Ma Chérie
37 Breve conversa entre irmãs
Notas iniciais
Pov Victoria
No dia seguinte eu não fui trabalhar. Liguei para minha chefe e expliquei por alto a situação, alegando ter assuntos pessoais e familiares para resolver. Ela sabia o suficiente para aceitar essa explicação.
Então aqui estávamos, Veronica devorando o café da manhã que Liz preparou. Minha francesa estava com olheiras, já que não havíamos dormido quase nada e acordado cedo com batidas irritantes na porta. Veronica sendo irritante como sempre, tendo de ter as coisas quando ela queria.
–Podemos resolver logo isso? – pedi impaciente – Fale o que tenha de falar e vá embora.
–Mana, esse tipo de comida tem de ser apreciada! – Veronica disse, mas ao receber o meu olhar nada manso respirou fundo – Ok, ok! – ela bebericou um pouco do suco de laranja antes de prosseguir – Eu vim intimar você a ir passar o natal conosco na fazenda do vovô.
–O que?! – gritei prontamente – Mas é claro que não!
–Faz anos que você não ver a família, Vic! – Veronica tentou argumentar – Já está na hora de você voltar!
–Uma porra! Fodam-se vocês! – esbravejei furiosa – Acha mesmo que pode decidir a hora que eu tenho de ir embora e a hora que eu tenho de voltar? Eu to muito bem sem vocês!
Eu iria continuar o meu discurso ressentindo quando senti mãos em meus ombros. Liz estava ali, apertando meus pontos tentando fazer com que eu relaxasse. Quando a fitei ainda brava pelo calor da discussão, ela apenas me olhou de volta com aquele típico olhar de “calma, respire fundo”. E foi o que eu fiz, eu não agiria feito uma louca na frente dela.
–Dessa vez é diferente – Veronica disse com cautela – Você tem de ir.
–E quem vai me obrigar?!
–É a vó Maria, você precisa vê-la... Ela está doente.
Eu fiquei imóvel no lugar, paralisando por completo. A vó Maria era mãe de minha mãe, esposa do meu avô que tinha a fazenda. Ela era simplesmente a minha pessoa favorita nesse mundo inteiro. Demorou, mas quando a velha soube todos os maltratos que eu estava vivendo ficou do meu lado e até ofereceu abrigo. Porém a vida do campo não era para mim, eu apenas me recolheria e ficaria depressiva ao evitar enfrentar o mundo.
–O... o que ela tem? – perguntei em um fio de voz.
–Os problemas no coração pioraram. Há alguns meses ela sofreu uma parada e quase não retornou – Veronica explicava e eu sentia sua voz vacilar, ela também amava a vó Maria, aliás, quem não amava? – Ela quem me pediu para vim aqui, ela quer ver você. Pediu até para não falar nada com nossa mãe e nem ninguém.
–Por que ninguém me contou nada?!
–Porque você sumiu! Você não ligava para nada relacionado a família! – Veronica acusou parecendo magoada.
–Como vocês ligassem para mim. Enfia essas desculpas no seu... – um aperto em meus ombros me impediu de xingar, respirei fundo e passei a mão com certo desespero em meu rosto – Eu posso ir depois do natal, sem a família estar toda lá.
–Eu só estou passando o pedido da velha – Veronica deu de ombros, mas os mesmos olhos azuis que os meus me fitaram intenso – Eu sei que fui uma merda nesses últimos anos, mas quando você sumiu de vez eu... Eu finalmente notei o que eu realmente fiz e quem você realmente é.
–E quem eu sou realmente? Uma vadia lésbica, cria do demônio por gostar de pecar? – recitei palavras de meus pais.
–Que você ainda é a pessoa mais irritante, orgulhosa e teimosa que eu conheço – Veronica disse entredentes, mas sorriu pequeno – Que ainda é a mesma pessoa, mesmo gostando de garotas.
–Oh, agora caiu a ficha? – indaguei sem consegui me abalar com aquilo, era muito ressentimento para que sumisse assim do nada – Então só porque você finalmente percebeu a filha da puta que foi comigo acha que eu vou abrir os braços e fazer o que você quer?!
Veronica ficou vermelha e eu sabia que ela estava perdendo a paciência. Chegou a abrir a boca para argumentar, mas a fechou e trincou a mandíbula. Ela voltou a beber o suco de laranja como que para ganhar tempo para o seu próximo argumento.
–Apenas venha. Independente dos motivos, as coisas mudaram e esse seria apenas um primeiro passo – ela disse encarando as mãos antes de suspirar – Faça isso pela vó, ela ficaria muito feliz em ver você lá e o vô iria adorar as confusões que isso causaria. Leve até a sua namorada.
–Eu não vou levar ela para um lugar onde seria atacada por pessoas que tem o meu sobrenome – disse prontamente.
–Ninguém ousaria fazer isso na fazenda. Os nossos avos não deixariam – Veronica argumentou – Você sabe que o vô não aguenta desrespeito em seu teto e se você leva a sua namorada, todos têm de respeitá-la como tal. Lembra da encrenca que foi quando Tiago levou aquela biscate da Tamires para lá?
A lembrança quase me fez rir. Tamires era apenas uma pessoa fútil e lerda, nós não podíamos desrespeitá-la diretamente, então apenas fazíamos brincadeiras e piadinhas que obviamente ela não iria entender. Meus avôs, quando estávamos na fazenda, se tornavam os líderes da família, ninguém ousava desafiá-los ou desrespeitar uma ordem. Não importava a idade ou o grau de parentesco, ou até se era um visitante. Tudo o que eles diziam se tornava lei.
Senti quando as mãos de Liz soltaram meus ombros e escutei quando a cadeira ao meu lado foi arrastada. Ela sentou ao meu lado atraindo os meus olhares e o de minha irmã.
–Excusez-moi... Eu posso opinar sobre a questão? – ela questionou educadamente.
–Claro que sim – respondi prontamente.
–Pelo pouco que pude perceber, sua avó é incontestavelmente uma figura importante para você – Liz começou naquele jeitinho delicado dela – A madame teve o esforço de bolar uma estratégia para entrar em contato com você, uma eficaz o suficiente para fazer com que sua irmã esteja aqui sendo bastante persistente. Isso apenas demonstra o quanto ela realmente almeja sua presença no Natal.
Aquilo me fez engolir em seco. Ia desviar o olhar quando Elizabeth segurou meu queixo e suavemente me fez fita-la mais uma vez. Quando meus olhos azuis cruzaram os castanhos eu sabia que não conseguiria desviar novamente mesmo que quisesse.
–Se eu tivesse uma única chance de passar uma data importante como essa com minha mãe, eu não hesitaria um segundo que fosse. Não mediria as consequências futuras ou pensaria nos pormenores, apenas desejaria com todas as forças vê-la sorrir e cantar uma canção boba e natalina. Sua avó está doente e isso é um fato que vai além de nossas capacidades de mudança. Então aproveite, aproveite cada minuto, cada sorriso, cada calor dos braços dela. Por ela e por ninguém menos – Liz soltou meu queixo e pegou minha mão para beijar a palma de maneira delicada – Essa é minha opinião, mas o que mademoiselle escolher eu irei entender e apoiar.
–Você iria também? – perguntei em um fio de voz.
–Oui, não poderia passar uma época dessa longe de você. Onde você for também irei, se me permitir é claro.
Soltei todo o ar que descobrir estar segurando. Olhei para Veronica que encarava toda a situação de maneira curiosa. Busquei por qualquer vestígio de nojo, indignação ou sentimento similar por estar presenciando uma cena homoafetiva. Mas tudo o que conseguia identificar era a curiosidade e surpresa.
–Diga apenas a minha avó que eu irei e que levarei amigos – disse depois de um longo momento em silêncio – Não conte a ninguém além dela que uma dessas pessoas é minha namorada.
–Bem melhor assim, o choque vai ser tão divertido! – Veronica quase bateu palmas animada – Agora, querida cunhada, eu vou querer as suas receitas antes de partir!
Revirei os olhos e já estava pronta para mandar Veronica voltar para o inferno de onde ela saiu. Mas Elizabeth foi mais rápida, ela sorriu educadamente e tratou minha irmã conforme as regras que ela estava acostumada a seguir. Depois disso Veronica partiu, levando consigo até um lanche preparado por minha namorada, por saber como era uma ida de ônibus até a capital.
Quando a porta finalmente se fechou levando consigo a imagem de minha irmã gêmea, eu desabei no sofá e gemi cansada. Fechei os olhos com força sentindo o princípio de uma dor de cabeça ao saber toda a confusão que eu iria enfrentar. Naquele dia eu fui totalmente mimada por minha namorada. Ela me fez massagem, me deixou escolher os canais e filmes, além de preparar uma deliciosa sobremesa de chocolate. No início da noite Anne invadia o nosso apartamento para o jantar, exigindo saber tudo o que tinha acontecido. Deixei que Liz explicasse tudo de sua maneira polida e quase sem graça, já que ela amenizava todos os meus xingamentos.
Mas eu fiz questão de contar do beijo que ela deu em minha irmã apenas para provoca-la um pouco. Anne quase chorou rindo ao imaginar a cara de desespero de Elizabeth ao ter revelado tão culpada que tinha dado um selinho em minha gêmea. Só parou quando percebeu que Liz assumia a sua postura de nobre frígida, sabendo que as consequências disso era uma dama com cortadas frias e sinistras.
–Você vai passar o natal comigo não é? – perguntei quando Anne se preparava para ir para o seu apartamento.
–Mas é claro, vou ser sua segurança! Se alguém mexer com você, vai estar mexendo comigo! – Anne disse convicta.
–Eu to fodida então, olha o seu tamanho, qualquer um passa por cima de você! – perturbei para impedir que a emoção do que ela disse me atingisse de uma vez.
–Vadia, me ame mais por favor! – ela exigiu se fingindo de chateada, mas logo sorria – De qualquer forma, parece um bom plano. Passamos o natal no interior, voltamos para a cidade grande até a virada.
–Assim você passa os dias com sua namoradinha! Sei bem de suas intenções!
–Nada como unir o útil ao agradável.
–Poderíamos chamar o Pierre também. Ele não tem nenhum familiar por aqui e provavelmente passará a data sozinho – Liz sugeriu.
Pierre aos poucos vinha se tornando um verdadeiro amigo. Desde a viagem e a nossa conversa na cozinha ele tinha se aproximado não só de Liz, mas de mim também. Sorri com a ideia, sabendo que seria muito bom para Elizabeth ter um conhecido em quem confiava. Sabia que ela tinha esse sentimento com Anne, mas a minha amiga estaria ocupada demais me defendendo. Pierre se ocuparia em defender a minha namorada quando eu não estivesse por perto.
–Parece uma ótima ideia – acabei dizendo por fim – Você pode ligar logo para ele?
Liz balançou a cabeça suavemente, mas o suficiente para fazer sua franja lateral balançar e cair sobre seus olhos. Sorri ao ver como ela ficava fofa tentando concertar a franja e não resisti a inclinar e selar suavemente nossos lábios.
–Obrigada por ir – murmurei – Não vai ser fácil.
–Por isso mesmo eu devo ir, mon amour.
–Saindo daqui antes que tenha diabetes! – Anne exclamou já da porta – Preparar as malas e as energias pros dramas familiares!
Queria poder levar tudo aquilo tão na esportiva quanto Anne estava fazendo. Mas o frio na minha espinha denunciava todo o meu receio de ver meus pais mais uma vez. Faziam anos que eu sequer olhava por mais de dez minuto para o rosto de minha mãe ou sequer via a sombra de meu pai. Agora retornaria, sabia que estava diferente daquela adolescente assustada, mas o quanto dessa garotinha ainda existia dentro de mim?
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