MORTAL DESTINY- Destino Mortal
2 Capítulo 1º- Saintforttus Hills
A pequena cidade de Thompson Falls havia amanhecido envolta num imenso manto de obscuridade. Aquele cantinho desconhecido do mundo já poderia prever uma tempestade se aproximando. As velhinhas se queixando das famosas "dores nos ossos", e os mais jovens já se viam encasacados à força por suas mães. O céu estava de um cinza escuro e profundo, anunciando o início do rigoroso Inverno de Montana. Por vezes, dou por mim pensando, se algum dia conseguiria sair dali. Apenas deixar tudo para trás e ir. As crianças já não brincavam nos parques, já poucas eram as almas que andavam pelas ruas por pura diversão. O frio gelava os vidros dos carros e arrasava toda e qualquer vegetação rasteira. Aquela pequena cidade, que já era naturalmente chata, se transformava em algo hediondo com a chegada do Inverno. Eram poucos os seus visitantes, e a pequena população de Thompson Falls já se havia habituado a isso. Estávamos fadados a ver os mesmos rostos pelo resto das nossas vidas, e quando esses rostos desapareciam, aqui ficavam os seus filhos e netos. E depois os filhos dos netos, e os filhos deles, e assim continuava...uma bola de neve enorme e chata. É como uma maldição. Observava a entediante cidade pela janela da sala de aula, apoiando a cabeça na parede mais próxima, desejando interiormente sair dali.
Olhava agora ansiosamente para o grande relógio prateado do auditório, enquanto a professora Dilaurantis debitava matéria a toda a velocidade, sem parar sequer uma só vez para respirar. Me perguntava se iria chegar o dia em que ela iria apenas desfalecer com insuficiência respiratória ou apenas explodir. O barulho compassado dos ponteiros estava me enlouquecendo aos poucos, ansiava com todas as forças do meu corpo sair dali, o cheiro a mofo criado pelas roupas encharcadas dos estudantes era agoniante. A sala estava atolada de alunos, grande maioria dormitava e uns poucos outros se mantinham de olhos abertos. Eu era uma delas, estava demasiado inquieta para adormecer. Porém, nenhum de nós tomava atenção a uma única palavra proferida.
Sentia o olhar preocupado e ansioso de Janet preso em mim, tinha perfeita noção de que me observava do outro lado do auditório. Não lhe devolvi o olhar de imediato, nunca soube como lidar com olhares de pena e condescendência. Conseguia imaginar os seus grandes olhos negros me observando com atenção, avaliando cada movimento meu com incerteza, esperando uma reação explosiva tão típica minha. Todavia, me mantive calma. Apertava cada vez mais o pequeno papel que tinha junto do peito, até os nós dos meus dedos ficarem brancos como cale. Não conseguia parar de me debater sobre as palavras lá escritas, me perguntava se a minha mãe já saberia do acontecido. Na verdade, me perguntava se ela se iria importar de todo. Não, provavelmente não iria.
Não me conseguia concentrar numa única palavra dita pela professora, a minha cabeça estava a mil, pensamentos confusos e distorcidos trespassavam os meus pensamentos a uma velocidade alucinante. A minha mente continuava a reviver toda aquela manhã, outra vez e de novo. O correio daquela manhã havia trazido as notícias que mais temia. Quando a aula terminou, recolhi os meus pertences e apertei o passo até à saída, sem olhar para trás. Ouvia Janet chamando o meu nome repetidas vezes atrás de mim, mas não conseguia parar de andar, parecia estar em piloto automático. Me embrenhei na perfeição na grande multidão, desejando em silêncio que Janet não me alcançasse. Não pretendia ter a conversa estranha e desconfortável de novo. "Como você está? Como se sente? Vai ficar tudo bem.", o tipo de diálogo que me sufocava mais que tudo nesse mundo. Cruzei os corredores da escola o mais rápido que consegui, cortando as curvas a toda a velocidade. Os vários panfletos espalhados pelas paredes, anunciando o baile de fim de ano, se tornavam num borrão indistinto à minha passagem.
—Wren!- ouvi a sua voz me chamando uma última vez, dessa vez mais próxima, antes de me alcançar e me tocar no ombro, me fazendo parar e olhar para o seu rosto. Já nos encontrávamos do lado de fora, expostas ao frio quase glacial tão próprio do final de Novembro de Montana.- Quer uma carona?
As palavras saíam da sua boca de forma suave e doce, algo anormal em Janet, a minha melhor amiga bruta e insensível. Ali estava ela, a pena falando por ela. As suas palavras condescendentes com a minha dor, envoltas com grandes bafos de ar gélido, que acabavam se dissipando no ar. Odiava ver esse tipo de sentimento nas pessoas, muito menos quando ele era direcionado a mim. Olhei para as grandes portas de vidro do edifício, ponderando ficar lá dentro e aguardar o abrandar da tempestade. As chances de isso acontecer eram mínimas, e reconhecia que uma carona para casa iria ser uma grande ajuda, mas não me poderia dar ao luxo de arriscar trazer aquele tema à tona. Não hoje, não agora que ainda está tudo muito fresco.
—Não é necessário...-respondi rapidamente, retomando a minha marcha, enfrentando a chuva forte que já se fazia sentir. Apertei os botões do casaco apressadamente, tentando a todo o custo não ensopar as roupas por inteiro, mesmo que sem sucesso. A chuva fortemente influenciada pelo vento, embatia em mim como agressivas chapadas de água, me fazendo cobrir o rosto com o braço. Ouvia o chapinhar irritante das galochas amarelas de Janet atrás de mim, ela não iria desistir assim tão facilmente.
—Por favor, me deixe levá-la para casa, essa tempestade só vai piorar.- pediu ela agora mais persuasiva, me alcançando de novo e me fazendo parar. Olhei impacientemente para o seu rosto, tentando ver o mesmo por entre a manga do casaco e as minhas lentes salpicadas.- Não vou deixar você caminhar até casa em baixo desse dilúvio.
Coloquei as duas mãos dentro dos bolsos e soprei irritada, sem dizer uma única palavra. Me deixei ficar ali por alguns segundos, fitando os meus sapatos agora encharcados, me perguntando o que fazer. Ela me olhava preocupada, os seus olhos escuros estavam repletos de inquietação. Janet não iria desistir, pelo que lhe virei costas e comecei a cortar caminho por entre a multidão de alunos até ao parque de estacionamento, tentando encontrar o seu antiquado fusca vermelho. Quase conseguia imaginar o sorriso satisfeito de Janet, mesmo estando de costas para a mesma, ao me ver encostar no seu carro e esperando a sua chegada.
O caminho até minha casa foi marcado pela presença de um clima pesado, Janet que era conhecida por ser tagarela e conversadora, tinha passado meia hora em silêncio pela primeira vez em sua vida. Ia observando a paisagem verde ao nosso passar, a chuva batia impiedosamente no carro, e esse mesmo barulho que antes me tranquilizava estava me deixando agora ansiosa e enjoada. Ela cortava as curvas com lentidão, como se ela própria estivesse perdida em pensamentos profundos, como se se demorasse em cada um deles. O seu cabelo escuro e cacheado, salpicava o carro a cada movimento que ela fazia para tentar alcançar o seu copo de café. "O típico vício por cafeína de Janet", pensei para mim mesma.
—Você tem a certeza de que quer fazer isso, Wren?- falou ela pela primeira vez durante toda a viagem, enquanto soprava para a sua bebida fumegante. Eu sabia exatamente ao que ela se referia, e sabia que teria que responder, Janet não era uma desistente.
—Tem que ser feito, Janet.- respondi passado alguns segundos, tentando encontrar as palavras certas para me exprimir.- Não me sentiria bem comigo mesma se não o fizesse.
—Já falou com a sua mãe sobre isso?- eu sabia o peso daquela pergunta, assim como da conversa que teria quando chegasse a casa. Olhei para o seu rosto pela primeira vez, durante aquele curto diálogo, e ela me devolveu o olhar. Conhecia aquele olhar, o famoso olhar de "a sua mãe vai matar você e esfolar você em seguida".
—Não. Não tive coragem de falar com ela ainda.- respondi entre suspiros. Janet deu um longo gole na sua bebida e depois ficou em silêncio por algum tempo, assumindo uma expressão pensativa. Aproveitei aquela pausa em território seguro para ligar o rádio, as notícias sobre a grande tempestade que se aproximava estavam por todo o lado. Por mais que mudasse a estação incessantemente, a notícia era sempre a mesma. Janet franziu o sobrolho e em seguida desligou o rádio, fixando o olhar de novo na estrada.
—Será que ela já recebeu a carta também?- perguntou ela por fim, me fazendo remexer no assento com essa ideia. E se de fato ainda não a tivesse recebido? E se tivesse que ser eu a dar a notícia? Não tinha certeza de ter a coragem necessária para contar tal coisa para ela.
—É muito provável...- acabei por dizer de forma insegura.- Mas não penso que ela se importe sequer.- cuspi as últimas palavras como se de veneno se tratasse, e pude sentir o peso do olhar incrédulo de Janet posto em mim.
—É o pai dela, Wren. É impossível que fique indiferente...
—Você não conhece a minha mãe, Janet.- repostei de maneira seca, tentando conter tudo aquilo que poderia dizer sobre ela naquele momento. Sobre a conceção da minha mãe de família, ou da falta dela.- Não tão bem quanto eu, pelo menos.- acabei por dizer.
—Sempre quer uma carona para o aeroporto amanhã de manhã?- perguntou ela, ignorando por completo o meu devaneio anterior. Olhei através da pequena janela embasada, pensando pela primeira vez no dia seguinte. Nunca havia viajado de avião antes, não sozinha pelo menos. Já não pisava na ilha de Saintforttus Hills fazia mais de dez anos, e a ideia de voltar lá estava me deixando com ambos sentimentos de ansiedade e tristeza.
—Foi um pedido desesperado, posso perfeitamente pegar o trem pela manhã.- disse pensando melhor.- Não quero que perca aulas por minha causa.
—Nem quando é para ficar cuidando de você depois de uma ressaca?- brincou ela, me fazendo sorrir. O verdadeiro talento de Janet era me fazer sorrir mesmo quando não tenho razões para tal.- Ou para te ajudar a escapar de casa quando está de castigo?
—Você é uma idiota!- revidei a fazendo rir. Era tranquilizador ouvir a sua gargalhada, por alguns segundos tudo pareceu normal. Apenas um dia normal, eu e Janet matando a última aula do dia para ir beber um milkshake no drive-in , ou apenas para nos sentarmos no telhado da sua casa com uma garrafa de whisky velho do seu pai. Muitas das vezes nem o bebíamos, apenas adorávamos a ideia de quebrar uma regra ou duas. Apenas duas adolescentes normais, vivendo à margem das regras dos pais tiranos de Janet. A sua mãe era chinesa, e toda a sua família materna seguia regras de comportamento muito rígidas. A família Fallon era muito exigente. Mesmo que o sr. Fallon fosse o típico americano, sempre fora muito rígido com as suas duas filhas Janet e Lauren, e sempre exigiu o melhor delas. Fosse em forma de comportamento, fosse a nível acadêmico. E mesmo que Janet fosse uma ótima aluna, muito melhor que eu pelo menos, o seu esforço nunca parecia suficiente para os seus pais.
—É claro que vou levar você no aeroporto, Wren. Você ainda não tem a sua carteira de motorista! E de qualquer das maneiras, quem se importa com a aula do Sr. Smith?- perguntou ela de forma irônica, imitando algumas das caras e bocas que o mesmo costuma fazer enquanto fala, me fazendo gargalhar estrondosamente.- Aquele homem já vai para lá de caquético, já está quase ultrapassando a rainha Isabel II da Inglaterra nesse quesito.
—Você é a melhor, obrigada Janet.- agradeci perante a sua tentativa de me animar, quando por fim parou o seu carro na frente da minha casa. E de repente, tão rapidamente quanto a conversa se iniciou, se extinguiu por completo. Ambas sabíamos o que iria acontecer mal entrasse por aquela porta, e haviam inúmeros cenários possíveis, e todos eles eram horríveis. Aquela era a casa onde havia crescido e sempre vivi, e por isso mesmo, era de se esperar que a ideia de a ver me trouxesse paz, mas não era o caso. O gelo voltou ao interior do carro, e antes que Janet conseguisse dizer algo sobre o assunto, me despedi dela de forma apressada.
—Nos vemos amanhã, obrigada pela carona Janet.- agradeci com um abraço rápido, e depois abri a porta do carro e saí novamente para a chuva. Estava prestes a abrir o portão do meu quintal, quando ouvi o buzinar do velho fusca, me fazendo olhar para trás. Janet estava me sorrindo de forma incentivadora, gritando em seguinda contra o forte barulho da chuva:
— Boa sorte, Wren!
Sorri de volta e me deixei ficar ali lhe acenando até perder o seu carro de vista. Tinha chegado o momento que havia temido o dia todo, a chegada em casa. Caminhei lentamente pelo gramado descuidado, passando os olhos rapidamente pelo ambiente, tentando encontrar o Mister Fluffy, o gato da família. Não poderia haver nome mais hediondo para atribuir ao gato, mas essa tarefa foi entregue à minha irmã mais nova, Ruthie. Ouvi o seu ronronar mesmo antes de o ver, ali estava ele no parapeito junto das escadas, resguardado da chuva pelo antigo toldo de madeira, lambendo o seu pelo dourado de maneira despreocupada. Acariciei o mesmo por alguns segundos, antes de rodar a chave na fechadura da porta e entrar pela mesma.
O interior estava quente e seco, algo muito diferente do que se fazia sentir no exterior. Fechei a porta silenciosamente e me dirigi para a cozinha, esperando encontrar a minha mãe preparando o jantar, porém não a encontrei lá. O cômodo branco e pálido estava vazio, toda a casa estava silenciosa, algo anormal. Joguei a minha mochila no chão e apressei o passo para a sala, retirando o casaco pelo caminho. Na medida em que me aproximava da mesma, mais nítido ficava o barulho fraco do crepitar das chamas da lareira acesa. E lá estava a minha mãe, debruçada perto do fogo, enquanto jogava alguns papéis que mais tarde percebi serem fotografias no mesmo. Ruthie estava sentada na poltrona junto da janela, desenhando num grande bloco de notas, me olhou mal deu conta da minha presença. Lancei um olhar confuso e inquiridor à mesma, pelo que ela só encolheu os ombros e regressou à sua tarefa.
—O que você está fazendo?- perguntei de forma brusca, quebrando o silêncio por completo. Ela não cessou o que estava fazendo, pelo contrário, ainda acelerou mais o processo. Me aproximei mais dela, o suficiente para perceber que queimava fotos antigas, onde em muitas delas se viam o seu rosto mais jovem e sorridente do lado da dos seus pais.
—Estou queimando memórias...- respondeu calmamente, jogando mais algumas fotos para as chamas, sem virar o seu rosto uma única só vez para me olhar. Vi a sua mão se aproximando perigosamente de algumas fotos. As olhei de relance e consegui perceber que se tratava de fotos minhas de infância, onde me encontrava com os meus avós na sua mansão em Saintffortus Hills.
—Você não tem o direito de destruir as únicas lembranças que tenho deles!- gritei irada, arrancando as fotografias da sua mão com brusquidão. Ela afrouxou a mesma se limitando a suspirar, apenas cedendo por fim. Se levantou de seguida, ignorando por completo a minha reação anterior.
—Talvez haja uma razão para serem as únicas. Eles nunca se importaram com você.- respondeu ela de modo arrogante, começando a caminhar para a cozinha. Segui o mesmo trajeto, tentando a alcançar a todo o custo, sem conseguir acreditar no que estava ouvindo.
—Isso é mentira, o avô sempre me ligou no meu aniversário e no Natal!- repostei de forma amarga, levantando o tom de voz o suficiente para assustar Ruthie, que correu para as escadas e se refugiou no seu quarto no andar superior.- E eu sempre passava as férias de Verão com ele na ilha! Você sabe disso!
—Como queira, Wren...- se limitou a dizer, colocando o seu típico avental rendado em torno das suas ancas. A minha mãe era uma versão mais velha de mim mesma, as nossas semelhanças sempre foram algo impossível de ignorar. Tínhamos o mesmo cabelo curto e loiro, de um tom quase esbranquiçado e desbotado. Éramos ambas de estatura baixa e de formas avantajadas, magreza era algo que não corria na linhagem Modore. As coxas e ancas largas, o rosto carregado de traços quase infantis e sardas, tudo isso havia puxado à minha mãe.- Não estou com disposição para discutir nesse momento.- disse por fim.
—Talvez queira discutir um assunto...- iniciei eu, chamando a sua atenção, a fazendo olhar para mim de imediato.- Eu vou para Saintforttus Hills amanhã. E antes que diga seja o que for, já tomei a minha decisão.
—Eu não dou autorização para que o faça!- avisou ela de modo autoritário, conseguia ver um laivo de raiva explícito passando pelos seus olhos, ela estava prestes a explodir. Partilhávamos bem mais que apenas meras características físicas, ambas tínhamos um temperamento forte e explosivo.
—Não estava pedindo a sua autorização.- respondi de forma irônica, a fazendo perder de vez as estribeiras. Conseguia ver no seu rosto que estava a passar de todos os limites, porém não iria desistir.- Se não quer ir ao funeral do seu próprio pai, então que não o faça, mas eu não vou deixar de o fazer. Estamos falando da morte do meu avô. Ele era a pouca família que me restava, e a avó precisa de apoio nesse momento. Você sabe que ela está doente...- expliquei. Sentia um mar de lágrimas se formando em meus olhos, um acontecimento já tão habitual em mim. Chorar de raiva era um dos meus poucos talentos.
—A sua avó? Como pode chamar aquela mulher de avó sequer?- perguntou irritada quando me viu sair disparada pela porta da cozinha, começando a subir as escadas para o segundo andar.- Quando foi a última vez que ela a visitou ou telefonou sequer?- continuava ela amargamente, enquanto me seguia escadas acima apressadamente.
Ouvi a porta da frente se fechando com um estrondo, e antes que lhe pudesse responder, o meu pai já se encontrava no início das escadas. Olhava para a situação com uma clara expressão de desagrado, ele odiava quando eu e a mãe discutíamos. Ele dizia que era como ver duas bombas explodindo em simultâneo. O meu pai era muito diferente de nós, tanto em aspeto quanto em personalidade. Moreno e alto, de olhar doce e paciente. Uma pessoa extremamente calma e compreensiva, tirar o meu pai do sério era algo muito difícil, e as únicas pessoas com essa habilidade tão rara eram eu e a minha mãe.
—O que é que está acontecendo aqui?- perguntou ele visivelmente incomodado, soltando a sua pasta de couro no chão recentemente polido. Olhámos ambas para o mesmo, interrompendo a discussão por alguns segundos, antes de a retomar de imediato.
—Pode ter o maior ódio à sua família e a toda a gente em geral, mas eu não sou obrigada a partilhar desses sentimentos!- continuei eu, ignorando a presença do meu pai por completo, que nos olhava atentamente agora mais próximo.- Eu vou estar lá pela minha família, visto que você não o quer fazer.
—Não fale assim comigo, sou sua mãe!- avisou ela, usando o seu maior trunfo. E lá estava ele, o seu checkmate. Lágrimas começaram a se formar nos seus olhos, e eu sabia que aquele era o momento para cessar a discussão. Por mais que sentisse uma vontade imensa de lhe dizer mais umas quantas coisas, ver a minha mãe chorando era um dos meus piores pesadelos . Doía mais que tudo.
—E ela é a sua mãe...-respondi de forma mais ligeira e branda, tentando acalmar a situação, tentando a chamar à razão. Ela limpou as lágrimas que entretanto já lhe escorriam pelo rosto de forma impiedosa, e depois se sentou no último degrau da escadaria. Entretanto o meu pai já tinha desaparecido, provavelmente para nos dar alguma privacidade, ou apenas para ir ler o jornal. Me sentei do seu lado mesmo que sem vontade, rodando o meu piercing do nariz várias vezes, como já era habitual meu quando estava nervosa.
—Eu não posso voltar àquela ilha, Wren.- disse de forma mais tranquila, e pela primeira vez durante aquela conversa consegui distinguir tristeza e pesar na sua voz.- Talvez um dia entenda o porquê...-concluiu ela.
—Por agora, tudo o que consigo entender é que eu preciso estar lá para a ajudar...- disse calmamente, após alguns momentos de silêncio gélido. Ela assentiu por fim, ainda que de forma contrariada e triste.- Eu quero estar presente no funeral do meu avô. E esse assunto não está aberto para negociação.
Depois de o dizer, abandonei aquela conversa e me refugiei no meu quarto. Me joguei na cama e pela primeira vez me apercebi do quão exausta estava. A minha cabeça estava pesada, quase completamente arrasada desde aquela manhã. Desde que abri a minúscula porta do correio da faculdade e encontrei uma carta dirigida a mim, carta essa que me viria a noticiar da morte do meu avô. Sentia que estava perdendo toda a minha família aos poucos, após vários anos de grandes perdas, era de esperar que tivesse direito a um intervalo em todo o sofrimento...mas isso não parecia estar nos planos do universo.
Fitava o teto do meu quarto coberto de posters antigos de bandas ainda mais antigas, e me perguntava como seria o dia seguinte. Como seria regressar à ilha? Como seria regressar àquela mansão onde havia passado grande parte da minha infância? E mais importante, como seria a reação da minha avó ao me ver novamente? A avó Brenda, ao contrário do avô Joseph, sempre fora uma mulher dura e severa. Sempre envolta em uma nuvem de secretismo e falta de simpatia. Porém, ela era a minha avó e precisava de apoio nesse momento. Precisava estar lá para ela.
A chuva forte batia nos vidros da janela de forma brusca, trazendo consigo sonoras trovoadas, provocando ruídos medonhos e assustadores. Sabia que não tardava muito para que Ruthie aparecesse na porta do meu quarto. Se tinha coisa que a assustava mais que as paredes pintadas de preto do meu quarto, era o barulho de trovoada. E como esperado, os meus pensamentos foram encurtados por leves batidas na porta, seguidas de uma pequena cabeçinha loira e sardenta espreitando pela mesma. A pequena Ruthie trazia consigo um Mister Fluffy encharcado, que correu para se aquecer nas cobertas da minha cama.
Sorri para a mesma, a convidando para se deitar do meu lado com pancadinhas suaves na cama. A pequena garota abriu um grande sorriso desdentado e correu para junto de mim, me abraçando com força, encontrando conforto na minha presença. Ruthie era uma garotinha muito corajosa, gritava do topo dos seus quase sete anos de idade que era a garota mais corajosa da sua classe. Contudo, tempestades não eram o seu forte. Estremecia como varas verdes sempre que um novo relâmpago cortava o céu, e quando isso acontecia ambas começávamos a contar, "1, 2, 3, 4, 5..." , um velho jogo para mandar a tempestade embora. Porém, a pequena acabou por adormecer antes que a mesma se desvanecesse e se tornasse em leves chuviscos. Quando percebi que a mesma já havia adormecido, fechei os olhos e tentei relaxar a minha mente, sendo embalada pela suave respiração de Ruthie. E por fim, acabei por adormecer.
E de repente, tão rápido quanto um feixe de luz, já não me encontrava no meu quarto. Estava num belo campo verdejante, sob o luar de uma noite escura como breu, a única fonte de luz ali presente. Na minha frente, iluminado pela luz esbranquiçada da mesma, conseguia ver um fino caminho de terra batida. Os meus pés descalços seguiram o mesmo de imediato, sem me deter muito sobre onde aquele trajeto me iria guiar. O ar estava frio, fracas rajadas de vento faziam o meu cabelo rodopiar em volta da minha cabeça, mas o frio não me deteve por um único segundo. Fui percorrendo o grande campo pé ante pé, sentindo a terra fria se embrenhando nos meus pés.
De súbito, a paisagem se modificou de novo, ficando mais obscura e macabra. Todo o verde da grama havia se transformado em um manto branco de neve, e na minha frente tomou forma um gigante aglomerado de montanhas. Uma inteira cordilheira, coberta ela também de neve. Assim como um vasto aglomerado de pinheiros altos e espaçados, também eles totalmente cobertos por uma espessa camada branca. O céu estava agora carregado de nuvens escuras, que se movimentavam a um ritmo anormal. As anteriores rajadas de vento haviam se transformado em um forte vendaval, o que me fez dar vários passos para trás involuntariamente. Porém, aquilo que poderia ser numa outra altura algo belo de se observar, era naquele momento algo assustador. Pois, aquele que antes era um estreito rasto de terra batida era agora um estreito rasto de sangue. Aquela cor forte e escarlate tomava conta da minha visão, me fazendo ficar zonza e confusa. Não eram apenas algumas gotas, era um rio de sangue, que cortava a paisagem de forma abrupta.
Segui o mesmo apressadamente, mesmo que sem sabendo muito bem o porquê. Todo o meu corpo me implorava para que o seguisse, como se aquilo que iria encontrar no seu final fosse de extrema importância. Porém, nada conseguia ver para além do mesmo, na verdade parecia ser um rasto sem fim. Cessei então a caminhada a meio, cansada demais para continuar. O vento continuava a lutar por liderança, empurrando o meu corpo para trás com toda a força. Os meus pés estavam totalmente sujos de sangue, gélido e escuro. Forcei os meus olhos a olhar em redor, procurando alguma pista ou um rosto amigável, algo que me trouxesse alguma compreensão sobre tudo o que estava acontecendo.
E ali estava ele. Um homem alto e esguio, completamente vestido de preto, de costas para mim. O seu cabelo negro que terminava um pouco acima dos seus ombros, esvoaçava com o vento, assim como a sua longa capa negra que cobria todo o seu corpo. Tentei o alcançar, me debatendo contra o forte vento, mas o meu esforço não servia de muito. Enterrei os pés na neve com toda a força que tinha, me equilibrando e combatendo o vendaval, e o observei com mais atenção. A sua figura era imponente e bela, mas parecia não ter dado conta da minha presença. Ele emanava uma forte fragrância a mar, como se me encontrasse perto da costa. E para além disso, emanava também uma luz encadeante e dourada. Enquadrado naquela paisagem escura e sombria, parecia o próprio sol.
—Quem é você?- perguntei insegura. A minha voz saiu fraca e roca, abafada pelo barulho das fortes rajadas de vento. A figura misteriosa inclinou um pouco o seu rosto para o lado, e consegui ver pela primeira vez parte da sua cara. Era pálida como mármore branco. Não conseguia distinguir bem o seu rosto, apenas uma pequena fração do mesmo, mas essa mesma era extremamente bela e serena. Serenidade essa que contrastava bruscamente com o que eu senti ao ver o que ele segurava em seus braços. O meu corpo morto, inerte e ensanguentado.
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