MEIA-NOITE E UM
5 Gordura Honesta

O "Gigante da Madrugada" era a antítese absoluta da mansão Mitchell. Se a recepção do casamento cheirava a lírios e perfumes caros, aquele lugar cheirava a cebola caramelizada, óleo de fritura e ao aroma reconfortante de pão na chapa. As luzes de néon azul piscavam com um zumbido elétrico que parecia ditar o ritmo cardíaco de quem ainda estava acordado à uma e meia da manhã.
Éden entrou descalça, sentindo a frieza do chão de granilite gasto contra as solas dos pés. Atlas vinha logo atrás, com o paletó de 32 mil dólares pendurado no ombro como se fosse um trapo qualquer e a camisa branca aberta até o meio do peito.
— Se a sua mãe nos visse agora, ela teria uma combustão espontânea — Éden comentou, subindo num banco de metal estofado com vinil rachado que soltou um chiado de ar protestando contra o peso dela.
— A minha mãe acredita que hambúrgueres são uma invenção das classes baixas para desestabilizar a sociedade — Atlas sentou-se ao lado dela, ignorando o cardápio grudento que repousava sobre o balcão. — Eu venho aqui desde os dezasseis anos. É o único lugar da cidade onde ninguém me pergunta sobre o índice Nasdaq*.
Um homem baixo, com um avental que já tinha visto dias melhores e um boné de equipe de basebol desbotado, aproximou-se com um pano de prato no ombro.
— O de sempre, Mitchell? — perguntou o homem, sem olhar para cima, enquanto anotava algo num bloco de papel gorduroso.
— Dois "Monstros da Noite", George. E capricha no picles no dela. Se vier pouco, ela ameaça chamar a polícia.
Éden arqueou uma sobrancelha.
— "O de sempre"? Você realmente é um cliente habitual de um lugar chamado 'Gigante da Madrugada'? Onde está o herdeiro que só bebe vinho de colheita selecionada?
— O herdeiro ficou no gramado, junto com os seus sapatos de salto — Atlas deu um sorriso cansado, mas genuíno. — O Mitchell que sobra de madrugada é o que precisa de sódio e gordura para processar o fato de que sobreviveu a mais um evento social sem agredir ninguém.
— Aliás… Por que sua família, principalmente sua mãe, te tratam como se você fosse um estranho? — A pergunta escapou de repente, embora ela quisesse ter feito muito antes. — Isso é, se você se sentir à vontade para falar.
— Você está perguntando como a Éden Jornalista ou como a Éden minha acompanhante?
— Estou perguntando como a Éden de Janeiro.
Atlas deslizou os dedos pela barba rala do maxilar, logo depois umedeceu os lábios.
— Minha família basicamente me detesta por eu ter minha própria empresa, totalmente desvinculada deles. Cresci ouvindo que o filho promissor seria Julian, então mostrei pra eles que sei me virar sozinho. Mas, o resto da história fica para mais tarde. — Ele piscou, ela sorriu, engolindo a curiosidade.
Quando os hambúrgueres chegaram, não teve espaço para elegância. Eram construções massivas de carne suculenta, queijo derretido que parecia lava amarela e um molho especial que desafiava as leis da física ao tentar permanecer dentro do pão.
Éden deu a primeira mordida, fechando os olhos enquanto o sabor explodia em sua língua. Uma gota de molho escorreu pelo canto da sua boca e caiu diretamente sobre o decote do vestido de seda bege melancólico.
— Droga — ela murmurou, rindo, enquanto tentava limpar a mancha com um guardanapo de papel que tinha a consistência de lixa. — Lá se vai a "dissonância". Este vestido agora é oficialmente um desastre de moda.
— Ficou melhor assim — Atlas observou, mastigando um pedaço de bacon crocante. — Dá um ar de legitimidade. Nada diz "eu me diverti no Ano Novo" como uma mancha de molho de hambúrguer num vestido de seda.
— Sabe de uma coisa? — Éden falou, gesticulando com uma batata frita. — Se eu estivesse em casa, estaria comendo um cereal amanhecido e me sentindo terrivelmente inteligente por ter evitado a festa. Mas aqui, com os pés sujos e cheirando a fritura, eu me sinto bem. É um tipo de caos muito mais honesto do que o da Kimberly.
— Esse tipo de caos é sempre mais honesto — Atlas concordou. Ele deixou o hambúrguer de lado por um momento e olhou para ela. A luz fria do néon destacava as olheiras leves sob os olhos dele, mas também a vivacidade que não existia quando ele estava de gravata. — Éden, sobre Janeiro...
— Se você disser que vamos "tentar", eu jogo esse picles na sua cara — ela avisou, com o tom sarcástico de volta. — Janeiro é um mês longo. Tem contas para pagar, tem trabalho, tem o fato de que eu ainda não sei se você ronca ou se você é do tipo que acorda animadinho demais às sete da manhã.
Atlas soltou uma gargalhada que fez George olhar para eles com uma leve desconfiança.
— Eu não acordo animadinho às sete da manhã nem se a casa estiver pegando fogo, quer dizer, depende do fogo. E eu não ronco, mas tenho o hábito de falar sobre segurança cibernética durante o sono quando estou estressado. É um tédio absoluto, eu avisei.
— Bom saber. Eu falo sobre evidências forenses e crimes não resolvidos. Acho que vamos formar um podcast de nicho muito estranho.
Eles terminaram de comer em um silêncio confortável, aquele silêncio que só existe entre pessoas que já passaram da fase de tentar impressionar um ao outro. Atlas pagou a conta com uma nota
de 50 dólares meio amassada que ele encontrou no bolso secreto do paletó — "o meu fundo de emergência para cheeseburgers", ele explicou.
Ao saírem do diner, o céu começava a mudar de um preto sólido para um azul marinho profundo, o primeiro sinal de que o sol de 1º de Janeiro estava a caminho. A rua estava deserta, exceto por alguns restos de confete que sopravam na calçada.
— Para onde agora, motorista? — Éden perguntou, parando na frente do sedã preto que ainda cheirava ao perfume que ela usava horas antes.
Atlas abriu a porta para ela, mas desta vez não houve reverência debochada. Ele apenas segurou a porta, esperando que ela entrasse.
— Primeiro, eu te levo para casa. Depois, eu vou para o meu apartamento, durmo por doze horas e, quando eu acordar, vou te mandar uma mensagem perguntando se o Assassino do Zodíaco já foi capturado ou se você precisa da minha ajuda para descriptografar as cartas dele.
Éden entrou no carro e olhou para Atlas enquanto ele assumia o volante.
— Ele nunca foi capturado, Atlas. É um mistério insolúvel.
Atlas ligou o motor e olhou para ela com aquele brilho irônico que ela agora reconhecia como o seu estado natural.
— Insolúvel? — ele repetiu, engatando a marcha. — Você dizia a mesma coisa sobre sobreviver ao casamento do meu irmão sem querer pular da varanda. E veja só onde estamos.
Ele tirou o carro da guia e acelerou pela avenida vazia. O sol começou a despontar no horizonte, refletindo-se no vidro do carro.
Éden encostou a cabeça no banco, sentindo o peso do sono e o gosto persistente do hambúrguer, com um sorriso que não precisava de nenhuma simetria para ser perfeito. Janeiro tinha acabado de começar, e pela primeira vez, ela não estava preocupada com a fatura. A conexão que nasceu no Réveillon não tinha morrido com os fogos; ela tinha apenas trocado o champagne pela gordura honesta de uma madrugada que prometia não ser a última.
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