigem até casamento gay na igreja, isso é ultrajante!
– Concordo com a senhora.
Helena assustou-se por Elizabeth concordar com algo que ela tenha proferido. Seus olhos se tornaram grandes e incrédulos, sua expressão tão engraçada que Liz deixou escapar um riso baixo e breve.
– Eu tenho um respeito muito grande pelas religiões Madame. Conheço uma parte delas e sei respeitar tradições e costumes. Faz parte da cultura das religiões que conheço o casamento heterossexual por conta de todas as suas regras e crenças. Exigir a mudança dessas regras, desses costumes por apenas capricho é errado. Deus prega o amor, mas também há costumes que devem ser respeitados. Ainda existe o casamento civil e simbólico, outras opções que não machucam nenhum lado. Infelizmente há extremistas em todo e qualquer movimento e, com certeza, eles não representam a maioria. O caso é que eles ganham mais destaque por vezes, pois é o que o sensacionalismo tem para vender e assustar. Assim como concordo de que se for pecado, apenas Deus irá julgar quando for o momento, então quem da o direito a um mero humano igualmente pecador de fazê-lo no lugar Dele apenas porque se sente incomodado?
– É muito bom ouvir isso de alguém que é... que é... bem como você – minha mãe gesticulava por não conseguir dizer lésbica – Mas, ainda não deixou de ser pecado e de estar escrito na bíblia! – Helena respirou fundo e deixou os ombros caírem, diminuindo o tom de voz para mantê-lo o mais neutro que conseguia – O mundo está mudando, não sou tão tola ou ignorante quanto a isso, mas acredito que certas coisas não devem mudar porque regem toda a moral e fé do homem. Eu cresci sabendo das regras religiosas, seguindo elas, vivendo elas. Sofri castigos e conseqüências até ter a conduta correta naturalmente. É a forma que aprendi a ser como eu sou todo o meu mundo gira em torno do temor a Deus e no fazer o certo porque o reino aqui na Terra é temporário. Quando falo temor a Deus não é medo Dele, mas sim de me perder Dele, há uma grande diferença que poucos compreendem. Os jovens atualmente podem achar isso besteira, mas... É a forma que eu aprendi a lidar com a vida! Se não for assim, como seria? Eu não conseguiria lidar de forma diferente!
– Se alguém algum dia ousar dizer que é errado viver a sua religião, poderia dar-lhe uma resposta até mesmo uma resposta muito mal educada, pois é um direito seu acreditar em seu Deus e viver a sua religião da maneira como acha correta – Liz pontuou enfaticamente, depois mordiscou o lábio inferior antes de respirar fundo e só então prosseguir – Ninguém deve ser contido de viver as suas crenças, madame Helena, mas de igual forma pessoas que amam pessoas só almejam poder amá-las em igual direito de poder viver esse sentimento tão profundo sem temor. Até onde meu conhecimento sobre a religião cristã me permite argumentar, é também um de seus princípios demonstrarem amor, misericórdia e compaixão. De acolher ao próximo: “Ame uns aos outros como eu vos amei”. Não estamos retrocedendo as guerras santas, onde para demonstrar que se é cristão é necessário erguer uma arma e iniciar uma violência sem fim para defender tão cegamente algo que Deus supostamente disse. Hoje a espada são as palavras ignorantes e cruéis, venenosas e tão agressivas, as flechas os olhares cheios de nojo e repugnância. É a sua igreja que também diz que acolhe o pecador, é a pessoa que senta ao seu lado e reza o pai nosso que também tem um pecado que você nem tem conhecimento. Talvez ele traia sua esposa, talvez ele bata nela, talvez seja mesquinho, mentiroso, ladrão, ou coisa pior. Por que o pecado de amar outro parece ser tão pior e tão punitivo? Por que amar, um sentimento tão puro, tão lindo, pode se transformar em algo tão ruim? – Liz respirou fundo para recuperar o fôlego e molhar a garganta com um gole pequeno de café – É a forma como se trata o próximo que faz toda a diferença, porque o respeito deveria sobrepor qualquer coisa.
Minha mãe chegou a abrir a boca para rebater, mas logo balançava a cabeça e sorria de lado. Era estranho, terrivelmente estranho! Ela estava escutando Elizabeth dizer todas aquelas coisas e ainda não a tinha xingado nenhuma vez ou dado um ponto final. A clássica frase de “É assim e pronto, não tem porque questionar!”. Pelo espelho, observei Helena levantar, pegar a xícara de Elizabeth e a encher com um pouco mais de café.
– Você... Você sempre foi assim? – ela indagou meio acanhada – Digo, não parece. Você na realidade me lembra uma princesa da Disney que poderia estar casada com o príncipe encantado.
– Ah, eu nunca pensei que também fosse! Mas, também nunca tinha me apaixonado antes – Liz disse e abria um sorriso tímido – Mademoiselle Victoria foi minha primeira em tudo. Paixão, desejo, amor, beijo... – ela suspirou no final e eu senti meu coração disparar.
– Oh! Minha filha a transformou nisso?!
– Eu não sei, mas que ela contribuiu muito – Liz acabou rindo levando aquele comentário na esportiva antes de respirar fundo – Eu fui criada para esperar pelo príncipe encantado. As governantas e babás sabiam ser cruéis sobre como uma dama deveria se portar perante a sociedade. Meu pai esperava isso, seus amigos esperavam por isso. Então existiam os bailes, os garotos bem vestidos e de bom nome. Eu adorava os bailes apenas porque podia dançar, mas nunca me interessei realmente por um dos rapazes.
Era extremamente fácil imaginar Liz em um vestido de galã estilo princesa, valsando por um luxuoso salão em um baile. Trocando de par a cada rodopio enquanto despejava elegância e suavidade. Era mais fácil ainda imaginá-la com um europeu aristocrata, rico e cheio de sotaque estranho. Ele daria presentes caro, levando-a para lugares exóticos e a faria ter uma vida de rainha.
Nessa época eu não sabia o quanto esse devaneio chegava perto da realidade.
– Meu pai também não é um homem fácil. Ele arranjou-me um casamento forçado para fortalecer o seu nome e influência. Poder nunca seria suficiente, era preciso mais – Liz revelou com um olhar distante, meu coração parou com a informação. Como assim ela ia casar?! – Madame Helena, sua filha me chamou de idiota e ingênua no início, talvez ela esteja certa... Mas, eu prefiro ser uma idiota ingênua do que desistir do amor! – o olhar de Liz, mesmo a distância ganhava uma intensidade ao falar de seus ideais românticos – Acredito naquele palpitar de coração sempre que a sua pessoa sorrir, acredito no companheirismo, acredito nas brigas tolas que serão ultrapassadas por simplesmente não saberem viver um sem o outro. Acredito no amor que gera confiança, que gera apoio. Eu acredito nesse amor e ele veio na forma de sua filha. No instante em que nos beijamos, eu soube que não precisaria de um cavalheiro ou qualquer outra pessoa. Eu só precisava dela por quem ela é, da forma que é. Ela é linda e tão carinhosa! Eu me sinto a pessoa mais feliz do universo por ter esse amor retribuído e, acredite, não foi fácil. Sua filha é deveras teimosa e levou meses para me pedir em namoro – Liz suspirou sem perceber e seus olhos brilharam ainda mais – Fugiria de casa quantas vezes fossem necessárias, se o meu destino final fosse os braços de Victoria, madame Carvalho. Esse é o efeito que sua filha tem sobre mim.
Minha mãe a olhava surpresa enquanto meu peito explodia em uma emoção que eu nem sabia explicar. Escutar a minha namorada falar aquilo sobre mim, com tamanha paixão e intensidade, causava-me uma sensação de que eu poderia conquistar o mundo com minhas próprias mãos se ela pedisse. Era forte e quase sufocante, eu poderia morrer de amor naquele momento, literalmente.
– Eu não tenho como argumentar contra isso – minha mãe admitiu em um tom baixo, seus lábios franziram e sua expressão ficou preocupada – Mas, você sabe das conseqüências disso? Nunca terá uma família normal.
– O que quer dizer com isso? – Elizabeth a fitou confusa.
– Nunca poderão gerar um filho de vocês duas.
Todo o amor que transbordou em mim quase se quebrou com aquela frase. Eu não era um homem, eu não poderia engravidar Elizabeth da maneira natural como regia as leis biológicas. Minha mãe estava mais uma vez buscando argumentos, maneira de achar uma falha em meu relacionamento. E dessa vez ela acertou em cheio. Deus, por que ela não poderia apenas deixar em paz e voltar ao seu canto? Por que as questões dela me deixavam tão inseguras?!
–Há tantas possibilidades hoje em dia, Madame Helena! Clínica ou social podemos gerar um filho por inseminação ou adotar.
– Ainda assim, você não acha que a criança iria sofrer por ter duas mães? – Helena parecia verdadeiramente preocupada – O quão difícil será para ela lidar com isso psicológica e socialmente?
– Certamente que ela vai ser preparada para esse tipo de coisa Helena – Liz ia ficando cada vez mais séria – Meu filho e o de Victoria teria todo o apoio e ensinamento sobre como lidar com essas coisas.
– O preconceito que essa criança iria sofrer! As crianças praticariam bullying assim que descobrissem que ela não tem uma família tradicional!
–Madame... As crianças aprendem a ser cruéis de qualquer forma. O bullying existe nas mais diversas formas, apenas para que a criança se afirme com poder agredindo o próximo. Isso é a maneira certa? O bullier tem tantos problemas sociais para pensar que agredindo o outro isso o torna melhor! Então quem está realmente falhando na educação da criança? – Elizabeth discursou – Infelizmente qualquer outra criança que se diferencie dos padrões irá sofrer com isso. A criança mais tímida e quieta, nerds, gordos, magros demais, altos demais, baixinhos demais, os mais pobres, os mais brancos, os mais escuros. Qualquer fator será utilizado contra eles e tudo o que falta para que não se gere problemas psicossociais futuramente é de um apoio familiar forte e uma providência justa e eficaz na escola. Acredite, minha criança saberá lidar com isso, saberá que terá duas mães e que isso pode ser diferente, mas não errado. Porque tudo o que ela recebe é amor, é carinho, é suporte assim como qualquer outra criança deveria ter. E se eu descubro que alguém está praticando tal ato inescrupuloso com ma petit, essa criança ou adulto, irá enfrentar toda a minha fúria! – ela respirou fundo quando notou que seu sotaque francês começava a ficar mais acentuado e que isso era um claro sinal de que estava ficando alterada – Além do mais, há ato mais lindo que uma adoção? É uma criança abandonada por um casal supostamente heterossexual que será acolhida por um casal peculiar, mas que diferente de seus pais, pelo motivo que for, irá dar todo o carinho e amor como se fosse seu próprio filho. Já é tão difícil o processo de adoção, a luta para que casais homoafetivos possam constituir uma família que só isso já prova o quanto eles desejam dar a essa criança tudo o que ela necessita e mais um pouco. Que vão ter fôlego para lidar com a sociedade e com a justiça se for necessário.
O discurso de Elizabeth silenciou mais uma vez dona Helena. De cenho franzido e bebericando o café, minha mãe parecia processar tudo o que havia sido dito. Por vezes fazia caretas, por outras suavizava mais a expressão.
– Em todas as lutas sociais eu desejaria que todos pensassem apenas nos direitos humanos em primeiro lugar, como uma base para saberem como agir ou falar – Liz disse de repente – Talvez então os lados extremistas não fossem tão violentos ao se lembrar que antes de machucar o outro humano, que ele também é tão humano quanto. Há tanto sensacionalismo, tanto terrorismo, tantos medos que por vezes é esquecido de que a base de tudo é apenas a luta para poder ser você mesmo sem ter medo de sair na rua e apanhar por causa disso. Formas diferentes de amar não machucam, digo mais uma vez, como o amor pode ser algo tão ruim assim quando é saudável e benéfico para ambos os apaixonados?
Isso apertou meu coração de uma forma incrível. Lembranças inundaram minha mente de maneira desenfreada. Como foi difícil voltar para a escola quando a notícia estourou e se alastrou como o babado mais forte daquele ano. De como as pessoas faziam piadinhas cruéis, das palavras que usavam apenas para me humilhar e rir de mim. Ou como voltava para casa apenas para escutá-las de novo, sendo proferidas pelas pessoas que eu esperava ter o apoio para enfrentar a realidade. Eu me sentia tão só e abandonada! Tão machucada e frustrada por ter de ser assim, desse jeito tão cruel e solitário. Eu tinha desejado morrer tantas vezes por ser do jeito que era. Naquela época achava que era suja por amar daquele jeito. Tinha esquecido completamente que amor por si só era o sentimento mais bonito e poderoso, e tudo o que faltava era amar a principal pessoa em minha vida.
Eu mesma.
Mesmo quando sai de casa, mesmo quando estava na faculdade. Enquanto eu ainda não tinha aprendido a aceitar que eu era assim, que a culpa não era minha, que isso não era um defeito ou qualidade... O sofrimento apenas perpetuava dentro de mim, sem mudar ou atenuar. Foi quando eu me amei que percebi que eu era lésbica por completo, sem achismos, dúvidas ou desculpas. Não tinha nada contra os homens, eu não os odiava ou repudiava, mas meu tesão, meu desejo, meu palpitar de coração estava direcionado a pessoas com curvas mais acentuadas, de pele macia e um cheiro mais doce – geralmente. Só então eu comecei a evoluir, a ficar com garotas sem culpa, me permitindo sentir de verdade cada toque, cada olhar, cada flerte. E, por deus, isso foi a mudança mais radical de minha vida, pois nada acontece de mais forte do que você ser quem você é e agir sendo você mesma e não o que os outros esperam.
– Eu compreendo isso tudo o que você disse, mas... Boa parte de mim ainda não consegue deixar de pensar que isso é errado, que é contra as leis pelas quais eu cresci. Eu... eu sinto muito!
– Não sinta, não esperava mudar seu pensamento de uma hora para outra. Isso é um processo que avança apenas quando você permite. Porém, eu rogo por respeito, peço que olhe para sua filha e lembre que ela é sua filha. Ela é o que ela é, respeite isso apesar de não concordar e já será um grande passo dado. Se não me engano há aquele ditado por aqui... Antes tarde do que nunca? Nesse caso, as vezes o tarde demais pode ser simplesmente muito tarde.
Deus, como tudo mudaria se a questão do respeito fosse acrescentada na balança. Se eu fosse respeitada, eu poderia entrar em casa sem medo de ser apedrejada por meus próprios parentes. Eu poderia erguer a cabeça e olhá-los nos olhos sem lembrar com tanto rancor tudo o que me fizeram. Esquecer? Jamais. Eram cicatrizes que eu levaria para o resto da vida e nunca superaria por completo. Mas respeito? Era um bom começo para que as coisas se tornassem um pouco mais tragáveis. Eu não era idiota, não esqueceria tudo o que passei e eles fizeram passar. Duvidava que as palavras ditas fossem apagadas de minha memória ou que até não fossem jogadas em minha cara mais uma vez.
Mas respeito... Deus, respeito era definitivamente um bom começo.
– Você gosta de cavalgar, certo? – Helena mudou de assunto bruscamente.
– Oui.
– Pedirei para que Jerônimo prepare um de nossos melhores cavalos, não deve sair daqui sem dar uma volta pela fazenda, minha mãe nunca a perdoaria.
– Oh, então melhor colocar roupas mais confortáveis, creio que Victoria não apreciaria que eu cavalgasse usando as vestes de dormir.
Assim que Elizabeth confirmou o seu desejo por passear, Helena saiu pela porta dos fundos rapidamente. Ela estava fugindo, se afastando provavelmente por não saber como responder aquilo. Liz deixou que finalmente sua expressão se tornasse cansada, ela respirou fundo e massageou o pescoço antes de levantar. Assim que ela passou pela porta, tomou um pequeno susto ao me ver sentada ali no chão. Deu um pequeno pulo e pareceu engolir um grito, seus olhos amendoados dobraram de tamanho. Mas, logo ela me fitava um pouco confusa e no segundo seguinte sorria e me oferecia a mão.
–Cavalgaria comigo, ma princesse? – ela indagou simplesmente.
– Prefiro ser o lobo mal, princesinhas são frescas – reclamei sentindo os olhos lacrimejarem.
– Lembrarei disso quando me chamar de princesa futuramente.
Aquela era minha Aimeé. Ela não questionou o que eu estava fazendo ali ou se eu estava escutando a conversa. Ela sabia que sim. Qual o seu próximo movimento? Oferecer a mão para me ajudar a levantar e fazer qualquer outra atividade que não fosse me deixar triste. Isso era tão simbólico e metafórico que era quase assustador. Ela, aquela garotinha ruiva e de crenças amorosas tão sonhadoras, era quem estava me erguendo e me ajudando a dar um passo enorme em minha vida.
– Obrigada por conseguir conversar com ela – disse sem conseguir me conter.
– Ela só precisava de alguém um pouco neutro, que não fosse gritar que aquilo era certo ou de como ela estava errada. Apenas uma conversa do ponto de vista de alguém de fora – Liz comentou e começou a me puxar escada acima – As coisas podem mudar nada, ou podem mudar tudo. Mas, tenho certeza de uma coisa, mon amour.
–De que? – perguntei automaticamente.
– De que vou estar do seu lado para qualquer mudança.
Elizabeth olhou por sobre o ombro, sorriu e piscou suavemente um olho. Eu me apaixonei mil vezes naquele momento por aquela mulher.
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