Ma Chérie

1 Capítulo 1: Fugindo para o Brasil.


Notas iniciais
Eu não resisti. A ideia começou quando estava deitada para dormir e começou a crescer e a me consumir de uma forma que eu TIVE de escrevê-la.

Quero avisar que Santa Mônica é uma cidade fictícia, ou seja, inventada por mim. Localiza-se no Brasil, próxima a cidade do Rio de Janeiro em algum ponto imaginário mesmo.

Não pretendo que seja uma fic pesada ou muito longa, mas não posso garantir nada! Vou tentar postar pelo menos uma vez na semana xD

POV Liz.

Algumas horas atrás.

Existiam vários motivos para se fugir de casa. Não aguentar mais a vida que se tem; por ser rebelde; por querer desafiar os pais. Mas meu motivo chegava a ser sonhador e bobo, uma consequência de uma crença que me tornava uma pessoa idiota e romântica: eu acredito no amor. Não, não havia fugido com alguém para nos casarmos em Las Vegas ou algo similar. Meu motivo era ainda mais ingênuo e mais puro. A razão por estar li, embarcando em um avião em direção ao Brasil era única e definitiva. Eu não queria me casar com o pretendente que meu pai havia escolhido e me obrigado a aceitar. Alguns poderiam julgar isso algo tolo, uma birra de uma criança que havia sido contrariada, afinal quem desistiria do conforto e riqueza? Mas a simples hipótese de que eu não iria me casar por amor assustava-me e irritava-me o suficiente para ter uma atitude tão drástica e dramática como essa.

Deixei um suspiro escapar de meus lábios entreabertos enquanto ajeitava a barra da saia sobre meus joelhos. Peguei a minha elegante bolsa cor de pérola e de lá retirei um celular, vasculhando pelo aparelho um número que há dois anos não era buscado. Apertei meus lábios até que estes se tornassem uma linha em minha face, estava apreensiva enquanto clicava na tela sobre o nome de Pierre. O som de chamada tocou uma, duas, três vezes. Meu coração parecia querer acompanhar aquele ritmo lento entrando em harmonia com a expectativa e ansiedade.

-Lady Liz?! – o rapaz atendeu a chamada, deixei que de meus lábios saísse o ar que eu não sabia estar segurando. Pierre falava em nossa língua materna, o francês, apesar de já notar um sotaque em seu timbre – O que aconteceu? Porque essa ligação?

-Pierre – chamei em um tom hesitante, passei a língua por meus lábios de forma rápida e discreta, fechando meus olhos apreensiva – Eu fiz uma loucura.

Sim, pois por mais que para algumas pessoas o que eu estava fazendo pudesse ser classificado como idiotice ou rebeldia, para uma pessoa como eu era uma verdadeira e singela loucura.

-O que aprontou, pequena? – Pierre indagou em um tom cauteloso.

-Preciso de sua ajuda – falei abrindo os olhos de uma maneira mais determinada – Por todo o nosso passado, Pierre Chevallier, eu preciso muito de sua ajuda!

-Está me preocupando desse jeito, o que aconteceu Liz?

-Eu... Eu estou dentro de um avião, estou... – era tão difícil encontrar palavras suficientes para explicar o que eu estava fazendo! – Estou fugindo de casa.

-VOCÊ O QUE?

O rapaz do outro lado da ligação gritou em choque. Afastei o fone do meu ouvido e olhei ao redor com receio de que mais alguém tivesse escutado aquele grito de surpresa. Ali em Genebra eu seria facilmente reconhecida se alguém prestasse mais atenção em mim. Com a respiração suspensa, tratei de abaixar os óculos escuros sobre minha cabeça tentando disfarçar-me e ter uma sensação maior de segurança.

-Estou indo para o Rio de Janeiro – expliquei em um tom polido – Preciso de sua ajuda, pois nada conheço desse lugar.

-Isso é loucura! Você será deserdada, seu pai irá te matar! – Pierre explodia do outro lado sem nenhuma delicadeza – E porque o Rio de Janeiro? Quer que ele me mate também?

-Porque o meu único amigo disse-me certa vez que essa cidade poderia realizar seus sonhos – falei em um fio de voz, sentindo um nó em minha garganta – Não sabia mais para onde poderia ir sem ser caçada por ele, Pierre, perdão se isso lhe põe em uma situação delicada.

O escutei soltar um suspiro longo. Mordi meu próprio lábio para não fazer o mesmo. Pierre foi meu grande amigo de infância, apesar de meu pai odiar a nossa amizade por julgar o rapaz vulgar, promíscuo e sem objetivos na vida. Ainda assim, mesmo que de forma discreta, eu acolhi Pierre naquele mundo gélido da nobreza e aprendi com ele muito mais sobre a vida do que com minha governanta. Por isso estava fugindo para o único lugar onde poderia estar segura, ou ao menos me sentir assim!

-Que horas irá chegar aqui? – Pierre questionou em um tom de derrota.

-Por volta das seis da manhã. Meus planos são de conseguir um hotel por enquanto, poderia me indicar um?

-Sim, mandarei uma mensagem com um endereço, eu não poderei ir te buscar no aeroporto, pois não estou no Rio. Porém irei sair agora e ir para lá, assim que eu chegar entrarei em contato. Não ficará só, Liz.

-Obrigada!

Desliguei a ligação e respirei fundo, Deus, que eu estivesse fazendo a coisa certa ao escutar meu coração pela primeira vez! Eu tinha certeza de que se mamãe ainda estivesse viva estaria me apoiando, pensar nisso me trazia certo consolo. Para fugir, havia escapado de casa e comprado passagens econômicas, usando um cartão diferente e de uma conta que eu havia criado recentemente e que meu pai não possuía acesso. Fugir não era uma ideia súbita, mas sim uma última opção. E meu pai havia me deixado sem nenhuma opção! O Duque Roux, grande magnata e figura política por causa de sua influência, manteve a sua ideia de casar-me com o Marquês Blackwell de uma casa inglesa prestigiosa. Um casamento que traria a união dos negócios das duas famílias, puramente arranjado e frio. Eu havia tentado de todas as formas convencer meu pai ao contrário, até mesmo minha irmã mais velha e sua herdeira, Cassandra, tentara argumentar a meu favor. Porém meu pai era um homem tradicional e irredutível, duas das qualidades que mais me faziam temer ao homem.

Assim as coisas aconteciam em Genebra, uma cidade da neutra Suíça. O grande ponto mundial para os negócios e política, foi o lugar onde a tradição e a modernidade convergiu e entrou em harmonia. Infelizmente eu estava no lado dos costumes e tradições tão antigos quanto à era medieval. Possuía um genuíno título de nobreza, iniciado pelo meu antepassado Jean Pietro Bellamy, ganhando o seu título na guerra napoleônica. Apesar de ter sangue francês, desde os meus cinco anos vivíamos nessa cidade, onde minha mãe morreu depois de contrair câncer provocado pelo uso abusivo do tabaco. Desde então era apenas eu, meu pai e Cassie. Minha irmã sofrera ainda mais pressão do que eu, sendo educada para ser um verdadeiro homem de negócios, aquela que herdaria o título de Duquesa Roux assim que meu pai morresse. Assim, como eu não seria a herdeira, deveria ser simplesmente a garota perfeita aos olhos da sociedade. O engraçado era que por todo esse tempo eu o fui. Era obediente ao meu pai, esforçada para fazer tudo perfeitamente e agradar ao homem frio e rigoroso. Não tive infância, apenas estudos e dedicação a coisas que uma dama moderna deveria saber.

O avião começou a decolar e meus ombros relaxaram. Iria sair do país e meu pai nada poderia fazer, ao menos não por enquanto. Tudo o que me restava era ter fé de que não estava fazendo a maior besteira de minha vida.

(...)

No Rio de Janeiro.

O hotel era bastante simples e relativamente barato, o que me fez agradecer mentalmente a Pierre por ter pensado na questão financeira. Como havia planejado previamente a possibilidade de fuga, tinha tomado às providencias básicas. E dinheiro era uma das mais fundamentais. Secretamente abri uma conta totalmente privada e comecei a vender alguns artigos caros que possuía. A minha maior vantagem era o valor do euro sobre o real, além de ter conseguido fazer ótimos negócios mesmo que alguns tivessem sido de forma clandestina.

Depositei minha única mala sobre a cama de solteiro e levei uma mão ao meu ombro para massageá-lo. Havia chegado ao Rio de Janeiro e sentia um pouco de calor, estava cansada da viagem e emocionalmente abalada. Minha maior tentação era de deitar naquela cama, fechar meus olhos e esperar que Tanatos acabasse com meu sofrimento. Balancei a minha cabeça de forma negativa tentando afastar esses tipos de pensamentos, busquei pelo meu celular e digitei uma mensagem rápida avisando a Pierre que já havia chegado. Menos que dois minutos depois recebi uma resposta avisando que em uma hora meu amigo estaria no Rio de Janeiro. Decidi aproveitar o tempo para tomar um longo banho, porém assim que entrei no banheiro e vi meu reflexo no espelho fiquei levemente sobressaltada. Meu cabelo naturalmente ruivo estava deveras bagunçado e debaixo de meus olhos castanhos havia marcas escuras que denunciavam a minha falta de sono. Meu rosto estava pálido e abatido, completamente diferente da garota de semanas atrás, devidamente arrumada e exalando elegância. Meus ombros caíram e prontamente comecei a me despir, o banho tornou-se uma necessidade quase terapêutica.

Demorei o suficiente para confundir ainda minha mente com a decisão que havia tomado. Assim que sai busquei em minha única mala alguma coisa mais leve e curta, já que o verão parecia bastante próximo daquele lugar. Mal terminei de pentear minhas mechas avermelhadas e o som de batidas na porta ressoou em meu quarto, fazendo-me sobressaltar em um susto.

-Liz, sou eu! – falava Pierre em francês.

Meu coração disparou enquanto meus pés agiam sozinhos ao andar até a porta. A abri e me deparei com uma versão mais velha do Pierre guardado em minhas lembranças. Agora o rapaz de cabelos negros e olhos esverdeados possuía uma barba por fazer e usava roupas simples, como uma calça jeans, tênis e blusa polo preta. Pierre sempre foi um charme e com um sorriso perfeito para conquista, mas assim que me viu, o rapaz alto soltou um suspiro aliviado dando dois passos para alcançar meu magro corpo e envolver-me em um abraço apertado.

-Sua louca! – ele exclamou afastando-se para olhar-me de cima a baixo – Eu não acredito que está aqui, que fugiu de casa!

-Eu não tive escolha! – garanti a ele fechando a porta – O Duque queria me casar forçadamente com o Marques Blackwell.

-Aquele velho? – Pierre abriu bem seus olhos em surpresa.

-Sim. Apesar de considera-lo um senhor educado eu... Eu nunca me casaria sem ser por amor.

-Você nunca nem se relacionou com alguém! Aquele velho enlouqueceu de vez!

-Quando ele anunciou que já havia marcado a data com o padre, eu surtei e me neguei a ter meu destino tão definido. Então fugi para cá, ele nem sabe que você está aqui ou deve lembrar-se de você.

-Isso não é problema, eu já fui deserdado então ele não poderia me atingir. O problema é se milady está pronta realmente para perder o seu cargo na sociedade e se tornar alguém comum.

Engoli em seco e pus os fios de meu cabelo atrás da orelha. Havia crescido nesse mundo burocrático cheio de regras e pudores, não sabia ser diferente ou poderia imaginar como ser de outra forma. Porém também sabia que não existia um botão para retornar tudo o que eu havia decidido para mim, iria viver aquela loucura o máximo que poderia. Então balancei a minha cabeça de uma maneira mais determinada, porém ainda delicada.

-Não sei como irei conseguir, mas de certo que encontrarei uma forma de realizar aquilo que almejo – respondi a Pierre e sorri fraca – Mas se receber uma pequena ajuda, seria melhor ainda.

-Não se preocupe, cuidarei de você da melhor forma que um amigo pode fazer. Primeiro teremos de resolver onde você irá ficar, mudar um pouco sua aparência para tirar sua imagem famosa e...

-Não irei pintar meu cabelo! – exclamei prontamente, eu adorava meus fios ruivos naturais.

-Imaginei que não, mas eles são grandes, poderemos cortá-los um pouco. Isso já ajudaria bastante e você perderia o apelido de Rapunzel.

Fiz um delicado bico. Meu cabelo chegava à altura de minhas nádegas, eram lisos e sedosos depois de um cuidado até mesmo exacerbado de minha governanta. Pierre segurou minha mão e levou-me para a cama, sentando ao meu lado e começando a conversar sobre o lugar, dando-me ideias e principalmente me apoiando. Naquele momento eu tive a certeza de que se estivesse sozinha não iria conseguir.

-Você desfez suas malas? – Pierre questionou olhando para os lados.

-Não deu tempo – admiti o encarando curiosa.

-Não precisa, eu não estou morando mais no Rio, mas sim em uma cidade menor e ascensão. Você irá para lá comigo, ficará em um hotel, pois meu apartamento é muito pequeno até que consigamos algo melhor.

-Para onde vamos?

-Santa Mônica.

Notas finais
Primeiro capítulo é sempre o mais chatinho, o começo de tudo e tals, eu sei disso! Mas espero que tenham gostado mesmo assim ^^